quarta-feira, março 30, 2011

O voo, o véu e a verdade


Um ano traçando livros!

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“O velho Montag queria voar perto do Sol e, agora que queimou as asas, pergunta por quê.” (Ray Bradbury, Fahrenheit 451)

O mito de Ícaro – o jovem que voou com um par de asas de cera que se derreteu ao chegar perto do sol – é uma das alegorias criadas pelo homem para mostrar que temos limites para chegar ao conhecimento. Devemos seguir os ensinamentos do mito, indo até as fronteiras do saber e parar?

Em um ensaio do livro Mitos, emblemas e sinais, o historiador italiano Carlo Ginzburg escreve sobre os opostos alto e baixo, relacionados ao chamado conhecimento proibido. “É significativo que digamos que algo é ‘elevado’ ou ‘superior’ – ou, inversamente, ‘baixo’ e ‘inferior’ – sem nos darmos conta do motivo por que aquilo a que atribuímos maior valor (a bondade, a força etc.) deva ser colocado no alto.” Nesse sentido, nas mitologias e religiões, os deuses estão sempre num patamar superior, e nós, seres inferiores, criamos raízes aqui embaixo.

Na Idade Média, o conhecimento esteve encastelado em mosteiros cujas bibliotecas possuíam o acervo do que de mais importante havia sido escrito. O período foi denominado de “Idade das Trevas”, devido ao obscurantismo intelectual no qual vivia a população das classes baixas. Mais tarde, o homem comum passou a ter acesso ao saber. A Reforma Protestante ajudada pela invenção da imprensa possibilitou que qualquer pessoa pudesse ler e interpretar a Bíblia. Hoje, vemos que o saber se expande cada vez mais através da rede de computadores e os limites do conhecimento vão sumindo no horizonte. Ou não existem mais esses limites?

Pois apesar de todos esses voos já realizados rumo à luz do conhecimento, ainda há quem deseje nos cortar as asas. Para eles, o ser humano não pode querer ser um deus. Essas pessoas impõem barreiras às pesquisas como as das células-tronco ou da criação de vida artificial e não aceitam ser contestadas com relação a seus dogmas. Devemos nos ater, dizem, a nossa insignificância e não tentar entender as coisas do “alto”. Pensamento mesquinho de quem quer ser dono de uma verdade e deseja que os demais a aceitem e, além disso, tenta encobrir as fontes que podem provar o contrário de seu pensamento. Quebrar essas barreiras é o que o super-homem proposto pelo filósofo Nietzsche deve fazer. Não há muro intransponível para quem pode voar.

Não estou dizendo para não termos nenhum limite. A falta de limites para crianças e jovens está criando seres que não respeitam ninguém. Quem não respeita limites no trânsito causa acidentes. Até na alimentação temos que ter um limite para não prejudicarmos nosso organismo. Quero dizer que é preciso deixar livres as fronteiras do conhecimento. Não deve haver limites para o saber, a experiência, a informação, a ciência, a filosofia, a cultura, a fantasia, as artes. Só assim podemos buscar a verdade, chamada de “aletheia” pelos gregos, o que, segundo Martin Heidegger, é o “desvelamento” do que está oculto, deixando cair o véu que nos tapa os olhos.

Pois é isso que venho tentando há um ano, quando passei a ser colaborador fixo aqui neste espaço: buscar a verdade – se é que ela existe – através da literatura e, da mesma forma, compartilhar as descobertas com o leitor. É esse o sentido de continuar “traçando livros”.

Cassionei Niches Petry é professor e mestrando em Letras, com bolsa do CNPq. Há um ano escreve quinzenalmente sobre livros para o Mix e há quase onze mantém o blog Porém, ah, porém, cujo endereço eletrônico é cassionei.blogspot.com.

sábado, março 26, 2011

Anotações no meu Moleskine (I)

06/01/2010
A Última Noite de Boris Grushenko, do Woody Allen, é um filme bem curioso, em que ele parodia romances russos, como "Guerra e Paz", "Os irmãos Karamazov," etc. Há um diálogo entre o Bóris e a Sônia em que são citados títulos de romances do Dostoiévski.

