quarta-feira, abril 27, 2016

O escritor vende seu corpo

Poderia estar matando, poderia estar roubando, poderia estar me prostituindo e é justamente isso tudo que faço e mais um pouco quando escrevo. O escritor mata personagens, rouba o tempo de quem lê ou de quem gostaria que o lesse. Vende seu produto pelo preço mais baixo possível e, às vezes, o oferece até de graça. Mesmo assim muitos não o querem. O escritor é uma puta feia e acabada, portanto. Seu produto não é cobiçado, não é desejado, mas mesmo assim o escritor tenta expô-lo, deixa-se usar por cafetões que o exploram, frequenta lugares onde talvez encontre alguém que o deseja.
Há aqueles que colocam seu produto em puteiros sofisticados, onde inclusive se encontra bebidas como o café para vender. O leitor até apalpa o produto, abre suas pernas, cheira, mas toma só o nobre líquido negro porque não tem mais dinheiro para gastar.
Há aqueles escritores que colocam seu produto à venda em sites pornográficos, mas ele fica apenas lá, exposto em fotos com poses de gosto duvidoso e o leitor apenas olha, talvez o deseje. Não passa, no entanto, do voyeurismo. Há até aqueles que já provaram do produto e o elogiam nos comentários. Outros cospem no prato em que comeram e desaconselham sua compra.
Há escritores que expõe o que escreve na rua, nas esquinas, nas saídas dos bares. Atacam possíveis leitores abrindo as pernas do seu produto para que o passante veja o que há dentro. O provável leitor até pergunta pelo preço, pega na mão, o acaricia, porém acaba não comprando. O escritor faz um preço mais camarada, entretanto o já não mais provável leitor diz que está com pressa, atrasado para pegar o ônibus, para o trabalho ou que não é chegado nessas coisas.
Há escritores que oferecem de graça seu produto na internet em sites onde o leitor pode baixá-lo e apreciá-lo pela tela do computador. O leitor, porém, não quer apenas um relacionamento virtual. Gostaria de ter o objeto em capa e miolo na sua estante, apesar de alegar, com razão, que prefere apreciar outros produtos oferecidos por cafetões mais famosos.
O escritor, então, veste sua roupa e vai procurar um emprego que lhe sustente e que lhe possibilite ficar, nos finais de semana, no escurinho da sua biblioteca, somente sob a luz de um abajur, dedilhando e acariciando as teclas do seu computador, numa relação com ele mesmo, uma masturbação literária, um gozo solitário. 

sexta-feira, abril 22, 2016

Sobre “The Sunset Limited”, de Cormac McCarthy


Quem me lê sabe que o suicídio me atrai. Como tema de estudo, claro, sobretudo na literatura. Outro assunto sobre o qual me debruço vez ou outra é o ateísmo. Disto sim eu sou adepto. Por isso me detive algumas horas deste dia de folga para ler a peça teatral, ou romance em forma dramática, “The Sunset Limited”, de Cormac McCarthy. (Vale acrescentar que a capa da edição norte-americana tem uma xícara de café, outra coisa que me atrai. E muito.)
Há tempos estava querendo ler a obra antes de assistir a adaptação de Tomy Lee Jones, um telefilme que conta com Samuel  L. Jackson no papel do negro e o próprio Lee Jones no papel do branco. Vou tentar assistir ainda neste fim de semana. Um filme obviamente pouco conhecido, pois não há ação e as cenas se passam todas em um único lugar e somente com dois atores. Um filme de ideias, se seguiu o original, e que por aqui recebeu o título “No limite do suicídio”.
A peça toda se passa no apartamento de um ex-presidiário recuperado e religioso fervoroso, denominado na rubrica apenas por “negro”. A seu lado, um professor ateu, cuja rubrica indica “branco”, que havia há pouco tentado se jogar nos trilhos do trem e foi salvo justamente pelo dono da casa, que não o deixa sair, receoso de que voltasse a tentar a se suicidar. O que se vê ao longo das 70 páginas é um sólido diálogo não só sobre a crença e a descrença, mas também sobre o altruísmo e o egoísmo, o otimismo e o pessimismo, a vida e a morte, a amizade e a solidão.
Eis alguns trechos, numa tradução livre. Logicamente, pela minha visão de mundo, acabei destacando as ideias de um dos personagens:

"BRANCO: A visão pessimista é sempre a correta. Quando lemos a história da humanidade, estamos lendo uma saga de derramamento de sangue, de cobiça e de loucura, cujo alcance ninguém pode ignorar. Ainda assim, imaginamos que o futuro será de alguma maneira diferente. Não tenho nem ideia de como estamos, mas o que é certo é que não vamos durar muito mais." 

