domingo, abril 30, 2017

Texto meu no Caderno de Sábado do Correio do Povo



Dividi com Léa Masina e Luiz Antonio de Assis Brasil as páginas centrais do Caderno de Sábado do Correio do Povo, de Porto Alegre.


Romance ou ensaio: o leitor decide 

Conhecia somente a obra ensaística de Silviano Santiago e nunca havia me interessado por sua ficção. Se Machado (Companhia das Letras, 421 páginas), sua recente obra, fosse vendida como ensaio e não como um romance, conforme consta na capa, não teria saído da leitura relativamente decepcionado. Esperava, a partir dos releases e comentários sobre o livro, uma narrativa sobre os últimos anos da vida de Machado de Assis. Na quarta capa, há a informação sobre o caráter híbrido da obra, porém ela é mais ensaio do que romance. Faltam personagens agindo e sobram análises literárias e historiográficas. 
Para que se tenha um romance, ou seja, uma narrativa longa, faz-se necessário um enredo. Silviano Santiago sabe muito bem disso, afinal é um grande crítico. Mesmo o espanhol Enrique Vila-Matas, que admite escrever ensaios disfarçados de romance, não abdica de contar uma história. Não há enredo em Machado porque os personagens principais, o próprio Bruxo do Cosme Velho e Mário de Alencar (filho do autor de Iracema), aparecem muito pouco. Logo no início, por exemplo, quando o narrador nos fala que está lendo as correspondências do autor de Dom Casmurro e relata a rotina do velho recém viúvo, parte depois para a escrita de vários parágrafos sobre o jornalista Carlos de Laet, que estudou a epilepsia, e sobre Gustave Flaubert, "que também padecera do grande mal". Terminado o capítulo, porém, estes não retornam mais para a história. O assunto é relevante, pois Machado de Assis também é epilético, bem como Mário de Alencar, que começa a indicar sinais da doença. A digressão, porém, se torna longa demais, assim como todas as digressões que engrossam o "romance". 
 Silviano tenta quebrar regras, como o fez Machado de Assis, e o narrador, ou o ensaísta, admira justamente essa característica do autor: "Quebra de gêneros literários na elaboração de uma obra artística (...). Todas essas e outras quebras – admiro a genialidade do romancista (...)". No entanto, Santiago não convence na inovação. Falta equilíbrio entre romance e ensaio. É inegável, porém, que escreve bem, demonstra uma pesquisa bem realizada, utiliza-se de fotos, gravuras e reproduções de manuscritos e pinturas que casam muito bem com o texto.  
A descrição do Rio de Janeiro da virada do século XIX para o século XX, principalmente as reformas realizadas pelo prefeito Pereira Passos, é relatada com riqueza de detalhes, com amparo de imagens e reproduções de páginas dos jornais da época. Há também uma pesquisa minuciosa sobre os fatos do cotidiano da Capital Federal, entre os quais a roda dos enjeitados e a proliferação dos "amigos do alheio", como eram chamados os ladrões. A arquitetura também se faz presente com a análise dos prédios e palacetes. As digressões se alongam mais ainda com a análise de contos e romances machadianos, tudo isso interrompendo o relato sobre os últimos dias do escritor. Quando o leitor acha que os conflitos essenciais para uma narrativa vão acontecer, surge outra análise exaustiva sobre um tema que até tem a ver com o que está acontecendo com os personagens, entretanto se alonga monotonamente.  
Mantive-me, porém, firme na leitura, afinal o que me fez ler o livro e ir até o final foi a especulação sobre Mário de Alencar ser na verdade filho de Machado de Assis. O escritor Humberto de Campos havia levantado essa dúvida em seu Diário secreto: “Dom Casmurro não será uma história verdadeira? Aquele amigo que trai o amigo, aquele filho que fica de uns amores clandestinos, não seriam páginas de uma autobiografia?”, questiona Campos na obra que foi publicada nos anos 50, décadas depois de sua morte, e que causou polêmica pelos relatos pessoais sobre personalidades com as quais conviveu. 
Autores contemporâneos como Gustavo Bernardo e Luiz Vilela repercutiram, sob um prisma ficcional, essa possibilidade. Gostaria de ver uma abordagem diferente e, de certa forma, Silviano Santiago se sai bem, afinal mais sugere do que revela a confirmação do boato. Além de mencionar a epilepsia da qual os dois M. de A. sofrem, é discutida a proteção que o presidente da Academia Brasileira de Letras tem com relação ao escritor mais jovem.  Santiago aponta, no entanto, uma "paternidade espiritual", com Mário assumindo um papel de "herdeiro simbólico" do grande mestre. 
Se o nobre leitor quer saber se vale ou não a pena ler Machado, digo que sim, caso busque por um bom ensaio. Se a busca for por um romance, uma narrativa, enfim, a decepção pode ser grande. Uso aqui as palavras do próprio narrador, ou ensaísta, quando comenta os textos de Joaquim Nabuco, em outras das tantas digressões: "Nabuco tem razão nos seus folhetins de O Globo. A boa leitura da obra de arte não é a do autor, mas a que o leitor faz da obra alheia, em diálogo crítico com ela". O leitor, portanto, deve decidir.

