sexta-feira, julho 29, 2016

Conto de Ribeiro Couto


O crime do estudante Batista

Aquela situação era aflitiva.
O senador Messias de Freitas prometera-lhe um emprego no Ministério da Agricultura: entretanto, passara-se um ano e a promessa não fora cumprida. Florêncio Batista escrevera-lhe uma carta ansiosa, explicando que o pai estava doente, naturalmente não lhe poderia mandar mais a mesada e era necessário que o emprego viesse salvá-lo.
A resposta fora uma decepção: "Não se apresse, menino. O Governo está tratando da reforma do Serviço de Povoamento e nessa ocasião v. verá o seu nome na lista dos nomeados. Não se dê ao trabalho de escrever-me, que eu estou atento. E seu pai, meu querido amigo de infância, como vai passando ultimamente?"
Com essa resposta, Batista ficara impossibilitado de insistir. Tinha de esperar a reforma do Serviço de Povoamento. E o pobre do velho Batista, doente, que tirasse do sustento das irmãzinhas para fazer o filho bacharel.
Todos os meses Batista recebia duzentos mil réis. Mas isso não chegava para nada. Dava apenas para pagar a pensão. Batista sofria de um vício: os livros. À porta de uma livraria, não sabia resistir a certas capas amarelas com títulos sedutores. Parecia um jogador diante do pano verde. Ficava primeiro olhando as vitrinas, contendo o desejo. Sabia que o dinheiro era pouco. Como se arranjaria no dia seguinte com a lavadeira?
Tímido, ficava a desejar aquelas brochuras novas, que encerravam romances, que encerravam poemas, que encerravam a beleza criada por homens maravilhosos e distantes ou desaparecidos. Depois, entrava. Era só para folhear um volume, outro, mais outro... E de repente não resistia: ali, na sua frente, estava afinal um livro de versos que ele há tanto desejava, um livro de pouca importância talvez, mas que o seu vício exigia. E o dinheiro começava a fugir. Chegava em casa carregado de livros. Jogando-os com alegria sobre a cama, respirava forte, olhava através da janela o céu puro, os arvoredos da rua, as montanhas longínquas. Como a vida era bela!
Durante todo o seu primeiro ano de Rio de Janeiro não conseguira trabalho algum. Antes de mais nada, faltava-lhe quem o recomendasse. Atraíam-no as portas das casas comerciais, as placas amarelas com nomes de firmas reputadas; mas os gerentes olhavam para ele um instante apenas, despediam-no com um gesto: não havia necessidade de pessoal nos escritórios. Na imprensa, até os empregos de suplentes da revisão tinham cortejos de candidatos à espera, quase sempre estudantes pobres como ele, como ele chegados da província.
Nos colégios ainda era mais difícil. Os grandes internatos davam cama e mesa aos professores jovens; e os lugares, apesar do ganho insignificante, eram disputados, exigiam recomendações fortes que ele não podia apresentar. Tivera de limitar-se àqueles duzentos mil réis que o pai com sacrifício lhe mandava. Até que viu, num jornal, um anúncio pedindo um professor particular. Conseguiu assim dois alunos em Botafogo. Por meio deles, semanas depois, arranjou mais três.
Pensara logo em renunciar ao dinheiro do pai. Mas cento e cinquenta mil réis davam para alguma coisa? E ele precisava de tantos livros... Não gostava de ler na Biblioteca Nacional, nem se satisfazia com obras emprestadas. Queria ter os livros para si, marcar a sua emoção com riscos de lápis, relê-los quando quisesse, conviver com eles, nunca se separar daqueles pequenos mundos. Ah! dormir com os livros à sua cabeceira, despertar à noite e estender o braço para Machado de Assis!
Quase todos os dias Batista se deixava tentar por novos livros. Aquele convívio com criaturas desconhecidas era o seu prazer, a sua felicidade. Não resistia e arruinava-se.
Mas agora era aflitiva a situação: o velho, segundo dizia o telegrama - um telegrama confuso, escrito por um empregado dos Telégrafos, apressado, com uma letra deplorável -, morrera. Nos primeiros momentos Florêncio Batista não teve a sensação daquele desaparecimento. Seria difícil, assim à distância, acreditar que o seu bom velho, que pigarreava o dia inteiro pela casa, curvo, a enrolar cigarros de palha, estivesse sob a terra, numa roupa preta, a decompor-se.
A ideia da pobreza em que ficava a família, sacudiu-o. O pai deixara duas casinhas para as três filhas solteiras e uma irmã velhota, que as criara. E, para o filho distante, a seguir o seu vago e moroso curso de bacharel, a participação desses pequenos bens provincianos. De que adiantavam?
Isso acontecia no fim do ano, quando os alunos de Florêncio Batista, entrando em férias, iam interromper as aulas que eram o seu ajutório. Perdia a mesada e perdia os alunos. Como iria viver?
***
Então começou para ele uma vida angustiosa. Entrou a fazer pequenas economias: de cigarros, de fósforos, de lavadeira... Andava com o mesmo colarinho vários dias. Não usava lenço. Poupava as camisas.
Pensou em forçar, mesmo sem relações, a revisão de um jornal. Uma noite encheu-se de coragem e foi ao Diário do Brasil perguntar se precisavam de um revisor de provas, ou de um ajudante. Qualquer coisa... Um senhor gordo, vermelho, suarento, em mangas de camisa, caçoou:
- Quê, menino? - E riu-se. - Temos até demais.
Na pensão, porém,havia o Clodomiro de Sousa, um magricela, do Diário do Rio. Sabendo da situação de Florêncio, prometeu-lhe:
- Tenha um pouco de paciência, Batista. Eu acabo arranjando-lhe um lugar. E na reportagem, hein? O secretário, qualquer dia, põe na rua o Belisário, um molengo que faz o Ministério da Marinha. Aí você entra na brecha.
Batista ficou contente. Mas a sua miséria, que ele escondia com um desesperado pudor, chegara a um ponto sombrio. Já devia à pensão um resto do mês anterior. E aquele mês todo, como pagá-lo? Sabia que d. Leocádia era inflexível. Decidiu-se a falar-lhe com franqueza:
- D. Leocádia, preciso conversar com a senhora.
Ela acudiu, sorridente, limpando as mãos no avental.
- Pronto, dr. Batista.
Batista tomou coragem:
- Estou numa situação difícil. Este mês não posso pagar a pensão.
Ela fez uma cara desiludida. Deixou passar um momento. Depois, devagar:
- É o diabo, dr. Batista. É o diabo. Eu também ando aqui cheia de dívidas. A pensão não dá para nada. O senhor vê, pelo preço que eu cobro não tiro nem para as despesas. O custo da banha, da carne...
Batista sentiu vergonha. Repugnava-lhe aquele esmiuçamento de interesses, de dinheiro, de misérias.
- Que é que vou fazer, d. Leocádia? Se a senhora quiser, eu me mudo.
Ela não disse nada. Batista insistiu:
- Quer?
