sexta-feira, julho 07, 2006

A resenha sobre o livro do Daniel Galera saiu no jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul, no dia 30 de junho. Saiu no caderno Mix que é editado pelo Mauro Ulrich. O próprio Galera me respondeu um e-mail dizendo que leu a resenha no meu blog.

segunda-feira, junho 19, 2006

Um retrato da juventude dos anos 90

Daniel Galera aprontou uma comigo. Saí da leitura de seu mais recente romance me sentindo transportado para a primeira metade dos anos 90: vídeo-game, tênis M200 com “amortecedores piramidais”, a passagem das bicicletas de bicicross para as de mountain bike, as festinhas regadas a guaraná e com a “hora da música lenta”, em que “Patience”, do Guns and Roses, nunca podia faltar. Cabe lembrar a clássica definição de Julio Cortazar: o romance vence o leitor por pontos, enquanto o conto vence por nocaute. Fui pouco a pouco sendo atingido, capítulo a capítulo e, quando conseguia me recuperar, lá vinha outro soco e também pontapés, aliás, como acontece literalmente com alguns personagens. Se até agora essa resenha te parece muito emotiva, caro leitor, não estás enganado. Quem ler o livro e tiver a mesma idade do autor, assim como eu, e for um pouco saudosista, também vai se emocionar ao se ver jovem, filmado por uma grua, como sugere a epígrafe do livro.
Mão de cavalo (Companhia das Letras, 192 páginas) se apresenta em 3 espaços temporais distintos, que aos poucos vão se juntando. Primeiro, o menino de 10 anos com sua Caloi Cross; depois, o “adulto” que planeja se aventurar numa escalada nos altiplanos bolivianos; e, por último, o adolescente que começa a conhecer os primeiros problemas da vida. Todos são (e não são) Hermano, o protagonista do romance.
A história inicia com uma das aventuras do Ciclista Urbano, andando em alta velocidade pelas ruas de Porto Alegre. A comparação com o cinema americano é inevitável, pois parece que as imagens do menino em sua bicicleta se sucedem enquanto passam os créditos iniciais de um filme. Até o tombo que ele leva, me desculpem o clichê, é cinematográfico!
Na parte adulta, por seu turno, vemos aquele menino agora dentro do seu carro, fazendo algumas reflexões sobre um passado cronologicamente não muito distante. Está casado, com uma filha, numa vida normal de acordo com os padrões da classe média. Pretende se encontrar com um amigo para fazerem alpinismo nos altiplanos bolivianos, porém a escalada que acaba fazendo é nos seus próprios pensamentos.
A terceira parte aborda sua adolescência, num momento importante, que vai definir sua personalidade. É a fase que ocupa a maior parte do livro e, como as outras, é narrada na terceira pessoa, porém na perspectiva de Hermano.
Mãos de cavalo talvez seja o primeiro romance de formação da chamada geração 00. Até agora só lemos textos fragmentados, que abordam partes da vida de personagens e que não prestam contas das idas e vindas de um indivíduo. Galera, paradoxalmente, inovou ao utilizar um gênero tradicional. A temática da violência, por seu turno, em que pese aparecer na obra de 9 em cada 10 escritores contemporâneos, também foi tratada de uma forma diferente.
Autor de Dentes guardados (2001) e Até o dia em que o cão morreu (2003), Daniel Galera é um dos grandes nomes da literatura atual. Como a maioria dos seus parceiros, começou escrevendo na Internet e depois, junto com outros escritores, fundou uma editora independente, a “Livros do Mal”, por onde publicou as duas primeiras obras. Desconhecido do grande público, Daniel Galera, agora em uma das maiores editoras do país, terá o reconhecimento que merece.

quinta-feira, abril 06, 2006

O texto sobre Saramago saiu no dia 03 de fevereiro no jornal Gazeta do Sul, caderno Mix,Santa Cruz do Sul.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

