quarta-feira, março 31, 2010

Anotando um sonho que tive


Tenho sérias dificuldades de guardar sonhos e, quando lembro, não os anoto e acabo esquecendo de novo. Como estou lendo “O homem e seus símbolos”, livro organizado por Carl Gustav Jung, pensei em registrar alguns sonhos, até porque o que tive na última noite achei impressionante.

Sonhei que estava dentro de uma igreja com um altar dedicado a uma “santa” da cidade. Alguém me conta a história dela, que teria ficado presa em uma sala. No sonho, presencio o que acontece com ela. Num primeiro momento, a mulher está em uma sala repleta de cobras, tentando escapar. Minha sensação é de angústia, como se estivesse junto com ela. Quando consegue escapar, entra em uma sala onde há outros animais, a memória me falha agora. Depois de escapar, entra em outra sala cheia de outros animais. Ela seria considerada uma santa, então, por ter passado por essas provações.

Diz Jung que esses dicionários de sonhos não valem nada, pois a simbologia colocada neles não são as mesmas para todas as pessoas. Os símbolos presentes no sonho podem ser avaliados pelo psicanalista, mas ele vai perguntar coisas sobre a vida das pessoas para daí sim ter um posicionamento.

Voltarei ainda ao assunto.

segunda-feira, março 29, 2010

A cruz e suas interpretações

por Cassionei Niches Petry

Em época de semana santa, podemos lembrar como os símbolos, em determinados contextos, são interpretados de várias formas. Usaremos como exemplo a cruz, já que nessa sexta-feira é celebrada a crucificação de Jesus Cristo. Esse ato, do qual tomamos conhecimento apenas através da Bíblia (portanto sem nenhuma comprovação histórica), influencia até hoje nossa cultura, mesmo para quem não acredita que tenha ocorrido. A cruz passou a ser o símbolo de uma religião que se espalhou pelo mundo todo, por isso ninguém se sente constrangido ao usar uma corrente com esse objeto que lembra um instrumento de tortura no pescoço.

A cruz, se pendurada na parede de uma casa, representa que o lar é de uma família cristã, principalmente católica. No entanto, esse mesmo objeto, se estiver em uma repartição pública, pode ofender uma pessoa que tenha uma crença diferente e não vê o seu símbolo com o mesmo destaque (ou alguém já viu a Estrela de Davi nas paredes de uma escola estadual?). Já uma cruz em uma placa de trânsito de uma estrada avisa que há um cruzamento mais à frente. Uma cruz vermelha avisa que há um hospital próximo. Mas o que representa uma cruz de cabeça para baixo?

Nero, o imperador que ficou conhecido por incendiar a cidade de Roma em 64 d.C., costumava crucificar os cristãos de ponta cabeça. Isso foi visto como uma ofensa a Jesus e logo o imperador foi considerado o anti-Cristo. Pois nos anos 50, Gerald Holtom, designer e ex-combatente da II Guerra Mundial, criou um símbolo de luta para o desarmamento nuclear, juntando dois sinais das bandeiras usadas nos porta-aviões da Marinha: os braços do manobrista com as bandeiras estendidas para o chão, formando um V de cabeça para baixo, representam a letra N, de “nuclear”. Já um braço virado para cima e outro para baixo, formando uma linha vertical, representam a letra D, de “disarmament”. (Fonte: http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/magazine/7292252.stm) A junção dos dois formou aquilo que foi difundido mais tarde pelos hippies como o símbolo da paz. Em outro contexto, evangélicos denominaram que esse símbolo é a cruz de Nero, por lembrar uma cruz invertida e com os braços quebrados. Afirmam que representa a paz sem Cristo, sendo uma mensagem subliminar, provando que o demônio está começando a dominar o mundo.

Outro exemplo de cruz que pode causar falsas interpretações é a suástica. No imaginário do século XX, é inevitável sua relação com o nazismo. No entanto, a cruz gamada, com também é conhecida, é um símbolo usado por várias culturas antigas. Na Índia, por exemplo, ela é encontrada em templos do hinduísmo, podendo representar o sol, os 4 pontos cardeais ou ainda a evolução do Universo (as pontas voltadas para a direita) e a involução do Universo (as pontas direcionadas à esquerda), que são as duas formas de Brahma, o deus criador. Portanto, antes de sair acusando uma pessoa por ter uma tatuagem de uma suástica, se informe sobre o que o símbolo representa para ela. Repreendendo um aluno por estar desenhando a cruz gamada em seu caderno, ele me respondeu que não sabia o que significava, apenas achava bonita.