Acreditava que ela se opusesse a isso. Mas d. Leocádia tinha experiência. Quando um hóspede fraquejava no pagamento, preferia que ele se fosse embora sem pagar. Se ficasse seria pior, a dívida aumentaria, para dar no fim o mesmo resultado. Então disse molemente, como não querendo ser indelicada:
- O senhor faça como entender, doutor.
Florêncio saiu para comprar um jornal e procurar um quarto. Era para ele um trabalho doloroso percorrer os anúncios. Desde que chegara ao Rio mudara de casa três vezes. Sabia da anônima tristeza dos oferecimentos: "Em casa de família honesta, em magnífico ponto da cidade..." "Senhora séria, viúva..." Sabia da tristeza de tudo aquilo, daqueles intimidades que se expunham ao acaso do primeiro passante, daquelas vidas que perdiam o pudor.
Achou um quarto barato na Rua Pedro Américo, perto do morro: 40$000 por mês, dizia o jornal. Foi ver: era numa casa sórdida, com barulho de crianças, mulheres lavando roupa no quintal, em tinas... A janela dava para as pedreiras de um morro.
***
O Clodomiro ia saindo quando viu a mudança.
- Como é, para onde vai você?
- Para a Rua Pedro Américo.
- Então nos deixa?
Batista não respondeu. Clodomiro tinha sempre uma hipocrisia untuosa, uma amabilidade que soava falso no ouvido. Aquele "nos deixa" era irritante. Como se Clodomiro e os outros sujeitos da pensão se importassem muito com a presença dele ou de outro qualquer!
Mas conteve-se, ofereceu a casa, com uma seca polidez...
- Às suas ordens. Apareça.
Clodomiro lembrou-se:
- É verdade, venha ver-me no jornal. O secretário ainda não se decidiu a pôr o Belisário na rua. Mas é uma questão de dias. Aliás, andam já vários piratas cavando o lugar. Você sabe, imprensa é isso! Não vale nada, não presta pra nada, todos falam mal, mas todos querem entrar. Adeus!
E pulou num bonde que passava.
Batista foi a d. Leocádia:
- Assim que me sentir folgado, pagarei a dívida.
Ela riu um riso equívoco, experiente...
- Vamos ver, doutor.
E estendeu para ele a mão que cheirava a cebola.
***
Batista entrou numa fase de angústias novas. Tratava-se agora de comer. O quarto estava pago um mês. Mas o último dinheiro acabara-se. Seus discípulos eram meninos ricos. Se lhes pedisse alguma quantia adiantada, perderia completamente a consideração.
Então, pela primeira vez na vida, Batista estendeu os olhos para os seus livros com o doloroso pensamento de vender alguns. A reforma no Ministério estava por pouco, dizia o senador Messias de Freitas. Logo que fosse nomeado iria resgatar no sebo os seus pobres amigos.
Percorreu a estante. Qual deles? Qual deles venderia? Sentiu uma emoção profunda. Não, não era ilusão: ia separar-se de um pedaço de si mesmo. Aqueles volumes comprados com o seu penoso dinheiro, amados pelo seu pensamento, acariciados sempre pelos seus olhos e pelas suas mãos, podiam lá sair dali? Ele via rapazes venderem livros num sebo do Catete, que frequentava. Admirava-se da fácil despreocupação deles todos:
- Quanto vale isto? Olhe lá, hein? precinho de amigo!
Como ele era diferente! Ia custar-lhe muito.
Havia um sol bonito pela manhã azul. Nas casinhas do morro saía fumaça das chaminés e as pedreiras, enormes, caindo a pique até a rua, faiscavam.
Era preciso decidir-se. Tinha que almoçar para poder ir dar aula à casa dos discípulos. Então arrancou da estante, com um gesto bruto, quatro livros em bloco. Não quis olhá-los. Pô-los debaixo do braço e saiu.
O sebo ficava ali perto, na Rua do Catete, adiante de Correia Dutra, junto à Faculdade. Tinha uma única e larga porta, ocupada até o meio pela vitrina suja, onde livros para crianças, desbotados pelo sol, se ofereciam. Entrou: era a sala estreita que ele conhecia bem: as paredes cobertas, até o teto, por estantes cheias de livros, em pilhas de acaso, sob a poeira. Um cheiro de velhice, de passado, de mofo. No centro, o balcão, com outras pilhas. Pelo chão, ainda pilhas...
Por toda parte livros usados, num amontôo de capas coloridas onde assinaturas de donos anteriores davam a sensação triste do tempo. Atrás do balcão, ralhando com o caixeirinho parvo, o dono da livraria: uma espécie de velho judeu mulato, seco, esquelético, óculos no nariz em bicanca, uma barbicha cinzenta, inquieta, um barrete cobrindo a calva.
- Já lhe disse uma vez, duas vezes cinquenta vezes, que não se manda embora um freguês sem me perguntar se tenho ou não o que ele pede!
O caixeirinho era um pobre meninote, apalermado. Devia estar com dor de dentes; tinha um lenço passado por baixo do queixo, cobrindo de viés uma bochecha e amarrado em cima. Batista parou para olhar a neurastenia do homem. Resolveu interrompê-lo:
- Bom dia.
O velho judeu mulato não respondeu e continuou:
- Não posso mais! Pois o senhor não aprende nunca!
O menino teve, por fim, uma rebelião chorosa:
- Também o senhor briga com a gente a toda hora...
O velho ficou silencioso, com medo de perder o empregado. Aí voltou-se para o estudante.
- Bom dia.
Batista pôs os livros em cima do balcão e só então verificou: Le Lys Rouge,Boule de SuifLes Fleurs du MalD'un Pays Lointain... Teve uma dor de arrependimento. O velho perguntou:
- Que é? Quer vender?
Tomou de Boule de Suif:
- Hum! Maupassant. Disto temos muito aqui. E isto?
Abriu o Baudelaire, verificou:
- Poesia...
Sorriu de um modo incerto, coçando a barbicha irônica. Tinha um jeito irritante de pegar nos livros, lendo os títulos por debaixo dos óculos, como se os cheirasse.
- Quatro brochuras. Muito bem. O senhor compreende, se fossem encadernados valiam mais... Dou-lhe 3$000.
Batista recuou. Ingenuamente sentiu o sangue no rosto, a queimá-lo.
- O senhor sabe quanto eu paguei por estes quatro volumes?
- Que é que vou fazer? O livro depois de usado perde.
- Perde quê?
0 Perde.
E encolheu os ombros. Batista ardia. Teve um arranco:
- Pois dê-me o dinheiro.
O velho abriu tranquilamente a gaveta. Mexeu nos níqueis algum tempo. Depois, com uma calma perfeita, estendeu a mão com as moedas.
- Conte para ver se está certo.
Batista pôs o dinheiro no bolso e saiu tonto para a rua cheia de vida, de rumor e de sol.
***
Não podia continuar naquela situação. Enchendo-se de coragem, pediu a um dos alunos um pequeno adiantamento. Mas logo se arrependeu. Sentiu que aquilo o desacreditava e tomou a resolução custasse o que custasse, de não tornar a pedir um único vintém.
