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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2015

Traçando livros de hoje é sobre poemas de Marco Cremasco

Vida, tempo, palavras
Ao chegar a casa por esses dias, depois de buscar minha esposa no trabalho, me deparei com uma formiga no para-brisa do carro. Carregava uma enorme folha. Provavelmente, havia caído de alguma árvore, parecia tonta. Perdeu-se, portanto, das demais companheiras. Levei-a até o chão e ela soltou seu fardo. Fiquei observando-a se embrenhar na grama, sentindo-se perdida. Para onde iria agora? Como não sou poeta, no máximo um cronista, às vezes faço dessas pequenas coisas matéria para algum texto que, porém, nem sempre consegue captar com sucesso momentos tão singelos. Já o paranaense Marco Aurélio Cremasco, poeta dos bons, também contista e romancista, bebe na fonte de Manoel de Barros e Alberto Caeiro (um dos heterônimos de Fernando Pessoa), citado inclusive em um dos poemas, para nos trazer, em As coisas de João Flores, numa belíssima edição de capa dura da Editora Patuá, a grandeza dessas miudezas. Uma formiga aparece no poema em que “a folha órfã/cai espiralada”, su…

Bauman foi mais esperto (XIII)

“O que diz a teu respeito aquela camiseta do AC/DC?” - Humberto Gessinger, disco “Insular”. HG é um cara que, apesar de gremista, é um gênio. Os críticos amam odiá-lo, o que não entendo. É um cara que sabe, como poucos, nas letras de um pop rock, sugerir imagens, ideias, sentidos.Os versos dessa música me vêm à mente porque andei comprando algumas camisetas com estampas de rostos de escritores (Kafka, Dostoiévski, Poe), de frases de escritores (Borges, Cervantes), de óculos de escritores (Drummond, Pessoa, Machado, Rosa, etc.) e com ilustrações de bandas (os “Engenheiros” e o “Rush”, cujo baterista, Neil Peart, também é genial nas suas letras). O que diz a meu respeito essas camisetas?
A dos “Engenheiros” tem um oroboro, o que já explica muita coisa. Ou não?

Bauman foi mais esperto (XII)

Vale escrever sobre um dos exames que fiz por esses dias. Quando o médico me disse qual seria me espantei, ignorante que sou. Tive que realizar uma ecografia. Sempre relacionei isso à mulher grávida. Senti-me, então, como uma ao me deitar e passar pelo processo de sentir o gel sobre o abdome, o aparelho “leitor” sobre a pele e ver meu interior numa tela de computador. Em vez de uma criança, vi os rins e bexiga cheia. Aliás, passei por um momento de angústia, pois tomei muita água antes do exame e quase urinei nas calças quando deitei na maca. Sensação horrível enquanto esperava, sozinho, a chegada da médica.
Bexiga e rins, aparentemente tudo ok. E agora?

Bauman foi mais esperto (XI)

Nos últimos dias, passo por certa agonia pela possibilidade de ter uma doença nada agradável. Faço um tratamento enquanto aguardo os resultados dos exames (sangue, urina, ecografia) e a palavra do médico. Os remédios que tomo me deixam com uma sensação esquisita, tonturas.A dúvida, a espera, o silencio.Melhorei um pouco, hoje termina a primeira semana de tratamento e um dos remédios, acho que o mais pesado, chega ao fim. Pessimista que sou, dessa vez estou otimista. Quero ficar apenas doente de literatura.
Ah, hoje é o Dia Internacional do Livro. E?

Quem leva a sério a escrita é o que se dá bem?

Escrever é um troço complicado para quem o leva a sério e para quem não o leva também. Quem leva essa atividade a sério quer escrever bem, enquanto o outro não sabe escrever e não quer escrever bem. O primeiro inventa desculpas para não se afastar do texto e realizá-lo da forma mais elaborada possível. Corrige, reescreve, corta, substitui palavras, cria. O segundo inventa mil desculpas para não escrever e, se é obrigado, o faz da forma menos elaborada possível. Escreve qualquer coisa, não reescreve, não corta (se não o texto desapareceria), deixa as palavras como estão, copia da internet, reproduz.O primeiro escreve para fazer arte, às vezes sem pretensão, às vezes esperando publicar e ser lido, ou para opinar sobre algo, recebendo dinheiro por isso ou não, desejando apenas ser lido e discutido e que suas ideias repercutam. O segundo escreve porque alguém solicitou (professor, chefe), e a pretensão é a necessidade de receber uma nota mínima só para passar de ano e receber um diploma o…

Aniversário de Lygia Fagundes Telles

Reescrevi um texto publicado no ano passado:

