quinta-feira, setembro 26, 2013

Algumas reflexões surgidas no painel citado no post anterior

Às vezes me considero um gênio incompreendido. Outras vezes me considero um fracasso. Não sou nenhum nem outro.

O prazo para escrever nunca foi empecilho, pelo contrário, pois só funciono quando o tempo aperta.

Escrevemos sobre o que nos angustia. Por isso tenho muitas personagens que são escritores.

Sempre terei um público pequeno para me ler/ouvir. Pequeno em quantidade, mas grande em qualidade.

Você pode, se souber fazer bem, subverter as regras da ABNT na monografia ou na dissertação.

terça-feira, setembro 24, 2013

Apresento minha dissertação e o romance hoje na Semana Acadêmica de Letras da Unisc

Participarei hoje de um painel sobre monografias e dissertações na XIV Semana Acadêmica de Letras da Unisc - Universidade de Santa Cruz do Sul. Vou falar sobre a minha dissertação de mestrado, que resultou no romance ainda inédito "Os óculos de Paula". http://www.unisc.br/site/tecendo-conexoes/pages/programacao.html

quarta-feira, setembro 18, 2013

Juli Zeh no Traçando Livros de hoje


Minha coluna na Gazeta do Sul de hoje. Detalhe para o anunciante. Será que foi intencional? Aqui, no site do jornal: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/424657-corpo_sao_mente_nem_tanto/edicao:2013-09-18.html

Corpo são, mente nem tanto

Um país sem nome, num futuro próximo, é controlado pelo Método, um sistema de governo “que objetiva garantir a cada indivíduo uma vida longa, sem perturbações, isto é, uma vida saudável e feliz. Livre de dor e sofrimento.” Toda a população é monitorada para que nenhum tipo de doença se propague. Porém, a liberdade também é cerceada, pois quem não cumpre as normas acaba sendo condenado a penas como o congelamento. Mia Moll, uma bióloga defensora do Método, tem suas convicções à prova depois que seu irmão, contrário ao status quo, é injustamente condenado por estupro e depois é encontrado morto: cometeu suicídio para escapar da opressão.
Corpus delicti: um processo, da escritora alemã Juli Zeh (Record, 254 páginas, tradução de Marcelo Backes) poderia ser comparado a tantos romances distópicos que retratam governos controladores da vida dos indivíduos, como 1984, de George Orwell, ou Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Sua proximidade é maior, porém, com a norte-americana Ayn Rand (1905-1982), que em obras como Anthem (Hino, em português), faz a apologia ao indivíduo e critica a ditadura do coletivo que trata o homem como uma simples peça que deve funcionar apenas com a máquina toda. Sozinha não tem nenhuma serventia e pode ser descartável. “Iriam me obrigar a pensar, a dizer ou fazer determinadas coisas. Mas a única exigência que eu faço é ser dono de minha realidade pessoal”, afirma Moritz, o irmão de Mia.
Mia Moll é julgada e condenada, conforme ficamos sabendo na reprodução do veredicto já no início do romance. O enredo mostra os motivos que desencadearam esse processo, que tem na figura do representante midiático do Método, Kremer, o algoz principal. Clássico exemplo de quem não tem limites éticos para comprovar suas ideias e não deixar aparecer nenhuma falha, é autor de um best-seller, A saúde como princípio de legitimação estatal, que serve de base para o regime. Mia acredita ser ele o responsável pela morte de Moritz e trava alguns debates com o líder, que aparentemente baixa a guarda para distorcer as falas e manipular informações que ela fornece, colocando contra ela parte da população, que antes começava a admirá-la.
Juli Zeh nasceu em 1974, na Alemanha. É advogada e escreveu também A menina sem qualidades, adaptado para uma série televisiva no Brasil. Há uma diferença muito grande entre as duas obras. Enquanto Corpus delicti é mais sucinta, com frases e capítulos curtos, seu outro romance é mais extenso em suas mais de quinhentas páginas e composto por frases complexas, dialogando, também na profundidade dos temas, com a obra maior de Robert Musil, O homem sem qualidades. Além disso, edição brasileira de A menina sem qualidades foi bem mais caprichada, com amplo posfácio e glossário escritos pelo tradutor Marcelo Backes, elucidando o jogo narrativo proposto pela autora (não por acaso seu título em alemão é Spieltrieb, prazer de jogar ou pulsão de jogo). Traz no enredo a história de dois alunos, Ada e Alev, que chantageiam seu professor, utilizando-o como se fosse uma peça de xadrez, numa partida que mostra a crise de valores a que pode chegar a juventude atual.
Pela capacidade da autora em tratar literariamente temas polêmicos, aliada à síntese narrativa, Corpus delicti deveria atrair um bom número de leitores, tanto os mais exigentes artisticamente quanto aos que apenas querem uma boa história não muito longa. É uma boa porta de entrada para conhecer a obra dessa importante escritora contemporânea, que ainda terá nos próximos meses outro romance lançado por estas bandas. Aguardemos.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com. Seria condenado pelo Método, pois não cuida muito bem de sua saúde. Prefere a mente são ao corpo são.