A interpretação que faço da cruz relaciona-se com as formas de como o ser humano vê o mundo. O traço horizontal representa os momentos em que analisamos os fatos de uma forma superficial. Já o traço vertical são os momentos em que nos aprofundamos sobre um assunto. Um conhecimento mais aprofundado sobre símbolos nos ajuda a não cometer injustiças e, principalmente, não ficar repetindo bobagens propagadas por pessoas superficiais.

domingo, março 28, 2010

Repostagem - Eva e Pandora (ou A boceta e a maçã)

Estou falando com os meus alunos de Filosofia sobre os mitos e, nas próximas aulas, vamos fazer uma viagem pela mitologia grega. Um dos mitos que comentei foi sobre a Caixa de Pandora. Segue um texto que escrevi no ano passado sobre o tema, já que muitos não o leram ainda.

Eva e Pandora (ou A boceta e a maçã)
por Cassionei N. Petry

É curiosa a semelhança entre dois mitos bastante difundidos, sendo que um deles é visto como verdade absoluta por muitas pessoas.

O primeiro mito é da antiguidade grega: a Caixa de Pandora. Ela teria sido a primeira mulher criada por Zeus como, vejam só, castigo para os homens, pois o titã Prometeu roubara o fogo do Olimpo. O deus mais poderoso do panteão grego a presenteou com uma caixa, porém, com a ordem de não abri-la. Logicamente, como toda mulher, que é muito curiosa, ela não respeitou a proibição. Como consequência, de dentro do recipiente saíram todos os males lá guardados. Ou seja, quem é a culpada pelas coisas ruins do mundo? A mulher. Mas isto, veja bem, é o mito que diz.

A outra história é mais conhecida, pois está na Bíblia Sangrada, digo, Sagrada, mais precisamente no Gênesis. Neste mito, Deus fez Adão e depois, para que ele não ficasse sozinho, criou, a partir da costela dele, uma mulher, a qual foi chamada Eva. Aos dois foi ordenado pelo criador que não comessem o fruto da árvore do conhecimento. Pois a mulher, agora provocada por uma cobra falante, vai lá e come o fruto. Como se não bastasse, oferece a Adão, que, como todo o homem obediente a mulher, também come. Visto que era um alimento desconhecido para eles, Adão acaba engolindo o caroço, resultando no chamado Pomo de Adão. O resultado dessa desobediência: o pecado entra no mundo. Mais uma vez, a mulher é a culpada.

O mais curioso são as simbologias por trás disso tudo. Basta procurarmos o significado da palavra “boceta” no dicionário para sabermos que ela significa uma caixinha oval, que aparece inclusive em muitos textos de Machado de Assis, e era utilizada para guardar rapé.

"Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a carteira..." (MACHADO DE ASSIS em O Empréstimo)


Essa palavra acabou, pela analogia com o seu formato, talvez, sendo sinônimo do órgão sexual feminino no Brasil. Em Portugal ela é ainda utilizada, tanto que o mito grego da primeira mulher lá é chamado de “Boceta de Pandora”. Inclusive é a tradução para o título do filme alemão Die Büchse der Pandora, de 1929, dirigido por Georg Wilhelm Pabst. Bem, se pensarmos que ela abriu a boceta...

Quanto ao mito bíblico, não há menção no Gênesis de que o fruto fosse uma maçã. Mas porque essa fruta acabou ganhando a fama, e aparecendo em várias pinturas que retratam a história? Bem, imaginemos uma maçã cortada ao meio. Ela lembra justamente a vagina de uma mulher com as pernas abertas. E se Eva deu a maçã para Adão comer...

sábado, março 27, 2010

Texto meu na Gazeta de ontem

O boca aberta aqui nem viu que saiu na Gazeta de ontem o texto "Nossos monstros interiores" na página de opinião.

