Quinta-feira, Setembro 30, 2010

Sonho de consumo...

...apesar de as edições da editora 34 serem bem melhores, com traduções diretas do russo.
Estou relendo aos poucos Crime e castigo, - pois depois verei a adaptação para o cinema feita pelo Josef von Sternberg, que consegui pela internet - e parece que a leitura está fluindo melhor do que a primeira vez.

Segunda-feira, Setembro 27, 2010

O castelo nos Pirineus

Uma história de amor ou um romance filosófico sobre a oposição ciência X religião? Para aqueles que não gostam de discutir questões filosóficas e religiosas, que é a proposta inicial do romance, podem ler O castelo nos Pirineus (Cia. das Letras, 177 páginas), de Jostein Gaarder, como uma história de amor. Confesso que li dessa forma, mesmo adorando debates sobre crenças.

Duas referências me levaram a isso. Primeiro, o romance de Gaarder me fez recordar da leitura de O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Marquez, que retrata dois antigos namorados revivendo uma paixão décadas depois do primeiro encontro. A segunda referência é um mito que aparece em O banquete, de Platão. Aristófones, comediógrafo grego, conta que nos primórdios éramos seres duplicados, separados depois pelos deuses. Essas almas, agora, buscam encontrar-se novamente, o que originou a expressão alma gêmea. Não acredito, no entanto, em metades que se completam, encaixe perfeito, a metade da laranja, mas sim em que polos diferentes se atraem, ou seja, o casal perfeito é aquele que não concorda com tudo.

Em O castelo nos Pirineus, o reencontro de Solrun e Steinn, 30 anos depois de terem acabado um namoro sem motivo aparente, resulta numa troca de e-mails em que tentam entender suas diferenças. Naquela época, eles teriam atropelado uma mulher, mas não tinham certeza disso, pois estava um pouco escuro, “um vago azul, tudo uma opaca vigília”. Por isso haviam seguido adiante, mas quando voltaram, viram apenas um cachecol vermelho, o mesmo que usava uma mulher que passara por ali. Sem conseguir localizar o corpo, ficaram durante dias apreensivos, com medo de serem presos. No entanto, em um passeio, acabaram vendo a mulher com a mesma roupa. Ela falou algo com eles e depois sumiu. Para Solrun, a visão de um espírito; para Steinn, uma alucinação dos dois.

Em entrevista, Gaarder afirmou que a protagonista da história é a “mulher-amora”, como os dois passaram a chamá-la. Percepção essa que o autor não conseguiu passar, pois ela é apenas uma referência para ambos, um fato marcante que revelou as discordâncias entre eles. O debate entre razão X fé que o autor queria promover com essa “aparição”, se perde num discurso didático dispensável, principalmente nos extensos textos em que Steinn justifica seu ceticismo através do discurso científico. Já a defesa da espiritualidade por parte de Solrun é vaga e confusa. Nesse ponto, Gaarder foi mais feliz quando escreveu O mundo de Sofia, conseguindo ser didático na medida certa para não atrapalhar a narrativa, pois quem compra um romance quer ler uma história, não um ensaio.

Para você, leitor, que gosta de se emocionar, O castelo nos Pirineus é uma boa pedida, uma história de amor comovente que pode arrancar algumas lágrimas no final.


Cassionei Niches Petry é professor e cético. Não acredita em espíritos e aparições, mas sim em sentimentos abstratos como o Amor.


***
Ouvindo a obra do conterrâneo de Gaarder, o compositor Edvard Grieg.


Domingo, Setembro 26, 2010

Meus textículos


Será uma série de minicontos, por isso o diminutivo da palavra texto (não é um erro de ortografia como alguém pode pensar). Fiquem à vontade, ou não, para criticá-los.

Textículos



Acordou numa manhã de domingo e pensou: “Talvez Sartre esteja certo ("o inferno são os outros") ou então o inferno está dentro de nós mesmos.” Depois atirou na mulher e nos filhos, mas não sobrou nenhuma bala para ele.


Sábado, Setembro 25, 2010

O Babelia, suplemento literário da jornal El País, da Espanha, publica um especial sobre a literatura argentina, para mim a melhor da América Latina. Vale a pena dar uma lida.

E enquanto isso, não saiu meu texto no jornal. Certa vez, publicaram rapidamente uma resposta a outro texto meu. E agora?