Batista pagou à lavadeira e ficou com algum dinheiro para comer. Mas era horrível, horrível... Seria possível que estivesse naquela miséria, como nos romances? Lera dias antes num jornal que no Brasil ninguém passava fome. Ali estava ele. Todos que lhe haviam feito promessas conheciam a sua situação, sabiam que ele precisava muito. No entanto, ninguém se apressava. O sol aparecia todos os dias, a vida rolava pelas ruas com a regularidade de sempre, o dinheiro continuava a cair nas mãos dos afortunados com a fatalidade de um mecanismo. Portanto, ninguém podia passar fome no Brasil. Nãohavia o interior para trabalhar de enxada nas fazendas?
Era desesperador. Desde que o pai morrera, andava naquela excitação, naquela ânsia. Não aparecia na Faculdade senão raramente. Ia perder os exames. Tinha a impressão de que todos sabiam da sua pobreza e tornara-se esquivo.
Refletia... Tivera já a ideia de voltar a Goiás. Mas, para quê? As irmãs estavam com a tia. O pai deixara aquelas duas casinhas. A família morava numa e vivia com o rendimento da outra. Que iria fazer lá, ocupar-se em quê? Pedir, procurar emprego como aqui... Não, valia mais ficar. Depois, aquele regresso representava uma derrota. A cidade tinha reprovado o velho Batista, invejosamente:
- Quer ter a vaidade de formar o filho. Vamos ver se ele não arreia a mochila no meio do caminho. Quem é pobre não inventa modas.
Não... Nunca. Preferia adoecer de miséria, ir para um hospital, morrer anônimo, a voltar à cidadezinha má. Antes esta, a cidade enorme, maravilhosa e indiferente...
Tomou uma resolução. Iria mais uma vez ao Senado. Falaria com o senador Freitas. Abrir-se-ia com ele. Que visse aquela situação, que lhe arranjasse qualquer coisa...
E essa ideia deu-lhe um vigor de esperança nova.
***
O Senado era no Campo de Santana, na esquina da Rua do Areal, um casarão baixo com uma longa fila de janelas. Havia automóveis parados pelas imediações, confortáveis, brilhantes, ilustres. No hall do edifício, apinhava-se gente de ar humilde, com a denúncia do pedido expectante na fisionomia servil. Subiu até ao meio da escada e parou indeciso. Um contínuo passava:
- Eu queria falar com o senador Messias de Freitas.
- É ali com o porteiro.
E apontou a sala da direita, onde outros grupos humildes esperavam. Tomou aquela direção, entrou. Viu logo, em redor de uma mesa, vários sujeitos ociosos que deviam ser porteiros todos. Conversavam felizes, risonhos.
- O senador Freitas...
Olharam-no.
- Tem cartão?
Não tinha cartão. Mandaram-no escrever o nome num papel. Escreveu. Batista ficou olhando, em pé. Numa outra sala, ao lado, havia um busto de Pinheiro Machado. O contínuo voltou.
- Pro senhor esperar lá dentro.
- Onde?
- Aquela sala, depois dessa aí.
Atravessou a sala do busto, entrou noutra, em penumbra, severa, com móveis antigos, uma galeria de retratos pelas paredes - retratos de homens do Império, de homens da República... Sentiu um respeito místico.
Na sua frente uma moça de cor-de-rosa olhava para tudo com um modo familiar, à vontade. Entrou um velho gordo, morenão, pesado, sorrindo para ela. Lembrava-se ter visto aquela cara num jornal. Era um senador. Ele chegou para a moça apertou-lhe a mão, ficaram falando baixo. A moça ergueu-se satisfeita, despediu-se:
- Pois muito obrigado, doutor. Passe bem.
Ele ainda recomendou:
- Não tenha susto.
E saiu por onde entrara, pesado, enorme, oscilando a pança...
Daí a minutos apareceu o senador Freitas.
- Menino, como vai você?
Passou os olhos pela roupa preta do estudante e sentenciou:
- Fui muito amigo de seu pai. Bom homem. Caráter íntegro. Vontade de ferro. Podia ter sido muita coisa em nosso Estado. Não quis! Dizia que lhe faltava temperamento. O que ele era, sabe o que era, menino? Um puro, isso sim. No entanto...
Batista impacientava-se com o tom afetuoso daquele homem. Sempre assim. Parecia tocado de enternecimento, de bondade, de interesse... Era capaz de estender-se durante horas naqueles louvores moles, sem variar.
- Doutor, eu estou numa situação desesperada. O senhor foi muito amigo de meu pai. Sabe que o desejo dele era que eu me formasse. Pois bem,não tenho nem para a pensão. Com a morte do velho, fiquei sem a mesada. A reforma que o senhor espera está tardando. Que devo fazer?
- Não, ainda ontem o ministro...
- ... Nessas condições, eu queria que o senhor me arranjasse uma coisa qualquer, qualquer, absolutamente qualquer. Estou no fim das forças. Dou lições particulares, mas isso não chega para nada. ultimamente, tenho vendido livros, que é o que eu mais amo na vida - e frisou - que amo acima de mim próprio.
O velho político olhou aquela sonhadora energia de rapaz e sorriu da efusão lírica. E como gostava de fazer espírito, de contar anedotas, de divagar, mesmo diante de uma dor, aproveitou a oportunidade:
- Então, menino, você ama os livros acima de você? Hum, olhe esse exagero...
Bateu-lhe nas costas:
- Bela época da vida! Quantos anos tem?
- Vinte e um.
Tornou a sorrir.
- Nessa idade, menino, eu também era capaz de passar fome para comprar um livro... Acredite.
Batista olhou o político com uma expressão misturada de pena e de raiva. Ele continuava, mole, satisfeito de encontrar um assunto por onde derramar a sua prosa arrastada, gosmenta de pigarros crônicos.
- Acredite. Olhe, uma vez, no Recife - fiz ou meu curso no Recife, até o terceiro ano, depois fui para São Paulo - uma vez, no Recife, eu não tinha recebido a mesada até o dia 5 do mês. 5? É, espere.. Até mais ou menos o dia 5 ou 6. Bem. Estava com 20$000 no bolso. Ora, chegou a mim um colega e disse: "Freitas, tenho um Corpus Juris que te vendo barato".
Batista tomou o partido de olhar disfarçadamente os retratos das paredes. Depois, os móveis antigos da sala. Quando voltou a fixar a sua atenção na conversa, o político terminava, dando-lhe outro tapa nas costas:
- Aí tem você, menino, como era eu na sua idade...
Um contínuo chegou e entregou-lhe um cartão: o senador Messias pôs os óculos com pachorra e leu alto:
- "José de Sousa, Rua Dias da Cruz, 328, Meyer." Quem é?
- Não sei, Excelência - respondeu o contínuo.
- Como é o sujeito?
- Não posso informar a Vossa Excelência. O Claudino é que recebeu o cartão da mão dele.
- Está bem, diga que espere um momento.
E voltando-se para o estudante:
- Na sua idade é assim, nada como os livros. Como os bons livros, aliás!
Batista estava confuso. Doía-lhe a cabeça, como em virtude de uma pancada. Tinha ímpetos de matar aquela inutilidade faladora e amável, de liquidar aquela natureza coleante, misto de habilidade imperceptível e desejo ocioso de conversar. Sentiu vergonha de ter de voltar ao seu interesse, de tornar a pedir.
- Senador, minhas irmãs agora estão órfãs. Eu preciso ajudá-las. Quero trabalhar. Se não me arranjar emprego público, arranje-me alunos. Ou então um lugar no comércio.