Nossos monstros interiores

por Cassionei Niches Petry
Quando lemos sobre a violência ou, pior, quando a sofremos, perdemos muitas vezes o próprio controle pensando também em praticá-la. Queremos fazer justiça com as próprias mãos, queremos pena de morte, queremos que o criminoso sofra. Será que somos, então, violentos por natureza? Ou, como disse Jean-Jacques Rousseau, “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”? A literatura e o cinema podem-nos fazer refletir sobre isso.
O médico e o monstro, romance escrito por Robert Louis Stevenson no século XIX, traz o personagem Dr. Jekyll, que defende a teoria de que o ser humano não tem uma alma ou psique, mas sim duas. O lado bom se esforça para fazer o que é considerado o correto e o lado mal são os impulsos animalescos reprimidos. Se esses dois lados fossem separados, o homem alcançaria a sua liberdade, pois o lado mal deixaria de perturbá-lo. Para isso, ele cria uma poção química, conseguindo separar essa duas personalidades. Surge o Mr. Hyde, seu lado mal, que se mostra muito mais forte, acabando, aos poucos, por tomar o lugar do lado bom. Vejo nessa história uma analogia do uso de drogas. A maioria dos casos de violência decorre do uso de substâncias que liberam o lado ruim que temos, repreendido pela sociedade. Quando se bebe muito, é revelada a verdadeira personalidade do indivíduo. Acontece que nem todo bêbado sai cometendo barbaridades por aí, uns até se tornam extremamente amáveis, assim como nem todo consumidor de maconha é bandido.
Lançado nos cinemas recentemente, o filme O lobisomem retrata um dos mitos mais antigos da humanidade. Na mitologia grega, o rei Licaonte serve a Zeus carne humana e, como castigo, o deus dos deuses o transforma em um lobo. Do nome do rei deriva a palavra licantropia, distúrbio mental no qual a pessoa pensa ter se transformado em algum animal. Pois o lobisomem é a grande metáfora do mal dentro de cada homem, mesmo que este seja uma pessoa boa, como diz a frase inicial do filme: “até um homem que é puro de coração, e reza suas orações à noite, pode-se tornar um lobo quando o acônito floresce, e a lua do outono estiver cheia e brilhante”. O acônito, também chamado de mata-lobos, é uma planta venenosa, simbolizando o mal que surge da terra, ou seja, da natureza. A lua cheia representa o estímulo exterior para que esse lado ruim venha à tona. Faz parte da natureza o lado mal que temos, mas a influência da sociedade não pode ser descartada. Algumas pessoas, porém, têm maiscapacidade para controlar esse lado ruim, enquanto outras, por qualquer provocação, têm reações extremas.
Escrevi que a literatura e o cinema podem-nos fazer refletir sobre o assunto, mas apenas refletir, não mais do que isso. Não dá para se chegar a uma conclusão sobre esse mistério guardado dentro de cada um de nós. Ninguém está livre de cometer um ato insano. Então, quando condenamos uma pessoa, estamos na verdade julgando a nós mesmos. Nós, que fazemos parte da sociedade, somos os culpados pela violência. Nós, que não temos controle sobre nossos extintos, somos culpados pelo mal existir.

Renato Russo, 50 anos

Dia de escutar toda a discografia da Legião Urbana e do Renato Russo solo. Analisar as letras, filosofar com elas. Hoje ele estaria fazendo 50 anos. Mas gênios não morrem. Suas palavras ficam.

quarta-feira, março 24, 2010

Estreando colaboração fixa na Gazeta do Sul


A partir de hoje estou estreando uma colaboração fixa na Gazeta do Sul. O Mauro, editor do Mix e do Magazine (desde 96 edita meus textos no jornal), disse que gosta muito dos meus textos e quis, nas palavras dele, que eu "entrasse para seu time". Não recebo nada por isso, é um trabalho amador, no sentido literal da palavra, mas fico feliz em saber que o que escrevo agrada a algumas pessoas. Os textos sairão de 15 em 15 dias, nas quartas, salvo se tiver alguma matéria "mais relevante" para esse dia.