“BRANCO: Você acha que minha cultura está me empurrando ao suicídio, não?
NEGRO: Pra você, por que você acha que as pessoas se suicidam?
BRANCO: Não sei. Por razões diferentes.
NEGRO: Ok, mas essas razões diferentes não têm algo em comum, digamos?
BRANCO: Não posso falar pelos outros. As minhas giram em torno de uma perda gradual da fantasia. Isso é tudo. Um lento esclarecimento quanto ao caráter da realidade. Do mundo.”

“BRANCO: Minha ideia é que o mundo, basicamente, é um campo de trabalhos forçados do qual a cada x dias retiram uns quantos internos (todos eles completamente inocentes) a fim de executá-los.”

“BRANCO: Eu não acredito em Deus. É tão difícil de entender? Olhe ao seu redor, cara. Você não vê? O grito indescritível dos que sofrem deve ser para ele o mais agradável dos sons.”


quinta-feira, abril 21, 2016

O verdadeiro mestre


Estou lendo, em uma edição em espanhol, o livro Lessons of the masters, de George Steiner. Há uma edição publicada pela Record, Lições dos mestres, porém esgotada, sendo que na Estante Virtual chega a ser vendida por proibitivos R$ 165.  Estou diante da obra de um grande mestre escrevendo sobre outros mestres, tanto se referindo a professores em relação a seus alunos quanto a sábios e seus discípulos.
Depois de citar os óbvios filósofos gregos, mormente Sócrates e Platão, passando também pelo inevitável Jesus Cristo, o livro aborda relações em que mestre e aluno acabam se envolvendo afetivamente, como Heidegger e Hannah Arendt. Também retrata as personagens da literatura que são mestres, como Fausto em relação a Wagner, seu criado e aprendiz, e aqui Steiner se detém mais na peça de Marlowe do que na de Goethe, ou o rato de biblioteca Causabon e sua aluna Dorothea, em Middlemarch, de George Eliot.
Como sou professor há mais de dez anos (tempus fugit), sou chamado de mestre por alguns alunos. Até tenho o título de Mestre em Letras, o que hoje já não vale muita coisa. Qualquer professor, no entanto, é mestre. O Houaiss nos informa que a expressão vem do latim magister, e significa aquele que manda, que dirige, que ensina, portanto até um bandido pode ser mestre.
O professor conduz o aluno à luz do conhecimento, ou assim pretende fazê-lo. Esse conhecimento, no entanto, pode ser para o bem ou para o mal. O mestre pode conduzir sua massa de alunos a seguir uma ideologia, a defender políticos corruptos tendo em mente atingir outros políticos igualmente corruptos. Pode conduzir o aluno a venerar uma entidade divina em detrimento a outras crenças. Pode também levá-lo a tão somente questionar e a partir daí tirar suas próprias conclusões. É a forma mais sensata.
Como professor de literatura, tento conduzir meus alunos a ler obras literárias relevantes, ou as que considero como tais. Tento conduzi-los a não ler superficialmente, entender as metáforas, as simbologias, as relações intertextuais. O mais difícil é despertar neles a paixão pelos livros, por mais que eu fale apaixonadamente sobre eles, por mais que eu leia empolgado um poema, por mais que mostre os encantos e mistérios de uma narrativa.
Acontece que o aluno não está ali porque quer. Ele não é um discípulo que procura seguir livre e literalmente os passos de Sócrates na sua atividade peripatética. Ele não está ali porque o conhecimento é algo relevante para sua vida. O professor, pelo menos no tempo que foge hoje, não tem a admiração dos seus alunos assim como os grandes mestres tinham de seus discípulos, a não ser quando o professor é um amigão, que faz o que eles querem para conquistá-los, inclusive deixar de ensiná-los.
O mestre que tenta ser reconhecido pela excelência do conhecimento transmitido sofre o desprezo, a indiferença, o desrespeito, com raríssimas exceções, claro. O verdadeiro mestre não deve iludi-los. Deve mostrar que o mundo não é como queremos, não é amigão, não faz nossas vontades. Sei que minha visão é trágica e pessimista, mas o verdadeiro mestre é quem destrói nossos sonhos e nos desperta.

quinta-feira, abril 14, 2016

Aceita um café, caro leitor?

