domingo, junho 29, 2014

terça-feira, junho 24, 2014

Texto meu no blog "54 quadradinhos"


Fui convidado para participar de uma série de textos curtos sobre o livro e a leitura escritos especialmente para o blog "54 quadradinhos", ao lado de nomes conhecidos da literatura, como Marcelino Freire, Marcia Tiburi, Elvira Vigna, Paulo Scott, Andrea del Fuego, Luís Henrique Pellanda e Joca Reiner Terron, fora outros que virão. Segue o link para o texto: http://54quadradinhos.wordpress.com/2014/06/22/textos-curtos-e-ineditos-ix-cassionei-niches-petry/

sábado, junho 21, 2014

Diário crônico XXXIV – Cuidado com o escritor frustrado, caro leitor




O mote não é lá muito incomum. Um escritor se apossa de um manuscrito de outra pessoa, publica em seu nome e se transforma em um sucesso de crítica e público. Há poucos dias assisti ao filme As palavras, dirigido por Brian Klugman. O protagonista encontra uma obra perdida dentro de uma pasta velha numa loja de antiguidades. Como não sabe de quem é e teve o seu próprio livro recusado por um editor, resolve publicar em seu nome. Torna-se um fenômeno de vendas, porém, o verdadeiro autor acaba aparecendo e lhe conta a história que inspirou o livro. O plagiador, por isso, deseja se redimir.
A diferença do romance do espanhol José Ángel Mañas, Soy un escritor frustrado, é a maldade do protagonista e narrador da história. É um professor de literatura que tenta, sem sucesso, a carreira de escritor. Não escreve nada interessante e sabe muito bem disso por ser o melhor crítico literário do seu país e ainda por cima vê outros escritores fazendo muito bem o que ele não consegue fazer. “No hay nada tan frustrante como esto: tener que enfrentarse cada día con brillantes ejemplos de individuos que son todo lo que uno quisiera ser y que han conseguido todo lo que uno nunca podrá ser.” Como se não bastasse, seu amigo, a que chama de Mozart, é um escritor em ascensão, o que lhe causa uma enorme inveja. O epíteto do amigo não é por acaso, visto que o narrador se torna uma espécie de Salieri, compositor que teria, segundo a lenda não comprovada, envenenado Mozart por não suportar que seu colega tivesse tido maior reconhecimento.
Quis o Destino, senhor das coisas inexplicáveis, que caísse nas mãos do professor um original de uma aluna sua, Marian. Impressionado com a qualidade do texto, acaba sequestrando a jovem, deixando-a num porão de uma casa afastada da cidade e sofrendo das mais inumanas condições: amarrada, tendo que comer num prato no chão como os cachorros e fazer suas necessidades fisiológicas na roupa mesmo. Ele publica a obra em seu nome e o livro se torna um grande sucesso. Mais tarde, ainda tenta obrigá-la a escrever novo romance, pois ele precisa entregar ao editor um novo livro para receber um importante prêmio literário, já assegurado a ele mesmo antes de escrever, num arranjo comum no meio editorial espanhol. Marian, porém, resiste, recusando-se a comer e se entregando à Sorte, senhora que não dá muita bola para sua condição.
Também adaptado para o cinema, pelas mãos do francês Patrick Bouchitey, Soy un escritor frustrado é o terceiro romance de Ángel Mañas e foi publicado em 1996. Não deixa frustrado nem o leitor exigente nem aquele que gosta de um best-seller cheio de emoção e suspense. Infelizmente nenhuma editora lançou o livro por estas plagas.
Pense muito bem, caro leitor, antes de deixar um escritor frustrado. Compre sua obra, comente seus textos, repercuta nas redes sociais, caso contrário ele pode se metamorfosear num monstro e não responder mais racionalmente sobre seus atos.