SARAMAGO E A MORTE

Viemos a este mundo para nascer, crescer e morrer, certo? Talvez. Talvez? Bom, eu nasci, você nasceu, eu cresci, você cresceu. Mas eu vou morrer? Você vai morrer? Já disseram que a única coisa certa na nossa vida é que vamos morrer. Certa por quê? Porque outros morreram? Agora porque os outros passaram dessa para melhor (?) eu tenho que ir também?
Bom, não estou velho e nem no fim da vida para me preocupar com isso, muito menos uma inquietação filosófica me faz escrever este texto. O tema vem à tona por causa do último romance de José Saramago (ou melhor, do mais recente, porque ele não vai morrer agora), As intermitências da morte (Companhia das Letras, 208p.). Imaginem, senhoras e senhores, se as pessoas deixassem de morrer. Quais as conseqüências? Imaginaram? Pois esse é o ponto de partida da história. Bem, mas o que vocês, simples mortais, imaginaram está longe do que a mente brilhante de Saramago pode criar, me desculpem. A capacidade criativa do autor português também nunca morre. Basta lembrar romances como Ensaio sobre a cegueira ou Jangada de pedra, e depois ler o atual, para entender por que ele é um dos maiores escritores contemporâneos e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.
A maioria dos críticos, porém, não pensa dessa forma ou porque gostaria que ele escrevesse sempre obras-primas ou porque nunca gostou de nenhum dos seus livros. Nessa última categoria estão os que admiram o também português António Lobo Antunes e não querem admirar ao mesmo tempo José Saramago, pois para eles o primeiro, autor de romances como Exortação aos crocodilos, era quem deveria ter ganhado o Prêmio Nobel. Da mesma forma, a postura política de Saramago incomoda muitas pessoas, como se isso influenciasse na qualidade de um livro.
Voltemos ao romance, então.
A principal personagem é a própria morte. Por um simples capricho ela resolve que não vai mais "trabalhar" em um determinado país. As conseqüências são alarmantes. Nessa primeira parte, cabe de tudo um pouco do rol de temas do escritor português: há a discussão sobre a finitude do ser humano, a velhice, etc. Não poderia, da mesma forma, faltar o lado polêmico do autor, quando ele analisa as conseqüências políticas e principalmente religiosas que a ausência da morte acarreteria. Pouco foi comentado, porém - apesar de ser um tema que seguidamente está em pauta - , que o romance também trata da eutanásia. Não havendo morte, como ficariam os doentes em estado terminal? Vale lembrar que as mortes cessaram, mas não as doenças. A solução para esse impasse? Leia o romance.
Na segunda parte, a morte resolve voltar a atuar e escreve uma carta para uma emissora de TV, para que seja anunciado que, à meia-noite daquele dia, tudo voltaria ao normal e que todos aqueles que deveriam ter morrido naquele período, morreriam agora. Mais caos à vista, continuando a narrativa a flertar com o realismo mágico latino-americano. Ela anuncia também uma novidade: antes de morrer, cada pessoa receberá uma carta anunciando sua partida com 7 dias de antecedência, podendo assim resolver suas pendências no mundo dos vivos e se despedir dos familiares e amigos. Uma das cartas, no entanto, teima em voltar para a remetente. E é quando começa a terceira parte, a melhor do romance.
Num estilo mais poético, ao contrário do tom mais amargo e irônico do restante da história, a morte toma feições humanas, se transformando numa mulher, e vai ao encontro do destinatário da carta. Trata-se de um violoncelista, escolha acertada para poder contrapor a suavidade da música clássica com uma situação tão dura que é a morte. Pode surpreender os fãs acostumados com a acidez saramaguiana. O desfecho, no entanto, pode decepcionar um pouco, mas nada que tire o brilho do resto do romance.
As intermitências da morte faz parte do tipo de literatura que nos deixa inquietos, no faz refletir, acaba com nossas certezas. Devemos nos preocupar com a morte ou o que vem depois dela? Em vez de pensar somente nela, não deveríamos viver o tempo presente, aproveitando nossa vida na Terra? José Saramago nos mostra que a morte é, paradoxalmente, parte da vida e não passagem para outra. Ateu, acredita que as religiões se apoderam da idéia da morte para existirem. Certo ou não, se há outra vida depois dessa, espero que lá tenha romances tão bons como esse para ler.