sábado, julho 31, 2010

Arranhões

Eis mais um conto que escrevi há alguns anos e que compartilho com meus 7 leitores. Estejam à vontade para críticas, tanto positivas como negativas.

ARRANHÕES

O calçado apertado a deixa irritada. Resolve tirá-lo. Não adianta mesmo ficar com os sapatos, pois não vai poder sair para comprar a comida do seu gatinho.

Vai à sacada se divertir com o balé dos guarda-chuvas na rua. Ela está seca e protegida e isso a faz se sentir superior. Ri quando um carro passa sobre uma poça d’água molhando as pessoas na parada de ônibus. Mais adiante, uma mulher pisa em uma laje solta da calçada e também fica encharcada. Acha tudo engraçado, esquecendo-se que poderia ser ela mesma nessa situação.

“Guardei até onde eu pude guardar

o cigarro deixado em meu quarto

é a marca que fumas

confesse a verdade não deves negar.”

Sim, um cigarro cairia bem agora, porém os conselhos do médico estão ainda nítidos na sua memória.

“Os meus cabelos brancos me obrigam

a perdoar uma criança.”

Até hoje o espera inutilmente. Se tivesse perdoado o que ele fez, um simples arranhão na vida dos dois, não teria ficado sozinha todos esse anos. Parece sentir a presença dele na sala. “Não se cansa de ouvir o Nélson? Coloca uma do Cartola”. Vai ao toca-discos sem olhar para a poltrona. Atende o pedido do marido, coisa que nunca fez. Sabe, no entanto, que é tarde para perder o orgulho.

“Vai reduzir, as ilusões a pó-a pó-a pó-a pó...”

Ignora o disco arranhado. Ignora o gato arranhando suas pernas. Ignora o sangue que escorre para fora do apartamento e mancha o sapato dele, que arranha a porta, chorando, implorando para entrar.


sexta-feira, julho 30, 2010



A MÁQUINA DE ESCREVER
(Frejat / Guto Goffi / Guioseppe Ghiaroni)

Mãe, se eu morrer
De um repentino mal
Vende meus bens
À bem dos meus credores
A fantasia de festivas cores que usei
No derradeiro carnaval

Vende esse rádio
Que ganhei de prêmio
Por um concurso
Num jornal do povo
E aquele terno novo
Ou quase novo
Com poucas manchas
De café boêmio

Vende também meus óculos antigos
Que me davam ares inocentes
Não precisarei de suas lentes
Pra enxergar os corações amigos

Sem ruído é mais provável
Que eu alcance o céu
Vou penetrar e então provar seu mel
No paraíso só preciso de um olhar
Sem teu sorriso,outro sorriso pra me enganar

Mas poupa minha amiga de horas mortas
Com teclas bambas, minha máquina de peças tortas

Vende todas as grandes pequenezas
Que eram o meu íntimo tesouro
Mas não!ainda que ofereçam ouro
Mas não!ainda que ofereçam ouro
Não vendas o meu filtro de tristezas



quinta-feira, julho 29, 2010

Carl Sagan

"Sim, o mundo seria mais interessante se houvesse UFOS escondidos nas águas profundas, perto das Bermudas, devorando os navios e os aviões, ou se os mortos pudessem controlar as nossas mãos e nos escrever mensagens. Seria fascinante se os adolescentes fossem capazes de tirar o telefone do gancho apenas com o pensamento, ou se nossos sonhos vaticinassem acuradamente o futuro com uma frequência que não pudesse ser atribuída ao acaso e ao nosso conhecimento do mundo. Esses são exemplos de pseudociências. Eles parecem usar os métodos e as descobertas da ciência, embora na realidade sejam fiéis à sua natureza - frequentemente porque se baseiam em evidência insuficiente ou porque ignoram pistas que apontam para outro caminho. Fervilham de credulidade."

Carl Sagan, em "O mundo assombrado pelos demônios".

quarta-feira, julho 28, 2010

"Eu, robô" na Gazeta de hoje

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Online

Os robôs somos nós?

