quinta-feira, dezembro 31, 2015

Sobre escrever diários


Já tentei várias vezes escrever um diário. A última tentativa denominei de “Bauman foi mais esperto”, pois gostei do título que o sociólogo deu ao seu, que dialoga com a pintura do cachimbo de Magritte. Ainda esbocei algumas coisas em caderninhos, que chamo de “molekine de pobre”. Nada vai adiante. Poderia simplesmente retomar o diário de onde parei e registrar algo como “ah, não escrevo há tantos meses” ou “me perdoe, querido diário, por abandoná-lo”. Sinto, porém, que devo começar um novo. E não mais publicá-lo no blog ou nas redes sociais. Será um diário íntimo. “A alegria intensa é recolher-se e calar-se. Falar é dispersar”, escreveu Amiel em seu exemplar diário.

O crítico Rodrigo Gurgel elencou, em um texto de seu site, “10 motivo para escrever um diário”. Destaco o número 2: Escrever um diário despertará sua autoconfiança. Você está livre diante da página em branco. Pode julgar os homens do seu tempo e você mesmo sem pudor, sem qualquer tipo de censura — o que não deixa de ser uma higiene mental.” Há muita coisa presa nessa minha mente inquieta. Como sou professor, no entanto, sinto necessidade de me conter, pois já escrevi muita coisa que pesou contra mim em muitas ocasiões. Às vezes pensamos que devemos ser livres para dizer o que bem entender, mas não é bem assim. Agora mesmo estou pensando uma porção de coisas sobre alguns alunos que se formaram no Ensino Médio e preciso colocar no papel. Vou fazê-lo, portanto, num diário a que somente eu terei acesso e que não terá relevância para ninguém além de mim mesmo. Os amigos das redes sociais não precisam mais saber tudo o que eu penso. E acredito que ninguém queira saber mesmo, salvo aqueles que planejam me prejudicar.


Leio alguns diários. Mergulho no momento no de Abelardo Castillo e na fila está o de Ricardo Piglia. Preciso reler o de Kafka. E preciso escrever um de verdade sobre as minhas verdades.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

No Traçando livros de hoje, "Guia politicamente incorreto do sexo", de Luiz Felipe Pondé


Filosofando sobre sexo


Comecei a conhecer a obra de Luiz Felipe Pondé a partir de Crítica e profecia – a filosofia da religião em Dostoiévski, um longo ensaio acadêmico sobre a obra do autor de Crime e castigo. Só depois apareceram na imprensa os seus artigos menos alentados em que o filósofo buscava atingir um público maior para as suas reflexões, sem deixar de lado, no entanto, sua enorme erudição. Surgiu daí o polemista, com pensamentos “de direita”, politicamente incorretos e, por isso, provocativos. É o tipo de escritor que gosto de ler: aquele que nos deixa inquietos, de quem às vezes discordamos, ou fingimos discordar, e outras vezes diz aquilo que gostaríamos de dizer e não dizemos, muitas vezes com vergonha do julgamento dos outros.
Depois de Contra um mundo melhor e antes de A era do ressentimento, Pondé escreveu, em 2012 o Guia politicamente incorreto da filosofia, que se tornou um inesperado best-seller e lhe rendeu uma boa dose de críticas por fugir do que a esquerda dita como cultural e intelectualmente relevante no país. Seguindo a mesma linha, acaba de publicar o Guia politicamente incorreto do sexo (Leya, 228 páginas) que promete incendiar os debates sobre os tabus sexuais e sobre como os “chatinhos” e “chatinhas”, segundo o autor, tratam o tema.
Denominado pelo filósofo como uma “coletânea de aforismos imorais”, os curtos e irônicos ensaios buscam rever posições ainda muito conservadoras sobre o sexo e combater a patrulha, principalmente das feministas: “o feminismo não entende nada de mulher”, escreve. O politicamente correto censura nossas atitudes, nossas relações. Busca o bem comum, muitas vezes, porém resultando numa imposição no modo como o indivíduo deve se comportar na sua vida pessoal. “A praga do politicamente correto destrói, no campo do prazer e do afeto, uma miríade de relações microscópicas construídas ao longo de milhares de anos entre homens e mulheres a fim de dar conta dessa insustentável paixão que um tem pelo outro, seja nas suas formas legítimas, como casamento e família, seja nas suas formas ilegítimas, como o adultério e o segredo de alcova.”
Pondé ressalta que a mulher gosta de ser desejada e as que pensam o contrário são as feias, sem atrativos, ressentidas com o sucesso das outras. Ele vê com bons olhos, inclusive, os patrões que contratam as atraentes: “Fazer uma reunião com pernas lindas a sua volta melhora o pensamento, ainda que ignorantes e mentirosos digam o contrário.” E afirma: “Quem não mistura sexo e trabalho deve muito àqueles que o fazem”.
Como todo bom aforista, Pondé nos proporciona frases lapidares que podem ser usadas nas redes sociais: “querer fazer sexo politicamente correto é como querer ser piloto de avião tendo medo de altura”; “pessoas muito limpas não deveriam emitir opiniões sobre sexo”; “fala-se ‘penetrar uma mulher’ porque a anatomia imita a vida do afeto: o amor é a invasão da vida.” Vale destacar, também, a capa e as ilustrações de Gilmar Fraga, que trazem, por exemplo, Freud e Lacan com as calças arriadas e cuecas samba-canção. A propósito, Pondé também é psicanalista.