Hoje é o Dia Internacional do Café. Daqui a algumas semanas teremos o dia nacional, depois o universal... Essa mania de dia para tudo se popularizou com as redes sociais, tornando-se um motivo para postar coisas e fazer a roda girar. Às vezes é um saco, outras vezes até eu entro na brincadeira.
Mas voltemos ao café. Enquanto escrevo estas mal traçadas linhas, de acordo com o ritual descrito na crônica anterior, já tomei minha primeira xícara de café e estou partindo para a segunda. Na revisão do texto, já estarei com certeza na terceira. Não começo o meu dia sem o café, assim como não durmo sem ele. Verdade, se não tomo café aí é que tenho dificuldade para dormir, diferentemente das demais pessoas. Sou anormal?
Não considero, no entanto, que tenho um vício (já viu algum viciado dizer que é viciado?), porque não entro em desespero se faltar. Porém sinto a todo o momento uma necessidade enorme degustar o líquido negro mais valioso do mundo (o petróleo fica em segundo lugar) todos os dias, todas as horas, em todo o lugar.
Não sou, no entanto, um expert em café. Não tenho a mania de escolher os melhores grãos, a melhor marca. Não me importo em tomá-lo requentado, tão pouco arranco os cabelos ou enforco o meu colega de trabalho se o café estiver fraco ou forte demais. Aqui em casa, cai bem um Caboclo, um Melitta, um Três Corações, um Pilão, um Bom Jesus ou outra marca qualquer, ou melhor, nem todas, pois há alguns pós de café horríveis. Nunca tomei um Haiti, mas gostava quando os debatedores do programa “Sala de Redação” da Rádio Gaúcha cantavam o jingle “Haiti, Haiti, Haiti, tá fazendo na cozinha, tá cheirando aqui”. E também não desprezo, de vez em quando, um café solúvel, de preferência bem batido.
Odeio “cafezinho”, xícara pequena ou copinho de plástico minúsculo. Sou adepto do cafezão, xícaras grandes ou canecas. E doce. Não gosto de café sem açúcar, o que prova que não sou especialista no assunto.
O café, acima de tudo, é companhia perfeita para a leitura e escrita. Café e livros combinam muito bem, tanto que há muitas livrarias que são também cafeterias. Os dois se dão tão bem que é comum o café se derramar sobre as páginas de um livro, na tentativa desesperada de se perpetuar entre as letras. Um livro com manchas de café é um livro que tem vida, que foi lido, não simplesmente comprado para ficar parado na estante. Sem contar que ele fica com o cheiro da café entranhado por um bom tempo, conduzindo o leitor a lê-lo novamente.
Por falar em cheiro, estou sendo atraído pelo cheiro de café lá da cozinha, por isso paro por aqui. Aceita um, caro leitor?


domingo, abril 10, 2016

Soneto do Datafolha


De repente o Datafolha tornou-se um tanto
Verdadeiro e certeiro para uma turma 
E das bocas partidárias a voz era só uma
E das mãos com nove dedos criou-se um santo.

De repente os dezessete por cento
Que para os olhos de alguns era uma trama
Agora aumentados é um sentimento
De que tudo é um mar de lama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se da justiça algo distante
E o corrupto ficou bem contente.


Fez-se da mentira uma constante
Fez-se do povo uma besta ambulante
De repente, não mais que de repente.

sábado, abril 09, 2016

“Com a razão em parafuso”


Um dos argumentos para os defensores de quem está no poder (e que curiosamente há alguns anos tinham como missão lutar contra os poderosos) é de que os que irão tomar o poder querem retomar a ditadura militar. Curiosamente, estes defensores da democracia (que curiosamente querem ser donos da palavra democracia e calar a voz de boa parte do povo que não pensa como eles) se esquecem de que um dos partidos que apoiam os que estão no poder tem origem, curiosamente,  no partido que detinha o poder na ditadura militar.

Os que defendem quem está no poder afirmam que quem tomará o poder é um político corrupto. Curiosamente, esse político foi eleito pelos mesmos votos de quem botou democraticamente os políticos que hoje estão no poder.

Curiosamente, boa parte dos defensores de quem está no poder é de artistas, intelectuais, professores, gente esclarecida, formadores de opinião que acabam deformando a opinião, na medida em que expressam, refletem, ensinam as outras pessoas a ter pensamento crítico, mas não deixam que esse pensamento crítico seja contra quem está no poder. Nesse grupo, há músicos censurados pelo poder da ditadura e que hoje não deixam que suas obras, que antes expressavam a luta pela liberdade, sejam livremente utilizadas por outros artistas que também clamam por liberdade. Com a leitura de muitos escritores desse grupo, aprendi a não me curvar ante os poderosos. Hoje esses mesmo escritores se curvam a quem está no poder.

Curiosamente, os defensores de quem está no poder dizem que quem está no poder tirou milhões de pessoas da miséria, mas ao mesmo tempo dizem que certa elite, a minoria da sociedade, quer tirar do poder os que estão no poder porque essa elite despreza os pobres, que são maioria do país. Ou seja, a pobreza ainda assola o país mesmo depois de mais de décadas de poder de quem agora está no poder. Tudo muito curioso.

“O impeachment é golpe”, bradam os defensores do poder. Curiosamente, estes defendiam o impeachment de quem ocupava o poder antes e aí não era golpe. Curiosamente, defendem que os políticos que eventualmente assumirem o poder devam sofrer impeachment, que então deixará de ser golpe.

