terça-feira, fevereiro 24, 2009

Cometi a façanha de ler todo o livro “Anjos e demônios”, de Dan Brown. Façanha por ter aguentado quatrocentas e poucas páginas de uma narrativa inverossímil. Arranquei os cabelos todas as vezes que, depois de páginas e páginas de ação, diálogos, e etc., o personagem principal olhava para o seu relógio com o desenho do Mickey e haviam se passado poucos minutos.
O que tem de interessante na história são as discussões sobre ciência e religião, em que pese haver uma clara defesa da segunda, o que faz com que o filme baseado na obra não vá incomodar tanto a Igreja Católica como o fez “O código da Vinci”, apesar do final "surpreendente", por ser ilógico. Gostei também das interpretações dos símbolos, assunto que me atrai sempre. Além do passeio por pontos de Roma onde há vários monumentos, o que me fez visitar várias vezes o Wikipédia.
Aliás, sempre leio com certa desconfiança o Wikipédia, que coloca com destaque Dan Brown em sua página sobre literatura. Ora, se se fizer uma comparação entre as duas principais narrativas do escritor, veremos que ele pega uma fórmula e a segue à risca para escrever um livro de sucesso comercial.
Quem quer ler uma peça da grande literatura, passe longe deste livro. Se desejar apenas entretenimento, é uma boa pedida. Ou espere o filme.

Este trecho de “Anjos e demônios” reforça a minha frase de alguns posts atrás:

“E voltou aos seus 11 anos. Deitado em sua cama na mansão de seus pais em Frankfurt, os lençóis que o envolviam, feitos com o melhor linho da Europa, estavam empapados de suor. O jovem Max sentia o corpo em fogo, uma dor inimaginável torturando-o. Ajoelhados ao lado de sua cama, de onde não saíam já fazia três dias, estavam seu pai e sua mãe. Ambos rezavam.
Nas sombras do quarto encontravam-se três dos melhores médicos de Frankfurt.
- Insisto que pensem melhor! - disse um dos médicos. - Olhem para o menino! A febre está aumentando. Ele está com dores terríveis. E corre risco de vida! Max, todavia, sabia o que sua mãe responderia antes mesmo que ela abrisse a boca.
- Gott wird ihn beschuetzen.
Sim, pensou Max. Deus vai me proteger. A convicção na voz de sua mãe deu- lhe forças. Deus vai me proteger.
Uma hora mais tarde, Max sentia dores tamanhas, como se seu corpo estivesse sendo esmagado por um carro. Sequer conseguia respirar para gritar.
- Seu filho está sofrendo demais - disse outro médico. - Deixe-me ao menos aliviar as dores dele. Tenho na minha mala uma injeção simples de...
- Ruhe, bitte! - O pai de Max fez o médico calar-se sem ao menos abrir os olhos, continuando a rezar.
- Papai, por favor! - Max queria gritar. - Deixe que ele faça a dor parar!
- Mas suas palavras perderam-se em um espasmo de tosse.
Uma hora depois, a dor tinha piorado ainda mais.
- Seu filho pode ficar paralítico - advertiu um dos médicos. - E até morrer! Temos remédios que podem ajudar!
Frau e Herr Kohler não permitiram. Não acreditavam em remédios. Quem eram eles para interferir nos planos divinos? Rezaram com maior intensidade. Afinal, se Deus os abençoara com aquele menino, por que Deus o levaria embora? Sua mãe sussurrou-lhe que fosse forte. Explicou que Deus o estava testando como na história de Abraão na Bíblia, um teste de fé.
Max tentava ter fé, mas as dores eram excruciantes.
- Não agüento ver isso! - disse afinal um dos médicos, saindo às pressas do quarto.
Ao amanhecer, Max estava semiconsciente. Todos os seus músculos contraíam-se em espasmos de agonia. Onde está Jesus? Delirava. Ele não me ama? Max sentia a vida esvaindo-se de seu corpo.
Sua mãe adormecera ao lado da cama, as mãos ainda entrelaçadas em cima dele. O pai estava junto à janela, do outro lado do quarto, vendo o dia clarear. Parecia estar em transe. Max escutava o murmúrio de suas súplicas incessantes por misericórdia.
Nesse momento Max divisou a figura pairando acima dele. Um anjo? Ele não enxergava direito. Seus olhos estavam muito inchados. A figura cochichou em seu ouvido, mas não era a voz de um anjo. Max reconheceu a voz de um dos médicos, o que estava sentado em um canto havia dois dias, sem desistir, rogando aos pais de Max que o deixassem administrar na criança um novo remédio vindo da Inglaterra.
- Nunca vou me perdoar - sussurrou o médico - se não fizer isso. - E, com delicadeza, pegou o braço frágil do menino. - Gostaria de tê-lo feito mais cedo.
Max sentiu uma pequenina espetadela no braço, que mal distinguiu em meio a tanta dor.
O médico então guardou suas coisas em silêncio. Antes de sair, pousou a mão na testa de Max.
- Isto vai salvar sua vida. Tenho muita fé no poder da medicina.
Poucos minutos depois, Max sentiu como se uma espécie de espírito mágico fluísse em suas veias. O calor espalhou-se por seu corpo e amorteceu a dor. Finalmente, pela primeira vez em dias, Max dormiu.
Quando a febre cedeu, seu pai e sua mãe proclamaram que era um milagre de Deus. Mas, quando ficou evidente que o filho estava aleijado, ficaram melancólicos. Levaram-no à igreja em uma cadeira de rodas e pediram que um padre os aconselhasse.
- Foi apenas pela graça de Deus - disse o padre - que esse menino sobreviveu.
Max escutava sem dizer nada.
- Mas nosso filho não anda mais! - chorava Frau Kohler.
O padre sacudiu a cabeça, com ar triste.
- Sim. Parece que Deus o puniu por não ter fé suficiente.”
Reproduzo o comentário do escritor Fernando Monteiro neste post do blog do Milton Ribeiro.