Dia verdeHoje é o aniversário da rainha da literatura brasileira, Lygia Fagundes Telles. Ela está fazendo 92 anos.Ela poderia escrever durante toda a sua carreira um conto apenas, “Venha ver o pôr do sol”. Somente essa pequena grande obra-prima já a colocaria entre meus escritores preferidos. As poucas páginas nos conduzem a um portão de um cemitério abandonado, em cuja frente crianças brincavam de roda. Um homem levava a sua amada – que o havia abandonado para se casar com um homem rico –, a fim de assistirem juntos, pela última vez, ao sol morrer. O barulho das dobradiças do portão enferrujado, o reboco dos muros rachando, o mato rasteiro tomando conta das alamedas, tudo mostrava o abandono, a decadência do lugar. O homem se mostrava amável, lembrando fatos do relacionamento dos dois, enquanto a mulher, impaciente, demonstrava a todo o momento sua contrariedade por estar naquele lugar e jogava na cara o fato de estar rica.O clímax acontece…

O escritor vende seu corpo

Poderia estar matando, poderia estar roubando, poderia estar me prostituindo e é justamente isso tudo que faço e mais um pouco quando escrevo. O escritor mata personagens, rouba o tempo de quem lê ou de quem gostaria que o lesse. Vende seu produto pelo preço mais baixo possível e, às vezes, o oferece até de graça. Mesmo assim muitos não o querem. O escritor é uma puta feia e acabada, portanto. Seu produto não é cobiçado, não é desejado, mas mesmo assim o escritor tenta expô-lo, deixa-se usar por cafetões que o exploram, frequenta lugares onde talvez encontre alguém que o deseja.Há aqueles que colocam seu produto em puteiros sofisticados, onde inclusive se encontra bebidas como o café para vender. O leitor até apalpa o produto, abre suas pernas, cheira, mas toma só o nobre líquido negro porque não tem mais dinheiro para gastar.Há aqueles escritores que colocam seu produto à venda em sites pornográficos, mas ele fica apenas lá, exposto em fotos com poses de gosto duvidoso e o leitor ape…

Bauman foi mais esperto (X)

Como era de se esperar, o diário não está sendo escrito todos os dias, por isso gostaria de usar o título do livro do Bauman. Maldito! Maldito é o Affonso Romano de Sant’Anna também, que chamou seu diário de “quase-diário”, atualmente reproduzido no jornal literário Rascunho.*Não falo/escrevo mais sobre política. Já escrevi em uma crônica: observo tudo aqui de cima do muro.*
“Senhores, todos nós somos cruéis; todos desnaturados; todos nós fazemos os outros chorarem: as mães, os bebês a mamar... Mas de todos — que isto agora seja garantido —, de todos, eu sou o mais imundo dos vermes! Que seja! A cada dia de minha vida, batendo no peito, eu prometia me corrigir, e todos os dias cometia as mesmas maldades. Agora compreendo que, a pessoas como eu, é preciso um golpe, um golpe de sorte, para dominá-las por meio de uma força exterior. Jamais, jamais eu me levantaria sozinho!” Dmítri Karamázov, em "Os Irmãos Karamazov", de Dostoiévski.

Bauman foi mais esperto (IX)

“O verme se encolhe quando pisado. Uma atitude prudente. Diminui assim a probabilidade de ser pisado outra vez. Na linguagem da moral: humildade.” Diz Nietzsche em “Crepúsculo dos ídolos”. É a atitude que nós, vermes seres humanos, precisamos às vezes tomar. Encolho-me, muitas vezes, para não ser mais pisado, para sobreviver. Talvez não seja humildade isso. Não, não é. Essa moral é justamente o que o filósofo tenta destruir e não a quero mais para mim. Deixei de ser humilde, afinal, mesmo o sendo por alguns momentos nesses mais de três décadas de vida, os outros não me veem dessa forma. Já fui taxado de arrogante quando emiti minhas opiniões nem sempre agradáveis às mentes acomodadas. Que o seja, então. Arrogo-me o direito de ser arrogante. Agora não me importam mais os outros. “O que não me mata me torna mais forte”, escreve o mesmo Nietzsche no mesmo livro. Aforismo que quase nunca é atribuído a ele. Ser um super-homem, um além-do-homem, superar as minhas próprias fronteiras, eis o …

Bauman foi mais esperto (VIII)

O Ed Motta pediu desculpas pelo que disse no facebook e as pessoas comentam sua postagem ofendendo-o. A raça humana é nojenta.*Hoje iria a um curso de batismo. Vejam só, o que não fazemos pela família! Acontece que, para ser padrinho, ainda teria que fazer crisma! Declinei do convite, infelizmente. Não dá para ser tão falso assim e confirmar o que não mais acredito.