quinta-feira, junho 19, 2014

Diário crônico XXXIII – Letras derramadas

(Em homenagem aos 70 anos de Chico Buarque, republico um texto meu que saiu na coluna Traçando livros do jornal Gazeta do Sul, em 2010.)
“Estava à toa na vida, o meu amor me chamou” para ler Leite derramado, o romance de Chico Buarque (Companhia das Letras, 200 páginas). Por ser o maior compositor do Brasil, parte da crítica o considera um aventureiro na literatura, esquecendo que letra de música também pode ser poesia. “Sou um artista brasileiro”, diz o eu-lírico da música “Paratodos”. Os livros comprovam a versatilidade desse artista. 
“Como beber dessa bebida amarga” que é a literatura do Chico? Se nas músicas vemos um homem romântico ou engajado, principalmente contra a ditadura, nos livros os temas são psicológicos, o mergulho é mais profundo na mente confusa de seus personagens. Desde Estorvo, seu primeiro romance, o ponto de vista é quase sempre o do protagonista (exceção de Benjamim, narrado em 3ª pessoa) e o leitor não sabe até que ponto pode confiar na sua personalidade conturbada.
“O que será que será” que podemos esperar de um livro do Chico? Pois não espere nada “com açúcar com afeto” ao ler Leite derramado. “Tijolo com tijolo num desenho mágico” ele vai desenvolvendo a história através do protagonista, Eulálio d'Assumpção, ancião de 100 anos, cuja fala fragmentada nos revela boa parte da história do Brasil dos tempos do Império, passando por todo o século XX, ditadura, “num tempo, página infeliz da nossa história”.
O romance parece ser uma releitura da canção “O velho”. Diz a letra, escrita em 1968: “O velho sem conselhos, de joelhos, de partida, carrega, com certeza, todo o peso de sua vida”. Em Leite derramado, Eulálio relembra fatos pessoais desses seus 100 anos de vida para uma mulher que, devido aos delírios provocados pelos medicamentos (aliás, há semelhanças com o romance Indignação, de Philip Roth), ora é sua filha ou sua neta, ora a enfermeira do hospital ou então Matilde, sua amada que morreu nos anos 30. Sim, as mulheres, não as de Atenas com “suas melenas”, mas as brasileiras, principalmente sua esposa, mulata que gostava de dançar maxixe, são presença marcante nessa narrativa. Pela fala de Eulálio vemos, também, a decadência de uma família tradicional brasileira, que começa com um barão do império e termina num garoto, o qual para o velho tudo indicava ter se tornado traficante.
 “Ah, se já perdemos a noção da hora” é a sensação que temos ao ler a narrativa, daquelas que nos prendem e não conseguimos largar tão facilmente. “Joga pedra na Geni” quem nunca se deixou levar pela mão de um competente escritor, que nos carrega até os subterrâneos da alma de um personagem, na escuridão de seus pensamentos, até que gritemos “luz, quero luz”.
“Meu caro amigo, me perdoe, por favor”, mas Chico Buarque é um grande escritor.

quarta-feira, junho 18, 2014

No Traçando Livros de hoje, o Bloomsday



Bloomsday

Meu primeiro exemplar de Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, tem 550 páginas, mas com letra bem miudinha. Comprei-o no final do século passado em um sebo da minha cidade. À época, estava tentando me tornar um escritor, o que tento até hoje, sem muito resultado, por isso lia enlouquecidamente. A edição em capa dura, vendida em bancas de revistas, é da coleção “Mestres da literatura contemporânea”, parceria das editoras Record e Altaya. A tradução é a clássica, realizada pelo Antônio Houaiss (sim, o mesmo que dá nome ao dicionário que veio para desbancar o Aurélio). Minha biblioteca ainda estava engatinhando (hoje posso dizer que está entrando na fase adulta) e com o novo exemplar ganhou o direito de pelo menos andar dois passinhos sem ajuda.

Agora tenho também, porém em versão digital, a tradução realizada por Caetano Galindo e editada pela Companhia das Letras. Intitulada Ulysses, com y, me fez reler parte da obra, agora renovada e com ótima introdução do professor Declan Kiberd. Na versão impressa, são 1112 páginas de uma volta a Dublin em um dia realizada pelo personagem Leopold Bloom e seu amigo Stephen Dedalus.

