sexta-feira, junho 29, 2012

Bergman, sobre o suicídio

“Como todas as outras crianças, quando era pequeno, decidi um dia passear na floresta sem dizer nada a ninguém, desaparecer, me estender no chão, morto, e pensar então na família que estaria naturalmente extremamente triste!"
(In: BJÖRKMAN, Stig. O Cinema Segundo Bergman. Tradução de Lia Zats. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.)

quinta-feira, junho 28, 2012

Rayuel-o-Matic

Depois da troca de ideias sempre enriquecedoras com o Charlles Campos no post abaixo (confiram a conversa na caixa de comentários), digitalizei algumas páginas do livro "La vuelta al dia en 80 mundos", do Cortázar, para mostrar o que é a "Rayuel-o-Matic", uma máquina para ler o romance Rayuela. Uma brincadeira bem ao gosto do autor de Final de juego, Os premios e de outras tantas obras que tem o lúdico como tema. Cliquem nas imagens para ampliá-las.





Minha edição preferida de Rayuela

Um novo membro da minha biblioteca: a edição que, para mim, é a melhor já feita de Rayuela, do Cortázar. Antes eu tinha apenas uma versão em e-book de um dos meus livros prediletos. Faltava tê-lo impresso.

terça-feira, junho 26, 2012

domingo, junho 24, 2012

Exercício poético paródico a partir de um soneto de Camões


Trabalhando com os alunos o soneto “Amor é fogo que arde sem ver”, do Camões, e a criação intertextual com esse poema feita pelo Renato Russo na música “Monte Castelo”, também inspirada num texto bíblico, discutimos as diferentes concepções de amor em épocas diferentes: nas primeiras décadas da chamada Era Cristã, no Renascimento e no século XX pós Segunda Guerra. Surgiu a questão: como conceituaríamos o amor no século XXI? A partir disso, em uma das aulas, esbocei no quadro esse exercício poético paródico. Conforme prometi para os alunos, iria compartilhar com todos pela internet. Com algumas modificações, aí está:

Amor é Msn onde se fala e não se vê,
É um Orkut que existe e ninguém entra,
É curtir sem gostar no Facebook,
É pergunta sem resposta no Formspring.

É uma TV cuja imagem não se vê,
É um rádio que se escuta e não se ouve,
É nunca conectar-se conectado,
É atender o celular e nada dizer.

É querer ouvir Restart e Black Sabbath,
É dançar funk num show de rock'n’roll,
É beijar 20 na balada e ter lealdade.

Mas como causar pode no século XXI,
Se os corações não querem amizade,
Se tão falso assim é o mesmo Amor?

quarta-feira, junho 20, 2012

No Traçando Livros de hoje, Firmin, de Sam Savage


No Traçando Livros de hoje, no jornal Gazeta do Sul, escrevo sobre o romance Firmin, de Sam Savage: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/352777-descobertas_de_um_rato_de_livraria/edicao:2012-06-20.html

Descobertas de um rato de livraria

Quando estudava no Curso de Letras, a pasta que eu utilizava para carregar meu material tinha estampado um desenho de um rato. Certa vez, sonhei que esse roedor ganhara vida e saíra percorrendo as prateleiras da Biblioteca da Unisc devorando todos os volumes. A clássica expressão rato de biblioteca ou de livraria só rivaliza com a da traça, igualmente apreciadora de livros, e que motiva o título desta página quinzenal. Inspirado nesse animal odiado por muitos, o escritor americano Sam Savage escreveu uma pequena obra-prima sobre a paixão pela literatura e pelo conhecimento.

Firmin, romance publicado no Brasil pela editora Planeta, é o nome do rato que, de tanto roer as páginas dos livros de uma velha livraria, acaba incrivelmente aprendendo a ler e desenvolve uma inteligência igualmente incomum. Tudo é narrado por ele próprio, que afirma: “Estou convencido de que estas páginas mastigadas contribuíram para a base nutricional do que modestamente denominarei meu insólito desenvolvimento mental”. 

