Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2015

Sobre escrever diários

Já tentei várias vezes escrever um diário. A última tentativa denominei de “Bauman foi mais esperto”, pois gostei do título que o sociólogo deu ao seu, que dialoga com a pintura do cachimbo de Magritte. Ainda esbocei algumas coisas em caderninhos, que chamo de “molekine de pobre”. Nada vai adiante. Poderia simplesmente retomar o diário de onde parei e registrar algo como “ah, não escrevo há tantos meses” ou “me perdoe, querido diário, por abandoná-lo”. Sinto, porém, que devo começar um novo. E não mais publicá-lo no blog ou nas redes sociais. Será um diário íntimo. “A alegria intensa é recolher-se e calar-se. Falar é dispersar”, escreveu Amiel em seu exemplar diário.
O crítico Rodrigo Gurgel elencou, em um texto de seu site, “10 motivo para escrever um diário”. Destaco o número 2: “Escrever um diário despertará sua autoconfiança. Você está livre diante da página em branco. Pode julgar os homens do seu tempo e você mesmo sem pudor, sem qualquer tipo de censura — o que não deixa de ser u…

No Traçando livros de hoje, "Guia politicamente incorreto do sexo", de Luiz Felipe Pondé

Filosofando sobre sexo

Comecei a conhecer a obra de Luiz Felipe Pondé a partir de Crítica e profecia – a filosofia da religião em Dostoiévski, um longo ensaio acadêmico sobre a obra do autor de Crime e castigo. Só depois apareceram na imprensa os seus artigos menos alentados em que o filósofo buscava atingir um público maior para as suas reflexões, sem deixar de lado, no entanto, sua enorme erudição. Surgiu daí o polemista, com pensamentos “de direita”, politicamente incorretos e, por isso, provocativos. É o tipo de escritor que gosto de ler: aquele que nos deixa inquietos, de quem às vezes discordamos, ou fingimos discordar, e outras vezes diz aquilo que gostaríamos de dizer e não dizemos, muitas vezes com vergonha do julgamento dos outros.Depois de Contra um mundo melhor e antes de A era do ressentimento, Pondé escreveu, em 2012 o Guia politicamente incorreto da filosofia, que se tornou um inesperado best-seller e lhe rendeu uma boa dose de críticas por fugir do que a esquerda dita c…

Minha crônica no jornal Gazeta do Sul de hoje

Estrague sua vida que eu estrago a minha (título original)
Conheço pessoas que têm um aplicativo no celular que avisa onde há uma “blitz” policial. Não saem de nenhuma festa sem antes consultar o oráculo para poder fugir do bafômetro e de uma multa. Essas mesmas pessoas reclamam dos governantes, dos impostos, da crise, da violência, dos furtos. Inclusive têm medo de terem seus carros roubados. E, claro, esquecem que os bandidos também têm o mesmo aplicativo e que, por isso, também escapam da polícia depois de praticarem o roubo.Conheço pessoas que, depois de ler este primeiro parágrafo, já estão tentando se desculpar, se justificar, vão tentar me atacar, achando que estão certos em burlar as leis. “Ora, bebo, mas não perco meus reflexos”, “o limite de velocidade é muito baixo nas ruas da cidade”, “não deixo meus documentos em dia porque os governantes só nos tiram dinheiro e sou apenas mais uma vítima da indústria da multa”.E o bandido, pergunto, também não seria vítima de algo, segund…

Raio X de um poeta

“− Chegou o teu 'Troco poesia por dinamite' aqui, Barata.
− Obrigado, amigo, espero contar com uma análise do livro.
− Veio com cheiro de cigarro e tudo. Vi também que eu apareço com meu depoimento sobre a tua obra.
− O livro tem cheiro de cigarro, é isso? Que comentário inusitado! Encare isso como algo pessoal meu. ‘O cigarro é meu escarro’... rs.
− Quando abri o envelope senti o cheiro. Me senti próximo de ti, cara!
− Não foi proposital, mas é uma boa forma de encarar, rs. Essa é a vantagem e a desvantagem de receber livros que não são de editoras... Garanto que a Record ou qualquer outra grande não tem esse recurso... rsrsrsrs.
− Achei legal isso, é um bom ponto de partida para uma resenha. Tua vida está literalmente nos teus livros.
− Sim, sou transparente nisso, Cassionei. Vida e pensamento.”
Tive esse diálogo com o poeta Barata Cichetto através da internet. É uma troca de ideias que se mantém há alguns anos, depois de tê-lo ouvido em uma web rádio declamando poesias e tocando r…

Direita, esquerda, dois lados da mesma moeda

Por pura coincidência, leio dois livros de escritores com posições políticas bem distintas: Abelardo Castillo, que é de esquerda, e Nelson Rodrigues, de direita. Do primeiro, leio Diarios – 1954-1991, e do segundo, me debruço sobre O óbvio ululante – primeiras confissões. Em ambas as obras, por serem confessionais, os autores revelam suas ideologias abertamente. Não é, porém, sobre elas que quero escrever, mas sim sobre certo patrulhamento que noto nas redes sociais sobre o que se deve ler ou não.
Quem é de esquerda, por exemplo, critica quem lê autores como Luiz Felipe Pondé. Já me chamaram a atenção por ter postado uma frase dele, dizendo algo como “não acredito que você lê esse cara!”. Do lado da direita, nunca fui abertamente questionado, mas indiretamente noto pessoas considerando gente do calibre de José Saramago como péssimo escritor só por ele ter sido comunista.
Por estas e por outras é que eu me afasto cada vez mais de ideologias, pelo menos tento me manifestar o mínimo possív…

Conheça Carácolis (parte 1)

Carácolis é um país perdido no continente antártico, num lugar cujo relevo tem todas as condições necessárias para a sobrevivência. Ignorado até há bem pouco tempo pelo resto do mundo, tornou-se conhecido depois que passou a exportar caracóis, tornando-se a principal economia da nação.
“Não é mol a casca del caracol” é o primeiro verso de seu hino. A língua oficial é uma mistura de espanhol e português chamada enrolês. Falam devagar, assim com são umas lesmas quando se trata de trabalhar. O produto de exportação, portanto, não poderia ser outro, afinal não dá muito trabalho criá-los.
O regime político é o presidencialismo de casca, que funciona da seguinte forma: o povo elege o governante que, por sua vez, refugia-se na sua casa, uma espécie de caverna em forma de concha de caracol. De lá, executa as leis escritas nas paredes pelos antepassados que, dizem, teriam vindo de um país da América. De vez em quando o presidente, atualmente uma presidenta, põe a cabeça para fora para ver se es…

Os rios de Heráclito, Saramago e Borges no Traçando Livros de hoje

Não moro perto de nenhum rio. Próximo a minha casa há somente um arroio onde na minha infância tomava banho. Hoje mergulho apenas na minha biblioteca, que ainda não é rio. É dela que pesco meu alimento diário. Sobrevivo dos seus peixes, grandes e pequenos. Geralmente eles têm espinhas que trancam na garganta. São os mais apetitosos.
“Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo.” Pesco esta frase em um livro da coleção Os pensadores, no volume dedicado aos filósofos pré-socráticos. Este famoso fragmento de Heráclito de Éfeso aparece também desta forma: “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.” A ideia é de que mudamos, não somos a mesma pessoa depois que os anos passam. O Cassionei que antes se banhava no arroio perto de sua casa não é mais o mesmo Cassionei de hoje, muito menos as águas do arroio, que agora estão muito poluídas.
Fui levado ao rio de Heráclito depois de reler com meus alunos a crônica “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, de José Saramago, do…