Desparecer para aparecer

Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify, tradução de José Geraldo Couto), foi publicado no Brasil na mesma época da morte de J. D. Salinger. O romance do escritor espanhol tem como tema o desaparecimento de escritores. E Salinger foi um notório recluso, que optou por sumir do meio literário, apesar de o seu paradeiro ser de conhecimento de todos. Sincronicidade ou apenas coincidência?
Para quem não sabe, sincronicidade foi um termo criado pelo psicanalista C. G. Jung para designar eventos que acontecem simultaneamente e que são significativos para as pessoas, diferente da coincidência, que é uma conexão aleatória entre os fatos. Se alguém está pensando em uma pessoa e de repente recebe uma ligação telefônica dela, estamos diante de uma sincronicidade, afinal elas se conhecem e, no inconsciente de cada uma, há o desejo de conversarem, mesmo sem terem combinado nada. Agora, se a pessoa conversa com um desconhecido em uma parada de ônibus e descobrem que ambas têm amigos em comum, há apenas uma simples coincidência, afinal, como diz o ditado, “o mundo é pequeno”. (Ok, sou leigo no assunto. Para críticas, escrevam cartas, ou melhor, e-mails para a redação.)
Poderíamos classificar Doutor Pasavento como um romance ensaístico ou um ensaio romanesco? Já no início é citado o primeiro escritor dentre tantos que vão surgir na narrativa: Montaigne. É uma pista de que leremos uma espécie de ensaio, afinal, o escritor francês foi o pai do ensaio moderno, assim como os escritores Sterne e Cervantes, também citados, foram os criadores do romance-ensaio. Montaigne se refugiou em uma torre para escrever e é isso que Vila-Matas vai analisar: os escritores que resolvem desaparecer. Em obras anteriores, como sua obra-prima, Bartleby e Companhia, ele retratou os escritores que deixaram de escrever. Em O mal de Montano, abordou a “doença” de querer escrever. Ou seja, grande parte da sua obra tem como tema central a própria literatura. É a obsessão de Enrique Vila-Matas.
O protagonista é convidado para um encontro literário em Sevilha, justamente depois de ter imaginado essa viagem. Hospedado em Paris, descobre que o lugar onde está também foi ocupado por outros escritores. Sincronicidades? Resolve, depois, sumir no meio do caminho para o encontro literário, assim como fez certa vez Agatha Christie, e como fizeram tantos outros escritores, principalmente Robert Walser. Assume uma identidade falsa, a do psiquiatra Doutor Pasavento, para realizar novos projetos. Vila-Matas, em seu site na internet, diz que interpretar que o romance é sobre o desaparecimento e a solidão é aceitável, mas do que realmente trata o livro é a “dificuldade de não ser ninguém”.
No Brasil, também temos alguns escritores que tentaram não ser ninguém. Os mais notórios são Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Ambos foram alvos de polêmicas nas últimas semanas. Sincronicidade? O primeiro, por ser retratado em um romance de Miguel Sanches Neto, seu ex-pupilo, e de não ter gostado nenhum pouco disso. O segundo, por aparecer no lançamento do livro de Paula Parisot, sua afilhada literária. O boato que corre nos meios literários é de que ela teria sido o pivô da saída de Rubem Fonseca da editora Companhia das Letras, que se recusou a publicar a obra da escritora. Para esse evento, Parisot faz uma performance dentro de uma caixa de vidro. Uma foto mostra Rubem Fonseca conversando com ela através da caixa, ele que sempre se fechou em uma redoma de vidro metafórica. Sincronicidade?
Enquanto alguns querem desaparecer, outros se expõem para chamar a atenção. Para se fazer literatura, não bastaria só escrever?