sexta-feira, abril 21, 2017

Quando a telenovela nos leva a um bom contista


Meu primeiro contato com os personagens de Aníbal Machado se deu através de uma novela de televisão, “Felicidade”, de 1991, no horário das 6, antes da novela das 7 “Vamp”, que era a preferida daquele pré-adolescente de 12 anos que sonhava em ser escritor. Chico Treva era o que mais me chamava a atenção. Pois foi nos créditos que me lembro de ter visto que a história era baseada na obra do escritor mineiro. Encontrei, para minha sorte, na biblioteca da minha escola, um exemplar dos seus contos, reunidos em A morte da porta-estandarte e outras histórias, da maravilhosa coleção “Sagarana” da José Olympio Editora, e fui apresentado a um grade contista. Pensando bem, acho que isso foi na reprise de 1998.
Reli alguns dos contos por estes dias, visto que estou seguindo, em ordem cronológica, uma lista de contistas que consta nos apêndices do livro Conto moderno contemporâneo, de Antonio Hohfeldt. Reli, por enquanto, apenas os cinco contos de Vila Feliz, de 1944 (na capa original consta como novelas). O primeiro, “O telegrama de Ataxerxes”, conta a história de uma família que abandona o sítio e vai para a capital federal, pois o pai lembra que o novo presidente da nação foi seu colega de escola e que ele lhe poderia dar um cargo. Morando em uma pensão, tenta escrever um telegrama para o amigo de infância, um interminável telegrama, mas depois não tem certeza se o enviou ou não. “Quem nunca teve no bolso ou no pensamento um telegrama com o pedido impossível?” é uma das frases derradeiras do conto.
Segue o conto “Acontecimento em Vila Feliz”, cuja protagonista, Helena, finge estar grávida e causa a ira da população, principalmente das mulheres que tinham inveja por ela ser a mais desejada da pequena cidade. “E se encantavam por ela, e por ela se desgraçavam.” É a trama principal da telenovela e é o conto em que figura o Quasímodo Chico Treva, que a salva de ser linchada. O Ataxerxes, do conto anterior, vira o pai da personagem na TV.
“O piano”, por seu turno, traz a história da família que tenta se livrar do instrumento velho que ocupa muito espaço, mas ninguém o quer. “- Está vendo, Rosália! Nem dado querem saber do nosso piano, nem dado!” A cena em que o pai leva o piano para jogá-lo no mar e antológica, tanto no conto, como na novela. “Tati a garota”, o texto mais poético, traz a menina cuja mãe, solteira, não sabe lidar com sua curiosidade e muito menos tem paciência para cuidar dela. O conto foi adaptado também para o cinema.
Por fim, “A morte da porta-estandarte” é um dos poucos contos da nossa literatura que traz um desfile de carnaval da Praça Onze, no Rio de Janeiro, como cenário, nos primórdios das escola de samba (estamos falando dos anos 40). Uma história trágica, como o título já indica, envolvendo um crime passional e que foi utilizada na novela global.
Inevitável, para mim, não deixar de relacionar os contos com a novela, cujo autor, diga-se, foi Manoel Carlos, que costuma inserir literatura em suas tramas. Nesse ponto, as telenovelas podem fazer um bem. Para mim fez.

quinta-feira, abril 20, 2017

O suicídio é...



... o assunto do momento por causa da série "Os 13 porquês" e do tal do jogo da Baleia Azul (um boato com um quê de verdade). "Enquanto refletimos sobre o suicídio, não o cometemos", escrevo neste pequeno ensaio que escrevi sobre o tema relacionado à literatura, que já foi citado em outros ensaios acadêmicos. Talvez escreva algo neste feriadão.