"Cassionei, obrigado pela notícia na Gazeta do Sul -- e pelo elogio. Milton, obrigado por repercutir a mensagem do Cassionei, e gentilmente enviá-la para o Recife. Sobre a pergunta de Cassionei ("O terceiro livro -- da trilogia Graumann -- seria lançado com os dois anteriores em uma caixa, sabes como anda esse projeto?"), eu esclareço a respeito do terceiro e último "Graumann": O livro iria ser lançado em 2008, dentro de "box" com o primeiro e o segundo volumes, porém a editora engajada nesse projeto (a Francis, que editou o Graumann 2, "As Confissões de Lúcio") fechou as portas, no final do ano passado. A Francis foi criada -- com o maior zelo -- pela Sônia Nolasco (jornalista, viúva do Paulo Francis) e pelo Wagner Carellli, uma das grandes cabeças "deste país", jornalista que criou a BRAVO e a REPÙBLICA, duas das melhores revistas brasileiras de cultura (em tempo: a BRAVO está irreconhecível hoje, nas mãos da Abril), e que resistiu como pôde, em sua luta, até 2005. Nesse ano, parece que Carelli resolveu entregar os pontos, jogar a toalha, desistir. A Francis continuou (tocada pelo Roberto Nolasco, irmão da Sônia), sempre "mal das pernas" -- porque era uma editora bem intencionada e empenhada etc -- até o final de 2008, quando foi absorvida pela Landscape, uma editora sem história até agora. Eu não gostaria de lançar por ela a Trilogia, e (para dizer a verdade) essa Landscape também não se mostrou muito interessada, principalmente pelo fato de serem TRÊS livros colocados no mercado de uma só vez etc. Aliás, esse "mercado" está bem mudado, e vem dando sinais alarmantes -- culturalmente -- nos últimos anos. EM TEMPO: Sobre esse assunto, eu iniciei uma série de três artigos, o primeiro dos quais acaba de ser publicado na edição de fevereiro do jornal literário RASCUNHO, de Curitiba. A segunda e a terceria partes do texto ("A Cabeça no Fundo do Entulho da Leitura") sairão nas edições de março e abril, e acho que, neles, os leitores do Cassionei, do Milton -- e de outros --, poderão encontrar os dados da desoladora situação que escolhi enfrentar como tema de palestra ("A Morte do Leitor") na recente Feira do Livro de Porto Alegre, realizada em novembro último. Abraço a todos,
FERNANDO MONTEIRO"