segunda-feira, março 22, 2010

Desaparecer para aparecer


por Cassionei Niches Petry
Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify, tradução de José Geraldo Couto), foi publicado no Brasil na mesma época da morte de J. D. Salinger. O romance do escritor espanhol tem como tema o desaparecimento de escritores. E Salinger foi um notório recluso, que optou por sumir do meio literário, apesar de o seu paradeiro ser de conhecimento de todos. Sincronicidade ou apenas coincidência?
Para quem não sabe, sincronicidade foi um termo criado pelo psicanalista C. G. Jung para designar eventos que acontecem simultaneamente e que são significativos para as pessoas, diferente da coincidência, que é uma conexão aleatória entre os fatos. Se alguém está pensando em uma pessoa e de repente recebe uma ligação telefônica dela, estamos diante de uma sincronicidade, afinal elas se conhecem e, no inconsciente de cada uma, há o desejo de conversarem, mesmo sem terem combinado nada. Agora, se a pessoa conversa com um desconhecido em uma parada de ônibus e descobrem que ambas têm amigos em comum, há apenas uma simples coincidência, afinal, como diz o ditado, “o mundo é pequeno”. (Ok, sou leigo no assunto. Para críticas, escrevam cartas, ou melhor, e-mails para a redação.)
Poderíamos classificar Doutor Pasavento como um romance ensaístico ou um ensaio romanesco? Já no início é citado o primeiro escritor dentre tantos que vão surgir na narrativa: Montaigne. É uma pista de que leremos uma espécie de ensaio, afinal, o escritor francês foi o pai do ensaio moderno, assim como os escritores Sterne e Cervantes, também citados, foram os criadores do romance-ensaio. Montaigne se refugiou em uma torre para escrever e é isso que Vila-Matas vai analisar: os escritores que resolvem desaparecer. Em obras anteriores, como sua obra-prima, Bartleby e Companhia, ele retratou os escritores que deixaram de escrever. Em O mal de Montano, abordou a “doença” de querer escrever. Ou seja, grande parte da sua obra tem como tema central a própria literatura. É a obsessão de Enrique Vila-Matas.
O protagonista é convidado para um encontro literário em Sevilha, justamente depois de ter imaginado essa viagem. Hospedado em Paris, descobre que o lugar onde está também foi ocupado por outros escritores. Sincronicidades? Resolve, depois, sumir no meio do caminho para o encontro literário, assim como fez certa vez Agatha Christie, e como fizeram tantos outros escritores, principalmente Robert Walser. Assume uma identidade falsa, a do psiquiatra Doutor Pasavento, para realizar novos projetos. Vila-Matas, em seu site na internet, diz que interpretar que o romance é sobre o desaparecimento e a solidão é aceitável, mas do que realmente trata o livro é a “dificuldade de não ser ninguém”.
No Brasil, também temos alguns escritores que tentaram não ser ninguém. Os mais notórios são Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Ambos foram alvos de polêmicas nas últimas semanas. Sincronicidade? O primeiro, por ser retratado em um romance de Miguel Sanches Neto, seu ex-pupilo, e de não ter gostado nenhum pouco disso. O segundo, por aparecer no lançamento do livro de Paula Parisot, sua afilhada literária. O boato que corre nos meios literários é de que ela teria sido o pivô da saída de Rubem Fonseca da editora Companhia das Letras, que se recusou a publicar a obra da escritora. Para esse evento, Parisot faz uma performance dentro de uma caixa de vidro. Uma foto mostra Rubem Fonseca conversando com ela através da caixa, ele que sempre se fechou em uma redoma de vidro metafórica. Sincronicidade?
Enquanto alguns querem desaparecer, outros se expõem para chamar a atenção. Para se fazer literatura, não bastaria só escrever?

sábado, março 20, 2010

Violoncelo ou guitarra?


ou

Sincronicidades

A partir de hoje, vou registrar casos de sincronicidade que acontecem comigo. Não sabe o que isso? Dê uma lida no verbete da Wikipédia sobre o termo. Jung explica! Às vezes tudo não passa de coincidência, mas acontece com tanta frequência na minha vida que... não sei não.

Para começar: estava lendo agora um texto de Celso Loureiro Chaves sobre Chaplin na Zero Hora de hoje, quando no rádio toca a música "Smile", cuja letra é do criador de Carlitos, e que é citada no texto. Enfim...

sexta-feira, março 19, 2010

Nossos monstros interiores

por Cassionei Niches Petry

Quando lemos sobre a violência ou, pior, quando a sofremos, perdemos muitas vezes o próprio controle pensando também em praticá-la. Queremos fazer justiça com as próprias mãos, queremos pena de morte, queremos que o criminoso sofra. Será que somos, então, violentos por natureza? Ou, como disse Jean-Jacques Rousseau, “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”? A literatura e o cinema podem-nos fazer refletir sobre isso.

O médico e o monstro, romance escrito por Robert Louis Stevenson no século XIX, traz o personagem Dr. Jekyll, que defende a teoria de que o ser humano não tem uma alma ou psique, mas sim duas. O lado bom se esforça para fazer o que é considerado o correto e o lado mal são os impulsos animalescos reprimidos. Se esses dois lados fossem separados, o homem alcançaria a sua liberdade, pois o lado mal deixaria de perturbá-lo. Para isso, ele cria uma poção química, conseguindo separar essa duas personalidades. Surge o Mr. Hyde, seu lado mal, que se mostra muito mais forte, acabando, aos poucos, por tomar o lugar do lado bom. Vejo nessa história uma analogia do uso de drogas. A maioria dos casos de violência decorre do uso de substâncias que liberam o lado ruim que temos, repreendido pela sociedade. Quando se bebe muito, é revelada a verdadeira personalidade do indivíduo. Acontece que nem todo bêbado sai cometendo barbaridades por aí, uns até se tornam extremamente amáveis, assim como nem todo consumidor de maconha é bandido.

