terça-feira, junho 30, 2009

O crack e os assaltos

Agora não me sinto mais tranquilo nem no meu próprio bairro. O lugar onde moro já era conhecido pelo tráfico existente nas proximidades. Negaram-me muitas vezes entregas de gás ou pizza, pois tinham medo de serem assaltados, o que dificilmente acontecia. E eu sempre dizia aos meus conhecidos para não se preocuparem, o pessoal não era de assalto. Há anos morando no bairro, nunca pensei que ia passar por essa situação.

Sexta-feira, 5h e 50min, saindo para o trabalho. Mas por que um professor tem que sair tão cedo, pode alguém perguntar, já que as aulas começam geralmente às 7h e 30min? Acontece que dou aulas não em Santa Cruz, mas em Venâncio Aires, e preciso pegar um ônibus no centro às 6h e 20min. Como não há urbano mais cedo perto de casa, cumpro um trajeto de meia hora a pé até a parada. Além disso, mais 1 hora de ônibus rumo à Capital do Chimarrão. Dificuldades, enfim, de quem está começando na carreira (se bem que já são 5 anos nessa rotina).

No último ano, comecei a passar por um grupo de pessoas que ficam madrugadas a dentro fumando crack, esta droga tão terrível. Ela os afeta de tal forma que perdem até a noção do tempo, pois uma vez escutei uma mulher do grupo dizendo para os outros “deve ser umas 4 horas, né?” Nunca tive problemas com eles, até por que conheço alguns.

Pois dia 26 as coisas foram diferentes, para combinar com uma semana ruim: gripe forte (desconfiei que fosse a tal Gripe A), meu time perdeu na Recopa e meu ídolo de infância morreu. Dessa vez, só havia três pessoas naquele grupo: dois homens e uma mulher. Ao me verem, os dois homens saem caminhando na minha frente e eu, com mais pressa, passo por eles. Quando já estou alguns metros na frente, me chamam pedindo 1 real. Disse que não tinha, pois o meu dinheiro estava “contadinho” para a passagem de ônibus. “Vamo vê aí!”, retruca um deles, enquanto levanta a camisa, querendo mostrar uma arma, a qual não vi. Tirei a carteira, com medo que levassem meus documentos, abri-a e contei as poucas notas em poder deste pobre professor. Disse-lhes: “Tenho 8 ‘pila’ e gasto 4 pra ir, mais 4 pra voltar. Pelo menos me deixem o da ida, depois dou um jeito” Falei que conhecia o pessoal dali, e acho, inclusive, que eles próprios sabiam quem eu era, pois taparam o rosto com seus casacos. Chegaram a afirmas serem de outro bairro.

Por mais incrível que possa parecer, o ladrão disse: “Tu foi legal, vou te deixar parte do dinheiro”. Quando já iam embora, fui conferir a sobra. No nervosismo, acabei dando 6 reais para eles. Obriguei-me a pedir de volta mais 2 reais. E, pasmem, eles devolveram!

Refletindo sobre esse insólito episódio, acredito que o objetivo deles era simplesmente conseguir qualquer quantia para comprar crack. Muitas pessoas passam por essa mesma situação e outras chegam a ter suas casas “limpas” por delinquentes que muitas vezes são parentes das vítimas. Famílias estão sendo destruídas e, principalmente, vidas estão sendo perdidas por este vício. Até quando?

sábado, junho 27, 2009

Escutando...

Will Eisner


Outra boa pedida na ZH de hoje está no Caderno Cultura, abordando a proibição de 3 obras do mestre dos quadrinhos Will Eisner nas escolas estaduais. Nesta semana, vou tirar uma cópia da carta da SEC enviada às escolas e pretendo escrever sobre um dos maiores casos de burrice dos nosso governantes.

Aliás, eu prometo escrever sobre algumas coisas por aqui e acabo não o fazendo. Como ninguém cobra...

Hoje à tarde, se tiver mais tempo, elaborarei uma crônica sobre um assalto que sofri na manhã de ontem.

A ZH está muito boa hoje, não pelas mudanças do aspecto gráfico, mas principalmente pelas colunas. Além da coluna do Lerina, gostei muito da crônica da Cláudia Laitano. Ele aborda um fato que chocou todo mundo, a morte da jovem Neda Agha-Soltan, em Teerã e cita o filme "Spartacus", do Kubrick, que revi esta semana.