 Guia politicamente incorreto do sexo não tem a mesma qualidade dos demais livros de Pondé, porém traz boas e bem-humoradas reflexões para mentes inquietas. Goste-se ou não do autor, é uma leitura indispensável para conhecer nossa contemporaneidade.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Minha crônica no jornal Gazeta do Sul de hoje



Estrague sua vida que eu estrago a minha (título original)

Conheço pessoas que têm um aplicativo no celular que avisa onde há uma “blitz” policial. Não saem de nenhuma festa sem antes consultar o oráculo para poder fugir do bafômetro e de uma multa. Essas mesmas pessoas reclamam dos governantes, dos impostos, da crise, da violência, dos furtos. Inclusive têm medo de terem seus carros roubados. E, claro, esquecem que os bandidos também têm o mesmo aplicativo e que, por isso, também escapam da polícia depois de praticarem o roubo.
Conheço pessoas que, depois de ler este primeiro parágrafo, já estão tentando se desculpar, se justificar, vão tentar me atacar, achando que estão certos em burlar as leis. “Ora, bebo, mas não perco meus reflexos”, “o limite de velocidade é muito baixo nas ruas da cidade”, “não deixo meus documentos em dia porque os governantes só nos tiram dinheiro e sou apenas mais uma vítima da indústria da multa”.
E o bandido, pergunto, também não seria vítima de algo, segundo os defensores do chamado “direitos humanos”? Não reclame, então, se te roubarem, afinal todos temos nossas razões, todos somos vítimas.
Por que estou escrevendo isso? Sei lá, estava pensando cá com minha xícara de café e meu cachimbo sem fumo: parei de beber justamente depois de começar a dirigir, pensando nas pessoas que estão comigo, nas pessoas que estão na rua, nas pessoas que estão em outros carros. Basta pensarmos no outro. O que eu faço tem consequência não só para mim. O problema é que só pensamos em nós mesmos, nos nossos prazeres, na nossa pretensa infalibilidade.
Minto. Penso em mim também. Na verdade, penso primeiro em mim. E só penso no outro que faz parte da minha vida.  Como escreveu Luiz Felipe Pondé, no seu Guia politicamente incorreto da filosofia, “quando o ‘outro’ não cria problema, não há nenhum valor ético supremo em tolerá-lo.” Que se dane o outro. Penso só no meu bem-estar. Se bebo, fico com meu estado mental alterado e não gosto disso. O pior é a ressaca do outro dia e, com ressaca, não consigo ler e escrever. E se não consigo ler e escrever eu não vivo. Sem literatura eu não vivo. A literatura é a minha cervejinha. Ela é que me embebeda.
Ah, mas é claro que já bebi muito. É o que está louco para me dizer aquele que me conhece de carnavais passados, de boates todo o final de semana, do vinho ou do “samba” (mistura de cachaça e Coca-Cola) quase diário nas esquinas da vida. Costumo dizer: ainda bem que não existia facebook na minha adolescência. Postaria coisas de que estaria arrependido hoje.

Não estou julgando ninguém. Não tenho moral para isso. Critico, porém, quem julga os outros de forma hipócrita. Viva e arque com as consequências. Já dizia o ator Antônio Abujamra: “a vida é sua, estrague-a como quiser”. Eu a estrago com a literatura. E com muito café também.

