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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2016

Jeito de enredar leitores

O livro de contos Jeito de matar lagartas(Companhia das Letras, 168 páginas) vem reafirmar a qualidade contística de Antonio Carlos Viana, já expressa em volumes como Aberto está o inferno e O meio do mundo. Nascido em Aracaju, Sergipe, em 1946, é um escritor que se dedica somente à narrativa curta e ainda merece melhor repercussão para sua obra.
O conto inicial, “A muralha da China”, traz no enredo as hesitações de um casal para contar a uma vizinha sobre a morte do marido e do filho em um acidente de caminhão. Enquanto isso, duas crianças brincam com o quebra-cabeça no quarto do amigo que morreu. A dificuldade de comunicação, simbolizada também pela construção da muralha do jogo, cujas peças acabam sendo abandonadas, é um dos temas da coletânea, que também retrata a infância (“Agora já não éramos mais crianças, mas também não tínhamos entrado de vez no território dos adultos.”), o envelhecimento (“Uma semana de cama e tio Eunápio revelou por inteiro sua velhice.”), a solidão (“Fazia …

Minha crônica "Objetos sentimentais" no jornal Gazeta do Sul de hoje

As bacantes

Estou projetando, durante as férias, reler as principais tragédias gregas, seguindo a ordem proposta pelo guia de Pascal Thiercy editado pela L&PM. Depois de ler as biografias de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles, comecei com as “As bacantes”, na tradução de Mário da Gama Cury, em volume editado pela Jorge Zahar Editora. Pode-se dizer que a obra é uma ode ao vinho e a seu deus, Dionísio ou Baco. “De fato, sem o vinho onde haveria amor?/Que encanto restaria aos homens infelizes?”

Também conhecida como “As mênades”, a tragédia foi escrita por Eurípedes entre 408 e 407 a.C. Fala sobre a punição de Dionísio sobre seu primo Penteu, rei de Tebas, e sua tia, Agave, por terem desonrado o nome da mãe desse deus, Sêmele (suas irmãs a difamaram, dizendo que ela teria mentido ao dizer que havia gerado Dionísio a partir de uma relação com Zeus), e também por não prestarem o culto que ele, Dionísio, merecia, apesar de ele ser oriundo de Tebas. Tomando forma humana, Dionísio entra na cidade e enfeiti…

Objetos sentimentais

Cada pessoa tem objetos pelos quais nutre algum carinho ou que tenha algum elo sentimental. No meu caso, tenho mais de um: os óculos, as xícaras de café, o cachimbo, as fitas K7, a máquina de escrever e, claro, os livros.
Míope desde a adolescência, os óculos são objetos imprescindíveis no meu cotidiano. Sem eles não enxergo. Muitos me dizem para usar lente de contato ou fazer uma cirurgia para diminuir os 5° do olho direito e 6,25° do esquerdo. Digo que não, pois gosto do objeto, ele já faz parte de mim, é a extensão dos olhos, como escreveu Jorge Luis Borges. Se os tiro, as pessoas estranham. Seria como amputar um braço. Só não tenho diferentes modelos porque são caros demais.
Quanto à xícara de café, tenho mais de uma e pretendo adquirir outras. O café é meu vício diário, acompanha minhas leituras e a escrita. O objeto que o contém, portanto, está sempre presente na minha mesa. O cheiro, o sabor e a energia que o café me transmite necessitam um objeto especial. Tenho predileção por u…

Sangue no ralo do chuveiro

Coincidentemente, li na sequência duas obras que foram adaptadas para o cinema. O mundo segundo Garp, de John Irving, gerou um filme mediano. Psicose, de Robert Bloch, no entanto, como todos já devem saber, resultou numa obra-prima de Alfred Hitchcock.
Não se pode, porém, dizer que o romance é tão inferior ao filme, como acontece na maioria das adaptações hitchcockianas. Seu autor influenciou boa parte dos escritores hoje considerados como mestres do terror e do suspense, como Stephen King, que analisou a obra de Robert Bloch no livro Dança Macabra.  Para King, Psicose é um típico romance de Lobisomen, apesar de nenhum personagem se transformar em um mostro coberto de pelos. Temos aqui o conflito apolíneo e dionisíaco (a partir do conceito do filósofo Nietzsche) no interior do ser humano: “Não se trata de um mal externo ou predestinação; a culpa não está nas estrelas, mas em nós mesmos.”
A história inicia com o protagonista Norman Bates (o nome não é por acaso, pois ele é apresentado co…

