domingo, janeiro 31, 2010

Rádio Web Underground Lágrima Psicodélica

Para quem gosta do bom e velho Rock'n'roll, coloquei o player da rádio web do blog Lágrima Psicodélica. Som de primeira que não toca nas rádios convencionais. Visitando o blog, dá pra saber a programação, que é especial no fim de semana. Nos dias 13 e 14 de fevereiro, durante o carnaval, haverá o "1º Festival Virtual", com grandes bandas clássicas do rock.

Quem não quiser escutar a rádio, é só clicar no stop do player (putz, quantos estrangeirismos!) e continuar desfrutando meus textos sem som nenhum.

sábado, janeiro 30, 2010

BBB lembra Zé Ramalho, Pitty e Iron Maiden


por Cassionei Niches Petry
“Povo marcado, povo feliz”. É o verso do poeta que me vem à mente quando ouço a maioria da população brasileira dando palpites sobre o reality show da Globo. Vocês fazem parte dessa massa que assiste ao BBB? Eu não, mas não consigo me livrar de ouvir ou ler e, por consequência, escrever sobre o assunto. Dos programas de rádio que escuto, aos jornais que leio, além dos diversos sites da internet, em tudo há alguma informação sobre o programa. Não sei os nomes de quem participa, mas sei alguma coisa sobre eles. Há até uma colega da área de Letras. Como gado, as pessoas foram marcadas pelo símbolo da Vênus Prateada. Não é à toa que ela tem esse epíteto, pois a Vênus, ou Afrodite na mitologia grega, era a deusa da beleza, do amor e da sensualidade (daí surgiram palavras como camisa de vênus e afrodisíaco). A Globo seduz com suas belas imagens, mostrando mulheres igualmente belas, revelando o que mais seduz em seus corpos. Por isso chamei o BBB, em outra crônica, de Bobagens, Besteiras e Bundas.
A música de Zé Ramalho se chama “Admirável gado novo”, inspirada no romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, publicado em 1932. Nesse romance, em um tempo futuro, as pessoas nascem em laboratórios, tendo seus genes condicionados para assumirem determinadas funções na sociedade. Depois, sofrem também um condicionamento psicológico. Isso tudo para que cada “cidadão” se torne aquilo que os governantes querem que ele seja. Todas as suas ações serão de acordo com as regras já estipuladas, desde as compras, o trabalho, passando pelos relacionamentos, o tipo de divertimento e até a droga que deve ser usada. Mesmo controladas, as pessoas se sentem felizes, pois nunca são ensinadas a ter pensamento próprio. Fazer parte do rebanho, ser uma ovelhinha feliz, pronta para ser devorada pelo lobo, é com isso que as pessoas estão acostumadas. “Lá fora faz um tempo confortável/A vigilância cuida do normal”, diz um dos versos da música de Zé Ramalho.
O livro também inspirou a cantora Pitty a compor a música “Admirável chip novo”, dessa vez comparando as pessoas a robôs programados para pensar e consumir de acordo com o sistema: “Pense, fale, compre, beba/Leia, vote, não se esqueça/Use, seja, ouça, diga.../Não senhor, Sim senhor/Não senhor, Sim senhor”. Quando um robô descobre que não era humano (“Até achava que aqui batia um coração/Nada é orgânico, é tudo programado/E eu achando que tinha me libertado”), logo alguém vem para reinstalar a programação e a ameaça à sociedade é evitada, tudo volta ao normal. Quando roda a vinheta do Big Brother, as pessoas, como que programadas pelo sinal, não correm para a frente da TV?
Como escreveu o filósofo Nietzsche, nós, seres humanos, possuímos “o instinto do animal de rebanho”. A felicidade para nós “aparece sob a forma de estupefação, de sonho, de repouso, de paz, numa palavra, sob a forma passiva”, como escreveu Waly Salomão. No entanto, estamos deixando justamente a condição de humanos quando nos deixamos ser levados para ser abatidos, condicionados a agir conforme o sistema (seja o de televisão ou o dos governos) ou programados como robôs para servir. Como canta a banda Iron Maiden, em outra música inspirada pelo romance de Aldous Huxley: Você é planejado e está condenado/Nesse admirável mundo novo”.