Recentemente, o cientista Craig Venter, junto com sua equipe, anunciou a criação de um organismo vivo a partir de um genoma sintético. Um passo importantíssimo para a criação de vida artificial. Logo, muitas vozes exaltadas protestaram contra o ser humano que mais uma vez quis brincar de Deus. Isso nos remete ao chamado “conhecimento proibido”, retratado em mitologias de diferentes civilizações.
No mito grego da “Caixa de Pandora”, por exemplo, a primeira mulher criada pelos deuses foi mandada à terra junto com um recipiente, mas com a proibição de não abri-lo. Como a curiosidade é inerente a todo ser humano (ia dizer a toda a mulher, mas aí atrairia a ira feminina sobre mim), Pandora não se conteve e abriu a caixa para conhecer seu conteúdo. Como consequência, de dentro da caixa saíram todos os males do mundo.
Mito semelhante é relatado no livro sagrado dos cristãos, na história de Adão e Eva. Deus proibiu que comessem do fruto da Árvore do Conhecimento. A mulher desobedece à ordem e ainda oferece a fruta ao homem que, obediente, aceita. Com esse ato, segundo o mito, entra o mal no mundo.
Como se pode ver, nesses e outro relatos há sempre um moral da história que nos impõe limites ao conhecimento. Podemos ir até um determinado ponto, mas, além desse ponto, estaríamos invadindo o território divino e receberíamos um castigo por isso. Sorte que nós, seres humanos, somos desobedientes, do contrário não teríamos os avanços científicos que nos ajudam cada vez mais a viver melhor.
A literatura também entra nessa discussão filosófica. Emblemática, por exemplo, é história deFrankenstein, escrita por Mary Shelley, em que um cientista cria um ser que seria uma espécie de antecessor dos robôs atuais. Apesar de se mostrar um ser inteligente, é levado, depois de sofrer maus tratos dos humanos, a praticar assassinatos. Esse medo que os humanos têm dos seres criados de forma artificial foi a inspiração para o escritor Isaac Asimov revolucionar a literatura de ficção científica.
Asimov, nascido na Rússia em 1920, foi um intelectual prolífico. Escreveu mais de 400 livros, não só de ficção como também de divulgação científica: química, física, astronomia, antropologia, história, etc. Em várias áreas o escritor deixou sua marca até sua morte em 1992.
Com suas histórias de robôs, o Bom Doutor - como ficou conhecido pelos fãs - tentou modificar um pouco o modo como vemos esses seres artificiais. Até os anos 40, os autômatos eram vistos apenas como criaturas capazes de cometer atrocidades contra o ser humano, o que ele chamou de “síndrome de Frankenstein”. Para modificar essa visão, criou a chamada “Três Leis da Robótica”: 1ª lei: Um robô não pode prejudicar um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal. 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, a menos que contradigam a Primeira Lei. 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.”
Isaac Asimov escreveu os contos reunidos no volume Eu, robô (Ediouro, 352 páginas, tradução de Jorge Luiz Calife) a partir dessas leis e suas implicações. O ano é 2057 e a Dra. Susan Calvin, uma senhora de 75 anos prestes a se aposentar, conta a um jornalista nove fatos sobre autômatos que ela presenciou ou ouviu durante toda a sua carreira, formando assim os noves contos do livro. Como robopsicóloga, sua função é analisar os problemas decorrentes dos conflitos entre as leis programadas nos cérebros positrônicos dos autômatos e que causam problemas a eles e aos humanos. Em “Mentiroso!”, ela se depara com um robô que lê pensamentos. Questionada sobre algumas questões pessoais de alguns personagens, a criatura responde apenas o que as pessoas gostariam de ouvir, pois não quer magoá-las, de acordo com a Primeira Lei, o que ocasiona uma enorme confusão entre os personagens.
As histórias tratam de questões filosóficas como crenças, verdade, razão, ética e paradoxos. No conto “Razão!”, um robô que foi montado em uma estação espacial afirma que a Terra não existe. Os astronautas - Donovan e Powell, que aparecem em outras histórias também - mostram evidências, como a imagem do planeta no espaço, mas a lógica do seu cérebro programado não aceita, e ele diz que não foram eles, humanos primitivos, que o criaram, mas sim o Mestre. Acaba, por fim, liderando um movimento fanático religioso entre os outros robôs. Em “Brincando de pique”, também conhecida como “Círculo vicioso”, o paradoxo provocado pela terceira lei causa pane no cérebro do robô e o deixa “bêbado”. Em “Robbie”, o primeiro conto de robô escritor por Asimov, um autômato serve de babá e amigo para uma menina, e a mãe questiona até que ponto uma máquina pode substituir o ser humano no afeto e no convívio.
A coletânea é uma reflexão, no sentido mesmo de se olhar no espelho, pois as histórias dessasmáquinas são uma alegoria da condição humana e sobre os limites do nosso conhecimento. Padeceremos ainda durante muito tempo ainda da síndrome de Frankenstein ou devemos ter medo é do próprio ser humano? Evoluiremos cientificamente ou iremos parar no tempo com medo de um castigo divino?