Lançado nos cinemas recentemente, o filme O lobisomem retrata um dos mitos mais antigos da humanidade. Na mitologia grega, o rei Licaonte serve a Zeus carne humana e, como castigo, o deus dos deuses o transforma em um lobo. Do nome do rei deriva a palavra licantropia, distúrbio mental no qual a pessoa pensa ter se transformado em algum animal. Pois o lobisomem é a grande metáfora do mal dentro de cada homem, mesmo que este seja uma pessoa boa, como diz a frase inicial do filme: “até um homem que é puro de coração, e reza suas orações à noite, pode-se tornar um lobo quando o acônito floresce, e a lua do outono estiver cheia e brilhante”. O acônito, também chamado de mata-lobos, é uma planta venenosa, simbolizando o mal que surge da terra, ou seja, da natureza. A lua cheia representa o estímulo exterior para que esse lado ruim venha à tona. Faz parte da natureza o lado mal que temos, mas a influência da sociedade não pode ser descartada. Algumas pessoas, porém, têm mais capacidade para controlar esse lado ruim, enquanto outras, por qualquer provocação, têm reações extremas.

Escrevi que a literatura e o cinema podem-nos fazer refletir sobre o assunto, mas apenas refletir, não mais do que isso. Não dá para se chegar a uma conclusão sobre esse mistério guardado dentro de cada um de nós. Ninguém está livre de cometer um ato insano. Então, quando condenamos uma pessoa, estamos na verdade julgando a nós mesmos. Nós, que fazemos parte da sociedade, somos os culpados pela violência. Nós, que não temos controle sobre nossos extintos, somos culpados pelo mal existir.

segunda-feira, março 15, 2010

As 4 formas de conhecimento

Relativity, M. C. Escher

Texto escrito a partir das anotações para minhas aulas de filosofia.

por Cassionei Niches Petry

Como podemos conhecer o mundo? Há apenas um jeito de entender as coisas que nos cercam? Ora, assim como o universo é complexo, as explicações para seu funcionamento também o são. Podemos agrupar as formas de conhecimento em 4, correndo o risco, claro, de reducionismo.

A primeira é o senso comum, aquele conhecimento simples, do dia a dia, e que percebemos apenas pelos nossos sentidos. Não preciso consultar nenhum livro ou fazer uma reflexão profunda para saber que está chovendo: basta ouvir o barulho dos pingos caindo no telhado, olhar pela janela ou, o que é mais prazeroso, sair para a rua e tomar um banho. Se quero caminhar, não preciso também ficar pensando “bem, preciso ir ali, então primeiro movo a perna direita pra frente. Agora, deixa eu ver... ah, sim, preciso mover a esquerda e...”. Se pensarmos no homem primitivo, ele vivia no senso comum, pois não precisava pensar sobre as coisas ao seu redor para viver. Simplesmente nascia, se alimentava, crescia, se reproduzia, envelhecia e morria. Não fazia mais nada, até porque tinha que ocupar boa parte do tempo buscando alimento, seja caçando e coletando, tendo que andar muito para isso, como os outros animais.

O homem, porém, na medida em que foi evoluindo, começou a cultivar a terra e domesticar os animais para alimento. Consequentemente, passou a ter mais tempo para outras atividades. Há ainda um fato importantíssimo que é a diminuição das mandíbulas e o crescimento da caixa craniana, possibilitando o aumento do tamanho do cérebro. É só analisar o crânio dos fósseis humanos para perceber essa evolução. Outra prova é o dente de siso, um dente inútil e que incomoda por não ter mais espaço para nascer. Ele foi importante quando o homem comia muita carne dura e necessitava de mais dentes. Como o homem modificou sua dieta e também descobriu maneiras de amaciar a carne, ele deixou de ter importância. O homem, agora, começa a usar mais o cérebro do que a boca. E se continuar essa evolução, terá no futuro o aspecto de como são conhecidos os ET’s, quase sem queixo e com um crânio enorme. (Não seriam os alienígenas homens do futuro nos visitando?)