***
A trilha sonora para a produção da crônica foi composta, como não podia deixar de ser, justamente pelos álbuns em que estão as músicas citadas:


sexta-feira, janeiro 29, 2010

Meu texto na Gazeta do Sul de hoje


A resenha sobre o romance de Altair Martins saiu hoje no jornal Gazeta do Sul no caderno Mix:

A escolha do ponto de vista é importantíssima para o desenvolvimento de qualquer narrativa, seja um filme ou uma história em quadrinhos, por exemplo. Nas narrativas literárias muito mais ainda, pois pode revelar ou esconder fatos, instigando o leitor e, principalmente, prendendo-o até a última página. Em Dom Casmurro, um dos mais importantes romances da literatura brasileira, Machado de Assis opta pelo narrador em 1ª pessoa, pois quem conta a história é Bentinho, o protagonista. Devido a isso, ficamos sabendo dos fatos só pelo ponto de vista dele e, consequentemente, não sabemos se Capitu realmente o traiu ou não com seu amigo Escobar, apesar de ele afirmar isso o tempo todo, inclusive achando seu filho idêntico ao outro. Não poderia estar imaginando coisas? É o conhecido “enigma de Capitu”, que até hoje provoca debates nos meios literários.
Altair Martins escreveu A parede no escuro (Record, 253 páginas) para tentar entender os mecanismos do narrador, servindo até como base para sua dissertação de mestrado na UFRGS sobre o tema. Para tanto, utiliza vários pontos de vista ao contar a história de Adorno, padeiro que mora em uma cidade próxima de Porto Alegre, que é atropelado em uma manhã chuvosa. O acidente é só o ponto de encontro entre as vidas que vão se cruzar. Logo vem à mente do leitor com mais bagagem literária romances como Caminhos cruzados, de Érico Veríssimo. Mas a história do consagrado escritor é toda em 3ª pessoa, focando diferentes personagens e se espraiando em capítulos longos. O mais próximo do romance de Altair seria Enquanto agonizo, de William Faulkner, em que cada capítulo é narrado por uma personagem diferente. No romance de estreia de Altair Martins, os personagens contam os fatos na 1ª pessoa, porém as mudanças de narrativa ocorrem na mesma página de forma abrupta, requerendo um leitor atento às vozes de cada personagem, cada uma com características peculiares, tiques de falas ou repetições de determinadas expressões, relatando uma mesma cena em perspectivas diferentes.
Além da fatalidade ocorrida com o padeiro, outras questões humanas são abordadas na história. Sentimos as angústias religiosas de sua mulher, Onilda, sempre invocando a Jesus Cristo. A tentativa da filha, Maria do Céu, de se acostumar a viver fora de casa e encarar sua escolha sexual. Outros personagens acabam se cruzando, mas o mais importante é Emanuel, um típico professor de Ensino Médio em uma escola particular, vivendo os problemas da profissão, as relações conflituosas com seus alunos e os pais deles. Acompanhamos sua angústia por um ato grave que cometeu. Ele, que era tão preocupado pela ordem das coisas (tinha mania de arrumar tudo que estava fora de lugar), acaba tendo que se deparar com a culpa dostoievskiana pelo ato ilícito. 
Não é um romance que facilita a leitura. Aliás, Altair Martins nunca quis ser um escritor fácil, como já demonstravam seus livros de contos Como se moesse ferro e Se choverem pássaros. Não fossem essas reflexões existenciais dos personagens, o romance se perderia no emaranhado das técnicas narrativas propostas pelo autor, pois a boa literatura não é apenas o trabalho elaborado da palavra, mas também uma reflexão sobre os dramas humanos. A sensação ao terminar a leitura? Parece que fui atropelado ou dei de cara em uma parede no escuro.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Mais sobre o texto "O terremoto no Haiti..."

Legal a repercussão que o texto "O terremoto no Haiti e as explicações religiosas" teve. Primeiro, foi o mais acessado na minha página do Recanto das Letras. Depois, quando saiu na Gazeta do Sul, alguns conhecidos meus disseram que leram e gostaram, além de ter recebido um e-mail, nesse caso pouco elogioso. E agora, quando saiu no Bule Voador, vi que ele teve bastante visitas, além de ter sido linkado em vários twiters (e eu ainda sou contra essa ferramenta!). Dá pra ver em quais nesse link.
Lógico que escrevo para que pessoas leiam, por isso gosto de comentários, só não posso reclamar que recebo pouco, porque quase não comento em outros blogs. Não ganho nada, meu blog não é patrocinado e minhas colaborações, como as da Gazeta do Sul, não são remuneradas. Mas mesmo assim fico feliz ao saber que pessoas em todo o Brasil tiraram um pouco de seu tempo para, pelo menos, dar uma olhada rápida no que escrevo.