Esse é aquele romance que muitos dizem ter lido sem nunca tê-lo realmente. Alguns por esnobismo intelectual, outros por ignorância, caso do escritor mais vendido do mundo, Paulo Coelho. O “mago” afirmou que Ulisses não diz nada e que seu conteúdo poderia ser resumido nos 140 caracteres do Twitter. Na verdade qualquer obra poderia, mas apenas nas suas linhas gerais, não no que há nas entrelinhas, no não dito, na parte escondida do iceberg. A cada releitura que se faz de clássicos como o de Joyce, novas possibilidades de leitura se abrem. Seu significado nunca se esgota. 

Quando o li pela primeira vez, confesso que, mesmo gostando da história, não a captei por completo, até porque não havia lido (pelo menos na sua versão integral) a Odisseia, de Homero, cujo personagem principal, Odisseus, nome grego, recebe o nome romano Ulisses. A partir daí, na segunda leitura, guiado por textos da extinta revista Entrelivros, que explicavam as referências dos capítulos do romance com episódios da epopeia de Homero, uma nova forma de ler a obra-prima joyceana me foi apresentada, o que a tornou mais bela e instigante do que da primeira vez.

Na segunda-feira, os admiradores da obra celebraram – com leituras, encenações e bebidas – o Bloomsday, o dia em que acontece a odisseia de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin, na Irlanda, mais precisamente em 16 de junho de 1904. Na vida pessoal de James Joyce, foi a data em que ele e Nora Barnacle, que viria a se tornar sua esposa, se conheceram, segundo alguns, no sentido bíblico do termo.

O ganhador do Nobel de Literatura (prêmio que Joyce não recebeu), William Faulkner, disse que “o leitor deve abordar o Ulysses de Joyce como um pregador batista iletrado aborda o Velho Testamento: com fé”. Fiz a minha parte, lendo alguns versículos dessa bíblia da literatura moderna. E para quem não o considera um grande livro, rogo: “Perdoai, Joyce, eles não sabem o que falam.”   

Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e recentemente, em e-book, seu primeiro romance, Os óculos de Paula (edição Kindle/Amazon). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

terça-feira, junho 17, 2014

Diário crônico XXXII – Minhas Copas



Hoje, ouvindo umas crianças de 6, 7 anos falando sobre a Copa com um professor de Ed. Física de uma das escolas onde trabalho, me transportei para o ano de 1986. Era uma época em que eu, menino, era encantado pelo futebol, queria até ser jogador. Também colecionava figurinhas que vinham junto com os chicletes Ping Pong. Conseguia comprar alguns se a mãe liberava dinheiro, mas tinha um vizinho (que nós achávamos que era um lobisomem) que ficava com pena da gente e distribuía chicletes pra gurizada. Não comprei álbum, não era o grande objetivo completar um álbum, mas sim ter o maior número de figurinhas possível.
O clima era favorável para a Seleção da época e a expectativa de vitória era grande depois do fracasso de 1982. Por isso a decepção foi enorme depois de mais uma derrota, desta vez para a França, nos pênaltis, sendo que até o Zico errou um. Lembro que eu dizia “me dá uma vontade chorar”. Não lembro se chorei, mas fiquei muito triste. Tínhamos que esperar mais 4 anos para poder tentar um novo título...
Em 1990, a febre eram umas revistas do Bolão do Faustão, que continham informações sobre a Copa e seus jogadores. Não dá para se lembrar muito daquela época, até porque não se tinha grandes esperanças com a Seleção do Lazaroni e o Brasil foi eliminado pela Argentina. E quanto à de 94, eu já não acompanhava com o mesmo entusiasmo, mas, claro, comemorei muito o Tetra.
Em 2002 assisti ao Penta, mas não podia gritar muito porque estava com minha filha de um aninho no colo dormindo um sono        que só os inocentes dormem. Depois o gosto pelo futebol foi se perdendo, com exceção dos gloriosos anos de 2006, para nós colorados, claro.
O futebol deixou de ser para mim uma paixão e passou a ser aquilo que realmente é: um entretenimento. Não nego, porém, que sinto a falta de ver este esporte como arte e não como resultado. Mas volto a falar sobre o ludopédio ainda durante este Mundial.