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Raio X de um poeta

“− Chegou o teu 'Troco poesia por dinamite' aqui, Barata.

− Obrigado, amigo, espero contar com uma análise do livro.

− Veio com cheiro de cigarro e tudo. Vi também que eu apareço com meu depoimento sobre a tua obra.

− O livro tem cheiro de cigarro, é isso? Que comentário inusitado! Encare isso como algo pessoal meu. ‘O cigarro é meu escarro’... rs.

− Quando abri o envelope senti o cheiro. Me senti próximo de ti, cara!

Não foi proposital, mas é uma boa forma de encarar, rs. Essa é a vantagem e a desvantagem de receber livros que não são de editoras... Garanto que a Record ou qualquer outra grande não tem esse recurso... rsrsrsrs.

Achei legal isso, é um bom ponto de partida para uma resenha. Tua vida está literalmente nos teus livros.

 − Sim, sou transparente nisso, Cassionei. Vida e pensamento.”

Tive esse diálogo com o poeta Barata Cichetto através da internet. É uma troca de ideias que se mantém há alguns anos, depois de tê-lo ouvido em uma web rádio declamando poesias e tocando rock de qualidade. A partir do nosso primeiro contato passei a receber a produção artística desse agitador cultural: livro de contos, fanzines, CD’s de ópera-rock (em parceria com Amyr Cantusio Jr.), tudo produzido por ele em processo artesanal.

O obra que recebi com cheiro de cigarro foi o livro de poemas Troco poesia por dinamite, que traz na capa o Raio X do crânio do autor. Entramos, de certa forma, no inquieto cérebro do artista, que deixa expostos sua alma, seus ossos, sua mente imunda, pornográfica. É uma poesia para os fortes, que não ruborizam ao ler versos como os de “Uma senhora puta”: “Lembro das fúnebres orgias de tempos de outrora/Nas ruas com nomes de putas, Augusta ou Aurora/Transando com cadáveres mornos de putas tortas/E sem perceber se eram putas ou se eram mortas.”

Estes versos estão na primeira parte, chamada “Troco poesia por sexo”, em que predomina uma literatura pornográfica, nua e crua, com sexo sem metáforas ou subterfúgios, como lemos em “Sacanas bacanas”: “Enquanto te espero cansada do trabalho/Apanho, seguro firme e masturbo o meu caralho/Imaginando que quando entrares a porta da casa/Eu o enfiarei na tua buceta o meu pau em brasa.”

Na segunda parte, “Troco poesia por dinheiro”, notam-se poemas que falam das agruras do artista num mundo em que a poesia sofre resistência de quem só enxerga a realidade palpável: “Mas acontece é que ser poeta é o meu ofício/Ainda penso eu antes de me jogar do edifício/E o pedreiro ainda cheio de um ódio não secreto/Pensa: ‘que merda é isso sujando meu concreto?’”.

A parte 3, “Troco poesia por rock’n’roll”, revela as influências musicais de Barata, com títulos e epígrafes que mencionam principalmente Patti Smith e Lou Reed. Gostei de “Misanthropía (hoje não tem Rosa de Hiroshima)”, que glosa Vinícius de Moraes e a banda Secos e Molhados: “Que se dane o poeta e sua cirrose, foda-se Hiroshima/Pois não me importa se o fim do mundo se aproxima/E se em rotas hereditárias e inexatas de radioatividade/A humanidade afundará na merda da própria vaidade.”.


A parte 4 recebe o nome do título do livro e retoma todos os temas anteriores. Em “Carta aos poetas modernos”, temos um longo poema que critica os artistas “vigaristas”, “hipócritas”, “moleques em fraldas, catarrentos, ofendido”, “tolos esses que se definem como poetas revolucionários”. Em “A poesia ou a vida!”, Barata maldiz a própria “poesia que me arranca os olhos da cara/Me rói os ossos, chupa minha carne e mata minha tara.” É ela, portanto, que deixou o poeta no estado em que é estampado na capa: só osso, não há mais pele. É o retrato 3x4 mais fiel da identidade do Barata. 

domingo, dezembro 13, 2015

Direita, esquerda, dois lados da mesma moeda

Por pura coincidência, leio dois livros de escritores com posições políticas bem distintas: Abelardo Castillo, que é de esquerda, e Nelson Rodrigues, de direita. Do primeiro, leio Diarios – 1954-1991, e do segundo, me debruço sobre O óbvio ululante – primeiras confissões. Em ambas as obras, por serem confessionais, os autores revelam suas ideologias abertamente. Não é, porém, sobre elas que quero escrever, mas sim sobre certo patrulhamento que noto nas redes sociais sobre o que se deve ler ou não.