O senador Messias de Freitas ficou silencioso, meditando com gravidade. Segurando o queixo com a mão macia, de unhas bem tratadas, falou vagaroso:
- Seu caso é muito digno da minha atenção. Sabe que eu não esperava senão a reforma. Seu nome já está lá. É questão de tempo, como lhe tenho dito. Entretanto, desde que a sua situação é assim, vamos agir imediatamente.
Depois de uma pausa, o senador iluminou-se:
- Sabe que está aberto um concurso na Central do Brasil?
Batista conteve o ímpeto e respondeu com doçura:
- Tudo isso é aleatório. O concurso com certeza demora. Se o senhor puder fazer alguma coisa por mim, há de ser já. Fora disso, não adianta.
O político tornou a refletir.
- Ora... espere... espere... Sabe escrever à máquina:
- Não, senhor, mas aprendo.
- Vou falar com o Silveira, o presidente da mesa. Talvez se arranje um lugarzinho para você ali embaixo na datilografia. Talvez... Ora, é verdade! Boa ideia! Mas não sei se o Silveira poderá fazer a nomeação imediatamente. Há muitos pedidos sempre. É preciso jeito e paciência.
Deixou correr uns momentos e acrescentou, levantando-se:
- Onde é que você mora?
Batista deu a direção e ele tomou nota na carteira. Estendeu a mão:
- Muito bem, menino, espere o meu chamado.
Como a uma ideia súbita, fez um movimento vago e ofereceu baixinho:
- Se precisar de algum dinheiro, sabe que eu não sou rico mas posso ajudá-lo. Aceita?
Bem que sabia que o senador Freitas era rico. Sabia, mesmo, da maneira por que ele enriquecera. Pensou na miséria em que estava, nos livros queridos que vendera e nos que devia vender... Houve uma luta rápida dentro dele e o escrúpulo de aceitar o dinheiro foi vencido. O senador Messias olhava. Mas, quando Batista ia dizer que sim, disse não, sem saber por quê. E agradeceu. O outro insistiu, devagar:
- Veja lá se precisa! Se precisar...
"Se precisar" humilhou-o. Pois não era evidente?
- Obrigado, ainda tenho com que passar uns dias.
Despediu-se. O velho ofereceu a casa:
- Sabe onde estamos agora, não é? Copacabana. Está no catálogo telefônico. Apareça lá para jantar.
Batista atravessou a sala do busto, depois a outra e desceu as escadas, entre os grupos... À porta ouviu uma voz familiar:
- Cavando o seu pistolão, hein?
Era Clodomiro de Sousa que ia fazer a reportagem da sessão.
***
O judeu do sebo tinha-se tornado o carrasco de Florêncio Batista. Levava-lhe cada dia três, quatro volumes. Não havia outro recurso. E era como se fosse perdendo o sangue por uma artéria golpeada.
Tentou o Diário do Rio. Foi lá uma noite. Clodomiro, na ausência do secretário, que fora jantar, fazia um comício no meio da sala, entre os risos e as pilhérias dos outros rapazes, espalhados pelas mesas.
- Sempre fui contra! O presidente da República é o maior inimigo do país!
- Deixa de ser besta, Clodomiro!
- Besta é você. De que é que você entende? Um repórter muito vagabundo.
Risos de novo.
- E você que é?
Um rapaz, que devia estar a substituir o secretário, porque era o único que trabalhava ali para manter a autoridade, ordenou:
- Vá, rapaziada, vamos fazer qualquer coisa. Seu Gomes, estou vendo na sua mesa dois envelopes da Americana e outro da Havas. Ponha título nesses telegramas, que da oficina estão pedindo matéria.
Então Clodomiro, que o outro interrompera, viu Batista a porta da sala, esperando, como se se esquivasse.
- Grande homem! Chegue-se para mais perto! A casa é nossa!
Apertaram-se as mãos. Batista explicou, a um canto da sacada do jornal, para onde Clodomiro o arrastara:
- Eu queria um lugar mesmo ínfimo. Tudo que me vier agora me serve.
Clodomiro afetou importância:
- Meu querido, é o diabo! Ainda se você praticasse um tempo, de graça... Talvez fosse melhor. É como quase todos começam.
Batista achou aquilo uma solução.
- No fim de um mês pode ganhar, perfeitamente. Ainda assim, é difícil. Olhe aí...
E apontava a sala:
- ...está vendo? Tudo isso é pessoal. Ainda há mais, há duas vezes mais. É gente de pagode, seu menino.
Um senhor respeitável, de bigode grisalho, óculos de tartaruga, entrava, chapéu à cabeça. Fez-se um silêncio religioso na redação. Sentou-se à mesa grande do fundo, coberta de livros e papéis. Pôs o chapéu em cima da mesa, pendurou o paletó à parede e sentou-se. Clodomiro foi a ele:
- Boa noite, seu Nunes.
- Boa noite - fez o outro molemente, o olhar já percorrendo os títulos enormes de uma notícia.
Clodomiro pôs-se a conversar baixo com o secretário, apontando furtivamente Batista. Ao fim de um certo tempo o secretário, que continuava a percorrer tiras com os olhos distraídos e enjoados, voltou-se para a sacada, fixando o estudante com indiferença. Os olhos voltaram aos papéis da mesa, de novo. Batista sentia uma emoção angustiosa.
Clodomiro fez-lhe o gesto de que se aproximasse.
- Florêncio Batista, acadêmico de Direito, que deseja ingressar no jornalismo.
Batista sorriu, tímido. O secretário esforçou-se por fazer uma fisionomia amável, mas evidentemente estava preocupado com outra coisa... Perguntou-lhe:
- O senhor nunca trabalhou em jornal nenhum?
De repente, teve uma ideia:
- Nem mesmo em Goiás?
E pôs-se a rir. Batista ouviu então a surdina de um riso em coro. Olhou: toda a redação ria, acompanhando o secretário. Informou, sem compreender:
- Não, senhor, nem em Goiás.
O secretário desta vez deixou sair o riso à vontade. E, apoiando o cotovelo na mesa, limpou os olhos por baixo dos óculos. A redação parecia rejubilar com o bom humor do chefe, como se aquele riso afastasse um perigo.
De repente, Nunes cessou de rir e deu na mesa um soco:
- Seu Gomes! Venha cá!
Ninguém se perturbou, como se, mesmo inesperada, a coisa fosse habitual.
Gomes levantou-se da sua mesa e veio, em mangas de camisa, magrinho, pastinha repartida em dois, a reluzir. Quando chegou perto, o secretário bufou, pondo-lhe umas tiras diante do nariz:
- Que título é este?
Gomes gaguejou.
- Não gagueje! Vamos"
- Mas o senhor ouro dia...
Clodomiro sussurrou ao ouvido de Batista:
- Não estranhe, ele é assim, de repentes mas tem um coração ótimo.
Com os óculos faiscando, a puxar os bigodes grisalhos, uma ponta e outra, nervoso, o secretário do Diário do Rio concluiu:
- Seja esta a última vez!
Um silêncio acompanhou Gomes, que voltava à sua mesa humilhado.
Mas um riso seco e sacudido tiniu de novo na sala e logo, com a voz entrecortada, Nunes acrescentou:
- Adorável Gomes das pastinhas luzidias! O que ele sabe é repartir aquele cabelinho no meio, com um cuidado impecável.