terça-feira, julho 27, 2010

Os robôs somos nós?

Cassionei Niches Petry


Recentemente, o cientista Craig Venter, junto com sua equipe, anunciou a criação de um organismo vivo a partir de um genoma sintético. Um passo importantíssimo para a criação de vida artificial. Logo, muitas vozes exaltadas protestaram contra o ser humano que mais uma vez quis brincar de Deus. Isso nos remete ao chamado “conhecimento proibido”, retratado em mitologias de diferentes civilizações.

No mito grego da “Caixa de Pandora”, por exemplo, a primeira mulher criada pelos deuses foi mandada à terra junto com um recipiente, mas com a proibição de não abri-lo. Como a curiosidade é inerente a todo ser humano (ia dizer a toda a mulher, mas aí atrairia a ira feminina sobre mim), Pandora não se conteve e abriu a caixa para conhecer seu conteúdo. Como consequência, de dentro da caixa saíram todos os males do mundo.

Mito semelhante é relatado no livro sagrado dos cristãos, na história de Adão e Eva. Deus proibiu que comessem do fruto da Árvore do Conhecimento. A mulher desobedece à ordem e ainda oferece a fruta ao homem que, obediente, aceita. Com esse ato, segundo o mito, entra o mal no mundo.

Como se pode ver, nesses e outro relatos há sempre um moral da história que nos impõe limites ao conhecimento. Podemos ir até um determinado ponto, mas, além desse ponto, estaríamos invadindo o território divino e receberíamos um castigo por isso. Sorte que nós, seres humanos, somos desobedientes, do contrário não teríamos os avanços científicos que nos ajudam cada vez mais a viver melhor.

A literatura também entra nessa discussão filosófica. Emblemática, por exemplo, é história de Frankenstein, escrita por Mary Shelley, em que um cientista cria um ser que seria uma espécie de antecessor dos robôs atuais. Apesar de se mostrar um ser inteligente, é levado, depois de sofrer maus tratos dos humanos, a praticar assassinatos. Esse medo que os humanos têm dos seres criados de forma artificial foi a inspiração para o escritor Isaac Asimov revolucionar a literatura de ficção científica.

Asimov, nascido na Rússia em 1920, foi um intelectual prolífico. Escreveu mais de 400 livros, não só de ficção como também de divulgação científica: química, física, astronomia, antropologia, história, etc. Em várias áreas o escritor deixou sua marca até sua morte em 1992.

Com suas histórias de robôs, o Bom Doutor - como ficou conhecido pelos fãs - tentou modificar um pouco o modo como vemos esses seres artificiais. Até os anos 40, os autômatos eram vistos apenas como criaturas capazes de cometer atrocidades contra o ser humano, o que ele chamou de “síndrome de Frankenstein”. Para modificar essa visão, criou a chamada “Três Leis da Robótica”: 1ª lei: Um robô não pode prejudicar um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal. 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, a menos que contradigam a Primeira Lei. 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.”

Isaac Asimov escreveu os contos reunidos no volume Eu, robô (Ediouro, 352 páginas, tradução de Jorge Luiz Calife) a partir dessas leis e suas implicações. O ano é 2057 e a Dra. Susan Calvin, uma senhora de 75 anos prestes a se aposentar, conta a um jornalista nove fatos sobre autômatos que ela presenciou ou ouviu durante toda a sua carreira, formando assim os noves contos do livro. Como robopsicóloga, sua função é analisar os problemas decorrentes dos conflitos entre as leis programadas nos cérebros positrônicos dos autômatos e que causam problemas a eles e aos humanos. Em “Mentiroso!”, ela se depara com um robô que lê pensamentos. Questionada sobre algumas questões pessoais de alguns personagens, a criatura responde apenas o que as pessoas gostariam de ouvir, pois não quer magoá-las, de acordo com a Primeira Lei, o que ocasiona uma enorme confusão entre os personagens.