Somos todos Neda

Às vezes – poucas vezes –, a ignorância pode ser uma vantagem. Assistir a um clássico em completa inocência do seu conteúdo e ser surpreendido por uma cena sobre a qual várias gerações de críticos já escreveram é um exemplo. Minha teoria é a seguinte: apenas o
espectador desavisado, quase ignorante, é capaz de desfrutar em toda sua plenitude um filme já exaustivamente citado, analisado, interpretado. Saber menos, nesses casos, é sentir mais. Aconteceu comigo, anos atrás, assistindo a Spartacus (1960), de Stanley Kubrick, e topando inocentemente com uma das cenas mais impactantes da história do cinema.

Ao longo das últimas décadas, a clássica sequência em que centenas de escravos, para
proteger a identidade do herói vivido por Kirk Douglas, proclamam: “Eu sou Spartacus” foi citada de inúmeras formas – em filmes, programas de TV e até em comerciais, fazendo rir ou fazendo pensar. Mas qual o segredo dessa cena? Por que até hoje ela impressiona e continua
sendo reproduzida em diferentes contextos? O que me ocorre é que talvez essa coragem dos escravos que se levantam para proteger o líder ameaçado seja de uma dimensão mais obviamente humana do que a coragem dos grandes heróis, o que a torna mais próxima da compreensão da maioria de nós. Não estamos falando aqui do heroísmo de Davi diante de Golias, de Daniel na cova dos leões ou mesmo de Chico Mendes enfrentando os seringueiros. O líder que arrisca sua vida pelo bem comum merece nossa admiração e respeito, mas o
pequeno gesto grandioso do indivíduo que se apoia em outros pequenos heroísmos para levar adiante uma causa desperta nossa mais profunda empatia, pois este é um lugar no qual, sem muito esforço, conseguimos nos colocar. Pessoas unidas por uma causa comum são sempre
maiores do que elas mesmas. Uma torcida é maior que um time, uma família é maior que seus membros. E quando a causa exige alguma dose de coragem pessoal, a ação coletiva transforma a fragilidade individual na força de um grupo. Se a história dependesse apenas de líderes e heróis, estaríamos ferrados. A maioria das pessoas nasceu para fazer parte da multidão, não para ser Spartacus.

Horas depois da execução da jovem Neda Agha-Soltan em uma rua de Teerã, durante um protesto no último sábado contra o resultado das eleições iranianas, cartazes, camisetas e blogs começaram a estampar os slogans “Eu sou Neda” ou “Somos Todos Neda”. Neda, 27 anos, era funcionária de uma agência de viagem, aprendeu turco para trabalhar como guia, estudava canto e não era particularmente politizada – ainda que, como boa parte dos
iranianos, estivesse indignada com o resultado das eleições. Segundo o relato de amigos e familiares, Neda não era uma liderança nata ou sequer uma pessoa de temperamento exaltado. Era uma jovem voltando de uma aula de canto, talvez dotada apenas daquela coragem discreta de quem não nasceu para ser herói.

Por um lance de acaso associado à tecnologia, alguém com um celular registrou os últim
os minutos de sua vida – o corpo ensanguentado, os olhos desafiadoramente abertos. O vídeo foi visto por milhões de pessoas, e Neda acabou se transformando em um Spartacus
involuntário – o rosto bonito e sereno de um movimento que, mesmo antes de sua morte, já contava com a simpatia de boa parte do mundo.

A história, violenta e imprevisível como uma bala perdida, apanhou Neda no meio rua, depois de uma aula de canto – e todos nós ficamos feridos.

O REI DO POP FALA PELA MÚSICA

Coluna de Roger Lerina na ZH de hoje:

Musicalmente, Michael Jackson é daqueles artistas cuja trajetória não cabe em um único CD de grandes sucessos. Desde criança, cantando com seus irmãos no Jackson 5, ele se acostumou a enfileirar hits de rádio e TV – I Want You Back, ABC e I’ll Be There foram só alguns deles.

Quando saiu em carreira solo, Michael só aumentou a lista de canções famosas – quase todas reforçadas por videoclipes de impacto. Compositor – sozinho ou em parcerias – da maior parte do repertório de seus discos, ele deixou em sua obra algumas das pistas para sua vida conturbada. Confira ao lado alguns exemplos.