14/01/2010
Há uma música do LP “O papa é pop”, dos Engenheiros do Hawaii chamada “Perfeita simetria”. Aparentemente, parece uma redundância, reforçada ainda pelo refrão: “Ao tempo em que nada/ Nos dividia/ Havia motivo pra tudo/ E tudo era motivo pra mais/ Era perfeita simetria/ Éramos duas metades iguais”. Ora, se há uma simetria, ela já é perfeita; se há duas metades, elas são invariavelmente iguais. Mas não é bem assim.
Quando trato desse assunto com meus alunos, lembro sempre de uma das alegorias do filósofo Platão, na obra “O banquete”, em que aborda o amor. Em um dos diálogos, diz Aristófones, comediógrafo do teatro grego, que em tempos passados, antes do masculino e do feminino, haviam os andróginos, seres que possuíam os dois gêneros ao mesmo tempo.

segunda-feira, março 21, 2011

Japão, onde nasce o Sol

Pensem nas crianças/Mudas telepáticas. Os versos de Vinícius de Moraes, na voz de Ney Matogrosso, nos vêm à mente quando acompanhamos a tragédia no Japão. Essas crianças poderiam ser nós, distantes de tudo, porém assistindo boquiabertos às imagens dos estragos provocados pelo tsunami e que são transmitidas pela TV e pela internet. Mas, na verdade, as crianças são todos os japoneses, imponentes diante de algo que ainda se anuncia.

Claro que o contexto é outro. Em vez da explosão de uma bomba, as ondas devastadoras. O que antes era uma rosa, agora é um pólen radioativo, que se espalha e contamina inclusive a comida natural tão prezada pelos japoneses.

A metáfora da rosa, mais um paradoxo do que uma comparação, lembra agora a natureza, tão imprevisível. As ondulações e a delicadeza das pétalas se transformam em ondas, antes tão suaves ao bater na costa, agora arrastando carros, casas, pessoas. Da rosa despetalada, sobram apenas os espinhos.

As rosas, no entanto, são plantadas pelo homem. O homem que manipula os elementos da natureza para criar energia fica agora sem forças diante do poder destrutivo do que ele próprio criou. Como controlar um inimigo invisível? Como segurar o caule da planta sem se ferir com seus espinhos? O átomo, a menor partícula existente, quer derrotar os guerreiros japoneses, que já perderam a batalha para as ondas gigantes.

Pensem nas feridas/ Como rosas cálidas. Essas feridas não vão se curar tão cedo, como não foram curadas as de Hiroshima e Nagasaki. Não são feridas expostas, mas sim internas. Serão as lembranças dos que presenciaram as imagens das casas sendo destruídas. Serão também as radiações que corroem por dentro e são transportadas geneticamente para outras gerações. A rosa hereditária/ Estúpida e inválida.

Mas o Japão é a “Terra do Sol Nascente”. Uma nova luz pode brilhar sobre a cor cinza das cidades arrasadas ou dissipar as nuvens negras invisíveis da radioatividade. Sejam os ensinamentos de Buda ou o culto ao kami no Xintoísmo, ou ainda os espíritos guerreiros dos samurais, não importa, todas as forças, existentes ou imaginárias, vão se aliar ao Sol e ao povo japonês, trazendo de volta a cor e o perfume de uma nação tão bela como uma rosa.


domingo, março 20, 2011

Lúcio Cardoso



"Escrever é um modo de agonizar de olhos abertos." Lúcio Cardoso, autor de Crônica da casa assassinada.

sábado, março 19, 2011

Andrés Neuman


"Sempre me agradou a ideia de não se saber como se escreve um livro. De aprender a escrever com cada um e, ao terminá-lo, ser tomado novamente pela dúvida. Um escritor é diferente de um escrivão. Se sabe perfeitamente como executar seu trabalho, então é um impostor. Leitores não merecem fórmulas, mas assombros. E um autor não pode espantar ninguém se não é primeiro assombrado pela linguagem."

