Segunda-feira, Setembro 28, 2009

O dia em que a terra parou


por Cassionei Niches Petry
São mais ou menos 8 da matina e estou fechando o primeiro baseado do dia, ouvindo o Raul: “O dia em que a Terra parou”. A mulher do meu lado ainda dorme. Tento acordá-la: “Tu não trabalha, não?”. Ouço apenas um grunhido que tanto pode significar um “sim” ou um “não enche, porra, que eu quero dormir”.
Não sei nem seu nome. Eu a encontrei ontem à noite na Imigrante com uma long neck na mão, recitando Bilac (ou cantando a música da Paula Toller, não sei): “...direis ouvir estrelas, certo perdeste o senso”. Perguntou se eu não tinha um baseado, eu disse que só em casa. Viemos pra cá, mas quando chegamos, ela desabou na cama dizendo “boa noite, amor” e apagou.
Olho pro calendário, dia 11, meu aniversário. Tenho alguma coisa pra comemorar? Será que vai aparecer alguém da família hoje à noite ou ninguém vai vir porque eles sabem que eu não vou pagar a festa sozinho? Querem só boca livre. Os amigos a mesma coisa. Melhor dizendo, meus conhecidos, já que amigo mesmo é como baseado bom, só consegue quem tem dinheiro. Aliás, essa erva ainda não fez efeito. Será que o Índio me vendeu bosta de vaca?
Sento na frente da cama e observo a mulher. Não acredito que dormi ao lado dela e não fiz nada. Olha só que corpo. Ao menos não sou um desses que pegam mulher e estrup...estupa...Puta merda! Acho que tão começando as pauladas ficar olhando pra esse rabo levantado tá me deixando louco ou é o efeito da erva ou são os dois juntos ou tô sentindo sono ah sei lá oh a TV não lembro se tinha ligado ela ihhh! oh as torres do congresso bah! dois aviões bateram nelas ah ah ah e aquela corja de ladrões senadores deputados bah tá desabando tudo que fumaceira que fumaceira aqui também bah o que vai ser do futuro das crianças o programa da Angélica tá muito louco.

http://recantodasletras.uol.com.br/contos/1836992

Domingo, Setembro 27, 2009

Um pouco afastado do computador, pois a patroa fraturou o tornozelo e agora estou dando uma de enfermeiro sem diploma. Até minhas leituras e filmes a que queria assistir vão se acumulando. Mas enfim, casos como esse só reforçam a ideia de que temos que valorizar bastante a pessoa que amamos. Quarta-feira, provavelmente, ela passará por uma cirurgia. Torçam por ela.

Sábado, Setembro 19, 2009

Como escrevinhador de blog, meu sonho é ter um sítio como o do Milton Ribeiro. É minha leitura diária, ao lado do Janer Cristaldo (os dois tão distantes politicamente como próximos na qualidade do texto, além de serem excelentes leitores). Aprendi muito sobre música erudita e literatura lendo-o. Através dele, mantive contato com um escritor que admiro muito, Fernando Monteiro. Não bastasse tudo isso, o Milton também é colorado e escreveu belíssimos textos sobre o campeão de tudo. E agora, qual a minha surpresa ao vê-lo como seguidor do meu blog! Isso se deu, acredito, pelos meus comentários nos seus posts. O mais recente foi sobre roubar livros, onde lembrei que o Roberto Bolaño era expert nessa arte, reproduzindo algumas palavras do escritor chileno sobre o assunto:

«Me gusta robar libros. Aunque ya no puedo robar, sería bastante vergonzoso ser atrapado, pero cuando era inédito, robé muchísimos. Pero muchos, muchos… Una vez con un amigo –que también era un buen robador de libros- hicimos una apuesta en la Avenida Corrientes, cuando había muchas librerías (creo que todavía hay bastantes): fuimos a Corrientes y Callao y nos pusimos uno de cada lado de Corrientes, y la idea era llegar hasta Cerrito habiéndonos robado por orden los siete tomos del En busca del tiempo perdido de Marcel Proust en librerías sucesivas.
P. ¿Lo lograron?
R. Sí, yo lo logré. Él no. Él creo que robó cuatro, tres, no llegó. […] De todas maneras, me doy cuenta de que perdí el don. Lo más extraño de cuando robaba libros es que yo sentía, físicamente, una especie de aura que me hacía invisible, y que efectivamente era así, porque he salido de librerías con libros de este porte (indica con sus brazos un tamaño enorme), así, al hombro, y no me veían. Era una cosa que tal vez, la gente me miraba y decía “no, no puede ser que se lo esté llevando de una manera tan evidente”… Pero ahora ya no lo siento más. […] Uno de los momentos más gratificantes fue ver a una persona robándose un libro mío cuando yo estaba en una Feria del Libro y que viniese a que yo se lo firmase. Cuando se lo firmé le dije “te agradezco mucho que te hayas robado este libro”, pero también le dije “está todo bien, genial”. Me encantó. Me encantó que alguien se arriesgara a robar un libro mío.»
(entrevista de Bolaño a Rodrigo Fresán)