Bauman foi mais esperto (VII)

A partir de agora não me assino mais como professor nas redes sociais ou no blog. Serei tão somente o Cassionei escritor (de contos, romances, crônicas, resenhas, artigos, ensaios, aforismos, diário). Toda e qualquer opinião não será do professor e não postarei mais nada referente à sala de aula. Eu atuo há mais de 10 anos como professor e volta e meia sou ridicularizado ou mal interpretado nas redes sociais. Dessa vez foi um grupo de jovens de esquerda dita revolucionária que fez uma nota oficial no Facebook, interpretando uma postagem minha como se eu estivesse ofendendo alunos do EJA. Por isso me afasto cada vez mais desse esquerdismo emburrecedor (sim, isso é pra ofender mesmo, ainda mais sabendo que vem de gente que já foi meu aluno ou gente que ainda é meu aluno e curtiu isso). Não se pode mais fazer uma postagem boba, bem humorada que os patrulheiros nos atacam. A partir de agora, falo só sobre literatura e não quero mais saber de gente com pensamento único e idiota ridiculariz…

Minha coluna de hoje no jornal sobre romance de Marcelo Backes

Fechado para reformasCassionei Niches Petrycassio.nei@hotmail.com
Nós, seres humanos, estamos sempre em reforma, seja no lado de fora, seja no lado de dentro. Mudamos de roupa, peso, cabelo, fazemos a barba ou a deixamos crescer. Revemos ideologias, crenças, comportamentos, desejos. Também nossa casa material passa por reformas constantes no seu exterior e interior. É sobre isso, ou mais menos isso, de que trata o recente romance de Marcelo Backes, A casa cai (Companhia das Letras 425 páginas).O narrador da história é o mesmo do livro anterior do autor, O último minuto. É um seminarista que, ao participar de uma pastoral carcerária, ouve o depoimento de um preso, ex-técnico de futebol, sobre sua vida e o crime que cometera. Agora o “quase padre” é o protagonista. Ao deixar o seminário após a morte do pai, herda dele vários imóveis em bairros nobres do Rio de Janeiro e descobre, lendo documentos de um cofre, que o pai, para criar seu “império”, se envolvera em falcatruas, como incêndios…

Bauman foi mais esperto (VI)

No apagar das luzes do dia 04/04:


Sábado é o meu dia preferido da semana, é quando consigo ficar com mais horas livres para leitura e os jornais nos presenteiam com cadernos de cultura e muitas (já houve mais) resenhas de livros. É o dia em que teria mais tempo para escrever também, mas a fonte está seca nos últimos dias.*Estou escrevendo no final desse sábado, esperando a patroa e a filhota terminarem de olhar um filme. Sempre sozinho no meu canto, que ainda precisa de um nome que o identifique. Bunker, toca, castelo, cela, calabouço? Aceito sugestões. *Por que a população da favela não diz com a mesma facilidade “foda-se o tráfico” como diz “foda-se a polícia”?Fiz essa pergunta há pouco nas redes sociais. A resposta que recebi: "porque a polícia mata, simples assim". Pergunto: e o tráfico também não mata?Resposta da pessoa, uma jornalista ainda por cima: "neste caso, quem matou a criança foi um policial. A polícia não entra na favela para proteger o morador, mas para m…

Dando nome às flores

O escritor Matheus Arcaro me enviou seu primeiro livro de contos com uma dedicatória provocativa: “que meu jardim de papel possa emprestar perfume aos minutos que você dedicar à leitura”. Perfume? Como sentir perfume ao ler histórias tão contundentes, doloridas, violentas, tristes? Jardim? Só se o jardim estiver morrendo, sem cor, sem flores. Sim, me enganei com o título, a capa e a dedicatória. Pensei que leria contos delicados e cheirosos como uma flor. Violeta velha e outras flores (Editora Patuá, 167 páginas), no entanto, traz uma literatura pesada e cujo cheiro não é nada agradável. Por isso é um bom livro. Como escreveu Franz Kafka, “se o livro que lemos não nos desperta com um soco no estômago, para que lê-lo?”A epígrafe do volume, de Nietzsche, foi bem escolhida: “A vida só se justifica como fenômeno estético”. É da vida que as histórias tratam e com uma elaboração estética muito bem realizada. A escolha das palavras que mais sugerem situações do que as revelam, a plasticidade…

Bauman foi mais esperto (V)

Ser chamado no twitter de professor retardado por um aluno do EJA é uma crítica ou um elogio?*
Num concurso público, em que há apenas duas vagas, sendo que ambas exigem como mínimo de titulação a graduação, é justo que uma dessas vagas seja destinada à cota racial? Em outras palavras, é justo que o pardo ou negro disputem as duas vagas, mas o "branco" dispute apenas uma delas, sendo, repito, que todos têm a mesma titulação?