Quinta-feira, Abril 26, 2012

"Minha mãe se matou sem dizer adeus", de Evandro Affonso Ferreira


"Escrever para não morrer; lavrar para não se matar."(p. 34).

"Ainda não cortei a teia da própria vida porque me seguro nas palavras; o vocábulo é minha âncora." (p. 35).
"Ás vezes penso que nasci para escrever; não nasci para viver; escondo-me atrás das palavras." (p. 37).
"suicidas convictos são monossilábicos" (p. 50).
"A palavra é meu parapeito; escrever para não ceder." (p. 59).
"Já no início da adolescência ele meu pai me mostrou através da história que a religião é desde tempos imemoriais uma fonte viva de violência. Hoje as palavras são contas do meu rosário; o vocábulo é minha devoção; o verbo minha crença. Escrever para protelar o Nada absoluto." (p. 66).

Quarta-feira, Abril 25, 2012

Gatos, cães e Neil Gaiman no Traçando livros de hoje




“Acho que vi um gatinho”
Cassionei Niches Petry


Gosto muito de animais de estimação. Aliás, gosto de animais de uma forma em geral, inclusive de me alimentar de alguns. Mesmo sabendo que eles podem sofrer quando são abatidos, faz parte da minha natureza ser carnívoro, vem dos meus antepassados do tempo das cavernas. É engraçado as pessoas se intitularem bondosas porque defendem os direitos dos animais, muitas vezes apelando ao deus judaico-cristão, sendo que esse deus poderoso, cujo nome sou obrigado a ouvir e ler todos os dias, pedia sacrifícios de bichinhos inofensivos só para que esse mesmo nome ficasse cada vez  mais enaltecido. Está na Bíblia, ora!
Mas não devaneemos. Ou melhor, sim, devaneemos, afinal, este texto é um devaneio crônico. Cronicar, devanear e ganhar alguns leitores (e perder outros tantos).
Volto ao começo. Disse que gosto muito de animais de estimação. Por isso não os tenho. Quem tem algum bicho em casa, deve cuidar dele, alimentá-lo bem, dar-lhe afeto. Não é o que vejo com relação aos cachorros que rondam as ruas da cidade, atacando pessoas, principalmente nossos eficientes carteiros, e rasgando sacos de lixo para se alimentarem, não só de restos de comidas como também de fraldas e papéis higiênicos usados. As ruas ficam sujas e os animais acabam transmitindo doenças. Devido a isso, volta e meia aparece algum maníaco (ou melhor, não aparece, porque se esconde, o covarde) que envenena os bichinhos. O melhor amigo do homem passa a ser inimigo dele. Por que as pessoas não cuidam dos seus cães, não os mantém dentro de seus pátios e não os alimentam como merecem? “Ora”, direis, “manter os coitados presos!” Não presos e sim soltos, mas dentro dos pátios. É para o bem deles. E nosso.
Se fosse para ter um bichinho de estimação, teria um gato. Como sempre, porém, sou voto vencido aqui em casa, pois a patroa e a minha pequena querem um cachorrinho. O gato é um ser misterioso. Se os cachorros passeiam pelas ruas, os gatos preferem os telhados e muros. Se enxergamos tudo o que os cachorros fazem (inclusive cenas constrangedoras de sexo explícito), os gatos são mais discretos. Se sabemos os passos dos cães, não sabemos os dos gatos. Por onde andam durante a madrugada, o que fazem?
Imagino sempre um complô dos bichanos, como na história Um sonho de mil gatos, escrita por Neil Gaiman, com ilustração de Kelley Jones, para a série de HQ Sandman (Editora Conrad). Em tempos remotos, os felinos governavam o mundo e dominavam os minúsculos homens. Um líder dos homúnculos reuniu seus pares, incentivando-os a sonhar com um mundo diferente. E conseguiram. Agora, é um líder felino que reúne na madrugada seus pares e os exorta a sonharem com um mundo em que eles voltariam a ser superiores.
Gosto muito de animais. Por isso meu santo padroeiro, quando era religioso, foi São Francisco de Assis. Acontece que, muitas vezes, quando eu caminhava e algum cachorro se aproximava, eu rezava para que o santo me protegesse. Nunca tive as preces atendidas e recebia mordidas no calcanhar e nas pernas. Os gatos, por sua vez, me miravam de longe, com aquele olhar peculiar de mistério, talvez pensando: “deixa estar, humano. Logo, logo serei eu no seu lugar.”
Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras e bolsista do CNPq. Gostava de assistir ao desenho do Piu-piu e Frajola, de onde tirou a frase que dá título a esse texto. Quinzenalmente escreve para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com