segunda-feira, abril 17, 2017

Resenhas sobre obras de Machado de Assis - II

De louco todos temos um pouco

Na capa de O alienista, numa antiga edição da editora Ática, o dedo acusador do personagem principal aponta para o leitor como se dissesse: “você é o louco; é você que quero prender nessa casa.” É o que acontece com a leitura desse conto longo, quase uma novela, a qual coloco ao lado de outras “pequenas grandes” obras da literatura universal, como A metamorfose, de Kafka; A morte de Ivan Ilich, de Tolstói; A volta do parafuso, de Henry James; Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Stevenson e Bartleby,o escrivão, de Melville. Machado de Assis, nosso maior escritor, nos prende na sua narrativa e deixa uma dúvida no ar: será que somos loucos também?
O conto, publicado primeiramente na coletânea Papéis avulsos, de 1882, relata a história de Simão Bacamarte, médico psiquiatra que ergue, na pequena cidade de Itaguaí do século XIX, um hospício que recebe o nome de Casa Verde, com intuito de estudar as causas e sintomas dos problemas mentais. Recolhe uma e outra pessoa, até que quase toda a população acaba sendo internada: “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”, diz o médico. Sua atitude provoca uma rebelião na antes pacata cidade, levando ao poder o barbeiro que lidera os rebeldes, sendo logo depois destituído pelos militares. Ciência, poder e religião são discutidos durante toda a narrativa, mostrando que a razão pode sucumbir quando queremos impor nossa verdade.
Mesmo antes dos estudos psicanalíticos de Freud, Machado de Assis fez questão de colocar uma casa como centro do enredo, pois ela é um dos símbolos do nosso inconsciente. Especificamente, representa nossa proteção e suas dependências simbolizam os desvãos de nossa mente. Poder-se-ia dizer que se jogavam os loucos dentro de um hospício para proteger a sociedade. Mas em O alienista é diferente: na verdade é o louco que deve ser protegido de uma sociedade mais louca ainda. Como afirmou certa vez o cineasta japonês Akira Kurosawa: “Num mundo louco, apenas os loucos são sãos.”
Se pensarmos em diferentes sinônimos para a palavra louco, veremos que todos temos um pouco dessa “doença”. Lunático, por exemplo, seria aquele que vive no mundo da lua. Alienado é o que é desligado das coisas, como se vivesse num outro mundo, ou seja, um alienígena. Alucinado é o que vive fascinado com as coisas ao seu redor, vive sempre delirando, imaginando coisas, ou ainda o que perde a razão por amor. Insensato é o que perde o bom senso, como muitas pessoas atrás do volante de um carro. Desmiolado é o desprovido de cérebro (lembram dos filmes de mortos-vivos?), como algumas pessoas que assistem a determinados programas televisivos ou escutam determinados tipos de música. Anormal é aquele que foge do normal, como um professor que resolve declamar uma poesia em altos brados dentro de uma sala de aula (eu, por exemplo, sou chamado de louco por causa disso).
Poderia citar uma porção de significados nos quais cada um de nós se encaixa. Talvez por issoextinguiram os manicômios espalhados pelo país, pois de louco todos temos um pouco. Em outras palavras, o normal é ser anormal. Recentemente, o gaúcho Moacyr Scliar escreveu O mistério da Casa Verde (Editora Ática, 88 páginas) uma história infanto-juvenil baseada em O alienista, e que desperta o leitor jovem para ler o clássico no original.Em determinada passagem, um personagem que dizia ser Simão Bacamarte afirma: “...o lugar de loucos, como vós, é lá fora. O mundo é um hospício, o vosso hospício.”

sábado, abril 15, 2017

Nélida Piñon mostra suas armas


Os contos de Sala de armas (Editora Record, 124 páginas, esgotado) nos mostra uma autora de leitura difícil, complexa, que mais sugere do que conta. Porém, se o leitor for paciente e participativo, desfrutará de uma ótima obra literária, repleta de relações intertextuais, principalmente com a mitologia. Como um personagem do cruel conto “Sangue esclarecido”, Nélida Piñon abre a porta e nos convida, como animais sedentos que sentem o cheiro da presa, a participar desse festim.
Boa parte dos enredos giram em torno de relacionamentos. Homens e mulheres, quase sempre não nomeados, encaram um mundo duro, de desencontros e conflitos, de perdas e incertezas. No primeiro conto, “Ave de paraíso”, a mulher recebe visitas do homem, oferecendo-lhe “torta de chocolate e licor de pera, as frutas colhidas na horta”. O relacionamento se mantém durante muito tempo dessa forma, até que se casam, mas ele continua não morando com ela, causando, claro, estranhamento entre parentes e vizinhos, a mulher sendo cobrada por aceitar essa situação. Assim como colhia as frutas, esperava colher um fruto desse casamento. Por isso esperava.
O mesmo acontece num conto mais próximo do final do livro, intitulado justamente “Colheita”. Aqui o marido se ausenta por anos: “Competiam-lhe andanças, traçar as linhas finais de um mapa cuja composição havia se iniciado e ele sabia hesitante”. Os vizinhos mais uma vez aparecem como o olho que julga. E ela, como Penélope esperando por Ulisses, rechaça os regalos dos pretendentes, sabendo que o marido voltaria.
Em “A sagrada família”, os primos se casam depois de brigarem “por questões de inventário” e seguem se odiando depois disso, para depois o filho tomar posse de tudo. Em “Vida de estimação”, um casal que não tem filhos “adota” um bezerro, também sob o olhar de estranhamento dos vizinhos. Em “Adamastor”, o personagem baixinho, cuja “fraqueza era gostar de mulher”, se entristece ao saber que seu nome se refere ao gigante da epopeia de Camões.
A presença feminina na obra de Nélida Piñon é marcante (vale lembrar que ela foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras), no entanto cria personagens masculinos igualmente fortes. É uma escritora, como escrevi antes, muito difícil, mas vale a tentativa de entrar no seu mundo simbólico. 