Sobre O mundo segundo Garp, de John Irving

Não escondo uma predileção por romances que tenham escritores como protagonistas. Não entendo as críticas que se faz a esse tipo de gênero, dando a entender que o leitor não gosta de uma literatura autocentrada. Ora, qualquer tema é passível de gerar uma obra de arte, desde que ela aborde o lado humano, e não seja, claro, apenas uma masturbação linguística sem enredo.
Por isso me ouriço quando ouço falar de textos metaficcionais. O mundo segundo Garp, do norte-americano John Irving (Editora Rocco, tradução de Geni Hirata), é um desses, com o agravante de que teve uma adaptação cinematográfica com Robin Williams, um ator que sempre admirei, num dos primeiros filmes em que atuou.
O enredo do livro é cheio de peripécias, num emaranhado de histórias que se inicia com Jenny Fields, enfermeira oriunda de uma família rica, mas que deseja independência. Não querendo se envolver com nenhum homem, porém desejando ter um filho, consegue engravidar de um jovem sargento em coma do qual cuidava em um…

Crítico de uma literatura que não aceita críticas

Ser crítico no Brasil é uma tarefa difícil. Digo crítico mesmo, daqueles que dizem se a obra é boa ou não e justifica com argumentos sua opinião. Os espaços para a análise de literatura estão cada vez mais raros, assim como as reações dos autores não são nada amigáveis. Eu, por exemplo, que não sou propriamente um crítico, já fui “bloqueado” em redes sociais de escritores contemporâneos por fazer algumas restrições a suas obras.
Rodrigo Gurgel é um dos poucos críticos que temos. É inevitável falar dele e não lembrar que ele foi o famoso “jurado C” do Prêmio Jabuti de 2012, responsável por dar notas muito baixas a obras consideradas favoritas, o que foi considerado por muitos como uma tentativa de manipular o resultado. Acredito que depois disso ele deixou de ser chamado para compor a banca da maioria dos prêmios literários e sofreu severas ofensas.
Para conhecer melhor o trabalho de Rodrigo Gurgel, sugiro a leitura de Crítica, Literatura e Narratofobia, lançado recentemente pela Vide E…

Livros lidos e relidos durante o ano de 2015

Livros lidos ou relidos durante o ano de 2015, fora os abandonados e os que li somente capítulos para pesquisa. Em 2014 li 98. No ano passado li menos porque enfrentei o tijolão do Foster Wallace:
1-O Inescrito - Tommy Taylor e a identidade falsa, Mike Carey 2-A era do ressentimento, Luiz Felipe Pondé 3-Meninos valentes, Patrick Modiano 4-O inventor de estrelas, João Batista Melo 5-Um pouco mais de swing, João Batista Melo 6-Kassel no invita a la lógica, Vila-Matas 7-O homem-mulher, Sérgio Santanna 8-Os cavalinhos de Platiplanto, José J. Veiga 9-Graça infinita, David Foster Wallace 10-Herdando uma biblioteca, Miguel Sanches Neto11-El pecho, Philip Roth12-Stoner, John Williams 13-A coleira no pescoço, Menalton Braff 14-O professor do desejo, Philip Roth15-O animal agonizante, Philip Roth16-Adeus, Columbus, Philip Roth 17 - Complexo de Portnoy, Philip Roth 18 – Círculos da angústia, Philip Roth 19 – Violeta velha e outras flores, Matheus Arcaro 20 – A vida que vale a pena ser vivida, Cl…