Plágio em novela? Satanismo na música?


Em alguns fóruns na internet está sendo discutido se o computador Frank na novela das 7 da Globo é plagio do computador Hal, do filme 2001: uma odisséia no espaço.

Acredito que o plágio acontece quando alguém se diz criador de determinada ideia que é de outra pessoa. Exemplo no campo da fantasia: Neil Gaiman se utiliza de várias personagens da literatura e admite isso, inclusive o popular personagem do aprendiz de feiticeiro. Já J. K. Rowling escreve uma história parecidíssima com Tim Hunter do próprio Gaiman, mas não admite a influência. Aí é plágio, apesar do acordo que depois fizeram debaixo dos panos, já que Gaiman não era tão conhecido na época. Escrevi sobre isso neste post.

No caso da novela, é escancarada a influência, não plágio, já que colocaram até o dublador do filme para fazer a voz do Frank. Aí há outra influência, pois a novela iria se chamar "Bom dia, Frankenstein", clara referência ao personagem de Mary Shelley.

Agora, só não posso dizer o mesmo da "robô" do reality show Solitários do SBT.

Falando ainda em novela (não, não virei noveleiro, mas gosto de filosofar sobre o pop), também circulou que a música “Pelo avesso”, dos Titãs, tema de abertura da novela das 6, seria SATÂNICA. O Sérgio Britto, autor da letra, fala sobre isso no seu blog, explicando o que ela significa:

Quando compus a canção a intenção inicial, a grosso modo, era falar de "justiça social" sob uma ótica torta, enviesada: como se só pudéssemos aspirar à igualdade na miséria e na indigência .

Muito me surpreendeu ( na verdade, até diverte ) ler e ouvir comentários sobre "o perigo que esta música representa para a familia brasileira" e "a mensagem oculta que ela encerra". Para alguns, por incrível que pareça, trata-se de uma música, satânica! Loucura, não?

Parece até aquela história de gente que confunde o ator com o personagem...

O tema da canção é bem claro. Só não entende quem não quer.”

Segue a letra da música, do álbum Como estão vocês, de 2003.

Pelo avesso (Sérgio Britto)

Vamos deixar que entrem
Que invadam o seu lar
Pedir que quebrem
Que acabem com seu bem-estar
Vamos pedir que quebrem
O que eu construi pra mim
Que joguem lixo
Que destruam o meu jardim

Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação - a falta de futuro

Vamos deixar que entrem
Que invadam o meu quintal
Que sujem a casa
E rasguem as roupas no varal
Vamos pedir que quebrem
Sua sala de jantar
Que quebrem os móveis
E queimem tudo o que restar

Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação - a falta de futuro

Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
O mesmo desespero

Vamos deixar que entrem
Como uma interrogação
Até os inocentes
Aqui já não tem perdão
Vamos pedir que quebrem
Destruir qualquer certeza
Até o que é mesmo belo
Aqui já não tem beleza

Vamos deixar que entrem
E fiquem com o que você tem
Até o que é de todos
Já não é de ninguém
Pedir que quebrem
Mendigar pelas esquinas
Até o que é novo
Já esta em ruinas
Vamos deixar que entrem
Nada é como você pensa
Pedir que sentem
Aos que entraram sem licença
Pedir que quebrem
Que derrubem o meu muro
Atrás de tantas cercas
Quem é que pode estar seguro?

Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação - a falta de futuro

Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
O mesmo desespero

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Meu texto no Bule Voador

Meu texto "O terremoto e as explicações religiosas" saiu hoje no Bule Voador, blog da LiHS – Liga Humanista Secular do Brasil
http://bulevoador.haaan.com/2010/01/27/o-terremoto-no-haiti-e-as-explicacoes-religiosas/

Quem vai salvar o mundo?


Ouvindo o último CD dos Titãs, chamado Sacos Plásticos. Destaque para "Quem vai salvar o mundo", letra de Sérgio Britto.


Quem vai salvar o mundo de você?
Quem vai salvar você do mundo?