Don’t Stop ‘Til You Get Enough – Primeiro single do primeiro disco solo da fase “adulta” de Michael, Off the Wall (1979), a canção de ritmo frenético parece antecipar o que viria adiante na trajetória do cantor. A letra sugere excitação sexual (“Chegue mais perto do meu corpo agora / Apenas me ame até não saber mais como”), mas o refrão abarca também a ambição do artista que tornou-se Rei do Pop nos anos seguintes: “Mantenha a força, não pare / Não pare até ficar satisfeito”.

Thriller – Foi a revolução jacksoniana nos domínios da MTV. Lançado em 1983 para ilustrar a faixa-título do grande disco do ano anterior, Thriller não era um simples videoclipe, mas um curta-metragem de 13 minutos, dirigido pelo mesmo John Landis de Um Lobisomem Americano em Londres (1981). Os zumbis dançarinos e o clima de filme de terror combinam com a atmosfera sombria da letra – e a figura de Michael se transformando em lobisomem parece, agora, profética: o artista dominado pelo monstro.

Billie Jean – Outro grande hit, agora sobre um problema bastante comum para os famosos: as acusações de paternidade (“Ela diz que eu sou o cara / Mas o guri não é meu filho”, insiste o refrão). O caso de Michael foi real: uma fã um tanto maluca declarou que ele era o pai de um dos filhos dela – o detalhe é que as crianças eram gêmeas. Com uma das melhores linhas de baixo da história do pop, a canção quase ficou fora do disco Thriller – o produtor Quincy Jones não gostava muito dela.

Black or White – Michael sempre atribuiu sua gradativa despigmentação ao vitiligo, e não a uma recusa da própria negritude. O discurso é reforçado em Black or White, que fala de autoestima e igualdade (“Eu tive de dizer a eles / Que sou o melhor / E eu falei de igualdade / E isso é verdade / Esteja você errado / Ou certo / Mas se você está pensando na minha garota / Não interessa se você é negro ou branco”). O clipe mostra Michael dançando entre zulus, índios e cossacos e conta também com o então ator-mirim Macaulay Culkin.

Man in the Mirror – Artista popular no mundo todo, milionário excêntrico, sempre às voltas com a própria aparência, Michael Jackson também teve seus lampejos de generosidade. Nesta balada do disco Bad (1987), por exemplo, ele canta sobre mudar o mundo, começando pelo homem no espelho a sua frente: “Fui uma vítima de um tipo egoísta de amor / Agora percebo / Que há pessoas sem um lar, sem um níquel / Poderia ser eu, fingindo que eles não estão sozinhos?”).

Unbreakable – Michael Jackson chegou a seu último disco de inéditas, Invincible (2001), como um artista contestado, àquela altura mais lembrado por seus percalços e excentricidades fora dos palcos. Mas responde feroz em Unbreakable (“indestrutível”): “Parece que agora você sabe / Quando e como eu fico mal / E, com tudo o que passei, ainda estou por aí (...) / Porque você não vê que nunca vai me atingir / Porque eu não vou deixar, eu sou demais para você”.


quinta-feira, junho 25, 2009

Music and Me

Morre Michael Jackson

Eu tinha meus 3, 4 anos quando MJ estorou com o álbum Thriller. Como toda criança que cresceu assistindo à televisão, eu tentava imitar seu famoso "moonwalker" e cantava no "embromation" suas músicas. Cresci acompanhando sua carreira, seus altos e baixos na vida pessoal, enfim. Não posso dizer que sou um fã dele. Não sou de colecionar coisas como reportagens de jornal, etc. Mas tenhos todos os seus discos, inclusive com os Jackson 5. Comecei a gostar da música negra a partir dele. Senti hoje que perdi uma pessoa próxima de mim. Não imaginava que teria uma reação como essa.
Infelizmente as novas gerações só o conhecem pelos escândalos envolvendo seu nome. Poucos sabem que ele sofreu um bocado nas mãos do seu pai. Todos os seus irmãos apanhavam muito. Lembro com comoção o seriado que passou na Globo sobre os Jackson. Me fica na lembrança aquele menino, com aquele sorriso, que fez da música sua companheira, que influenciou os jovens no modo de dançar, que realizou clips que eram obras de cinema. RIP, MJ.