A resenha que escrevi aqui.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

L. F. Verissimo na ZH de hoje

Versões

Era uma vez uma donzela que caminhava pela beira de um rio quando ouviu um “psiu”. Era um sapo, que lhe contou que na verdade era um príncipe amaldiçoado, transformado em sapo por uma bruxa malvada com poderes mágicos. Se a donzela o beijasse, o sapo voltaria a ser príncipe. A donzela acreditou no sapo, beijou-o, ele se transformou de novo em príncipe e os dois se casaram e viveram felizes para sempre.
***
Anos depois outra donzela teve a mesma experiência. Ouviu a mesma história, sobre a maldição da bruxa que transformava qualquer coisa em outra coisa e fizera o príncipe virar sapo. A donzela concordou em beijar o sapo para livrá-lo da maldição, com uma condição:– Beijo de língua, não.E viveram felizes para sempre.
***
Muitos anos mais tarde, depois da revolução industrial, uma donzela desempregada caminhava pela beira do rio e ouviu a mesma história de um sapo. Concordou em beijá-lo, mas o sapo se transformou num príncipe muito feio, talvez devido à poluição do rio. A donzela protestou e ouviu do príncipe:– Ué, pra quem já beijou sapo!Mas casaram-se e tiveram uma vida difícil para sempre, porque o príncipe, inclusive, perdera tudo com o fim do feudalismo.
***
Já neste século, a mesma história. “Psiu”, sapo, bruxa com poderes mágicos, beijo, tudo igual. Com apenas um instante de hesitação até que se esclarecesse um ponto:– Precisa ser donzela?Não precisava. Casaram-se e viveram etc.
***
Anos sessenta. A mesma história, com uma variação: a moça era feminista. Ouviu o que a bruxa com poderes mágicos que transformava qualquer coisa em outra coisa fizera com o príncipe, e concluiu:– Alguma você andou aprontando!E solidarizou-se com a bruxa e chutou o sapo.
***
Jovem empresária caminhando pela beira do rio artificial do seu condomínio fechado ouve o “psiu”, depois a conversa do sapo, e – diante dos protestos do sapo – raciocina em voz alta:– Um príncipe, hoje, não vale muita coisa. Mas imagina o que eu posso ganhar com um sapo falante, só em cachês!E ela fez muito dinheiro e viveu feliz com o sapo numa gaiola para sempre.
***
Anteontem. Jovem ouviu a proposta do sapo mas não decidiu em seguida. Procurou seu consultor financeiro, que lhe lembrou que nada é mais valioso no mercado, hoje, do que informação privilegiada como a que o sapo lhe passara.E aconselhou:– Esqueça o sapo e encontre essa bruxa!Com seus poderes mágicos a bruxa poderia transformar moeda fraca em moeda forte, nominativas em preferenciais... Era a solução para a crise!

sexta-feira, fevereiro 20, 2009


Diálogo no livro “Anjos e demônios”, de Dan Brown. Lembra “O mundo de Sofia”, do Jostein Gaarder:

“- Disseram que você faz uma porção de perguntas - disse o moço.
Vittoria replicou, mal-humorada:
- E é ruim fazer perguntas?
Ele riu.
- Acho que não.
- O que você está fazendo aqui fora?
- O mesmo que você: pensando por que as gotas de chuva caem.
- Não estou pensando por que elas caem! Eu já sei!
O padre olhou espantado para ela.
- Você sabe?
- A irmã Francisca disse que as gotas de chuva são lágrimas dos anjos que caem
para lavar nossos pecados.
- Puxa! - ele disse, em um tom admirado. - Então, está explicado.
- Não, não está! - disparou a menina. - As gotas caem porque tudo cai! Tudo!
Não é só a chuva!
O padre coçou a cabeça.
- Sabe, mocinha, você tem razão. Tudo cai mesmo. Deve ser a gravidade.
- Deve ser o quê?
Ele olhou para ela com ar incrédulo.
- Você nunca ouviu falar da gravidade?
- Não.
O padre fez um gesto decepcionado.
- É uma pena. A gravidade responde a uma porção de perguntas.
Vittoria sentou-se.
- O que é gravidade? - perguntou, exigente. - Diga para mim!
O padre piscou o olho para ela.
- E se eu explicar a você durante o jantar?
O jovem padre era Leonardo Vetra. Embora tivesse ganho prêmios de Física quando aluno da universidade, ouvira um outro chamado e fora para o seminário. Leonardo e Vittoria tornaram-se grandes amigos, por mais improvável que fosse, naquele mundo solitário de freiras e regulamentos. Vittoria fazia Leonardo rir e ele tomou-a sob sua proteção, ensinando-lhe que belas coisas como o arco-íris e os rios tinham muitas explicações. Falou-lhe sobre a luz, os planetas, as estrelas e toda a natureza, tanto do ponto de vista de Deus quanto do da ciência. O intelecto e a curiosidade inatos de Vittoria faziam dela uma aluna cativante. Leonardo a protegia como a uma filha.
Vittoria também estava feliz. Nunca sentira a alegria de ter um pai. Enquanto todos os outros adultos respondiam às suas perguntas com um ar de repreensão, Leonardo passava horas mostrando-lhe livros.”

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Hieronymus Bosch - O Jardim das Delícias


Clique sobre a imagem para ampliá-la.
PS.: A Jorcenita mandou um link do Wikipédia sobre esta obra. Há interpretações interessantes e ficheiros com resoluções melhores para apreciar a pintura. O que a Jo pensa da obra? E a Nita?

quarta-feira, fevereiro 18, 2009


Mais uma listinha para comentarem, desta vez com filmes que, de uma forma ou de outra, fizeram minha cabeça, seja pelo aspecto emocional, seja pelo aspecto intelectual. Como todas as listas, há omissões. São todos filmes do gosto pessoal e gosto se discute sim.

Cidadão Kane, de Orson Welles
Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti
Sociedade dos poetas mortos
O iluminado, de Stanley Kubrick
Annie Hall, de Woody Allen
Efeito Borboleta
1984, de Michael Redford
O anjo exterminador, de Luis Buñuel
O sétimo selo, de Bergmann
Édipo Rei, de Pasolini
Os pássaros, de Hitchcock
12 homens e uma sentença, de Sidney Lumet

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Quando me pedem uma “lista dos livros que não se pode deixar de ler”, tenho muito receio porque os gostos variam muito e o que é muito bom para mim, é uma porcaria para outro. Ao perguntar sobre Kafka ao Janer Cristaldo, por exemplo, ele me disse que o escritor checo “era um chato. Era um gênio, mas um chato.”
Também posso esquecer algum título e depois ficar me remoendo. Da mesma forma, a lista sempre será pequena, pois há muita coisa boa para ser lida. Fico com inveja dos leitores do século XIX, que tinham menos livros para ler!
Aí vai uma listinha pessoal, com inúmeras omissões. Se quiserem, meus poucos leitores podem acrescentar as suas listas nos comentários. (Coloquei alguns link para baixá-los, mas aviso que as digitalizações não estão bem revisadas.)

*Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago – leiam o livro antes de ver o filme! Passei mal!

*Relatos, de Júlio Cortázar – 4 volumes com os contos completos do Julio Cortázar.

*O processo, de Kafka – obra máxima!

*Ópera dos mortos, de Autran Dourado – me debrucei nesse romance para escrever minha monografia de conclusão do Curso de Letras.

*Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles - tem o conto "Venha ver o pôr-do-sol", um dos melhores contos da literatura brasileira.

*Camilo Mortágua, de Josué Guimarães – emocionante obra do escritor gaúcho.

*Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis – obra máxima na literatura brasileira. Baixe aqui.

*Sobre heróis e tumbas, de Ernesto Sábato – perturbador ao extremo.

*O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião – considerado por muitos o Kafka brasileiro.

*Luz de agosto, Willian Faulkner – mestre norte-americano.

*O lobo da estepe, de Hermman Hesse – todos temos um lobo escondido.

*Crime e castigo, de Dostoiévski – como podemos admirar um assassino de uma velhinha?

*Assim falou Zaratustra, de Nietzsche – se não quer ficar incomodado, não leia.

*Por que não sou cristão, de Bertrand Russell – o título diz tudo, se não quer questionar sua fé, não leia.

*Trilogia de Nova York, de Paul Auster – quem somos nós?

*Servidão Humana, W. Somerset Maugham – podemos deixar de servos da sociedade?

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

25 anos sem Cortázar


Hoje faz 25 anos que morreu o escritor argentino Julio Cortázar. Poucos escritores me fisgaram na primeira leitura. Cortázar foi um deles. O conto “Bestiário”, que li quando adolescente, me causou uma estranheza tamanha, que parecia ver um tigre passeando pelos cômodos da minha casa como acontece na história. Depois da leitura do conto “Ônibus”, durante um tempo fiquei receoso de entrar em um coletivo. Sério! As histórias não tinham nada de terror, mas sim um mistério difícil de explicar sem ler.

Depois que aprendi o espanhol, passei a ler o autor no original e descobri novos livros. O mais famoso é o romance “Rayuela”, ou “Jogo da Amarelinha”, mas eu prefiro os contos. Para mim, junto com Kafka e um ou outro, Cortázar foi um dos maiores escritores da Literatura Universal.
Leia o conto Casa Tomada (em português) no site Releituras: http://www.releituras.com/jcortazar_menu.asp

Quem se arrisca no espanhol, pode baixar o livro “Bestiário”, com 8 contos, aqui: http://www.4shared.com/file/87389222/53e8066b/Cortazar_-Bestiariopdf.html?dirPwdVerified=4e366638

Ou escutar o autor na sua própria voz aqui: http://www.mediafire.com/download.php?adydwtt1a60

Falou e disse...

"Os leitores acham que, para a gente escrever, basta sentar e a coisa vai saindo. Nada disto, isto só nos acontece no banheiro." Luiz Vilela (lido no blog do Milton)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Não olhe para trás...


Desafio enviado pela Jorcenita, que foi desafiada pela Inara.

Escrever seis coisas que denigrem ou não minha imagem imaginada.

1- Já roubei livros.

2- Nunca me arrependi de ter tomado posse deles. (Ficaram em melhores mãos, modéstia à parte.)

3- Já fui petista.

4- Já fui admirador do Olavo de Carvalho.

5- Já acreditei em velhinhos barbudos, tipo Papai Noel e deus.

6- Já fui fã do Michael Jackson. (E ainda gosto de escutar suas músicas.)

