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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2015

Vamos mudar a educação desse jeito?

Ninguém gosta de ser chamado de ultrapassado, retrógrado, tradicional, conservador, reacionário, tiozão. Se a pessoa tem alguma ideia nesse sentido, se sente inibida de falar, pois uma massa maior vai dizer que ela está indo na contramão da história. Por isso abraça qualquer proposta que tenha a palavra mudança, mesmo que essa nova direção esteja sendo conduzida de forma equivocada.No campo da educação, mudança é a palavra de ordem. Em reuniões de professores, palestras, seminários, cursos de formação como os que acontecem antes do início do ano letivo, ela está lá, em letras garrafais, dita aos berros, afinal as coisas não podem ficar como estão. E não podem mesmo, concordo. Se há problemas, temos que solucioná-los. Acontece que os problemas também mudaram e a maioria não percebe. Ainda se acredita que a educação parou no tempo, que é conservadora, proibitiva. E pasmem: acredita-se que ela ensina demais!Será que temos uma educação conservadora hoje? A prática de realizar recuperações…

Professor Stoner

Stoner, de John Williams, lançado por aqui pela novata editora Rádio Londres, com tradução de Marcos Maffei, ficou esquecido durante muito tempo. Publicado nos Estados Unidos em 1965, não teve muita repercussão. Quase vinte anos depois da morte do autor em 1994, a obra foi redescoberta a partir de uma edição francesa. Fico pensando na quantidade de boas obras literárias como essa que são desprezadas hoje e que não vão ter a mesma sorte de serem valorizadas. Temos aqui a vida de William Stoner. Filho de camponeses muito pobres, seus pais o aconselham a estudar no curso de agricultura da universidade, a fim de tocar para frente o negócio da família. No entanto, como acontece com quase todo o jovem, a universidade, quando bem aproveitada, torna-se um fator de mudanças profundas na vida do indivíduo. Cursando uma disciplina obrigatória para todos os estudantes, literatura inglesa (que bom seria se por aqui fosse assim!), Stoner encontra Archer Sloane, exigente professor que lhe faz uma pe…

Uma novela de respeito

O seio é uma novela de Philip Roth, de 1972. No Brasil, houve uma edição ainda nos anos 70 e está esgotada. Não a encontrei nem mesmo na Estante Virtual. Sequer uma imagem da capa está disponível. Li há pouco a edição em e-book, “El pecho”, traduzido para o espanhol por Jordi Fibla. É o primeiro livro do que se tornaria a chamada Trilogia Kepesh, que teve continuação com O professor do desejo, de 1977, e termina em O animal agonizante, de 2001.O tema é inusitado. David Kepesh, professor de literatura, acaba se transformando num seio de 70 quilos, “uma glândula mamária sem nenhuma relação com nenhuma forma humana, como só poderia aparecer, alguém pode ter pensado, em um sonho ou em uma pintura de Dali.” O leitor afeito ao cinema vai lembrar-se também do enorme seio que aparece em uma das cenas de “Tudoo que você sempre quissaber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)”, de Woody Allen, artista judeu como Roth. Mantido vivo em um hospital, não vê nada, mas consegue se comunicar e ficar…

De heranças e livros

É difícil eu me identificar com algum livro. Geralmente não gosto de me identificar. Aliás, o uso desse verbo é um clichê de que não gosto. Mas vez ou outra eu uso. Somos refém de clichês, não adianta. Este livro do Miguel Sanches Neto, no entanto, diz coisas que eu gostaria de dizer, traz momentos que também vivenciei, produz aquela sensação de “eu já passei por isso”. A trajetória de leitor e as reflexões sobre o objeto livro em Herdando uma biblioteca(Record, 2004,  140 páginas) nos transportam e nos fazem valorizar mais o livro impresso, as marcas que eles nos deixam, as marcas que deixamos neles. Curiosamente, comprei esta edição num sebo e há um furo de traça em suas páginas. Outra traça marcou sua passagem por ali. Chegou a minha vez.Em princípio é um livro de crônicas. Pode, porém, ser lido como um romance, que tem como protagonista o jovem Miguel que se torna escritor e professor. Assim como ele, também tive uma Bíblia com a tradução de João Ferreira de Almeida. Meus primeiro…

Meu pitaco sobre "Graça infinita", de David Foster Wallace, no Traçando Livros

Com a graça de David

O escritor que criou uma obra como Graça infinita (Companhia das Letras, 1.136 páginas) não poderia ter feito o que fez: enforcar-se na garagem de sua casa, justamente o lugar onde escrevia seus livros. David Foster Wallace nasceu em 1962 e se suicidou em 2008, mas foi reconhecido ainda em vida como um dos grandes nomes da literatura de sua geração nos Estados Unidos. No Brasil, era lido por poucos, na língua inglesa, em tradução para o português de Portugal ou até mesmo em espanhol, através de e-books compartilhados na internet. Agora, finalmente chega por estas bandas.Pensando bem, não dá pra julgar a atitude de DFW (sigla pela qual é chamado por seus leitores mais fiéis. Não me surpreenderia se alguém começasse a dividir a literatura em antes e depois de DFW.). Ele sofria de depressão e vivia à base de medicamentos. Como bem escreveu o tradutor de Graça infinita no Brasil, Caetano Galindo, em um artigo para a revista Piauí, “ninguém entende os motivos de um suic…

Meu texto na página de opinião da Gazeta do Sul

A hora de José J. Veiga

Foto: divulgação da editora


Hoje faz 100 anos que nasceu um dos mais inventivos escritores da literatura brasileira, José J. Veiga, que infelizmente já nos deixou em 1999. Entre as homenagens ao autor, a Companhia das Letras inicia a publicação das suas obras completas, começando pelos primeiros livros, Cavalinhos de Platiplanto e A hora dos ruminantes, em edições com capa dura e prefácios inéditos.Poucos escritores conseguem marcar sua estreia com uma obra-prima. José J. Veiga conseguiu. Os contos reunidos em Cavalinhos de Platiplanto foram publicados quando o autor já tinha os seus 44 anos, em 1959, o que explica, de certa forma, a escrita já madura. São histórias ambientadas no interior de um Brasil em desenvolvimento, mas ainda com suas superstições, códigos de ética e uma cultura bastante atrasada. As personagens, geralmente crianças, lidam com o mundo ao seu redor, ora realista, ora onírico, maravilhoso, fantástico. Enfrentam o mundo violento dos adultos, mas não deixam de brinca…