Iniciando pelo seu nascimento, num ninho feito pela sua mãe com folhas de um romance de Charles Dickens, a história prossegue através das peripécias do roedor para tentar comer e depois ler o máximo possível de livros. Num primeiro momento, os devora de forma desordenada. Depois, porém, passa a refinar o gosto: “Me dei conta, em princípio, de que cada livro possuía um sabor distinto – doce, amargo, azedo, agridoce, rançoso, salgado, picante –, e conforme foi passando o tempo e meus sentidos ganhavam em perspicácia, cheguei a captar o sabor de cada página, de cada frase, e finalmente de cada palavra.” Por último, passa a mastigar apenas as margens e a ler o conteúdo das páginas, numa obsessão a que denominou de “bibliobulimia”.

Devido a seu desenvolvimento intelectual, Firmin tenta se comunicar com Norman, o dono da “Livros Pembroke”, em cujo depósito o rato nasceu. (“Não suportava a ideia de passar o resto dos meus dias em silêncio”.) Não conseguindo usar a enorme máquina de escrever, tenta a linguagem de sinais, mas ambas as tentativas são frustradas. Quase morre ingerindo veneno, se salvando porque consegue ler o rótulo da embalagem do que pensava ser uma refeição oferecida por Norman. Andando pela cidade, busca se comunicar com duas deficientes auditivas, mas acaba sendo perseguido e, ao tentar fugir, sofre uma fratura na perna. É acolhido pelo escritor de ficção científica Jerry Magoon, que morava no mesmo prédio da livraria. Mais não digo para não estragar algumas surpresas.

Alegoria sobre a condição humana, a obra nos provoca a refletir sobre nossa condição de ratos enfrentando um mundo perverso. A literatura nos faz descobrir quem somos, é como olha na pequena abertura no teto onde Firmin observava a livraria quando estava no sótão: “Era uma janela para o mundo dos humanos, minha primeira janela. Nesse sentido, vinha o ser o mesmo que um livro: por ela poderia aparecer mundos que não eram os meus”.

 Sam Savage, nascido em 1940, é Doutor em Filosofia, e só aos 65 anos publicou seu primeiro livro. Ainda bem desconhecido, em que pese Firmin, publicado originalmente em 2006, ter se tornado um best-seller em muitos países, é um escritor que merece ser descoberto por quem vê na literatura uma paixão. Outra obra sua publicada no Brasil é o romance Cartas de um escritor solitário, em que, assim como em Firmin, também explora a metaliteratura. 

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras, com bolsa do CNPq. Já foi um rato de biblioteca. Hoje se considera uma traça, mais insignificante ainda. Escreve regularmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

terça-feira, junho 19, 2012

Firmin (III)

 Ilustração de  Fernando Krahn



Mais um trecho de Firmin, de Sam Savage (aqui, na edição da Seix Barral), que será tema do Traçando Livros de amanhã:


"Yo siem­pre había imaginado que un verdadero escritor —como yo, en mis sueños— dedicaría gran parte de su tiempo a estar instalado en los cafés, sosteniendo ingeniosas char­las con gente chispeante y que de vez en cuando regresa­ría a casa con una chica de larga cabellera negra, a quien pondría en la puerta a la mañana siguiente, para reanu­dar su trabajo: «Lo siento, muñeca, tengo un libro que escribir.» Lo imaginaba encerrado en su cuarto durante días, bebiendo litros de whisky en un vaso de Woolworth y tecleando en su Underwood hasta altas horas de la madrugada."

domingo, junho 17, 2012

O canibal Vila-Matas

“Vila-Matas pertence a uma raça de canibais literários, ou seja, de escritores que se nutrem da própria literatura”. Justificativa do júri italiano do Prêmio Gregor von Rezzori ao premiar o escritor pelas narrativas de Exploradores del abismo, ainda inédito por aqui.

sábado, junho 16, 2012

Firmin (II), em homenagem ao Bloomsday

"Mi querida Fio ha convertido en confeti el Finnegans Wake. Joyce fue uno de los Grandes, quizá el más Grande de todos. Yo nací, fui acogido y me ama­mantaron en el armazón deshojado de la obra maestra menos leída del mundo.
La mía era una familia numerosa, y pronto fuimos trece los apelmazados entre las ruinas de Finnegans, o, por decirlo como se diría en el libro, trece «moléculos mamalúculos amasajados, lampando por sus mama­das». (Y, transcurridos tantos años, sigo en las mismas: amasajándome y lampando por mis mamadas, mis mi­gajas. ¡Oh sueños!) " (Savage, Sam. Firmin. Ed. Seix Barral.)