As histórias tratam de questões filosóficas como crenças, verdade, razão, ética e paradoxos. No conto “Razão!”, um robô que foi montado em uma estação espacial afirma que a Terra não existe. Os astronautas - Donovan e Powell, que aparecem em outras histórias também - mostram evidências, como a imagem do planeta no espaço, mas a lógica do seu cérebro programado não aceita, e ele diz que não foram eles, humanos primitivos, que o criaram, mas sim o Mestre. Acaba, por fim, liderando um movimento fanático religioso entre os outros robôs. Em “Brincando de pique”, também conhecida como “Círculo vicioso”, o paradoxo provocado pela terceira lei causa pane no cérebro do robô e o deixa “bêbado”. Em “Robbie”, o primeiro conto de robô escritor por Asimov, um autômato serve de babá e amigo para uma menina, e a mãe questiona até que ponto uma máquina pode substituir o ser humano no afeto e no convívio.

A coletânea é uma reflexão, no sentido mesmo de se olhar no espelho, pois as histórias dessas máquinas são uma alegoria da condição humana e sobre os limites do nosso conhecimento. Padeceremos ainda durante muito tempo ainda da síndrome de Frankenstein ou devemos ter medo é do próprio ser humano? Evoluiremos cientificamente ou iremos parar no tempo com medo de um castigo divino?


*

Ouvindo o álbum conceitual I robot, do grupo Alan Parsons Project, baseado no livro de Asimov.



segunda-feira, julho 26, 2010

Filosofices de segunda


Às vezes acho que sou um vidiota. Assisto bem pouco à TV. Aliás, dificilmente me sento no sofá com a família para isso, o que me faz ganhar alguns puxões de orelha da patroa, por ficar pouco com ela e minha filha. Mas como o aparelho está sempre ligado aqui em casa, acabo indiretamente assistindo, seja ouvindo aqui do meu cantinho de leitura ou nas idas ao banheiro.

No domingo, temos um circo de horrores na grade televisiva e um dos grandes responsáveis por isso é o Gugu. Ontem, por exemplo, foram dedicados uns bons minutos para a mulher que tem o maior par de seios do Brasil e as agruras pelas quais ela está passando a partir dessa bizarrice. Durante os trechos que ouvi, ela dizia “estar orando”, “pedindo a Deus”, e que outras pessoas estariam nessa corrente de fé em seu favor. Claro que os religiosos, por sua limitação de inteligência nesses casos (leiam bem, estou escrevendo nesses casos), não se questionam por que motivo esse “Deus” deixou a pessoa em um estado lastimável de saúde e agora pode ajudar a resolver o problema. Mas o cômico de tudo, em se tratando de um programa da Record do Reino de Deus, e depois de a entrevista invocar várias vezes a fé da moça, é que a matéria fechou com a música “Imagine”, de John Lennon. Para quem não conhece minimamente a língua inglesa, pode não estar entendendo o que há de engraçado nisso. Mas deem uma lida nos versos traduzidos da 2ª estrofe:

Imagine não existir países

Não é difícil de fazê-lo

Nada pelo que lutar ou morrer

E nenhuma religião também

Imagine todas as pessoas

Vivendo a vida em paz

Preciso acrescentar alguma coisa, digníssimos leitores? Sobre essa música já relatei um caso parecido aqui no blog.

Outro momento em que assisto alguma coisa é antes de dormir. Ontem, vi um programa que o Luciano do Valle apresenta junto com a sua esposa na Band aqui do Rio Grande do Sul. Falando sobre a sua virtude em narrar, ele disse que só pode ser de Deus e explicou o motivo de ele pensar assim. Quando tinha 6 anos, ele brincava de narrar, mesmo, segundo ele, sem nunca ter escutado rádio. Acreditam nisso? Me lembrei da minha história pessoal, também já relatada aqui no blog, de como aprendi a ler sozinho. Eu juntava as letras de todas as palavras que via (inclusive os nomes dos candidatos na propaganda eleitoral) sem nenhuma ajuda e não sei nem mesmo como conhecia as letras do alfabeto. Seria coisa de Deus? Devo me converter? Cartas para a redação.