Passo a bola pra ti, Grazi.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O lobo da estepe

“— O senhor está vindo do trabalho? É verdade que disso nada entendo; vivo um tanto à margem, o senhor compreende... Mas creio que também lhe interessem os livros e coisas assim; sua tia me disse que o senhor completou seus estudos e que era um bom estudante de grego. Esta manhã encontrei uma frase em Novalis.. Permite-me que lha mostre? O senhor também há de gostar de vê-la.
Fez-me entrar no quarto, que recendia a forte cheiro de fumo, tirou um livro de uma pilha deles, folheou-o, à procura.
— Esta aqui também é boa, muito boa — disse. — Veja só esta frase: "O homem devia orgulhar-se da dor; toda dor é uma manifestação de nossa elevada estirpe." Magnífico!
Oitenta anos antes de Nietzsche! Mas não é esta a passagem que eu pensava mostrar-lhe...
Espere, aqui está. Ouça: "A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.'' Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas, sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado.”

Hermann Hesse - O lobo da estepe
Para baixar o livro: http://www.4shared.com/file/66719047/5320b8ed/Hesse_-_O_Lobo_da_Estepe.html?dirPwdVerified=4e366638

sábado, fevereiro 07, 2009

Leon Eliachar


Quando jovem, recém descobrindo os grandes cronistas da nossa literatura, me deparei com a obra de Leon Eliachar. “Quem?” pergunta a Rovilda. Pois é, não sei por que hoje poucos conhecem os textos desse escritor, o que prova que nem sempre o tempo é senhor da razão.
Pois houve uma época que eu queria ser um escritor como ele, escrevendo crônicas cheias de humor e sarcasmo. Ele era do estilo de um Millôr, de um Stanislaw Ponte Preta. Para a Rovilda e para quem mais nunca ouviu falar no autor, o próprio se apresenta:

SEM MODÉSTIA À PARTE

POR ALTO, BIOGRAFIA

Nasci no Cairo, fui criado no Rio, sou, portanto, "cairoca". Tenho cabelos castanhos, cada vez menos castanhos e menos cabelos. Um metro e 71 de altura, 64 de peso, 84 de tórax (respirando, 91), 70 de cintura e 6,5 de barriga. Em 1492, Colombo descobriu a América; em 1922, a América me descobriu. Sou brasileiro desde que cheguei (aos dez meses de idade), mas oficialmente, há uns sete anos: passei 35 anos tratando da naturalização. Minha carreira de criança começou quando quebrei a cabeça, aos dois anos de idade; minha carreira de adulto, quando comecei a fazer humorismo (passei a quebrar a cabeça diariamente). Tive vários empregos: ajudante de balcão, ajudante de escritório, ajudante de diretor de cinema, ajudante de diretor de revista, ajudante de diretor de jornal. Um dia resolvi ajudar a mim mesmo sem a humilhação de ingressar na política: comecei a fazer gracinhas — fora da Câmara. Nunca me dei melhor. Meu maior sonho é ter uma casa de campo com piscina, um iate, um apartamento dúplex, um corpo de secretárias, um helicóptero, uma boa conta no banco, uma praia particular e um short. Por enquanto já tenho o short. Sou a favor do divórcio, a favor do desquite e a favor do casamento. Sem ser a favor deste último não poderia ser dos primeiros. Sou contra o jogo, o roubo, a corrupção e o golpe; se eu fosse candidato, isso não deixaria de ser um grande golpe. O que mais adoro: escrever cartas. O que mais detesto: pô-las no Correio. Minha cor preferida é a morena, algumas vezes a loura. Meu prato predileto é o prato fundo. O que mais aprecio nos homens: suas mulheres — e nas mulheres, as próprias. Acho a pena de morte uma pena. Não sou superticioso, mas por via das dúvidas evito o "s" depois do "r" nessa palavra. Se não fosse o que sou, gostaria de ser humorista. Trabalho vinte horas por dia, mas, felizmente, só uma vez por semana; nos outros dias, passo o tempo recusando propostas — inclusive de casamento. Acho que a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse — isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse. Mas isso não impede que eu seja, algum dia, um homem ideal.