Quem vai livrar o mundo
De tantas certezas
Se nem a própria vida já não
Nos causa surpresa

Quem vai livrar o mundo
De tanto dar volta?
- Nem rumo certo ou norte
Por linhas tortas

Quem vai livrar o mundo
De ser e ser tantos
Se nem a própria morte já não
Nos causa espanto

Quem vai livrar o mundo
Das dores do mundo?
- Nem curso em linha reta
Nem passos sem rumo

Se não nos vemos nos outros
Se em nós os outros não se vêem
Se a vida é para tão poucos
Se a vida é para mais ninguém

Para escutá-la, clique aqui:

http://www.titas.net/discografia/player.php?id_disco=17&faixa_id=253&faixa_numero=11

terça-feira, janeiro 26, 2010

Impacto no escuro



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por Cassionei Niches Petry
A escolha do ponto de vista é importantíssima para o desenvolvimento de qualquer narrativa, seja um filme ou uma história em quadrinhos, por exemplo. Nas narrativas literárias muito mais ainda, pois pode revelar ou esconder fatos, instigando o leitor e, principalmente, prendendo-o até a última página. Em Dom Casmurro, um dos mais importantes romances da literatura brasileira, Machado de Assis opta pelo narrador em 1ª pessoa, pois quem conta a história é Bentinho, o protagonista. Devido a isso, ficamos sabendo dos fatos só pelo ponto de vista dele e, consequentemente, não sabemos se Capitu realmente o traiu ou não com seu amigo Escobar, apesar de ele afirmar isso o tempo todo, inclusive achando seu filho idêntico ao outro. Não poderia estar imaginando coisas? É o conhecido “enigma de Capitu”, que até hoje provoca debates nos meios literários.
Altair Martins escreveu A parede no escuro (Record, 253 páginas) para tentar entender os mecanismos do narrador, servindo até como base para sua dissertação de mestrado na UFRGS sobre o tema. Para tanto, utiliza vários pontos de vista ao contar a história de Adorno, padeiro que mora em uma cidade próxima de Porto Alegre, que é atropelado em uma manhã chuvosa. O acidente é só o ponto de encontro entre as vidas que vão se cruzar. Logo vem à mente do leitor com mais bagagem literária romances como Caminhos cruzados, de Érico Veríssimo. Mas a história do consagrado escritor é toda em 3ª pessoa, focando diferentes personagens e se espraiando em capítulos longos. O mais próximo do romance de Altair seria Enquanto agonizo, de William Faulkner, em que cada capítulo é narrado por uma personagem diferente. No romance de estreia de Altair Martins, os personagens contam os fatos na 1ª pessoa, porém as mudanças de narrativa ocorrem na mesma página de forma abrupta, requerendo um leitor atento às vozes de cada personagem, cada uma com características peculiares, tiques de falas ou repetições de determinadas expressões, relatando uma mesma cena em perspectivas diferentes.
Além da fatalidade ocorrida com o padeiro, outras questões humanas são abordadas na história. Sentimos as angústias religiosas de sua mulher, Onilda, sempre invocando a Jesus Cristo. A tentativa da filha, Maria do Céu, de se acostumar a viver fora de casa e encarar sua escolha sexual. Outros personagens acabam se cruzando, mas o mais importante é Emanuel, um típico professor de Ensino Médio em uma escola particular, vivendo os problemas da profissão, as relações conflituosas com seus alunos e os pais deles. Acompanhamos sua angústia por um ato grave que cometeu. Ele, que era tão preocupado pela ordem das coisas (tinha mania de arrumar tudo que estava fora de lugar), acaba tendo que se deparar com a culpa dostoievskiana pelo ato ilícito.
Não é um romance que facilita a leitura. Aliás, Altair Martins nunca quis ser um escritor fácil, como já demonstravam seus livros de contos Como se moesse ferro e Se choverem pássaros. Não fossem essas reflexões existenciais dos personagens, o romance se perderia no emaranhado das técnicas narrativas propostas pelo autor, pois a boa literatura não é apenas o trabalho elaborado da palavra, mas também uma reflexão sobre os dramas humanos. A sensação ao terminar a leitura? Parece que fui atropelado ou dei de cara em uma parede no escuro.