Arturo Belano, seu alter-ego, no romance “Los detectives selavajes” também rouba livros. Se bem me lembro um outro escritor ensina a Belano esta arte.

Mais Bolaño:
“Los libros que más recuerdo son los que robé en México DF, entre los dieciséis y los diecinueve años [...] En México había una librería extraordinaria. Se llamaba Librería de Cristal y estaba en la Alameda. Sus paredes, incluso el techo, eran de vidrio. Vidrio y vigas de hierro. Examinada desde fuera, parecía imposible poder robar un libro allí. Sin embargo, la tentación de hacer la prueba pudo más que la prudencia y al cabo de un tiempo lo intenté. El primer libro que cayó en mis manos fue un pequeño tomo de Pierre Louis… [...] Pero fue una novela la que me sacó y me volvió a meter en el infierno. Esta novela es La caída, de Camus [...] Después de Camus todo cambió. Recuerdo el ejemplar: era un libro de letras muy grandes, como un primer abecedario, de pocas páginas, de tapas duras, con un dibujo horrendo en la portada, un libro difícil de sustraer y que no supe si ocultar bajo la axila o en la espalda, pues no se amoldaba a mi americana de estudiante cimarrero, y que al final saqué a vista y paciencia de todos los empleados de la Librería de Cristal, que es una de las mejores formas de robar y que había aprendido en un cuento de Edgar Allan Poe.”

(Entre paréntesis)

P. ¿Ha robado algún libro que luego no le gustó?
R. Nunca. Lo bueno de robar libros (y no cajas fuertes) es que uno puede examinar con detenimiento su contenido antes de perpetrar el delito.

(de sua última entrevista)

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

FELIZ ANIVERSÁRIO


por Cassionei Niches Petry
Até amanhã, Cláudia. Até amanhã, Sr. Vítor. Está indo mais cedo hoje? Pois é, tenho que comprar um presente pra minha filha. É o aniversário dela, sabe. Diz que eu estou mandando um abraço pra ela, Sr. Vítor. Pode deixar. Sai apressado, se despede de outro funcionário. O senhor não sabia que estou saindo de férias, seu Vítor? Boas férias, então. A recepcionista faz sinal com o dedo, está ocupada no telefone. Essa um dia eu traço, ele pensa. No estacionamento, encontra o flanelinha. O senhor cuida que os pneus estão carecas. Não se preocupe, Dudu, vou trocar eles amanhã. Entra no seu inseparável Monza vermelho, o primeiro carro que comprou quando os negócios começaram a crescer, e enfrenta o perigoso trânsito da cidade.
***
Ela põe a roupa dada por sua mãe de presente de aniversário. Mira-se no espelho e lembra que há bem pouco tempo era uma jovem magricela, mal vestida, motivo de risos das colegas do colégio. Quando seu pai montou a empresa e começou a ganhar dinheiro, tudo mudou. Entrou numa academia de ginástica, adquiriu as melhores roupas das lojas, fez novas amizades e passou até a aparecer na coluna social do jornal. Além disso, arrumou também muitos namorados, até se apaixonar decididamente pelo filho do diretor da maior fumageira da cidade. É pelo namorado que ela espera ansiosamente. Prometeu uma noite especial, e ela já imagina onde será.
Teu namorado chegou, grita a mãe atrás da porta. Fala que eu ainda vou demorar um pouco, responde, querendo se fazer de difícil. Coloca uma camisinha na bolsa e sorri para o seu rosto no espelho: adeus, menininha!
***
Vocês precisavam ver, diz um pipoqueiro para os curiosos, o carro vinha na contra-mão e deu de cara com a camioneta. O corpo do motorista está entre as ferragens e ninguém sabe se está vivo. E os bombeiros que não aparecem para tirar logo o desinfeliz dali, reclama o dono de uma loja cujos clientes foram todos para a rua ver o desastre. O motorista da camioneta está sentado no meio-fio da calçada e repete chorando eu não tive culpa, eu não tive culpa.
***
E o pai que não vem, hein?, diz a aniversariante, irritada. Calma, filha. Decerto foi comprar um presente pra ti e não conseguiu se decidir ainda. Eu quero sair logo com o meu namorado e não vou ficar esperando o pai, droga. Por favor, filha, ele não te viu hoje e gostaria tanto de te dar um abraço. Ah! mãe, ele que se dane!
***
Os veículos foram retirados e, aos poucos, os curiosos vão indo embora. Por todo o asfalto, há manchas de sangue e cacos de vidro. As lojas já estão fechadas, mas o pipoqueiro continua trabalhando. Ao lado, sua filha brinca com uma boneca que achou perto de um dos carros, embrulhada num papel colorido.
***
Estão saindo na porta quando o telefone toca. A aniversariante volta correndo para atender. Alô! Oi, pai. Obrigada, pensei que tinha esquecido. O senhor vai demorar pra vir? Que pena. Tem uma reunião com uma pessoa muito importante e não sabe que horas vai chegar, mãe. Tá mandando um beijão pra senhora e manda dizer que ama muito a gente e pra gente nunca esquecer ele. Que papo estranho, pai... E o meu presente, o senhor vai trazer? Hein, pai? Pai! Responde, pai.
Do outro lado da linha, apenas um suspiro.