Quem é de esquerda, por exemplo, critica quem lê autores como Luiz Felipe Pondé. Já me chamaram a atenção por ter postado uma frase dele, dizendo algo como “não acredito que você lê esse cara!”. Do lado da direita, nunca fui abertamente questionado, mas indiretamente noto pessoas considerando gente do calibre de José Saramago como péssimo escritor só por ele ter sido comunista.

Por estas e por outras é que eu me afasto cada vez mais de ideologias, pelo menos tento me manifestar o mínimo possível sobre elas. Sigo e tenho como “amigos” nas redes sociais gente de todos os lados, indo dos mais radicais aos mais moderados e tiro algo de bom de suas postagens. Se nada me acrescentam, deixo de seguir o sujeito, mesmo que permaneça “amigo” dele.

Hoje é um desses dias em que as postagens beiram ao ridículo, pois há manifestações a favor do impeachment da presidente Dilma em várias capitais. De um lado, gente que tenta de todas as maneiras diminuir a relevância dos protestos; de outro, gente que tenta de todas as maneiras mostrar que algo inútil (pois acabei me convencendo de que qualquer tipo de protesto leva do nada a lugar nenhum) tem adesão de uma parcela significativa da população. É um show de falácias e incoerências que não têm tamanho, por isso me distancio de tudo isso e não tomo partido de lado nenhum. Já cantavam os Engenheiros que esquerda e direita são iguais e que Fidel e Pinochet tiravam sarro da gente.

Sou alienado? Talvez. O alienado é aquele que enxerga apenas o seu próprio mundinho como o verdadeiro e despreza o mundo dos outros. Eu enxergo apenas o meu mundo, no entanto fico apenas indiferente aos dos demais. Sou alienado na medida em que me sinto um alien que recém-chegou a um planeta confuso. Para entendê-lo, procuro uma biblioteca e leio os livros que poderiam me dar uma resposta, porém me trazem mais questionamentos e, por isso, não tenho tempo para ter certezas, muito menos tempo para convencer os outros de que minhas certezas são as certas.


Por isso vou continuar lendo escritores e filósofos de esquerda ou direita. Leio Márcia Tiburi e Olavo de Carvalho, Graciliano Ramos e Vargas Llosa, ouço Chico Buarque e Lobão. Não me interessam suas ideologias, mas sim o que criam e a capacidade que eles têm de me fazer questionar a realidade, cada um a sua maneira.  

sábado, dezembro 05, 2015

Conheça Carácolis (parte 1)

Carácolis é um país perdido no continente antártico, num lugar cujo relevo tem todas as condições necessárias para a sobrevivência. Ignorado até há bem pouco tempo pelo resto do mundo, tornou-se conhecido depois que passou a exportar caracóis, tornando-se a principal economia da nação.

“Não é mol a casca del caracol” é o primeiro verso de seu hino. A língua oficial é uma mistura de espanhol e português chamada enrolês. Falam devagar, assim com são umas lesmas quando se trata de trabalhar. O produto de exportação, portanto, não poderia ser outro, afinal não dá muito trabalho criá-los.

O regime político é o presidencialismo de casca, que funciona da seguinte forma: o povo elege o governante que, por sua vez, refugia-se na sua casa, uma espécie de caverna em forma de concha de caracol. De lá, executa as leis escritas nas paredes pelos antepassados que, dizem, teriam vindo de um país da América. De vez em quando o presidente, atualmente uma presidenta, põe a cabeça para fora para ver se está tudo tranquilo. Como nunca está, refugia-se de novo e convida seus correligionários para comemorar o sucesso do governo.