De novo a redação riu em coro.
Então, esquecendo já completamente o caso, perguntou:
- Não me telefonaram?
Clodomiro adiantou-se, blandicioso e sutil:
- Há coisa de uma hora, aquela voz.. Fui eu que atendi... Disse que telefonasse depois...
O secretário teve uma expressão de prazer na fisionomia. Mexeu noutros papéis. Depois, olhando Batista, que se sentara ali perto caladamente, exclamou:
- É verdade, aqui o amigo...
Abriu a gaveta e ofereceu-lhe um charuto. Batista aceitou por timidez, porque não fumava.
Nunes voltou-se para ele, num interesse repentino, afetuoso:
- Pois é, jovem, a redação está cheia. Pode ser que se dê uma vaga. Vá aparecendo. Assim, pratica um bocado. Isso sem prática não vai.
Batista despediu-se. Clodomiro disse-lhe no ouvido, à porta:
- Não é? Um tipo excelente. Você apareça sempre à tarde. Está aqui, está dentro.
Ao descer a escada, Batista parou um momento para ajeitar o chapéu na cabeça. Então ouviu a voz do chefe, súbita, estalar.
- Ora, seu Clodomiro! Então o suelto que eu lhe pedi sobre o empréstimo da Prefeitura é defendendo o Prefeito? O senhor está ficando inteiramente idiota depois que cavou o emprego na Inspetoria de Portos!
***
Quando Batista, na manhã seguinte, olhou pela janela, através da chuva, a paisagem familiar do morro, das pedreiras daquele fim de rua que se alargava numa praça rústica, cercada de casas pobres, sentiu um desânimo doloroso. A chuva punha-lhe os nervos doentes. Sempre que chovia gostava de ficar em casa, entre os livros.
Mas naquela manhã tinha de sair, por força. Estava sem dinheiro, devia dar aula aos pequenos, depois à tarde ir à redação do Diário do Rio.
Olhou os livros então. Já ali faltavam muitos. Vendera toda uma prateleira da estante. E aquela ausência era como, numa mesa de família, o lugar vago de uma pessoa que partiu para sempre.
Quase todos os dias aparecia no sebo. O mulato velho pegava com o mesmo gesto de rapina os volumes, lia-lhes o título e folheava-os por debaixo dos óculos, examinando-lhes o estado de conservação, avaliando-os... Com a mesma voz metálica, interrompendo-se a cada instante para gritar com o caixeirinho palerma, dizia um preço vil, distraidamente. Batista insistia às vezes por um aumento, humilhando-se. Uma vez, ingenuamente, tivera um assomo:
- Mas o senhor não vê que é um pouco de gênio que lhe estou vendendo?
O velho ria, puxando o cavanhaque cinzento, abrangendo a sala estreita com o gesto da mão ossuda estendida:
- Olhe, está aí... Tudo isso é gênio, moço.
De outra vez o livreiro dissera ao estudante:
- Por que não traz uma boa quantidade? Está agora a pingar os livros aos dois e aos três! Se quer vender, venda logo tudo duma vez. Traga, que fechamos negócio.
E ainda naquela manhã de chuva era preciso voltar ali. Já vendera alguns volumes noutros sebos, pela Rua da Constituição e General Câmara. Era a mesma tristeza do sacrifício... Não valia a pena dar uma caminhada até lá. O seu morcego tinha que ser aquele velho mulato de barrete, sujo e neurastênico, com os óculos baços na ponta do nariz bicudo.
Desceu as escadas com um grande embrulho. Desta vez levava mais livros do que de costume. Eram quinze. Precisava de um dinheiro maior. O seu chapéu era uma ignomínia. Tinha de mandar lavá-lo. Sentia os olhos dos discípulos, quando se despedia, fixos na palha encardida.
Ao chegar à porta da rua, onde crianças em algazarra patinhavam em poças de água, o carteiro vinha justamente entrando. Viu-lhe nas mãos uma carta tarjada de preto. Teve uma súbita saudade da terra, da família... porque era carta da família, com certeza.
- Carta para Florêncio Batista? Sou eu.
Depôs o embrulho no último degrau da escada. A letra do envelope era da irmã menor.
Ela contava-lhe a vida de pobreza que estavam levando em Goiás. As coisas estavam tão caras! A tia trabalhava sempre e as moças ajudavam-na. Mas o dinheiro da casa alugada já não recebiam há dois meses. Estavam passando dificuldades que nem valia a pena contar O namorado da Laura andava meio assim com ela. o da Cristina ainda não tinha sido nomeado para o Telégrafo. De modo que ainda por muito tempo as três tinham que pesar nas costas da titia, que trabalhava tanto...
Batista parara nesse ponto da carta. Tinha a garganta encaroçada num soluço. Agarrou o embrulho e subiu de novo as escadas. Entrou no quarto. As pedreiras, por onde a água do morro escorria, brilhavam no fundo do quadro chuvoso. Em cima, entre as casinhas, a vegetação tinha um verde contente de rega. uma carroça atravessou a praça, arrastadamente, aos gritos de "Eia!", "Eia!", do carroceiro exasperado.
Então, caiu sobre a cama, de borco. Esteve assim um tempo largo, sem poder chorar, com aquele soluço a sufocá-lo, maior que a garganta.
Por fim, timidamente, pôs a carta de novo diante dos olhos, para continuar. Batia no teto o golpezinho monótono e regular de uma goteira. Fora, a chuvarada chiava.
A irmãzinha, com uma inocência torturante, contava pormenores. Laura precisava de calçado e Cristina também. Por ela, Luísa, não. Pouco se importava. Não gostava de sair. Mas as outras precisavam de pagar as visitas da morte do pai. Além disso, embora luto não fosse uma coisa muito cara, e as roupas se fizessem em casa, sempre era despesa. Pedia-lhe então que, se fosse possível, mandasse um pouco de dinheiro. Não precisava ser muito.
Ela sabia que Florêncio não tinha recursos, apesar de em Catalão haver corrido o boato de que ele estava bem empregado... Se era verdade, que fizesse um pouco de sacrifício. E mais ainda: embora não lhe quisesse ser pesada, pedia-lhe, para ela, pessoalmente, uns livros de estudo. Florêncio sabia: ela continuava com o sonho de ser professora e estudava aos poucos, em casa mesmo, sem mestre. "E lembranças da titia, da Laura, da Cristina, e um beijo da sua irmãzinha afetuosa..."
O soluço forçou-lhe a garganta e outros vieram após, a sacudi-lo. Ah! que consolo! Agora chorava forte, com o pungente prazer do desafogo, cobrindo o rosto com o travesseiro. A saudade da irmãzinha boa, das outras duas, da titia incansável, das coisas do lar, dava-lhe uma dor longa de ferida machucada. E chorava, ensurdecendo-se... A chuva parecia-lhe distante.
Aliviado na sua mágoa, Batista levantou-se da cama num repelão. Mandaria dinheiro às irmãs. Roubaria.
Teve, súbito, uma ideia: se pedisse ao senador Freitas?
Sentou-se à mesa. Começou uma carta: "Meu..." Hesitou no adjetivo. Pegou do papel, amarrotou-o, depois picou-o, num arrependimento vibrante. Levantou-se, jogou os pedacinhos pela janela. E era como se caísse neve sobre a lama da praça.