MJ

Sites noticiam que Michael Jackson teve uma parada cardíaca e está em coma. Quem acompanha há mais tempo o blog sabe que desde minha infância sou fã de MJ, não tanto atualmente, claro, mas sempre admirei sua música. Ano passado, comemorando seus 50 anos, fiz várias postagens abordando a história do Rei do Pop desde os tempos do Jackson 5. Só foram apagadas devido a links para downloads dos discos.
Torço para que saia dessa.
Neste vídeo, uma das mais belas músicas interpretadas por ele.

segunda-feira, junho 22, 2009

domingo, junho 21, 2009

Redações do vestibular

Estive o dia todo trabalhando na avaliação das redações do vestibular da Unisc. Foi minha segunda participação na equipe comandada pelo Professor Elenor. Estou cansado pra... E ainda amanhã tenho entrega de boletins! Mas ainda nesta semana vou falar sobre como futuros estudantes universitários estão escrevendo. Pricipalmente de Medicina, que teve 40 candidatos por vaga. Vou descansar o cabeção, que está estourando!

sábado, junho 20, 2009

sábado, junho 13, 2009

O processo

http://www.4shared.com/file/87527390/23e65834/Franz_Kafka_-_O_Processo-rev.html

Adaptação realizada pelo gênio Orson Welles, com Anthony Perkins no papel de Joseph K. Disponível no blog O sétimo projetor.
http://setimoprojetor.blogspot.com/2009/02/le-proces-orson-welles-1962.html

Resenha que escrevi para o site The graverobber:

O mundo é kafkiano

"A partir de certo ponto não há mais qualquer possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar."

Kafka, Aforismos

Costumo dizer que minha religião é a Literatura. Sou devoto de São Machado de Assis e São Julio Cortázar. Quem seria Jesus? Franz Kafka, claro. Assim como o homem de Nazaré, Kafka teve problemas com seu pai (“por que me abandonaste?”, perguntou Cristo na cruz), não casou, nem teve filhos (por mais que tentem provar que Jesus se envolveu com Maria Madalena) e só teve reconhecimento depois de morto. Além disso, podemos dizer que ambos só são o que são graças à traição de um amigo. Não quero polemizar sobre o evangelho de Judas, tão atacado por conservadores da igreja, mas se o Iscariotes não tivesse dado o beijo delator, provavelmente não conheceríamos hoje o cristianismo e os crucifixos não estariam decorando paredes de milhões de casas em todo o mundo (aliás, é a única religião que tem como símbolo um instrumento de tortura). O judas de Kafka foi Max Brod, a quem foi confiada a missão de queimar todos os escritos que não foram publicados em vida pelo escritor tcheco. Se tivesse cumprido o que Kafka pedira, não conheceríamos boa parte de seus contos e os romances, principalmente O Processo, que acaba de ser lançado pela editora L&PM, na coleção Pocket, em competente tradução de Marcelo Backes.

Joseph K. é detido certa manhã sem saber o porquê. Assim como Gregor Samsa, que depois de acordar viu que se transformara em um inseto, no texto mais famoso do autor, A metamorfose, o absurdo da nossa existência pode se manifestar de uma hora para outra. Nesse momento precisamos enfrentar o que não se pode enfrentar: Samsa, a família; Joseph K., a burocracia da justiça. O anti-herói do romance tenta se defender das acusações (não ficam bem claras quais são), assim como não encontra as pessoas certas que podem dar solução para o caso. Percorre um estranho tribunal com portas que dão a lugares imprevisíveis e corredores com tetos baixíssimos, cuja descrição causa uma sensação de angústia no leitor.

Várias interpretações se podem dar à história do bancário Joseph K. Em um ensaio publicado em O mito de Sísifo, Albert Camus afirma que “a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler. Seus desenlaces, ou suas faltas de desenlace, sugerem explicações, mas que não são reveladas com clareza e exigem, para nos parecerem fundadas, que a história seja relida sob um novo ângulo.” O crítico Erich Heller, por sua vez, é categórico: “Existe apenas um meio de evitar o trabalho de interpretar O processo: não ler o livro”, pois “a compulsão para interpretar é insuportável e tão grande como, para a maioria dos leitores, a dificuldade de abandonar a leitura: trata-se de pressões idênticas.” Já um dos maiores críticos contemporâneos, George Steiner, é categórico: “a idéia de que possa haver algo de novo a dizer sobre O processo de Franz Kafka é implausível”.