Do livro: O homem ao quadrado, de 1960.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Reproduzo aqui um e-mail que recebi do Marcelo, neto do criador da expressão que dá nome a este blog, conforme escrevi no primeiro post:

Olá meu caro! Estava navegando pela rede e acabei desaguando no seu blog e li sobre o Porém. Bom, este tal Jorge Porém era meu avô materno e realmente ficou conhecido pelo "ah porém". No entanto o momento de sucesso, se assim podemos dizer, não foi perene. Em verdade foi um rio que passou na vida dele.
Foi legal ver alguém falar sobre ele, mesmo que de forma sucinta.
Um forte abraço!

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Citando a mim mesmo...

“Quando as pessoas morrem na mão de um médico, o culpado foi ele. Quando sobrevivem, foi milagre de deus.” Cassionei N. Petry, professor.


Na revista “Sociedades secretas”, especial da Superinteressante, lançada no final do ano passado, a reportagem sobre os maçons afirma que um dos requisitos para se entrar nela é acreditar em um deus, seja ele qual for. E o grão-mestre de uma loja maçônica da argentina afirma: “Nossa meta é formar homens melhores, ensiná-los a se libertar dos dogmas e a pensar por si mesmos”. Ora, se é obrigado a acreditar em um deus, essa meta não tem valor nenhum.

A edição ainda traz ainda uma matéria sobre a Ku Klux Klan, uma das sociedades secretas mais nefastas desse nosso mundinho. Em uma das fotos, a barbaridade perpetrada por esses monstros americanos. Precisa dizer alguma coisa?

terça-feira, fevereiro 03, 2009


Desisto. Já é fevereiro e não consegui fazer quase nada que planejei para janeiro. Não escrevi um conto sequer. Não li todos os livros que queria. Como fevereiro será dedicado a família, já que a patroa estará de férias também, e em março recomeçam as aulas, precisarei repensar muitas coisas. Mas o blog acho que está dando certo. O que acham os meus quatro ou cinco leitores?

domingo, fevereiro 01, 2009

Texto que escrevi em homenagem ao meu primo que partiu aos 33 anos.

O nome Fabrício deriva da palavra fábrica. Pois quando lembro de ti, Fabrício, lembro disso:
Tu eras uma fábrica de risos. Quem te conhece sabe desse teu lado palhaço, brincalhão. Nas idas a Sapucaia para os encontros da família, eras um dos que puxavam as brincadeiras, a cantoria. Será uma voz a menos para cantar o Chico Mineiro “com calça e sem calça”.
Tu eras uma fábrica de seriedade. Sim, aquele mesmo cara brincalhão se tornava um sério pai de família, um filho responsável, um profissional dedicado. O mundo perde mais uma pessoa exemplar.
Tu eras uma fábrica de simpatia. Era aquela pessoa que fazia questão de cumprimentar todo mundo com entusiasmo, mesmo se conhecesse a pessoa há pouco tempo. Será um sorriso a menos entre nós.
Tu eras uma fábrica de música. O som do teu clarinete ou do saxofone deliciava a todos, como aconteceu na última Enfasa. Também ensinava aos jovens a magia das notas musicais e a serem artistas. Será uma melodia a menos nos nossos corações.
Tu eras uma fábrica de amor e amizade. Fabricaste nesta vida amigos aos montes. Encontraste o amor e também retribuíste o amor. Deste carinho e, da mesma forma, recebeste muito carinho. Como tu foste um exemplo de tudo isto, o mundo não perderá nenhum um pouco destas qualidades, pois terás imitadores aqui. Serás lembrado por tudo que fabricaste, no sentido de edificar. Como tu mesmo escreveste no Orkut, aproveitaste a vida, sabendo que ela era curta, e foi feliz. Por isso insisto na palavra vida. Os que tiveram a felicidade de te conhecer, sentem-se um pouco produtos desta fábrica, chamada Fabrício.