domingo, janeiro 24, 2010

Repostando um conto

Eu iria escrever que não estou postando aqui no blog aqueles que eu considero os meus melhores (ou menos piores) contos, pois os reservo para um futuro livro. Porém, não lembrei que eu havia postado o conto “Feliz aniversário” no ano passado. Não que eu o considere um dos melhores, mas o conto me proporcionou um dos raros momentos de reconhecimento (se é que o mereço) quando foi escolhido pelo professor Marco Antônio Vieira para ser trabalhado na cadeira de Estilística do Curso de Letras da Unisc (Universidade de Santa Cruz do Sul), em 2002 ou 2003 (depois confirmo a data). Um professor doutor, com uma bagagem de leituras enorme, além de ser de Minas Gerais, terra dos melhores contistas do país, ter lido e compreendido o que eu queria passar foi um orgulho muito grande para quem estava começando. Ainda outro professor já havia sugerido uma crônica minha (Pascoalina, publicada aqui) para ser trabalhada na cadeira de Literatura Brasileira II e algumas colegas fizeram uma representação teatral do texto e depois uma análise. Mas a crônica ainda era muito prematura. Já o conto, eu penei trabalhando nele para ter o efeito que queria dar. E na aula em que o professor trabalhou o texto, ele demonstrou o que propus.

Para quem não leu, publico o conto de novo.


Feliz Aniversário

por Cassionei Niches Petry

Até amanhã, Cláudia. Até amanhã, Sr. Vítor. Está indo mais cedo hoje? Pois é, tenho que comprar um presente pra minha filha. É o aniversário dela, sabe. Diz que eu estou mandando um abraço pra ela, Sr. Vítor. Pode deixar. Sai apressado, se despede de outro funcionário. O senhor não sabia que estou saindo de férias, seu Vítor? Boas férias, então. A recepcionista faz sinal com o dedo, está ocupada no telefone. Essa um dia eu traço, ele pensa. No estacionamento, encontra o flanelinha. O senhor cuida que os pneus estão carecas. Não se preocupe, Dudu, vou trocar eles amanhã. Entra no seu inseparável Monza vermelho, o primeiro carro que comprou quando os negócios começaram a crescer, e enfrenta o perigoso trânsito da cidade.

***

Ela põe a roupa dada por sua mãe de presente de aniversário. Mira-se no espelho e lembra que há bem pouco tempo era uma jovem magricela, mal vestida, motivo de risos das colegas do colégio. Quando seu pai montou a empresa e começou a ganhar dinheiro, tudo mudou. Entrou numa academia de ginástica, adquiriu as melhores roupas das lojas, fez novas amizades e passou até a aparecer na coluna social do jornal. Além disso, arrumou também muitos namorados, até se apaixonar decididamente pelo filho do diretor da maior fumageira da cidade. É pelo namorado que ela espera ansiosamente. Prometeu uma noite especial, e ela já imagina onde será.

Teu namorado chegou, grita a mãe atrás da porta. Fala que eu ainda vou demorar um pouco, responde, querendo se fazer de difícil. Coloca uma camisinha na bolsa e sorri para o seu rosto no espelho: adeus, menininha!

***

Vocês precisavam ver, diz um pipoqueiro para os curiosos, o carro vinha na contra-mão e deu de cara com a camioneta. O corpo do motorista está entre as ferragens e ninguém sabe se está vivo. E os bombeiros que não aparecem para tirar logo o desinfeliz dali, reclama o dono de uma loja cujos clientes foram todos para a rua ver o desastre. O motorista da camioneta está sentado no meio-fio da calçada e repete chorando eu não tive culpa, eu não tive culpa.

***

E o pai que não vem, hein?, diz a aniversariante, irritada. Calma, filha. Decerto foi comprar um presente pra ti e não conseguiu se decidir ainda. Eu quero sair logo com o meu namorado e não vou ficar esperando o pai, droga. Por favor, filha, ele não te viu hoje e gostaria tanto de te dar um abraço. Ah! mãe, ele que se dane!

***

Os veículos foram retirados e, aos poucos, os curiosos vão indo embora. Por todo o asfalto, há manchas de sangue e cacos de vidro. As lojas já estão fechadas, mas o pipoqueiro continua trabalhando. Ao lado, sua filha brinca com uma boneca que achou perto de um dos carros, embrulhada num papel colorido.

***

Estão saindo na porta quando o telefone toca. A aniversariante volta correndo para atender. Alô! Oi, pai. Obrigada, pensei que tinha esquecido. O senhor vai demorar pra vir? Que pena. Tem uma reunião com uma pessoa muito importante e não sabe que horas vai chegar, mãe. Tá mandando um beijão pra senhora e manda dizer que ama muito a gente e pra gente nunca esquecer ele. Que papo estranho, pai... E o meu presente, o senhor vai trazer? Hein, pai? Pai! Responde, pai.

Do outro lado da linha, apenas um suspiro.