Vivemos em um mundo cristão e em um mundo kafkiano. Em ambos, a culpa atormenta, fere, impede que tenhamos liberdade. Se não cumprimos as regras, sofremos logo um julgamento, muitas vezes incompreensível como o sofrido por Joseph K. Será que nossa vida, tão absurda como a ficção de Kafka, não foi escrita por ele?



segunda-feira, junho 08, 2009


"Creio que o principal objetivo da educação deve ser encorajar os jovens a duvidarem de tudo aquilo que se considera estabelecido." Bertrand Russell

Um cruzamento

Eu tenho um animal singular, metade gatinho, metade cordeiro. É uma parte da herança do meu pai, mas que se desenvolveu somente na minha época. Antigamente ele era muito mais cordeiro do que gatinho. Contudo ele tem agora de ambos, partes iguais. Do gato cabeça e garras; do cordeiro tamanho e aspecto; de ambos os olhos, que só inquietos e selvagens;o pêlo que é macio e rente ao corpo e os movimentos que são não só como saltos, mas também como andar sorrateiro. Na luz do sol sobre o peitoril da janela ele se faz roliço e ronrona e pelo campo ele corre como louco, sendo difícil agarrá-lo. Diante de gatos ele foge, cordeiros ele quer atacar. Em noite de luar, a calha do telhado é o caminho que mais lhe agrada. Ele não sabe miar, e tem aversão perante ratos. Ao lado do galinheiro ele fica horas a espreita, porém nunca aproveitou uma oportunidade de assassinato.
Eu o alimento com leite açucarado, que é bem aceito por ele. Em longos tragos ele o absorve por cima de seus dentes de rapina. Naturalmente ele é um grande espetáculo para crianças. Aos domingos na parte da manhã é hora de visita.
Eu fico com o animalzinho no colo e as crianças da vizinhança inteira se colocam a minha volta. Então são feitas as perguntas mais incríveis e que ninguém consegue responder: por que só existe um animal desse tipo; por que justamente eu o tenho; se já existiu antes dele um animal semelhante e como ele será depois de sua morte, se ele se sente solitário; porque ele não tem nenhuma cria, como ele se chama, etc.
Eu não me dou o incômodo de responder, satisfaço-me sem maiores explicações em mostrar o que eu tenho.
Às vezes as crianças trazem consigo gatos. Uma vez elas até trouxeram dois cordeiros; todavia, contra todas as expectativas das crianças, não houve nenhuma cena de reconhecimento. Os animais se observavam calmamente um ao outro com olhos de animal e aceitavam evidentemente sua existência como realidade divina.
No meu colo o animal não conhece o medo nem o desejo de perseguição. Aconchegando-se a mim, ele se sente o melhor possível. Prende-se à família que o criou. Isso não deve ser uma fidelidade extraordinária, mas sim o legítimo instinto de um animal que tem na terra inúmeros aparentados, mas talvez nenhum parente de sangue. Por isso a proteção que ele encontrou nessa casa para ele é sagrada.
Às vezes eu tenho que rir quando ele fareja à minha volta, passa se espremendo entre as pernas, de maneira alguma ele se separa de mim. Com isso, não basta ele ser cordeiro e gato, quer também ser um cachorro.
Uma vez, como pode acontecer com qualquer pessoa, meus negócios iam mal, não encontrando mais solução, quis abandonar tudo, voltei para casa, sentei-me na cadeira de balanço com o animal no colo. Olhando casualmente para ele, vi lágrimas caindo dos seus enormes pelos do bigode. Eram minhas lágrimas ou dele? Será que esse gato com alama de cordeiro teria ainda ambição de homem?
Eu não herdei muito de meu pai, mas essa herança é de todo considerável. Ele tem inquietações de ambos, do gato e do corteiro, por mais diferentes que eles sejam. Por isso ele se sente tão incomodado na sua pele.

Às vezes ele pula sobre a poltrona ao meu lado, se apóia com as patas dianteiras no meu ombro e fica com a boca perto de minha orelha. É como se ele falasse algo para mim, e de fato ele se inclina para frente olhando meu rosto para observar a impressão que esta notícia me causou. Para agradá-lo eu fijo que o entendi, balançando a cabeça. Então ele pula no chão e dança ao redor. Talvez a faca do açougueiro fosse para este animal um alívio que eu, no entanto, tenho de negar-lhe por ser uma herança. Por isso ele tem que esperar até que a respiração lhe falte por si própria, mesmo que ele me olhe às vezes com olhar de humano entendimento que exige uma ação razoável.

Franz Kafka

Tradução de Regiane Affonso Sales e Denise Rodrigues, discentes do curso de Alemão da Faculdade de Letras da UFRJ