Terça-feira, Setembro 21, 2010

O “pecado” da opinião

Texto que mandei para a seção de opinião do jornal Gazeta do Sul em resposta a este artigo do advogado Sérgio Agra. Vamos ver se o jornal publica:

Falta de informação e contradições marcaram o artigo de opinião do senhor Sérgio Agra nesta mesma página, na edição do dia 21 de setembro. Ao tentar atacar dois nomes importantes do cenário das ideias, o advogado atribui a Richard Dawkins e a Christopher Hitchens o epíteto de “celebridades instantâneas”.

Em primeiro lugar, os dois já são conhecidíssimos pelos seus trabalhos anteriores aos livros citados. Dawkins (nome grafado duas vezes no artigo de forma errada) é biólogo renomado, documentarista e suas obras de divulgação científica são há muito tempo editadas e reeditadas no mundo todo, sendo que no Brasil seus livros, entre os quais O gene egoísta e o citado Deus, um delírio, chegam às nossas mãos pela prestigiosa Companhia das Letras. Hitchens, por sua vez, além de ser colunista de conceituados jornais e revistas britânicas, publicou recentemente no Brasil, pela mesma editora, o livro A vitória de Orwell, em que analisa a obra de George Orwell, autor dos romances 1984 e A revolução dos bichos. Deus não e grande é apenas um de seus tanto livros. Os dois, portanto, são intelectuais que não devem ser considerados celebridades instantâneas, tampouco necessitam escrever best-sellers para ganhar dinheiro. Ou o articulista teve preguiça de pesquisar sobre os dois ou foi tendencioso ao atacá-los.

O “pecado” deles, segundo Agra, foi publicar obras que discutem a existência de Deus. Qual o problema disso? Se o articulista vive no planeta Terra, deve saber que há pessoas que acreditam em um suposto ser superior e há outros que não acreditam, bem como há os que creem em vários deuses. Todos têm o direito de expor sua opinião, como o próprio Agra o fez ao final do artigo, afirmando que “há uma Suprema Inteligência que gerou este e outros inumeráveis Universos.” Soberba e orgulho - atribuídos a eles pelo autor - é achar que só essa posição é verdadeira, sem reconhecer as posições contrárias.

Por fim, o autor os chama de “celebridadezinhas”- acreditem! - e que “em alguns pares de anos nem mais saberemos quem foram”. No entanto, os compara a Nietzsche, filósofo do século XIX, que até hoje, no século XXI, é estudado e está no topo ao lado dos grandes pensadores da humanidade. Contraditório, portanto. Além disso, como já escrevi, eles já há anos têm o seu espaço garantido no cenário intelectual mundial e nunca buscaram ser celebridades, mas sim, discutir ideias.

Faltou ao articulista contrapor os argumentos de Richard Dawkins e Christopher Hitchens, pois simplesmente os acusou de terem a “petulância” de “colocar Deus em discussão”, sem apontar no que eles estão supostamente equivocados.

As opiniões, caro advogado, servem para serem debatidas. Porém, julgar os outros simplesmente por não gostar de sua opinião é injusto e vai de encontro a uma das leis dessa “Suprema inteligência” que tu defendes: “Não levantarás falso testemunho”.

Segunda-feira, Setembro 20, 2010

Além da vida?

Estou lendo o livro Amor além da vida, de Richard Matheson (que escreveu Eu sou a lenda, Em algum lugar do passado, o conto "A caixa", entre outros textos que viraram filmes), cuja adaptação para o cinema, estrelada por Robin Williams, está sendo citada em reportagens sobre o filme “Nosso Lar”. Ora, Matheson criou uma obra de ficção que, apesar de se basear em livros espíritas, não quer passar aquilo tudo como algo real, enquanto que o livro do Chico Xavier (mais uma vez ele), do qual surgiu o roteiro para o "Nosso Lar", pretende retratar uma realidade psicografada além-túmulo como se fosse verdade. As imagens criadas por Matheson são bastante oníricas e baseadas em telas e livros de outros artistas, enquanto CX cria um mundo com características do mundo material para retratar o mundo espiritual. Enfim, há muitas diferenças.