Sexta-feira, Abril 20, 2012

Quinta-feira, Abril 19, 2012

Troço complicado


Escrever um romance é um troço complicado. Escrever um projeto de pesquisa para a dissertação é um troço complicado. Escrever uma dissertação é um troço complicado. Escrever um romance, um projeto de pesquisa e uma dissertação juntos é mais complicado ainda. Nos últimos dias, tentando cumprir uma meta de número de páginas para o andamento tranquilo dos trabalhos, escrevi muito e dediquei boa parte do meu tempo livre para o projeto. No entanto, nesse meio tempo, continuei lecionando no ensino médio e preparando as aulas e continuei estagiando na graduação e preparando as aulas. Como se não bastasse, sou convocado durante todo este mês como jurado no tribunal do júri, julgando tentativas de homicídio. Mais ainda, no último domingo, prestei concurso para professor do estado, já que tenho apenas contrato. E ainda tenho que ler, ler muito.
Antes que me perguntem: sim, tenho família, uma esposa e uma filha que também querem atenção. Sorte a minha que não tenho mais nenhum leitor no blog, nem para perguntar isso, nem para sentir minha falta por aqui.
E sim, estou vivo ainda, não cometi suicídio, só escrevo sobre esse outro troço complicado.

Quinta-feira, Abril 12, 2012

Textículos (X)


Nas capas de todos os jornais a foto do goleador do time. O herói. O grande responsável pelo título inédito do clube. Na final, dois gols, vitória de virada. Um craque. Próxima parada, seleção brasileira.
Lê os jornais na cama enquanto almoça. Acordou há pouco, pois a festa do título foi até altas horas. Sua mulher está feliz. Seus filhos, recém-vindos da escola, comentam que foram o centro das atenções e receberam muitos cumprimentos. Ele também não deveria estar feliz?
“Marcão recebeu o passe da direita e marcou um golaço, empatando a partida. Na segunda etapa, de cabeça, selou a vitória.” É o que dizem as matérias de quase todos os jornais do país.
Sim, mas quem fez o passe preciso nos pés do atacante? E a bola voou sozinha para o Marcão dar a cabeçada?
Às vezes, não nos contentamos em ser apenas escada.

Quarta-feira, Abril 11, 2012

Jorge Volpi no Traçando Livros de hoje

No Traçando Livros de hoje, no jornal Gazeta do Sul, escreveo sobre Jorge Volpi: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/339685-a_boa_mentira/edicao:2012-04-11.html