terça-feira, setembro 17, 2013

Entrevista para o Unisc Notícias - 16/09/2013 - Bloco 3

No Unisc Notícias especial sobre a Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, no terceiro bloco, fui um dos entrevistados para falar sobre a condição do escritor iniciante. Apareço aos 11min do vídeo:

segunda-feira, setembro 16, 2013

Um nome ("Eles" VII)



Pedi para fecharem a cortina, mas até agora não fui atendido. Dizem que o sol fará bem para mim. Não são apenas a luz no meu rosto ou o calor que me incomodam, mas também a imagem das calcinhas em um varal da casa vizinha. Lógico que não vou dizer que esse é o verdadeiro motivo.
Também pedi para mudarem meu cardápio. Mais uma vez minha solicitação não teve sucesso. Durante toda a minha existência nunca comi muita verdura, não é agora no final da vida que devo mudar. É para o seu bem, me falam. Digo que não me importo se vou morrer. Não quero comer verdura. Não basta estar doente, se é que estou, não posso mais decidir nada, nem mesmo escolher a hora de morrer eu posso.
Solicitei uma TV no quarto, mas alegam que devo descansar. As notícias podem me trazer preocupação. O que eles não querem que eu saiba? O que estão me escondendo?
Não sei há quanto tempo estou aqui. Eles não me respondem quando pergunto. Aliás, quase não ouço voz de ninguém aqui dentro, apenas passos dos sapatos das enfermeiras. Se é que são enfermeiras. Não sei se estou no hospital. Nunca havia entrado nesta ala, portanto não sei se é o mesmo lugar onde nasci. Não reconheço a casa ao lado. Também não sei nem mesmo se estou na mesma cidade de onde nunca saí. Ninguém me responde nada. Eles dizem que devo ficar quieto, que é para o meu próprio bem.
Eles também não me dizem o que eu tenho. Não me fazem mais exames, apenas me perguntam como estou. Digo que estou bem, não tenho nada, que poderia ir embora. A última pergunta que me fazem é sobre o meu nome. Respondo já sem paciência, eles anotam na prancheta e vão embora.
Percebo, então, que é o nome que me prende aqui. Começo a dar novos nomes, se é isso que eles querem. Um dia, talvez, eu acerte o verdadeiro e ganhe alta deste lugar. Um dia, talvez, eu consiga me livrar deles.

quarta-feira, setembro 11, 2013

Por que ler apaixona?

Mauro Ulrich, editor do caderno Mix do jornal Gazeta do Sul, para o qual colaboro, fez essa pergunta para alguns escritores e gente ligada aos livros em Santa Cruz do Sul, inspirado no lema da Feira do livro da cidade. Eis minha resposta:

terça-feira, setembro 10, 2013

Por que a galinha atravessou a rua?



Eu estava em greve, mas tive que voltar ao trabalho. Não deu para segurar as pontas aqui em casa. Mais de duas semanas tendo salário descontado para lutar por um direito meu e dos demais professores deixa qualquer um frustrado. Se antes estava de cabeça erguida, lutando, hoje estou envergonhado. Mais envergonhado ainda por ter patrões como essa corja petista na qual votei durante muitos anos e em quem confiei. Mais envergonhado em saber que eles distorcem os fatos para arrumarem desculpas e não negociar como o magistério, como se o quisessem fazer antes. Uma das frases mais certas já ditas na história da humanidade foi essa: o poder corrompe. Se antes estavam do lado do professor, hoje estão se utilizando do poder para satisfazerem seus egos e deixar bem claro quem manda.
Mais envergonhado estou em saber que a população não está do nosso lado, pois, se tivesse, não ficaria calada diante dos fatos. Por isso não acreditei nas manifestações que aconteceram no país. Não saí às ruas porquanto sabia que os protestos eram apenas fogo de palha e uma forma de pessoas aparecerem nas redes sociais e registrarem sua “participação” na transformação do país. Quando os responsáveis por educar nossos filhos saíram às ruas, poucos os acompanharam. Ora, a verdadeira transformação começa na sala de aula. O Brasil só vai mudar se a educação for valorizada. Ouvimos isso há anos, mas nada é feito. E quando aqueles poucos professores tentam fazer alguma coisa, o poder cai sobre suas cabeças. E olham para o lado e não veem ninguém. 
Envergonhado estou porque não posso dizer para meus alunos respeitarem as regras, já que as próprias autoridades que as criaram não respeitam. Envergonhado porque muitos estudantes pararam também, uma atitude rara, pois estavam sendo prejudicados por uma mudança mal implementada. Suas vozes, no entanto, não foram ouvidas. “O que fazer?”, me perguntam. “Não sei”, respondo. E o silêncio surge numa sala de aula antes sempre em constante balbúrdia.
Envergonhado estou porque não tenho respostas, eu que trabalho respondendo dúvidas. Envergonhado estou porque não estou entendendo nada, eu que estudei e ainda estudo, leio e releio livros, tudo para entender o mundo que está ao meu redor. Não entendo, porém, tudo isso. Por que somente nós temos que ganhar pouco para não quebrar o caixa do estado? Por que somente nós não podemos fazer greve e protestar? Por que somente nós temos que cumprir leis e os chefes não? Por que temos que baixar a cabeça para eles, que não a baixaram quando também fizeram greve? Por que não podemos opinar sobre uma mudança se na prática vimos que ela não funciona? Por quê? Por que recebo menos que um profissional que tem a mesma formação minha ou até com formação inferior? Por que a galinha atravessou a rua? Por que separado se escreve tudo junto e tudo junto se escreve separado? Por que bota a gente calça e calça a gente bota? Por quê? Por quê?  