Sábado estava na casa da minha mãe me preparando para o casamento de amigos ( o que não fazemos pelos amigos, hein? Até à igreja eu fui!), quando passava na TV uma cena da novela das 6. Aparece um menino rezando para o anjo da guarda para que sua mãe não morresse. O anjo aparece (de tênis e bermuda!) para rezar com ele, enquanto no hospital os médicos se esforçam para salvar a mãe de uma parada cardíaca. Adivinhem, a mãe se salva graças às orações, claro, pois os médicos não estavam conseguindo! Pelo menos o marido agradeceu a eles depois. Soma-se ao seriado “A cura” e temos como resultado uma pregação espírita sem limites na rede Globo. Sim, porque as pessoas não enxergam tudo isso como apenas ficção.

Domingo de madrugada durmo com a TV ligada na Band e acordo com os gritos do Silas Malafaia vendendo Bíblias a mais de 100 reais e ainda participo de um debate no Orkut com um “mala” religioso... Se eu acreditasse em D-uz eu diria: só pode ser castigo dele!

Sábado, Setembro 18, 2010

Meu texto sobre "A origem" na Gazeta de hoje

Saiu meu texto sobre o filme "A origem" no Magazine, caderno do fim de semana do jornal Gazeta do Sul. Infelizmente não estão carregando a imagem e o PDF no site, não sei se é problema só no meu navegador. Em todo caso, vai o link do site e depois, se der, ajeito as coisas por aqui.

http://gazeta.viavale.com.br/default.php?arquivo=_noticia.php&intIdConteudo=138681&intIdEdicao=2198

Hoje vou a um casamento e pela primeira vez vou usar paletó e gravata, além de ir à igreja. O que a gente não faz pelos amigos!

Sexta-feira, Setembro 17, 2010


"É errado, portanto, censurar um romance que é fascinante por suas misteriosas coincidências (...) mas é certo censurar o homem que é cego a essas coincidências em sua vida diária. Pois sendo assim, ele priva sua vida de uma nova dimensão de beleza"

(A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera)

Quarta-feira, Setembro 15, 2010

Aforismo



Infelizmente a luz socrática, platônica e dos iluministas foi substituída pela luz "divina" nos debates sobre religião e a razão virou acreditar em um amiguinho imaginário.
Cassionei N. Petry

Segunda-feira, Setembro 13, 2010

"A origem" inspirada no Tio Patinhas?

A história do Tio Patinhas foi publicada em 2002 e se chama "Sonhos de uma vida". Os irmãos Metralhas invadem o sonho para saber como roubar a fortuna do velho e o Prof. Pardal envia o Pato Donald para evitar o crime.
Para ler a história, só que em inglês, aqui.

Domingo, Setembro 12, 2010

Com os olhos bem abertos


Um filme pode nos conquistar através das imagens elaboradas, que chamem bastante atenção na tela do cinema, ou através de um roteiro igualmente bem escrito, com diálogos inteligentes e, o mais importante, com um enredo bem fundamentado. O primeiro caso acontece quando a cena fala por si mesma, seja no sentido poético, seja na cor ou ainda nos efeitos especiais de impacto. Quanto ao roteiro, que é a base de tudo, ele vai atender a demanda de um determinado público, podendo ser simples, com começo, meio e fim bem delimitados, pegando um expectador que quer apenas entretenimento, ou mais do tipo quebra-cabeça, que requer um expectador ativo, que esteja disposto a pensar e não quer nada fácil e mastigado.

A origem (Inception), em cartaz no cinema, tem um pouco de tudo isso, salvo a linearidade. Na divulgação, a primeira coisa que me fez esperar com expectativa o filme foram as imagens baseadas no artista plástico M. C. Escher, como a cidade se dobrando sobre si mesma, as pessoas andando pelas paredes e tetos e passando por escadas labirínticas. O tema igualmente me interessou, pois se trata da possibilidade de invadir sonhos e mexer com o subconsciente das pessoas. Soma-se a tudo isso a mão de um diretor diferenciado - responsável por uma das experiências mais inquietantes a que assisti, o filme Amnésia (Memento) -, e teremos outra experiência do mesmo nível.


tela de M.C. Escher

Não se pode resumir muito coisa do enredo, com o risco de revelar as soluções do quebra-cabeça. Temos um invasor de sonhos, Don Cobb, vivido por Leonardo di Caprio, que trabalha no roubo de informações industriais escondidas na mente das pessoas. Contratado por um poderoso executivo, que lhe promete resolver um problema que o impede de ver seus filhos, Cobb tem que encarar seus próprios fantasmas interiores, ajudado pela novata “arquiteta” de sonhos chamada, não por acaso, Ariadne, mesmo nome da mulher que, na mitologia grega, ajudou Teseu a escapar do labirinto de Creta e salvá-lo do Minotauro, amarrando o herói num fio.