quinta-feira, abril 13, 2017

Prefiro lista de livros


O ser humano adora listas. Qualquer tipo de lista. Há obras literárias que tratam do tema. Lembro-me agora, de cabeça, de dois livros: A vertigem das listas, de Umberto Eco, e Alta fidelidade, de Nick Hornby, romance adaptado para o cinema. Há, também, um conto originalíssimo de Woody Allen, na coletânea Cuca fundida, em que o narrador analisa a publicação póstuma de listas de roupas para a lavanderia elaboradas por um escritor, algo do tipo “diga-me que roupas tens para lavar, que te direi quem és”.
Eu, por exemplo, faço muitas listas, principalmente relacionadas aos livros: livros que li (nome, aliás, do blog do excelente leitor Aguinaldo Severino), livros que desejo ler, livros que deixei de ler, livros que não quero ler, livros sobre suicídio, das pessoas para quem devo mandar o PDF do meu último livro, das pessoas que compraram meu livro, das pessoas que querem comprar meu livro, das pessoas que dizem que querem comprar meu livro, mas se escapam quando pergunto “quando?”, etc.
A lista que vem abalando as estruturas do nosso país do momento não tem nada de literária, mas é considerada uma ficção para quem se vê atingido, ao mesmo tempo em que representa a fiel realidade para quem está do outro lado no campo ideológico e partidário. Digitei a palavra “lista” no Google e só dava a “Lista de Fachin” como resultado nas primeiras páginas. Antes de enumerar os prováveis políticos envolvidos em esquemas de propina, o rol é um retrato da nosso caráter (ou falta de). Sim, nosso caráter. Lá estão as pessoas que nós escolhemos (ou deixamos de escolher, que é o meu caso, pois voto em branco) para nos representar. Estão lá indivíduos de quase todos os partidos, de quase todas as ideologias e os que não estão podem ainda estar em outras listas futuras. Os versos de Victor Martins e Ivan Lins representam muito bem o que estamos presenciando: “Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai não fica nada”.
Ainda assim, vejam vocês, há quem defenda o seu herói na política, o seu partido que surgiu para salvar o país, a sua ideologia que veio defender a igualdade. Só se for a igualdade para roubar. Ainda assim há quem diz que você é um ignorante, que precisa ler mais, que está errado ao criticar aqueles que vieram tirar o Brasil da miséria, gente que na verdade arrota caviar e nunca visitou um bairro pobre para se certificar se realmente tantas pessoas assim saíram da pobreza. Salvo se aceitar migalhas virou sinônimo de viver bem. Ainda assim há quem deseja ficar cego em frente aos fatos, cegueira seletiva, na verdade, porque jamais admitem estar errados. Digo isso com tranquilidade, pois admito que errei quando ajudei o partido defensor dos “frascos e comprimidos” a chegar ao poder no país e ainda chorei de emoção no discurso de posse do seu líder maior.
Inspirado nas pessoas que ainda acreditam em Papai Noel, principalmente porque se veste de vermelho e tem a barba grande e branca, crio mais algumas listas, devidamente arquivadas em uma pasta do computador, para que no futuro, postumamente, possa ser publicada nas minhas obras completas como as do personagem de Woody Allen. Reproduzo aqui, por motivos óbvios, somente os títulos:
Lista das pessoas que me bloquearam nas redes sociais porque comemorei o impeachment da presidenta.
Lista das pessoas que me bloquearam nas redes sociais porque critiquei um ditador.
Lista das pessoas que apenas criticam minhas postagens sobre política e ignoram minhas postagens sobre literatura.
Lista de pessoas que criticam determinadas postagens sobre política e ignoraram as postagens em que ironizo o “presidento”.
Lista de ex-professores que me decepcionaram e deixaram de ser minha referência intelectual.
Lista de pessoas que criticam a lava-jato quando atinge seus interesses, mas também critica os que querem abafar a operação porque os culpados são sempre os outros.
Lista de pessoas que lerão este texto e não vão entender nada, mas mesmo assim irão comentar e criticar.
Lista de pessoas que não me criticam nem nos comentários das postagens e nem cara a cara, mas pelas costas, em outros ambientes, como a sala de professores, e esquecem que há delatores que deixam vazar informações.
Mais sugestões de listas, caro leitor?