Andrés Neuman, escritor argentino, em entrevista publicada hoje no Sabático, suplemento do Estadão.

quarta-feira, março 16, 2011

Kiefer no Traçando Livros de hoje

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Queres ser escritor?


Gosto de ler críticas negativas, mas fico incomodado quando elas partem de quem, ao que parece, não entendeu a obra analisada. Quando se percebe que o problema não é do livro, mas de quem o lê, fica aquela sensação de que o crítico deveria se calar. Digo isso porque li uma resenha injusta sobre a coletânea de ensaios e crônicas Para ser escritor, de Charles Kiefer (Editora Leya, 160 páginas), e me senti no dever de fazer a minha leitura defendendo, de certa forma, a obra.

Quem, como esta traça que vos escreve, tem um desejo tremendo de se tornar escritor, não vai encontrar no livro um manual de instruções de como se tornar um novo Machado de Assis, mas sim reflexões sobre o ofício, escritas por um autor consagrado das letras gaúchas. Além de ter escrito clássicos como Caminhando na chuva, Kiefer mantém uma oficina literária, é doutor em literatura e conhece como poucos o mercado editorial. Os textos foram em boa parte publicados no seu blog e em coletâneas anteriores, como O guardião da floresta. Escritos numa linguagem leve, mas repletas de informações, e fazendo uma ponte entre a linguagem literária e a teórica, os textos reforçam no aspirante a escritor o desejo de se tornar um autor, ou provoca a dúvida se é esse realmente seu caminho.

No primeiro texto, que dá título ao livro, Kiefer diferencia o escritor, o autor e o profissional da literatura. “Um escritor somente é escritor quando menos é escritor, no instante mesmo em que tenta ser escritor e escreve.” Depois disso ele é o leitor de si mesmo; mais adiante ele sonha com a glória; por fim, precisa pôr as asas no armário e fazer de tudo para vender o peixe. Nessa afirmação, ele se distancia um pouco da ideia de que o escritor é somente aquele que publica, porém o texto tem um tom de crônica literária, o que não permite dizer que essas afirmações são categóricas, como afirmou a injusta crítica a que me referi. A autora da resenha pensou que o livro fosse algum tratado teórico e apontou algumas incoerências. Pedir coerência para um ficcionista é pedir que ele abdique do fazer artístico, pois a arte é, por essência, incoerente.

Há na coletânea reflexões sobre a brevidade dos contos na era da internet, sobre os blogs, as oficinas literárias, noites de autógrafos, o uso de adjetivos - às vezes condenado, outras vezes necessário -, concursos literários, conselhos de mestres como Mário Quintana, títulos, leituras de originais, o plágio, ética, o acordo ortográfico, etc. Mas são os textos sobre a criação literária e a leitura, como não poderia deixar de ser, os que mais se destacam.

Em “Literatura e solidão”, Kiefer revela a angústia do escritor quando percebe que não é lido e “que escrever é um gesto completamente inócuo e onanista”. Ou seja, quem escreve quer ser lido, mas, muitas vezes, sua criação não leva a nada e acaba servindo apenas para sua própria satisfação. Em “Um prazer anárquico”, o autor questiona: nós, professores, que reclamamos que os alunos não leem, não estaríamos “querendo deles um modelo de leitura que já não são capazes de realizar”? E se “lhe oferecêssemos um banquete de múltiplos e simultâneos objetos de leitura”, inclusive Paulo Coelho?

Charles Kiefer levanta as questões. Cabe ao leitor e provável escritor respondê-las.

Cassionei Niches Petry é professor e mestrando em Letras, com bolsa do CNPq, mas queria ser apenas leitor e escritor. Mantém o blog, cassionei.blogspot.com, e escreve quinzenalmente o Traçando Livros.