A segunda forma de conhecimento acontece quando começamos a questionar a vida. Não basta mais viver por viver. Com tempo para pensar e intelecto desenvolvido, o homem passa a se espantar com o mundo a seu redor. Questiona “quem sou eu?”, “de onde venho?”, “para onde vou?”, “o que é essa coisa luminosa que cai do céu?”, etc. A primeiras respostas a essas perguntas são dadas a partir de histórias inventadas pelas pessoas mais velhas da tribo e envolvem relatos fabulosos, que não têm lógica de acordo com os parâmetros da realidade. Entramos no conhecimento mítico. Os mitos fornecem explicações que são aceitas a partir de crenças: “o mundo foi criado em 6 dias por um ser superior”, “quando morremos vamos para o reino de Hades”, “o raio é um castigo dos céus para a tribo”. O mito, através de uma linguagem simbólica, provoca o desenvolvimento das religiões e varia de acordo com as diferentes culturas. Se ele é considerado apenas como ficção, temos histórias que enriquecem o imaginário. No entanto, se levado ao pé da letra e como verdade absoluta, estaremos diante de um conhecimento que limita nossa capacidade de conhecimento e provoca conflitos entre as nações.

Imaginemos agora uma cidade onde há um porto e se faz uma intensa troca comercial. Ali se encontram pessoas de diferentes lugares do mundo, com culturas diferentes e, por conseguinte, mitos diferentes. Quando se reúnem para conversarem, acabam contando as histórias de seu povo e percebem que são alegorias distintas para representar, por exemplo, a criação do universo. Começam a questionar: “afinal, qual a história verdadeira?” Tem-se, então, a relativização dos mitos. A cidade de que estamos falando é Mileto, na Grécia, berço da terceira forma de conhecimento: a filosofia.

Para o homem que está cada vez mais evoluindo, as respostas dadas pelas mitologias não são mais satisfatórias. A relativização dos mitos e a afirmação de que essas histórias são absurdas sob o ponto de vista lógico abalam todas as crenças. Passa-se, então, a tentar encontrar as respostas a partir de elementos da natureza e não mais no sobrenatural. O centro do conhecimento passa a ser a razão e não a crença. O conhecimento filosófico é aquele que questiona e não aceita qualquer resposta. Faço sempre a analogia com a pesca, afinal de contas, o ponto de interrogação não lembra um anzol? Pois quando lançamos uma pergunta, esperamos pescar uma boa resposta e, como toda pescaria, é preciso paciência para pegar um bom peixe. Mas o pescador fica satisfeito caso fisgue um peixe enorme? Não, pois ele vai voltar à atividade sempre que possível. Assim é o filósofo, que obtém muitos conhecimentos, mas não se contenta e sempre sai em busca de novas respostas.

Na filosofia, portanto, não encontramos a verdade absoluta, mesmo sendo o objetivo de quem quer buscar o conhecimento. Ela apenas levanta dúvidas, evita o conformismo das ideias prontas e encontra várias respostas que explicam o mundo ao nosso redor. Mas faltam provas para esses saberes. Para provar algo, precisamos agir não só pensando, mas praticando, comprovando, experimentando, enfim, usando de instrumentos práticos para se chegar o mais próximo possível da verdade. Essa é função da quarta forma de conhecimento: a ciência.

O conhecimento científico se utiliza da experiência para responder as perguntas levantadas pelos mitos e pelos filósofos. Usa todos os instrumentos disponíveis pelas novas tecnologias para se aproximar o máximo possível da verdade. Pesquisas, experimentos, observações, busca de provas materiais, tudo é utilizado para tentar buscar respostas para entender o universo. Notem que usei o verbo tentar, pois nem mesmo a ciência encontra a verdade. Há sempre cientistas que contestam outros e é nesse ritmo que o mundo gira e não deixamos de conhecer cada vez mais. Portanto, ao contrário do que muitos pensam, a ciência não é dona da verdade. Se fosse, não precisaríamos mais de cientistas.

O problema é quando algumas pessoas se utilizam de seus conhecimentos para impor sua verdade pessoal. Religiosos, filósofos e cientistas radicais, que não aceitam o pensamento diferente do seu, acabam freando o desenvolvimento. Nesses momentos procuro uma quinta forma de conhecimento: a arte. Prefiro às vezes conhecer o mundo pelas mãos dos escritores, cineastas, músicos, pintores. Eles nos explicam sem explicar e nos fazem entender sem entender o que é essa criatura tão complicada chamada de ser humano.