http://recantodasletras.uol.com.br/contosinsolitos/1762968

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Isso, isso, isso...

De um diálogo com um conhecido meu:
"- Estou lendo "Los detectives selvajes", de Roberto Bolaño.
- Hum, é o mesmo que criou o Chaves, né?"

Deu vontade de dizer: é burro, dá zero pra ele!

Roberto Bolaño


Estou lendo as obras de Roberto Bolaño agora. Escritor chileno bastante cultuado depois de sua morte em 2003. Já havia lido alguns contos e iniciei dois ou três romances, mas sempre interrompi a leitura por um ou outro motivo e este é um escritor que requer uma compenetração para ler. Começo pelo livro de contos "Putas asesinas", que abre com um conto, "El Ojo Silva" fisgando de vez o leitor de primeira viagem.

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

O CASARÃO


por Cassionei Niches Petry
Se eu não visse a jovem lendo tranquilamente o jornal na varanda, pensaria que a casa estivesse abandonada. Uma tabuleta, meio escondida por alguns arbustos, indicava que a propriedade estava à venda. Gritei com licença! e abri com dificuldade o enorme portão. Chegar até a casa foi também tarefa árdua, visto que a grama alta tomava conta do caminho. Pode vir que não tem perigo, disse a moça. Atravessei correndo o matagal. Ela riu e disse você é medroso!
A jovem era muito bonita, bem vestida, limpa, em contraste com o estado de conservação da varanda e de todo exterior da casa. Perguntei como você consegue ficar no meio de toda esta poeira e teias de aranha? Ela apenas sorriu e me estendeu a mão.
Leu o anúncio no jornal, não é verdade? Pois então entre pra conhecer a casa por dentro. É diferente do que o lado de fora, porque eu não tenho ninguém que limpe o pátio ou cuide da pintura da casa. Vivo sozinha aqui. Meu nome é Carla. E o seu? Pois então, Bruno, vamos entrando. Já digo pra não se preocupar com o preço. Depois acertamos direitinho, está bem?
Logo ao entrar na casa tive a sensação de que eu ficaria ali para sempre. Era uma belíssima construção, digna de figurar nas mais belas páginas da literatura universal. Cada cômodo que ia conhecendo me deixava cada vez mais fascinado. Já nas primeiras salas dava para adivinhar o que seria o resto da casa: os móveis eram feitos de madeira da melhor qualidade, havia tapetes persas e quadros de pintores famosos. Imaginei-me sentado na frente da lareira acesa, lendo um bom livro e com o cachimbo na boca. Era tudo o que eu havia sonhado.
Subindo as escadas, fomos ver os quartos. Eram mais de dez. A primeira coisa que me chamou a atenção foram as cabeceiras das camas. Possuíam desenhos talhados na madeira, feitos pelo melhor artesão da capital. Também era no andar de cima a parte que para mim seria a mais importante e que foi deixada para ser mostrada por último: a biblioteca.
Ninguém mais gosta de casas antigas. Faz tempo que tento vender esta aqui. Vieram mais de dez pessoas que só olharam e depois foram embora dizendo que iriam falar com a família e nunca mais voltaram. Mas você, pelo jeito, é saudosista, acertei? Pois é, tenho absoluta certeza de que você vai ficar na casa.
Antes de chegarmos à biblioteca, ouvi um barulho num dos quartos de onde acabáramos de sair. Perguntei a ela o que poderia ser e me respondeu que não ouvira barulho nenhum. Não passava de imaginação da minha cabeça, sugeriu. Vamos ver a biblioteca?