Invasor + mundo irreal versus mundo real + entrar e sair desses mundos dormindo e se conectando com outras pessoas + ação + efeitos especiais + referências mitológicas e filosóficas =... Alguém pensou em Matrix aí?

Essa nova missão, no entanto não é roubar, mas sim inserir uma ideia, como se fosse um vírus, no subconsciente no herdeiro de uma grande corporação empresarial, com o objetivo de fazê-lo seguir rumos diferentes no empreendimento da família. Nesse ponto paramos para refletir nos pequenos detalhes que modificam a personalidade, o caráter e as ideologias e nos perguntamos: e se tudo isso fosse possível? Seríamos talvez, presas fáceis do Estado, controlando nosso pensamento, ou então correríamos o risco de termos nossos segredos revelados e perderíamos nossa individualidade. Por outro lado, poderia ser uma ajuda para as pessoas resolverem seus problemas: Freud ou Jung adorariam essa possibilidade.

Falando na dupla de psicanalistas, o filme todo deve ser analisado por uma perspectiva psicanalítica, mas fazê-lo agora, aqui nesse espaço, seria revelar muita coisa. Primeiro vá assistir ao filme, leitor, e depois, quem sabe, se cartas e sinais de fumaça chegarem à redação, retorno neste espaço para conversarmos mais um pouco. Isso, claro, se nesse exato momento não estamos apenas dentro de um sonho conectado - eu sonho que estou escrevendo e você sonha que está lendo - e se não despertarmos...agora!

*

Escrevi o texto escutando o álbum The White Room, do The KLF, que poderia ser a trilha perfeita para o filme.

Sábado, Setembro 11, 2010

O dia em que a Terra parou

Como hoje é 11 de setembro, vou repostar este conto no blog, até porque poucos leram e só a Glória comentou

São mais ou menos 8 da matina e estou fechando o primeiro baseado do dia, ouvindo o Raul: “O dia em que a Terra parou”. A mulher do meu lado ainda dorme. Tento acordá-la: “Tu não trabalha, não?”. Ouço apenas um grunhido que tanto pode significar um “sim” ou um “não enche, porra, que eu quero dormir”.

Não sei nem seu nome. Eu a encontrei ontem à noite na Imigrante com uma long neck na mão, recitando Bilac (ou cantando a música da Paula Toller, não sei): “...direis ouvir estrelas, certo perdeste o senso”. Perguntou se eu não tinha um baseado, eu disse que só em casa. Viemos pra cá, mas quando chegamos, ela desabou na cama dizendo “boa noite, amor” e apagou.

Olho pro calendário, dia 11, meu aniversário. Tenho alguma coisa pra comemorar? Será que vai aparecer alguém da família hoje à noite ou ninguém vai vir porque eles sabem que eu não vou pagar a festa sozinho? Querem só boca livre. Os amigos a mesma coisa. Melhor dizendo, meus conhecidos, já que amigo mesmo é como baseado bom, só consegue quem tem dinheiro. Aliás, essa erva ainda não fez efeito. Será que o Índio me vendeu bosta de vaca?

Sento na frente da cama e observo a mulher. Não acredito que dormi ao lado dela e não fiz nada. Olha só que corpo. Ao menos não sou um desses que pegam mulher e estrup...estupa...Puta merda! Acho que tão começando as pauladas ficar olhando pra esse rabo levantado tá me deixando louco ou é o efeito da erva ou são os dois juntos ou tô sentindo sono ah sei lá oh a TV não lembro se tinha ligado ela ihhh! oh as torres do congresso bah! dois aviões bateram nelas ah ah ah e aquela corja de ladrões senadores deputados bah tá desabando tudo que fumaceira que fumaceira aqui também bah o que vai ser do futuro das crianças o programa da Angélica tá muito louco.