Passeou a passos largos pelo quarto. Do compartimento ao lado uma voz de mulher chegou, clara:
- Não mexa aí, seu peste!
Uma criança esperneou sobre o assoalho, com um rumor de tambores ao longe.
Achou-se diante dos livros. Então, luminosa, súbita, achou a salvação: venderia todos, todos aqueles livros... Ficou surpreso de não sentir dor nenhuma com aquilo. Antes, uma ânsia frenética, meio selvagem, ardia nele, dava-lhe ímpetos. Pôs o chapéu à cabeça, desceu as escadas às pressas. Ali a dois passos da porta estava um carrinho de mão vazio, parado. O carregador entrara num botequim. Foi buscá-lo. Pediu-lhe que arranjasse um oleado para proteger os livros.
E subiu de novo para o quarto. Pôs-se a empilhar os livros na cama, pelo chão, com uma febre de atividade. O carregador chegou:
- Posso ir levando? Então com licença.
Saiu a primeira pilha, depois outra. Dois meninos apareceram, curiosos:
- Quer que eu ajude?
O zelador do cortiço veio indagar, amável?
- É mudança?
- Não, senhor. Apenas estes livros - respondeu de mau humor.
Lá embaixo, na rua, os livros iam sendo amontoados sob o oleado. Apressou o carregador. E ficou à janela esperando o fim.
Depois, partiu primeiro que o homem, com a sensação de ir à frente de um enterro.
Quando o carrinho parou na calçada do sebo, o mulato velho estava à porta. Olhou aquilo com estranheza.
- São os seus livros?
- Sim, senhor.
- Ah!
Entraram. Eram mais de trezentos volumes, que atravancavam o balcão, como uma muralha. O velho queixava-se, procurando arrumá-los:
- O pequeno saiu já faz uma hora para almoçar e até agora! É um horror. Qualquer dia ponho esse idiota pela porta afora. Não me adianta nada!
E endireitando os óculos no nariz, apelando para o testemunho do estudante:
- Nada neste mundo! Não me adianta nada! O senhor vê.
Batista teve pena do menino. Esperava-o, decerto, a tormenta habitual dos insultos. E odiou mais o velho.
Ele percorria já os volumes, a examinar um por um. Deteve-se para perguntar?
- Qual é a sua oferta?
- Não tenho oferta.
O livreiro continuou em silêncio. De vez em quando comentava, espichando o pescoço sobre os montões de livros para espiar a rua:
- E esse pamonha do diabo que não chega!
Batista estava do lado interior do balcão, junto do livreiro. Queimava de impaciência. Não lhe saía do pensamento a miséria da família. Aquelas linhas da irmã, "corre o boato de que você arranjou um bom emprego...", magoavam-no mais do que tudo. Nem por um momento pensassem que era mau irmão. Ah! mesmo no Rio, na miséria, era vítima das intriguinhas de Catalão, da maldade provinciana, da inveja...
- Que trabalhinho, hein, moço?
O velho casquinou uma risota e continuou na avaliação. Tornou:
- Mas o senhor... não tem assim... um limite... não sabe a quantia, assim a olho, que podia pedir...?
- Não sei nada - respondeu Batista virando-lhe as costas.
Na rua rolavam bondes, autos, carroças... A chuva caía, torrencial. Pela calçada, surgindo súbitos e desaparecendo na porta da livraria, vultos passavam às pressas.
Batista sentiu o sangue cada vez correr-lhe mais rápido. O cuidado minucioso do velho judeu era um suplício para ele. Afogueava-lhe a cabeça um calor desesperante. Desejaria sair, expor o rosto àquela chuva, respirar largo para o alto. O velho acabou de avaliar tudo, comum relance de olhos pelo que ainda faltava.
- Bem... Isso aí eu já vejo mais ou menos. Brochuras... Bem... Umas pelas outras... Bem...
Ergueu a cabeça num movimento súbito, como terminado o cálculo. O barrete caiu-lhe para um lado e ajeitou-o, cobrindo de novo a calva escura, que reluzira. Olhou em seguida o estudante, fez no ar uns rabiscos, concluindo:
- Vou fechar um negócio que não seria capaz de fechar com outro. Erga as mãos para o céu, hein?
E sorriu, benévolo. Puxou o cordão de chaves, abriu a gaveta: havia níqueis espalhados no fundo e um maço de notas, sob uma pedra amarela, dentro de uma caixa de charutos sem tampa. Tirou cuidadosamente a pedra para um lado e principiou a contar umas notas de cinco mil réis.
- Vou dar-lhe quarenta mil réis, moço. É por ser para o senhor.
Batista sentiu estalar-lhe a cabeça e uma nuvem cegá-lo. Um tremor de ódio agitou-se. O velho, curvo, contava as notas, molhando amiúde o indicador na língua pastosa.
- Vá... Vá contente...
Batista assistiu então a uma coisa independente da própria vontade, uma coisa que era aterradoramente mais forte que a própria vontade: suas mãos crispadas agarraram o pescoço do velho, que deu um arranco inútil. As mãos apertaram mais e era cômico o esforço do judeu. O barrete caíra-lhe. Batista teve perto do nariz aquela cabeça lisa, escura, reluzente, com uma orla de cabelo crespo e grisalho de uma orelha a outra. Continuava apertando, subitamente calmo, espantado do seu gesto. Estaria matando o judeu? Devia largá-lo? E se o largasse? Ele não gritaria, não chamaria a polícia, não o levaria à cadeia? Se o largasse e fugisse? Mas o velho iria denunciá-lo. Dava no mesmo. Ah! por que fizera aquilo?
E, pensando tudo isso, apertava mais, enquanto as mãos do outro agarravam as suas. Então manteve desesperadamente o arrocho. Ficou algum tempo assim, sustentando. Pensou no fim da carta da irmãzinha: "você sabe o meu sonho de ser professora..." Sorriu com amor, com doçura. Sua imaginação divagava, esquecida.
O velho fraquejou nas pernas e ele foi despertado por aquele peso que arreava. Teve um amargor vago, um nojo de tudo, um nojo daquele corpo, daquela cabeça... Deitou o judeu no chão, com cuidado, e só então viu de frente o velho: tinha a língua de fora, os olhos esbugalhados. Arrepiou-se. Súbito, pensou na polícia, na cadeia, na vergonha das irmãs... - "O irmão delas matou um homem no Rio de Janeiro. Está cumprindo pena".
E agora, para onde iria? Céus, que fizera?
Olhou a rua. A todo instante passavam vultos. Uma menina entrou na livraria, aos saltos, molhadinha de chuva:
- Tem lápis de cor?
Batista tremeu, conteve a emoção.
- Acabou-se já.
E sentia o cadáver nos pés. Ela saiu a correr:
- Então até logo.
Batista ficou um momento idiotizado. Acudiu-lhe repentinamente a ideia de Goiás: ninguém tinha visto, fugiria...
Baixou os olhos e ali estava a gaveta aberta, com o dinheiro do velho. E era muito dinheiro...
Então, um pouco trêmulo, contou: cinco, dez, vinte, quarenta... Hesitou... Depois, refletindo um instante, meteu os seus quarenta mil réis no bolso, fechou a gaveta. Pôs o chapéu à cabeça, levantou a gola do paletó e saiu para a chuva.

