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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2016

Não leiam, jovens

Não leiam, jovens. Não abram os livros que estão na biblioteca da escola, tampouco acessem e-books na internet. Esqueçam o que algumas pessoas, principalmente os professores, dizem sobre a leitura. Naquele amontoado de letras vocês não vão encontrar nada que preste. Se os adultos os aconselharem a ler, desobedeçam. Fiquem distantes dos livros, certo?Não leiam, jovens, porque nos livros vocês podem encontrar coisas inapropriadas para a idade de vocês. Sexo, por exemplo. A maioria dos livros tem descrições de sexo, as personagens só pensam em sexo, de manhã, de tarde, de noite, vivem em função disso. Não leiam, por exemplo, Reparação, de Ian McEwan, ok?, pois há uma cena de sexo dentro de uma biblioteca!Muitos livros têm sangue, muito sangue, mortes, violência. Fujam disso. Não é para a faixa etária de vocês. Fujam de caras como um russo chamado Dostoiévski. Ele escreveu um livro em que o herói da história não tem nada de herói. O cara, imaginem vocês, mata uma velhinha com um golpe de …

Minha coluna de hoje no site Digestivo Cultural sobre Lúcio Cardoso

Sobre "Papel mojado", de Juan José Millás

O livro num primeiro momento me atraiu pela capa, com o desenho de uma máquina de escrever. Mas já estava, no entanto, querendo ler algo de Juan José Millás há algum tempo. A sinopse traz a palavra suicídio, tema que, como alguns leitores do blog já sabem, me persegue. Há também a presença de um escritor, na verdade dois, que querem escrever um romance em que um deles é morto. O que vamos ler é uma dessas narrativas idealizadas. Soma-se a isso tudo o metarromance, algo que também me atrai. O resultado é uma leitura prazerosa, rápida, com uma tensão na medida certa para o público a que se destina a obra, o juvenil, apesar de o desfecho exigir um leitor mais experiente.Papel mojado (1983), título cuja explicação só aparece no final, traz a história de um jornalista de uma revista popular de Madrid e também escritor fracassado, Manolo G. Urbina, cujo amigo, Luiz Mary, se suicidou. Incitado pela ex-namorada, Tereza, que por último foi amante do morto, e por um episódio que vivenciaram dia…

No Traçando Livros de hoje, Sérgio Sant'Anna e seu novo livro de contos

O contista se desnuda
Repito o que escrevi uma vez sobre Sérgio Sant’Anna: ele consegue, como poucos, equilibrar a experimentação narrativa com histórias bem contadas, aliar a arte mais sofisticada com temas populares. Neste seu novo livro, O conto zero e outras histórias(Companhia das Letras, 173 páginas), o escritor acrescenta um forte tom memorialístico. Creio que seja seu livro mais pessoal e, talvez por isso, um dos mais irregulares, mas ainda assim superior a outras obras que circulam por aí.Em “O conto zero”, dois irmãos (um deles o próprio Sérgio) perambulam pelas ruas e metrôs de Londres nos anos 50, depois de terem cabulado a aula, durante quatro dias seguidos. O narrador conta a história como se fosse para ele mesmo: “você está escrevendo isso neste momento e dá-se conta de que amava e ainda ama Londres (...)”. “Flores brancas”, o segundo conto, amplia numa perspectiva de certo modo negativa um conto do livro anterior. Um professor universitário se envolve com uma aluna (tem…