Para não dizer que não falei da Globo, há pelo menos uma cabeça lúcida que trabalha lá em meio a novelas espíritas e apresentações de padres cantores: Chico Anysio. Talvez até por ser muito crítico não dão mais tanto espaço para ele. Leiam o que escreveu no seu blog:

DEUS? QUE DEUS?

Mas e então? Que Deus é este que deixa que morra um menino de 18 anos, à espera de começar seu caminho na vida e deixa vivo e solto o animal que o atropelou, o débil mental que faz de um tunel uma pista de corrida e simplesmente arranca da vida um ser bonito, jovem, ansioso por começar a viver, filho de uma mãe maravilhosa, como colega, como amiga e como pessoa? Para onde Deus estava olhando quando isto aconteceu? Para onde ele olha enquanto negras magérrimas juntam areia a um pouco de água suja e dão para seus filhos na esperança de o salvar? Não é Ele que tudo sabe e que tudo vê? E como não vê o eterno inferno em que vivem judeus e palestinos por causa de dois palmos de terra? Deus é onipresente? E quando o Bruno matou ou mandou matar a mulher que lhe dera um filho e dele desejava o dinheiro suficiente para a criança sobrevier? Deus é onisciente? Então ele sabia que o Rafael teria que morrer naquele dia, naquela hora e daquele modo. Sendo assim, meus amigos eu deixo à disposição de todos a minha parte de Deus porque se Ele tem e é tantos “onis” e o mundo está como está, eu prefiro ficar sozinho.

Mas confesso: algum tempo atrás eu ficaria feliz ao ver o pessoal aqui de casa deixando de assistir à Vênus Platinada. Hoje, no entanto, fico triste ao ver que a Record está tomando o posto de preferida. O Bi$po agradece.



quinta-feira, julho 22, 2010

Sobre a cruz na camisa da Seleção

Confesso, nunca tinha reparado no emblema da camisa.

Na ZH de hoje, na coluna do Mário Marcos de Souza:
"Ai de quem se atrever a vestir a camiseta da Seleção Brasileira no Estado de Johor, sul da Malásia. A vestimenta foi considerada contrária aos ensinamentos da religião islâmica, segundo Nooh Gadot, um dos líderes da região. Não apenas a brasileira, é verdade. Também estão na lista de restrições as de Portugal, Sérvia, Noruega e Barcelona, que teriam símbolos de outras religiões, e principalmente a do Manchester United, cujos jogadores são chamados de Diabos Vermelhos. Não foi decretada nenhuma guerra religiosa, mas apenas uma advertência, informam os imãs.
É duro misturar religião e esporte, ainda mais em uma região apaixonada por times e seleções de outros países, mas é prudente levar a recomendação a sério."


domingo, julho 18, 2010

Amanhã, sem texto

Sempre nas segundas, que era meu dia de folga, postava pelo menos uma crônica ou a resenha que sai na Gazeta de quarta. Como amanhã estarei na jornada pedagógica da escola durante o dia inteiro, não escreverei nada.
(Será que essa informação interessa a algum leitor?)

sábado, julho 17, 2010

Despedidas

Calma, o blog não está se despedindo. Por enquanto, pois estou pensando seriamente em tirá-lo do ar. O meu perfil no Orkut, por sua vez, já está com os dias contados.

Mas despedidas mesmo ocorreram essa semana na minha escola, pois vou deixar de dar algumas aulas em Venâncio Aires para lecionar em Santa Cruz. Dentre homenagens, frases e depoimentos marcantes, destaco a frase de uma aluna na aula de Filosofia. "Gosto das aulas do senhor porque é o contrário da aula de Religião. O que a professora Fulana constrói, o senhor destrói."