quinta-feira, julho 28, 2016

No Traçando Livros de hoje, "O som e a fúria", de William Faulkner


“Os relógios matam o tempo”

26 de julho de 2016
O crítico recebe uma ligação do editor interino do caderno cultural para o qual colabora. Ele pede para adiantar para esta semana a resenha que seria para a outra. Atordoado pelas últimas leituras, o crítico, que é também escritor, despejava naquele momento na tela em branco do seu computador as palavras que estão formando seu próximo romance, ao mesmo tempo em que esboçava uma crônica para seu blog. Havia anotado no seu moleskine de pobre algo sobre o último livro lido, na verdade relido. Trata-se de O som e a fúria, de William Faulkner (Cosac Naify, 380 p., tradução de Paulo Henriques Britto), romance arrebatador, que mereceria realmente ser tema do Traçando Livros.
22 de julho de 2016
Um desavisado que começa a ler O som e a fúria tem vontade de desistir nas primeiras páginas. Linguagem difícil, enredo aparentemente confuso, saltos inesperados no tempo de uma linha para outra. O primeiro capítulo, intitulado “7 de abril de 1928”, é narrado por um deficiente mental, um homem de 33 anos e uma cabeça de 3 anos. O que lemos são os seus pensamentos, pois ele não fala, é a reprodução de tudo o que ouve e, principalmente, cheira, as sensações olfativas é o que o liga ao mundo, é o que estimula o monólogo de um indivíduo sem voz. Seu nome é Benjamin, apelidado de Benjy, que foi batizado com o nome de seu tio, mas depois mudaram quando descobriram seu retardo mental. A narrativa se passa no presente, pula para adolescência, chega à infância de Benjy e continua nesse vai e vem, e só podemos nos localizar nessa linha cronológica a partir dos criados negros da casa que cuidam dele em cada uma das épocas: Luster, T. P. e Versh. Aconselha-se ao leitor que não tente colocar lógica no enredo, apenas se deixe levar pelas palavras, no fluxo de sensações que vão se desencadeando. A história ficará mais claras nos próximos capítulos.
23 de julho de 2016
Não, não é verdade. A história ainda não fica tão clara no segundo capítulo, que traz no título outra data, “2 de junho, 1910”. Aqui o irmão de Benjy, Quentin, também num furioso monólogo, relata acontecimentos da decadente família Compson, em mais um tijolo da narrativa de uma “vida como perpétua decomposição”, como escreveu um analista da obra. Quentin relata sua relação com a irmã Candace (Caddy), num suposto caso incestuoso, e planeja seu suicídio. Estuda em Harvard a partir do dinheiro adquirido pelos Compsons que venderam parte do terreno para um clube de golfe, na primeira tacada que os levou ao buraco, com o perdão do péssimo trocadilho. É a mais difícil e a mais analisada passagem do romance.
24 de julho de 2016
A terceira parte, “6 de abril, 1928”, é mais linear e a fúria não está na narração, mas sim nos atos e diálogos de Jason, o terceiro dos irmãos homens da família Compson. Voltamos ao tempo presente do enredo, porém um dia antes do primeiro capítulo. Sua sobrinha, Quentin, nome recebido em homenagem ao outro tio depois de seu suicídio, é uma jovem que “mata” aula para se encontrar com um artista de um circo. Jason, por sua vez, a trata muito mal e a engana, roubando o dinheiro que a mãe, Caddy, que fugiu de casa depois de dar à luz a filha, manda para ela. O ódio entre os dois parentes é a tônica desse capítulo.
25 de julho de 2016
A quarta parte, em terceira pessoa, tem o ponto de vista da que considero a personagem mais importante da história, a empregada negra Dilsey, a responsável por manter ainda de pé a casa, as pessoas, enfrentando o mau humor dos patrões, principalmente da matriarca Caroline. Os pontos são ligados, o leitor se situa melhor na história e tem uma visão mais clara dos acontecimentos, que se esclarecerão mais ainda no apêndice que Faulkner acrescentou nos anos 40.
27 de julho de 2016
O crítico, o leitor, termina seu texto, revisa o que escreveu, repensa a leitura, considera que teria muitas coisas ainda para falar, por exemplo, sobre o povoado fictício de Yoknapatawpha, onde se passa a maioria dos romances e contos de Faulkner, mas o tempo e o espaço da coluna não o permite. Decide acrescentar, para concluir de uma vez por todas, que o título do romance foi retirado da peça Macbeth, de Shakespeare: “a vida (...) é um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada”. Para quem gosta de desafio, mergulhar no universo desse livro é uma aventura intelectual e emocional assombrosa.

Cassionei Niches Petry se diz escritor, mas deveria ter vergonha de se denominar dessa forma depois ler Faulkner. É autor do romance Os óculos de Paula e mantém um blog, www.cassionei.blogspot.com. 

segunda-feira, julho 25, 2016

Nova tradução de Schopenhauer




Rosana Jardim Candeloro, professora da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), traduziu seis ensaios de Parerga e Paralipomena, do filósofo Arthur Schopenhauer.  A edição é bilíngue e tem a chancela da Editora Zouk, de Porto Alegre.

A Rô, como é carinhosamente chamada pelos amigos, sabendo do meu interesse pelo suicídio (por estudá-lo, que fique bem claro), me dedicou a tradução do ensaio sobre o tema.  O livro pode ser adquirido pelo site da editora: http://www.editorazouk.com.br/

domingo, julho 24, 2016

Histórias ordinárias


Winesburg, Ohio, lançado em 1919, é o livro mais conhecido de um escritor que, pelo menos para nós, ainda é bem desconhecido, Sherwood Anderson (1876-1941). Em que pese não ter o mesmo sucesso de seus contemporâneos, ele os influenciou bastante, como atestou William Faulkner em uma de suas entrevistas. Mais tarde, Ray Bradbury afirmou, no seu livro de ensaios Zen e a arte da escrita, que se inspirou no livro de Anderson para escrever suas Crônicas marcianas.
Temos aqui um conjunto de contos que poderia ser um romance cujo protagonista é a cidade de Winesburg e seus habitantes. George Willard, um jovem repórter do jornal local, é o personagem que aparece em todas as histórias, apenas citado ou diretamente envolvido. Aspirante e escritor, tudo nos leva a crer que é ele que escreve as histórias anos depois de sair da cidade, numa espécie de acerto de contas com seu passado.
O primeiro conto, “Os relatos e as pessoas”, traz um episódio da vida de um velho escritor (os velhos são presença constante nas histórias) que chama um carpinteiro para tornar sua cama mais alta para que possa, deitado, observar as árvores, já que as janelas são muito altas. Já acomodado, começa a ter “um sonho que não era um sonho”. Vê as pessoas que passaram em suas vidas e as considera grotescas. Levanta-se e põe-se a escrever “O livro dos grotescos”, que bem poderia ser o livro que passaremos a ler daí por diante, não porque os personagens sejam realmente estranhos ou ridículos, mas sim porque, segundo a teoria do escritor ancião, “sempre que alguém se apropriava de alguma verdade, a chamava de sua verdade e tratava de reger sua vida por ela, se convertia em um ser grotesco e a verdade que havia abraçado se transformava em uma falsidade”.
No segundo conto, por exemplo, uma figura conhecida da cidade por ter enormes mãos não gosta de falar sobre elas porque, no passado, em outra cidade, sofreu uma enorme injustiça. É um conto tocante, que mostra como uma falsa percepção da verdade transforma uma vida. Nesse caso, a fantasia de um aluno apaixonado por seu mestre cria um mostro abusador que usaria suas mãos para fins nada positivos e essa verdade construída passa a ser a verdade para as outras crianças e, por fim, para os pais.
O melhor conto do livro se chama “A força de Deus”. Conta a história de um reverendo de uma igreja presbiteriana que espia, através de uma janela da igreja, a uma mulher seminua em sua cama numa casa vizinha, mas se sente culpado por isso. Essa mulher, professora solteira, aparece no conto seguinte e se mostra apaixonada pelo seu ex-aluno, o jovem Willard. Há também o curioso relato do médico que fazia pílulas de papel.