O primeiro livro de Orígenes Lessa

A obra de Orígenes Lessa (1903-1986) está um pouco esquecida atualmente, mas não por falta de editora. A Global vem reeditando seus livros, entre os quais o clássico O feijão e o sonho, que chegou a ser adaptado para a TV e ganhou mais popularidade pelas edições da coleção Vaga-Lume, da Ática. O seu primeiro livro, de 1929, O escritor proibido, recebe merecidamente uma terceira edição pela Global. Apesar de não ser um dos melhores trabalhos de Lessa, certamente é um item que não pode faltar na biblioteca dos admiradores do autor e do gênero conto.São histórias curtas, que refletem bem os anos 20, e venho mergulhando nos últimos dias em leituras desse período. Um homem de trinta e poucos anos, calvo, até então um solteirão convicto, casa-se e afirma, para surpresa de todos, não ter se casado por amor, nem mesmo por interesse financeiro, mas sim pela amizade; a paixão de um jovem por uma bailarina de circo; um artista frustrado pensa “na vacuidade da vida” quando decide reencontrar seu …

Venha me ler até o final

Cada amanhecer me dá um soco é um verso de um poema de Carlos Drummond de Andrade. Andrei Ribas fez bem ao escolher esse título, pois a mim, pelo menos, despertou o interesse pelo romance. Somando-se a isso, o detalhe da Vênus de Botticelli na capa, com uma intervenção do próprio Ribas que sugere uma Vênus cega (um dos subtítulos da obra), nos antecipa a dose de referências intertextuais que virão a seguir.O primeiro capítulo foca em um legista, responsável pela necropsia do corpo de um pai esfaqueado pela própria filha. Na sua análise, encontra uma mensagem, escrita com pequenos cortes de faca na pele do homem: “Venha me ver”. Talvez influenciado pela série Elementary, a que venho assistindo nas últimas semanas, esperava uma história policial, mas não é bem isso que temos no romance de Ribas.No segundo capítulo, somos transportados para a mente conturbada da parricida, vivendo agora em um hospital psiquiátrico. A voz narrativa, porém, é de um gato, como se estivesse conversando com e…

Crônica deste escriba na Gazeta do Sul de hoje

O que nos segura?
Uma imagem do filme do cineasta italiano Federico Fellini, 8 e meio, mais precisamente um sonho do protagonista Guido, vivido por Marcello Mastroianni, mostra-o voando sobre a margem de uma praia, como se fosse um balão. No chão, um homem o segura com uma corda presa no tornozelo, impedindo-o de desaparecer nos ares. Seria alguém tentando salvá-lo ou, pelo contrário, alguém que não o estava deixando seguir voos mais altos?
Essa sensação, provocada por um dos gênios do cinema, perpassa a minha vida e a tua, leitor, em vários momentos. Há sempre algo que nos impede de ir além, seja a família, a escola, a sociedade, as necessidades econômicas, o porte físico (eu queria ser goleiro, mas a pouca altura e as mãos pequenas privaram a Seleção de ter um metido a escritor como dono da camisa 1), a religião, as ideologias ou nós mesmos. Sempre colocam, ou colocamos, percevejos pelo caminho, que nos fazem recuar. Sempre há alguém segurando a corda que nos prende.
O filósofo alemão …

"Os sebos: do paraíso ao inferno", texto meu no jornal hoje

Sou frequentador de sebos. Na minha cidade há pelo dois: um acanhado, com poucos livros, e que está a mais tempo no mercado, o “Sebum”, e outro maior, que há pouco tempo abriu suas portas, “Sebo Livro Vital”. Ambos foram criados por mulheres aposentadas, apaixonadas pelos livros, que queriam ter uma ocupação e, claro, ainda ter certo lucro com isso, mesmo que pouco. Entrar nesse nesses ambientes e sentir o cheiro de livro velho, encontrar preciosidades e poder comprar livros baratos para aumentar minha biblioteca particular é o que me move a sair de casa.
Por que o nome “sebo”? Várias versões dão conta da denominação. Antonio Carlos Secchin, no seu Guia dos Sebos da cidade do Rio de Janeiro e São Paulo, escreve que o nome vem do estado em que se encontram geralmente as capas dos livros usados, engordurados pelo manuseio de sucessivos donos. O nome é próprio do Brasil. Em Portugal, por exemplo, é alfarrabista; na França, “librairie d’occasion”; nos países de língua espanhola, “libreria …