A boa mentira
Cassionei Niches Petry

Acredito que vocês, meus leitores, gostam de uma boa mentira, afinal, só leem o Traçando Livros porque apreciam literatura e são ludibriados por ela. A expressão ludibriar, diga-se, vem bem a calhar, na medida em que traz em sua raiz a palavra latina ludus, que significa jogo, divertimento. Nós nos divertimos e entramos no jogo proposto pelo escritor, conhecendo as regras e sabendo que elas podem ser desrespeitadas também. Suspendemos nossa crença na realidade para entrar na ficção. E, se ela for boa, somos contagiados por ela.
Jorge Volpi, escritor mexicano, nascido em 1968, é um desses mentirosos contumazes. Não bastasse mentir tanto, resolveu escrever sobre essa sua falha de caráter, ou melhor, sobre a falha de caráter dos outros escritores. Mentiras contagiosas foi publicado em 2008 e ainda não tem tradução para o português. Trata-se de um conjunto de ensaios, ao menos é o que diz a folha de rosto do volume. E ensaio, como se sabe, corresponde a uma peça de não ficção. O primeiro texto, no entanto, é escrito por volta do ano de 2700, ou seja, já caímos numa primeira mentira.
O “ensaísta” relata que o romance morreu e que o último exemplar, uma imitação de Don Quixote de la Mancha, teria sido escrito por um tal de Menard, em 2605 (referência óbvia ao conto de Borges). Seguem-se argumentos contra esta arte que “só podia ter prosperado em sociedades com um precário desenvolvimento intelectual”. (Esse e outros trechos são traduzidos por mim.) Ironicamente, ao fazer um tratado contra o romance, Volpi escreve que a humanidade estaria muito melhor se não tivéssemos perdido tanto tempo com delírios.
Em outro ensaio, saindo do tom irônico, Jorge Volpi utiliza o conceito de “memes” do zoólogo Richard Dawkins para abordar a evolução das ideias do escritor e, consequentemente, do romance. Os “memes” seriam ideias transmitidas de geração para geração pela seleção natural, assim como os genes. Volpi escreve que “a mente do romancista trabalha como a natureza: ordena pouco a pouco as ideias até construir uma obra. O romance também é um produto da evolução: um avanço tecnológico que permitiu o desenvolvimento de nossa espécie e que, graças a sua capacidade de adaptação, se mantém como um dos pilares de nosso predomínio no planeta”.
Na continuação do ensaio, Volpi escreve que “o romance só se completa quando suas ideias conseguem infectar o leitor”. Essas ideias se multiplicam na mente dos leitores como se fossem parasitas. Se ambos se beneficiam, acontece a simbiose, o que ocorre com os textos da alta literatura. No entanto, há aquelas romances que são parasitas inócuos, que morrem logo depois de infectar o leitor: são os livros de entretenimento.
Os demais textos abordam, entre outros temas, a obsessão do cineasta Orson Welles pelo personagem Dom Quixote, um colóquio sobre o escritor Juan Rulfo, as obras de García Márquez e Carlos Fuentes. O volume fecha com outra epidemia, dessa vez provocada pelo escritor Roberto Bolaño, autor de Os detetives selvagens. Depois de sua morte em 2003, Bolaño passou a ser cultuado pelos leitores e tornou-se modelo para os escritores mais jovens. Jorge Volpi, no entanto, não coloca o autor de 2666 no altar da perfeição. Alguns romances e a quase totalidade da contística bolañiana são irregulares, segundo ele. As duas obras citadas, porém, são o que de melhor e mais criativo se produziu nos últimos anos na América Latina, fazendo jus à epidemia que se criou.
A única obra de Jorge Volpi disponível no Brasil é o romance Em busca de Klingsor. Publicado pela editora Companhia das Letras, o romance confirma o que é a literatura: ela é mentira, é jogo, é doença.
Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras e bolsista do CNPq. Quinzenalmente escreve sobre mentirosos no Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com, onde mente regularmente.

Terça-feira, Abril 10, 2012

Doc sobre ateísmo na TV Brasil, programa Outro Olhar

Uma reedição de trechos do documentário sobre ateísmo, em que fui entrevistado por Carine Immig e Fábio Goulart, foi parar no Outro Olhar, espaço para vídeos independentes no Repórter Brasil, programa jornalístico da TV Brasil. Segue o vídeo disponível no Youtube:

Sexta-feira, Abril 06, 2012

33, Vênus e Sexta-Feira da Paixão


 O nascimento de Vênus, de William-Adolphe Bouguereau

Camisa de vênus, monte de vênus, doença venérea, afrodisíaco. Palavras como estas, relacionadas à relação sexual, se originaram de uma deusa: Vênus para os romanos, Afrodite, para os gregos, deusa da beleza, do amor e da sexualidade. O sexto dia da semana ganha o nome de “viernes”, em espanhol, e “venerdi”, em italiano, porque é o dia dedicado a ela. Em inglês, “friday”, é o dia de Frigga, deusa nórdica, esposa de Odin e mãe de Thor, ela também uma divindade relacionada ao amor e à fertilidade. “Freytag”, em alemão, é em homenagem a outra deusa nórdica, Freya, divindade da luxúria. Reparem, ainda, que sexta contém a palavra “sex”. Este dia, portanto, é dedicado ao sexo, ao amor, às paixões e, claro, dia de apreciar os prazeres da carne.
Há alguns que pensam de forma diferente e preferem se distanciar destes prazeres. É o caso dos cristãos, grupo do qual fui membro durante anos. Hoje não podem (ou não deveriam) comer carne, beber, trabalhar (regra esta quebrada por alguns patrõe$), ouvir música e, logicamente, fazer sexo.
Lembro-me das proibições que eu sofria quando era criança. Não podia correr, brincar, assistir à televisão, etc. Se eu descumpria as regras, me sentia muito culpado. Certa vez, já anoitecendo, vi o rosto de Cristo nas nuvens, enquanto jogava bola com os amigos. Ajoelhei-me e pedi perdão, pois vi ali um sinal de que estava fazendo algo errado. Só anos depois vim a saber o que era pareidolia.
Isto tudo porque o filho de Deus deu sua vida para curar os pecados do mundo. Ou seja, o cristianismo é uma religião fundada em função de um suicida e que tem como símbolo um instrumento de tortura, a cruz. Imagino se ele tivesse sido enforcado: veríamos milhões de pessoas ostentando uma forca no pescoço!
Coincidentemente, 33 era a idade de Cristo quando se suicidou. 3+3=6, mais 6ª feira, mais dia 6. 666, o número do Anticristo.

Quinta-feira, Abril 05, 2012

Repostagem atualizada: Versões da "Última ceia"

Da Vinci
 
Cena do filme "História do mundo: parte 1", de Mel Brooks
 
Cena do filme "Veridiana", de Buñuel, a polêmica Ceia dos Mendigos



Salvador Dalí

"Em qual das ceias eu me sentiria bem?", me pergunto. A clássica do Da Vinci faz parte das minhas lembranças de infância, pois sua reprodução pairava sobre a mesa da cozinha lá de casa. Aliás, um enorme quadro, que nem imaginava quem tinha pintado. Mas não seria nessa mesa que me sentaria. Muito sóbria para o meu gosto.

A do meu Mel Brooks é engraçada. Na cena do filme o personagem dele está trabalhando de garçom e vai atender na sala onde Da Vinci está pintando a ceia real, ou tirando uma foto, não lembro, e ele entra de penetra. Só assistindo ao filme para entender. Mas não seria nessa.

Nas dos super-heróis? Não sei, uma delas, inclusive, traz o Capitão América como Cristo, ou seja, os EUA como o centro de todas as decisões do mundo. Na outra, a Mulher Maravilha faz o papel de João (ou seria de Maria Madalena). Também não seria nessas.

Na dos mendigos do filme do Buñuel? Jamais. Os mendigos desse filme eram ingratos e desprezíveis.

A versão que utiliza várias pinturas é bem interessante, olha onde está a Vênus de Botticelli...

Sou fã do Dalí, mas essa versão ficou muito mística para meu gosto.

Ah, eu sabia! Dirá meu único leitor! A ceia do Homer Simpson seria a escolhida! Engana-se. Não gosto nenhum pouco desse tipo de ambiente e estou bebendo pouquíssimo.

Quem sabe no meio desse povo aí?