sexta-feira, julho 16, 2010

Filosofices em uma manhã fria

M.C. Escher, Main with cuboid

Sempre que se discute a existência de D-us, surge o falso argumento de que sem "E"le a vida não teria sentido. Digo sempre: o sentido da vida é ela não ter sentido. Não sei se tem um autor, mas me "adonei" dessa frase.
É só pensar no nosso dia a dia. Quantas coisas projetamos e que não dão certo? A vida nos prega peças, mas ela por si só já vale. Numa espécie de Aposta de Pascal ateia, penso que não podemos perder tempo da nossa vida pensando em uma outra "vida". Não deveríamos ver nela um sentido (ser superior), mas vários sentidos (família, amor, artes e tantos outros). A vida é muito melhor do que o "além da vida".
Desculpem o papo meio "auto-ajuda". É que estou feliz pra ca... com os novos rumos que estão surgindo na minha vida.
***
Vi há pouco no Bom dia, Brasil a história de duas pessoas que estão há quase 40 anos morando na UTI de um hospital devido à paralisia infantil. Ambos se formaram no ensino médio e depois se tornaram artistas. Dois exemplos de superação. No entanto, ambos afirmaram que "graças a D-us" estão conseguindo alcançar seus objetivos e planos de vida. Não se perguntaram por que esse mesmo D-us os deixou nessa situação?

quarta-feira, julho 14, 2010

Meu texto sobre "O vidiota" hoje na Gazeta

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Online

Muito além da tela

O jardineiro Chance viveu durante toda a sua vida morando e trabalhando em uma casa, de onde jamais lhe fora permitido sair. Tinha como distração apenas uma TV com controle remoto, à frente da qual passava boa parte do dia. Não sabe sequer ler e escrever. Para ele, a realidade se resume ao velho dono da casa, que como pagamento pelos serviços lhe dava de presente suas roupas usadas, mas de grife; à empregada, que lhe servia o almoço; e à televisão, que lhe mostrava o mundo “além do jardim”. Agora, com a morte do velho, é expulso pelos herdeiros e se vê obrigado a conhecer o outro lado do muro.
O início do romance O vidiota (Ediouro, 112 páginas), escrito por Jerzy Kosinsky nos anos 70, lembra a “Alegoria da caverna”, de Platão. Na história do filósofo grego, homens acorrentados desde tempos imemoriais viam sombras projetadas no fundo de uma caverna, produzidas por uma fraca luminosidade vinda da entrada. Quando um deles consegue se soltar, descobre que o que viam não era a realidade, mas a aparência dela. Chance, por sua vez, continuou a achar que “tudo o que via fora dos limites da casa se assemelhava ao que havia contemplado na televisão.” Na adaptação para o cinema (que no Brasil recebeu o título de Muito além do jardim), cujo roteiro foi do próprio escritor, há uma cena que não consta no romance. Chance, vivido pelo ator Peter Sellers, ao pedir informações para um grupo de menores delinquentes, reage de uma forma inusitada quando um deles aciona um canivete automático na sua frente: tira o controle remoto que levava no bolso e aperta os botões, como se tentasse trocar o canal que não lhe agradou.
Depois de ser atropelado sem gravidade pela limusine de uma mulher rica, o jardineiro, é apresentado ao círculo dos grandes empresários e economistas de um país em crise financeira como se fosse um homem rico, devido às suas roupas. Perguntado sobre o que acha da situação, ele responde: “Em um jardim, há uma estação para o crescimento das plantas. Há a primavera e o verão, mas também o outono e o inverno. E depois, a primavera e o verão voltam. Enquanto as raízes não forem cortadas, tudo está bem, e tudo continuará bem.” Um assombro! De um dia para o outro, Chance passa a ser conhecido internacionalmente pelas suas metáforas inteligentes, é convidado para entrevistas e inclusive é citado em um pronunciamento do presidente do país. Repetindo inocentemente gestos e falas que via na televisão, se torna uma das pessoas mais influentes do mundo, mesmo sendo analfabeto, simbolizando, talvez, muitos políticos e empresários que galgam postos importantes mesmo tendo pouco estudo.
Mas a comparação que me vem à mente é do protagonista de O vidiota com o telespectador brasileiro. Este tem opinião para tudo, mesmo conhecendo superficialmente sobre o que vai falar, pois apenas reproduz o que seu formador de opinião preferido na TV afirma. Seja o jornalista que fica durante todo o seu programa berrando, seja a apresentadora dondoca que nunca saiu do seu estúdio, ou ainda o autor da novela das oito, o brasileiro reserva a eles um altar na estante de sua casa. Pena que esses deuses televisivos defendam a pena de morte, o ódio ao semelhante, o julgamento sem provas, a crença em milagres e em soluções fáceis. Faz falta um controle remoto para trocar essa falsa realidade de forma definitiva, substituindo as sombras projetadas na tela pelas cores vivas da realidade. Ou, melhor ainda, pelo preto e branco das páginas de um livro como esse de Jerzy Kosinsky.