A possibilidade de comprar uma casa com uma biblioteca montada foi o que me conquistou no anúncio. São mais de 26.000 volumes, ela disse, todos ricamente encadernados. Quase não estava acreditando naquilo, por isso perguntei os livros vão ficar? Ela respondeu tudo será seu pelo resto dos seus dias, menos os bonecos de pano que vou lhe mostrar agora.
Entramos em um quartinho que havia junto à biblioteca. Era mobiliado apenas por uma cama de solteiro bem simples e uma estante com doze bonecos de trapo enfileirados. Carla disse foi minha falecida avó que fez os bonecos. São bonitos, eu disse, apesar de tê-los achado horríveis. Quis observá-los mais de perto, pois eram idênticos a pessoas de verdade. Não toque neles, idiota!, ela gritou. São relíquias e vou levar todos comigo. Tudo bem, eu disse, um pouco assustado com a mudança de humor da jovem. Apalpei o colchão e perguntei posso ficar com esta cama? E ela, mais irritada ainda, respondeu já falei que você pode ficar com tudo, menos com os bonecos, droga!
Logo depois ela saiu do quarto visivelmente alterada. Fiquei me perguntando o que poderia ter havido com a moça. Se fosse por causa dos bonecos ela não precisaria se preocupar. Eles não me interessavam. O que eu estava imaginando era em fazer daquele quartinho escondido o meu escritório, o refúgio onde poderia escrever meus livros e ler.
Distraído, não percebi que havia voltado. Agarrou-me por trás e amarrou minhas mãos com um retalho de tecido. Usando uma agulha de costura, furou meu pescoço. Ainda tive tempo de ver, escorada na porta, uma velhinha que sorria para mim.
http://recantodasletras.uol.com.br/contos/1757001

Sábado, Setembro 12, 2009

Impacto Social

Impacto Social foi um grupo de Rap do qual participei há alguns anos, sendo o principal letrista. Eu era o Mano Cássio e, ao lado do Xandão e do DJ Toddy, fizemos umas três ou quatro apresentações aqui em Santa Cruz. Uma das músicas que fiz foi "Minha arma", cujo link de uma gravação bem caseira posto aqui para quem quiser dar uma conferida.
http://www.4shared.com/file/132259633/9407bda3/MINHA_ARMA_-_Mano_Cssio__Impacto_Social_.html

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Terça-feira, Setembro 08, 2009

Bobagens por Cassionei

Gosto de pensar algumas besteiras de vez em quando. Se as compartilho com meus alunos, eles adoram! Nos últimos dias aticei a curiosidade deles, dizendo que estava preocupado com o dia de amanhã, 9/9/9. Quem já teve aula comigo há mais tempo disse que só podia ter relação com o número da besta, 666, de cabeça para baixo. Aliás, em 2006, previ quem seria o campeão da copa do mundo, tudo devido a algumas coincidências com o número 6 (se meus dois leitores ficarem curiosos, conto toda a história outro dia). Mas o que me preocupa amanhã é que o 666 acontece no mês de setembro. Mas o que tem isso, professor? Ora, este mês é o sétimo do antigo calendário romano (por isso SETEmbro, assim como tem outubro que é oitavo mês, etc.). E o número 7 é considerado um número sagrado, seria até um número divino (putz, um ateu dizendo isso!). Concluindo: será que amanhã não haverá um combate entre as forças do bem contra as forças do mal?
Em todo o caso, antecipei este post para hoje. Vai que amanhã acabe o mundo.