Conta-se que a atual governante foi proibida de falar em público, pois se enrolava muito mais do que o próprio enrolês que já é enrolado. A população, por sua vez, também evita falar e prefere se comunicar com celular, uma das poucas invenções do exterior que deram certo em Carácolis. A escrita, no entanto, me pareceu mais enrolada ainda. Conseguem complicar e tornar mais ilegível o que já é complicado e legível. Dizem, porém, que conseguem se comunicar e é o que importa.

Há controvérsias quanto à origem do nome do país. Numa pouco frequentada biblioteca, livros enrolados como os antigos papiros nos contam duas versões. Uma, a que me parece mais óbvia, diz que o nome deriva, por suposto, do plural de caracol. Outra versão, mais mitológica, diz que os primeiros habitantes teriam chegado numa espécie de canoa plana, sem remo (acredito que seja uma prancha de surfe) e, quase mortos de frio, ao verem a beleza e a singularidade do lugar, exclamaram “caraca!”.


“Caraca!” exclamei também eu (na verdade não foi bem essa a expressão que usei) quando fui assaltado em plena rua. Nisso eles são ligeiros, ah! como são! Mas isso é um assunto para um próximo relato, se não roubarem meu notebook.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Os rios de Heráclito, Saramago e Borges no Traçando Livros de hoje


Não moro perto de nenhum rio. Próximo a minha casa há somente um arroio onde na minha infância tomava banho. Hoje mergulho apenas na minha biblioteca, que ainda não é rio. É dela que pesco meu alimento diário. Sobrevivo dos seus peixes, grandes e pequenos. Geralmente eles têm espinhas que trancam na garganta. São os mais apetitosos.

“Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo.” Pesco esta frase em um livro da coleção Os pensadores, no volume dedicado aos filósofos pré-socráticos. Este famoso fragmento de Heráclito de Éfeso aparece também desta forma: “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.” A ideia é de que mudamos, não somos a mesma pessoa depois que os anos passam. O Cassionei que antes se banhava no arroio perto de sua casa não é mais o mesmo Cassionei de hoje, muito menos as águas do arroio, que agora estão muito poluídas.

Fui levado ao rio de Heráclito depois de reler com meus alunos a crônica “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, de José Saramago, do livro Deste mundo e do outro. Nela, o Nobel de Literatura reflete sobre a passagem do tempo; “Desço até a água, mergulho nela as mãos, e não as reconheço. Vêm-me na memória outras mãos mergulhadas noutro rio. As minhas mãos de há trinta anos, o rio antigo de águas que já se perderam no mar.

Esse rio da literatura e da filosofia me leva agora a um argentino. Pesco nas minhas estantes um livro de Jorge Luís Borges, Elogio da sombra. Há um poema cujo título é “Heráclito”. Leio:

“Que rio é este cuja fonte é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta mitologias e espadas?
É inútil que durma.
Corre no sono, no deserto, num porão.
O rio me arrebata e sou esse rio.”

 Em outros versos de outros livros, Borges também menciona a alegoria do filósofo, como no poema “São os rios”, de Os conjurados:

Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito, o obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio (...).”

No poema “Arte poética”, em O fazedor, escreve:

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.”

É, porém, este trecho da conferência “A poesia”, publicado no livro Sete noites, que me arrebata:
Emerson disse que uma biblioteca é um gabinete mágico em que há muitos espíritos enfeitiçados. Despertam quando os chamamos; enquanto não abrimos um livro, esse livro, literalmente, geometricamente, é um volume, uma coisa entre coisas. Quando o abrimos, quando o livro dá com seu leitor, ocorre o fato estético. E, cabe acrescentar, até para o mesmo leitor o mesmo livro muda, já que mudamos, já que somos (para voltar a minha citação predileta) o rio de Heráclito, que disse que o homem de ontem não é o homem de hoje e o homem de hoje não será o de amanhã.

Mudamos incessantemente e é possível afirmar que cada leitura de um livro, que cada releitura, cada recordação dessa releitura renovam o texto. Também o texto é o mutável rio de Heráclito.”


Sinto-me assim. Há livros na minha biblioteca que, quando os releio, não me dizem mais nada. Outros ganham novos significados, pois eu mudei, envelheci, adquiri novos conhecimentos. Alguns poderiam ser vendidos aos sebos, pois só ocupam espaço, não têm espinhas que atravessam a garganta. Outros ainda continuam no meu cardápio. O tempo passa, tudo passa. Os livros também passam como rios na minha vida. E de rio em rio busco o mar.