segunda-feira, julho 12, 2010

Muito além da tela


Cassionei Niches Petry

O jardineiro Chance viveu durante toda a sua vida morando e trabalhando em uma casa, de onde jamais lhe fora permitido sair. Tinha como distração apenas uma TV com controle remoto, à frente da qual passava boa parte do dia. Não sabe sequer ler e escrever. Para ele, a realidade se resume ao velho dono da casa, que como pagamento pelos serviços lhe dava de presente suas roupas usadas, mas de grife; à empregada, que lhe servia o almoço; e à televisão, que lhe mostrava o mundo “além do jardim”. Agora, com a morte do velho, é expulso pelos herdeiros e se vê obrigado a conhecer o outro lado do muro.

O início do romance O vidiota (Ediouro, 112 páginas), escrito por Jerzy Kosinsky nos anos 70, lembra a “Alegoria da caverna”, de Platão. Na história do filósofo grego, homens acorrentados desde tempos imemoriais viam sombras projetadas no fundo de uma caverna, produzidas por uma fraca luminosidade vinda da entrada. Quando um deles consegue se soltar, descobre que o que viam não era a realidade, mas a aparência dela. Chance, por sua vez, continuou a achar que “tudo o que via fora dos limites da casa se assemelhava ao que havia contemplado na televisão.” Na adaptação para o cinema (que no Brasil recebeu o título de Muito além do jardim), cujo roteiro foi do próprio escritor, há uma cena que não consta no romance. Chance, vivido pelo ator Peter Sellers, ao pedir informações para um grupo de menores delinquentes, reage de uma forma inusitada quando um deles aciona um canivete automático na sua frente: tira o controle remoto que levava no bolso e aperta os botões, como se tentasse trocar o canal que não lhe agradou.

Depois de ser atropelado sem gravidade pela limusine de uma mulher rica, o jardineiro, é apresentado ao círculo dos grandes empresários e economistas de um país em crise financeira como se fosse um homem rico, devido às suas roupas. Perguntado sobre o que acha da situação, ele responde: “Em um jardim, há uma estação para o crescimento das plantas. Há a primavera e o verão, mas também o outono e o inverno. E depois, a primavera e o verão voltam. Enquanto as raízes não forem cortadas, tudo está bem, e tudo continuará bem.” Um assombro! De um dia para o outro, Chance passa a ser conhecido internacionalmente pelas suas metáforas inteligentes, é convidado para entrevistas e inclusive é citado em um pronunciamento do presidente do país. Repetindo inocentemente gestos e falas que via na televisão, se torna uma das pessoas mais influentes do mundo, mesmo sendo analfabeto, simbolizando, talvez, muitos políticos e empresários que galgam postos importantes mesmo tendo pouco estudo.

Mas a comparação que me vem à mente é do protagonista de O vidiota com o telespectador brasileiro. Este tem opinião para tudo, mesmo conhecendo superficialmente sobre o que vai falar, pois apenas reproduz o que seu formador de opinião preferido na TV afirma. Seja o jornalista que fica durante todo o seu programa berrando, seja a apresentadora dondoca que nunca saiu do seu estúdio, ou ainda o autor da novela das oito, o brasileiro reserva a eles um altar na estante de sua casa. Pena que esses deuses televisivos defendam a pena de morte, o ódio ao semelhante, o julgamento sem provas, a crença em milagres e em soluções fáceis. Faz falta um controle remoto para trocar essa falsa realidade de forma definitiva, substituindo as sombras projetadas na tela pelas cores vivas da realidade. Ou, melhor ainda, pelo preto e branco das páginas de um livro como esse de Jerzy Kosinsky.

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“Considero a televisão muito educativa, pois quando ligam o aparelho, vou para outra sala ler um livro.” Groucho Marx