São, portanto, histórias ordinárias de uma cidade fictícia do interior do Estados Unidos (não é a cidade homônima do mesmo estado americano) do início do século XX. Um belo livro, infelizmente esgotado nas livrarias brasileiras. A edição mais recente foi da L&PM, nos anos 80.

segunda-feira, julho 18, 2016

O leitor diante das lombadas dos livros



Passando os dedos pelas lombadas de suas estantes, o leitor se sente O exército de um homem só e As armas secretas são os livros que causaram A metamorfose em sua vida. Histórias extraordinárias que o fizeram refletir sobre A comédia humana, as Vidas secas, as Vidas sombrias, as Vidas amargas que percorrem uma Odisseia neste Vasto mundo Além do bem e do mal.
Visto como um Dom Casmurro por quem não entende seu modo de viver, ele percorre A biblioteca de Babel em miniatura que chama de A toca, sempre indeciso sobre que obra escolher. Quem sabe algo sobre Os miseráveis deste Admirável mundo novo, Pequenas criaturas que nutrem Grandes esperanças e saem à procura de Um lugar ao sol nesses Dias perdidos, lutando como Os três mosqueteiros ou Dom Quixote de la Mancha.
Ou então talvez possa procurar algo para ler sobre O país do carnaval, também chamado de Brasil, o país do futuro, que vive De jogos e festas, com As meninas em seus Corpos divinos nas praias, que tem Ligações perigosas em Brasília, que assiste a Novelas nada exemplares na televisão e a Cenas indecorosas nas ruas, comete assassinatos A sangue frio... A maioria da população, no entanto, corre Em busca do tempo perdido, na Saga de desbravar Os sertões, pescar no Mar absoluto, plantar Cacau, cultivar Essa terra, sentir a Navalha na carne, vivendo A via crucis do corpo, A luta corporal do dia a dia, sendo O equilibrista do arame farpado, sempre sobre O fio da navalha, batalhando Como se moesse ferro, o que faz o leitor gritar Viva o povo brasileiro, ao mesmo tempo em que pergunta Que país é este?
Quem sabe procure um livro que o faça sentir O som e a fúria das emoções humanas, positivas ou negativas: Do amor, passando para a Felicidade clandestina e Provavelmente alegria, podendo ter seu momento de Bom dia, tristeza ou chegar Nos cumes do desespero, sofrendo A paixão medida, A dor, tendo O medo à espreita, Temor e tremor.
É O óbvio ululante que A verdade de cada dia está nos livros que o leitor lê. A literatura o faz refletir sobre a Angústia dA condição humana, o Crime e castigo que é viver, O processo de Guerra e paz que vive o mundo, mais guerra do que paz, é verdade. Os sinos da agonia batem sem dó, as Malditas fronteiras nos separam, A barca dos homens afunda, a Ópera dos mortos toca seus primeiros acordes, Tambores silenciosos anunciam tempos sombrios e declaram que A vida é breve e O inferno tão temido é aqui e agora.
A Última quimera do leitor, sua Utopia, é ouvir uma Música ao longe que indique que O sol é para todos, que podemos dar A volta por cima e alcançar a Graça infinita. Inocência do leitor, é claro. Resta realizar O inventário do irremediável, refazer Caminhos e Descaminhos, reavivar Histórias e sonhos e não deixar Nenhuma paixão desperdiçada.

Final do jogo.

quinta-feira, julho 14, 2016

"A Bíblia do Che", de Miguel Sanches Neto, no Traçando Livros de hoje


Na minha coluna no jornal Gazeta do Sul de hoje, caderno Mix, escrevo sobre o mais recente romance de Miguel Sanches Neto.

Do idealismo à corrupção

Carlos Eduardo Pessoa é um dos meus personagens preferidos da literatura brasileira contemporânea. Narrador e protagonista do romance A primeira mulher, o professor criado pelo paranaense Miguel Sanches Neto é dono de uma frase que resume minha profissão: “O bom professor de literatura é antes de tudo um carregador de livros.” Posso não ser um bom professor, mas sempre estou com minha pasta forrada desses objetos subversivos.
Pessoa volta à ativa em A Bíblia do Che (Companhia das Letras, 283 páginas), dez anos depois da última investigação em que se meteu. Morando em uma sala comercial, tentando se isolar o máximo possível de todo mundo, o antes mulherengo mestre deixou sua profissão e se abstém de encontros amorosos, porém não abandona os livros, que compra aos montes pela internet e depois doa para bibliotecas. Sua tranquilidade é quebrada quando Jacinto, um lobista que conheceu durante sua última aventura, consegue encontrá-lo e o contrata para descobrir uma Bíblia que supostamente seria de Che Guevara, com anotações do guerrilheiro quando esteve foragido em Curitiba. “Algo ligava aquele caso à literatura. Se não fosse necessário alguém com conhecimentos literários, contratariam um investigador de verdade.” A ficção a partir de personagens históricos vem sendo uma tônica na obra de Miguel Sanches Neto. Adolf Hitler, por exemplo, dá as caras no ótimo A segunda pátria.
Enquanto Pessoa empreende sua busca, Jacinto morre assassinado. O indivíduo que realmente desejava a Bíblia o procura e revela ser a esposa de Jacinto. Jovem idealista, admiradora de Che, Celina diz estar sendo perseguida, provavelmente pelos assassinos do marido, envolvido na Lava-Jato. O professor aposentado se sente rapidamente atraído por ela, após anos de celibato. A motivação agora é ajudá-la, em primeiro lugar a tentar descobrir quem matou o marido, em segundo lugar, a salvar a pele da mulher e a sua própria, e em terceiro, a levá-la para conhecer − enquanto empreendem uma fuga das pessoas ligadas ao escândalo de corrupção − os últimos lugares pelos quais passou Che Guevara na Bolívia. Na verdade, o que ele deseja mesmo é continuar indo para a cama com ela.
A busca pela Bíblia é um “MacGuffin”, expressão utilizada por Alfred Hitchcock para designar algo que move a trama em uma narrativa, mas cuja importância é discutível. O nó a ser desenrolado é provocado pelos crimes que envolvem políticos, empreiteiras e lobistas como Jacinto. A figura de Che é emblemática porque os envolvidos nesses escândalos atuais o tinham como herói na juventude durante a luta contra a ditadura. Hoje no poder, a luta é para lucrarem cada vez mais e Che é apenas um retrato na camiseta ou uma tatuagem no braço.
A expressão que dá título ao livro é ambígua, pois pode significar o objeto em si, um livro raro cuja existência é duvidosa, ou as regras de conduta inspiradas nas ações do guerrilheiro argentino e seguidas por milhares de pessoas ainda ingenuamente idealistas, que o veem como uma figura religiosa, como se percebe na fala de um senhor que o conheceu: “− Era Jesus Cristo. Não pela aparência, magreza, cabelos e barba compridos. Pelos olhos. Os olhos queimavam a gente. (...) Venho aqui para rezar a San Che.” Mais um bom romance de Miguel Sanches Neto que não pode faltar na sua biblioteca, caro leitor.

Cassionei Niches Petry é professor de literatura e escritor. Já foi um garoto que amava Fidel Castro e Che Guevara. Despertou na hora certa. É autor de um romance e um livro de contos, frutos ainda de seu idealismo ingênuo. Suas contradições podem ser lidas no blog www.cassionei.blogspot.com.