Curiosamente, em um ato chamado “Mulheres em Defesa da Democracia”, ocorrido em Brasília, mulheres expulsaram, hostilizaram e quase bateram em outra mulher porque vestia uma camiseta com a frase “impeachment é democracia”. Curiosamente, a presidente de todo o povo brasileiro, e também mulher, concordou com a expulsão, em vez de chamar a cidadã brasileira para expor democraticamente seu ponto de vista, mesmo sendo contrário à presidente. A cerimônia acontecia no Palácio do Planalto e não em uma sede partidária.


“É a eterna contradição humana”, diz Deus ao Capeta no conto “A igreja do Diabo”, de Machado de Assis. Está muito difícil para mim, que ajudei a eleger em 2002 estes que estão até hoje no poder, compreender a atual situação. Como escreveu o poeta Affonso Romanno de Sant’Anna em outro momento da nossa história: “Estou confuso, obtuso,/com a razão em parafuso (...)”. 

quinta-feira, abril 07, 2016

Traçando Livros de hoje é sobre romance de Cabrera Infante


“Recuerdos” de Infante


Na manhã em que iniciei a leitura de Corpos divinos, de Guillermo Cabrera Infante (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista), os noticiários repercutiam os atentados terroristas em Bruxelas, na Bélgica. Por coincidência, o escritor escreveu as primeiras páginas do romance quando era adido cultural de Cuba na capital belga, em 1962, antes de romper com o governo de Fidel Castro. As coincidências, porém, não terminam por aí.

Enquanto lia e escrevia as notas que resultariam nesta resenha, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fazia uma visita histórica à Havana, capital cubana. Uma imagem de sua chegada à terra governada agora pelos irmãos Castro, no entanto, foi o que mais me chamou a atenção. Enquanto o Air Force One descia em solo cubano, pessoas na rua, escoradas em seus carros antigos, observavam a aeronave moderna sobrevoando a cidade. A capa do livro de Cabrera Infante estampa uma fotografia de 1963, feita pelo suíço René Burri, em que um carro bem parecido com os atuais veículos cubanos dobra uma esquina de Havana.

René Burri, a propósito, também fotografou Che Guevara, uma das personagens reais mencionadas em Corpos divinos. “Deparamos com um homem de estatura mediana, de barba completa, ainda que rala, e muito parecido com Cantinflas.” Mais do que um romance, é um conjunto de memórias do jovem Cabrera Infante no final dos anos 50, nos momentos decisivos que culminaram com a revolução que tirou Fulgêncio Batista do poder. O narrador é jornalista cultural, mais precisamente crítico de cinema, e conta os bastidores do mundo cultural pré-Fidel, percorre a noite cubana (“−Tudo é possível na noite de Havana – era uma frase que eu costumava usar com frequência)” e narra suas várias conquistas amorosas, mesmo sendo um homem casado e com filhos. Nas 100 páginas iniciais, as melhores do livro, nos divertimos com as peripécias por que passa para manter o relacionamento com Elena, jovem de 16 anos, história também contada no romance, também póstumo, A ninfa inconstante. Depois tenta conquistar Ella, uma atriz que se tornará a paixão de sua vida toda. As suas aventuras sexuais são descritas com detalhes, numa carga erótica muito bem dosada.

Em outro momento de suas memórias, lemos sobre os peculiares encontros com Ernest Hemingway. O episódio mais engraçado acontece em um barco onde acompanham as filmagens da adaptação de O velho e o mar, obra-prima do escritor norte-americano, que num determinado momento anuncia que irá fazer o “number two” nas águas: “(...) Hemingway cagava no mar, como sua defecação contaminava a corrente do Golfo, como suas excreções execravam o oceano”.

O aspecto político fica como discreto pano de fundo até quase no final do romance. Assume proporções maiores, no entanto, quando o narrador resolve participar mais ativamente dos movimentos contra a ditatura de Batista: “eu sentia a futilidade da minha vida, agora que Ella tinha criado uma grande ausência, e comecei a me perguntar se não seria melhor abandonar tudo e ir para a Sierra”, onde, é preciso lembrar, ficavam os revolucionário liderados por Fidel Castro.

Essa “biografia velada”, segundo expressão do próprio autor, foi escrita e reescrita durante mais de 40 anos e ficou inacabada. Da mesma forma, a relação do escritor com Cuba jamais foi concluída. Guillermo Cabrera Infante nasceu em 1929 e morreu em 2005, em Londres, no exílio. Morreu sem poder rever seu país.


Cassionei Niches Petry lê e escreve para se tornar um escritor à altura de um Cabrera Infante. Enquanto isso não acontece, trabalha como professor, além de manter um blog, www.cassionei.blogspot.com.

sábado, abril 02, 2016