segunda-feira, setembro 09, 2013

Virgínia ("Eles" VI)



Virgínia terminou o conto. As vozes ressurgiram aos poucos, agora que não havia mais o barulho da máquina de escrever. Quem eram eles que diziam coisas ininteligíveis, sussurros vindos não sabia de onde? Tirou o papel da máquina e releu a última página. Não reconheceu o que escrevera. Não havia sido ela. Estariam eles ditando no seu subconsciente o que deveria criar?
Pôs outra folha na máquina. Deveria dar alguma explicação para o marido através de um bilhete. Ela tentara escapar deles, mas não estava conseguindo. Teria que continuar escrevendo sempre, sem parar, mas não poderia fazê-lo. Ele não poderia ajudá-la, até porque não entenderia. Maridos não foram feitos para entender.
Deixou a folha sobre a mesa da cozinha. O conto inédito foi jogado na lareira, assim como os dez outros produzidos nos últimos meses, desde que as vozes começaram a importuná-la.
Apesar de seu nome ser Virgínia, e não Sylvia, fechou todas as frestas da cozinha e ligou o forno a gás. Eles ainda sussurravam, até o derradeiro instante, mais algumas palavras. As últimas foram bem claras, nítidas, e a acompanharam no último suspiro: bom trabalho.

sábado, setembro 07, 2013

Ítalo Calvino, em "Por que ler os clássicos"

"a escola deve fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais (ou em relação aos quais) você poderá depois reconhecer os “seus” clássicos. A escola é obrigada a dar-lhe instrumentos para efetuar uma opção: mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola.

  É só nas leituras desinteressadas que pode acontecer deparar-se com aquele que se torna o “seu” livro."

terça-feira, setembro 03, 2013

Sim, eram “eles” ("Eles" V)



– Prepare-se para conhecer “eles” – um político antigo me alertou depois que fui eleito.
– “Eles” quem? – perguntei.
– Logo, logo você vai saber.
Aceitei ser candidato a vereador depois de muita insistência por parte do prefeito, que buscava a reeleição. Disse que meu nome seria uma representação importante na comunidade cultural do município. Poderia ser, inclusive, nomeado como secretário de educação e cultura. Além de escritor, eu tinha experiência como ex-dirigente de uma escola de samba, sem contar meu passado como membro da cultura Hip Hop. Não milito mais em nenhuma dessas frentes depois que passei a me dedicar à literatura, no entanto ainda sou conhecido por muitos que continuam nessas atividades.
Nunca tinha vontade de concorrer a nada. Meu jeito de ser, meu comportamento discreto e o pouco tato com as pessoas me colocariam como um fracasso eleitoral. O prefeito disse que não deveria me preocupar com isso. No meu caso, meus eleitores não seriam daqueles que gostam de muito aperto de mão, abraços e beijos. Deveria ganhar meus votos através das redes sociais, artigos na internet e, principalmente, pela imagem conhecida nacionalmente. Acabei aceitando, mais por inércia do que por qualquer outra coisa. Não sei dizer “não”, ainda mais quando o lado vaidoso se manifesta.
Depois do juramento, recebi os cumprimentos de praxe, o abraço da família e dos amigos e conversei com alguns colegas. Quando saí da câmara de vereadores, “eles” estavam na calçada me esperando, com seus carnês nas mãos, com seus filhos doentes, com suas angústias, com suas chagas abertas. Sim, eram “eles”.