sábado, abril 08, 2017

Essa terra não tem dono


Sempre que encontro em sebos uma edição da Coleção Nosso Tempo, da Editora Ática, organizada por Jiro Takahashi nos anos 70, não penso duas vezes em adquiri-la. Somente as capas elaboradas por Elifas Andriato (cujas ilustrações também estampavam capas e encartes de LPs da MPB) valem muito artisticamente. A capa de Essa terra, de Antônio Torres, me chamou a atenção em uma de minhas garimpagens em sebos (ou num balaio de feira do livro?) já faz mais de 15 anos. Nela, um homem com a boca aberta, língua para fora e uma grossa corda amarrada ao pescoço. O suicídio, como sabem meus poucos leitores, é meu tema obsessivo.
Acabei relendo há pouco o romance nessa edição que ainda tenho, mas há uma mais recente pela Record. Narra, em sua primeira parte intitulada “Essa terra me chama”, a volta de Nelo à cidade de Junco, interior da Bahia, depois de 20 anos morando em São Paulo, um dos tantos retirantes que tenta a sorte na cidade grande. Seu irmão, Totonhim, é quem narra essa volta, ele que foi o único da família a ficar na cidade, e também narra, logo no início do romance, a descoberta do corpo do irmão enforcado: “Atordoado, me apressei e bati na porta e bastou uma única batida para que ela se abrisse — e para que eu fosse o primeiro a ver o pescoço do meu irmão pendurado na corda, no armador da rede.”
Na segunda parte, “Essa terra me enxota”, o narrador muda para a terceira pessoa, mas com foco no pai, quando ele ainda morava no Junco e contraiu dívidas com um banco, considerado o Anticristo: “os homens do banco estavam apertando, iam tomar-lhe tudo (...). – Compadre, banco é treta. Banco escraviza o homem como o jogo e a bebida”. É nesse bloco que lemos um dos trechos mais bonitos do romance: “Sua escrita era outra e essa ele tinha orgulho de fazer bem: riscos amarronzados sobre a terra arada, a terra bonita e macia, generosa o ano inteiro. A melhor caneta do mundo é o cabo de uma enxada.” Sua mãe ganha destaque na parte “Essa terra me enlouquece”, porém ela aparece sempre ignorando os demais filhos e pedindo a volta do Nelo.
Entre e idas e vindas no tempo, frases fragmentadas que emulam a caótica vida dos protagonistas, blocos que ora focam um ora focam outro personagem a partir de alternância de vozes, o romancista não nega a influência de William Faulkner, declarada a partir da epígrafe retirada de O som e a fúria. A decadência de uma família, as alusões bíblicas (o filho pródigo, o Apocalipse), a morte que desestrutura o desestruturado e o pai que constrói o caixão com as próprias mãos (que nos remete a Enquanto agonizo) confirmam a referência. A linguagem, porém, é brasileiríssima, baianíssima, e muito bem articulada por Antônio Torres nessa que era, no ano de 1976, sua recém-lançada terceira obra. Mais de 40 anos, Essa terra figura como uma leitura indispensável.

quinta-feira, abril 06, 2017

Mistério no Acre


(Fonte da imagem: G1)
O caso do jovem estudante desaparecido no Acre é uma história maluca, que nos deixa com uma leve desconfiança de que há uma jogada de marketing em curso. Para quem ainda não conhece a história, o estudante de Psicologia Bruno Borges desapareceu de sua casa, no Acre, no dia 27 de março, deixando, para surpresa (será?) dos pais que voltaram de uma viagem de férias, seu quarto com as paredes repletas de símbolos e escritos codificados, tudo de forma bem organizada, nada caótico, bem como 15 livros encadernados igualmente em código, além de uma estátua do filósofo Giordano Bruno. Não havia quase nenhum móvel no cômodo, sequer uma cama, de acordo com as imagens divulgadas. O que se sabe é que ele trabalhava em um projeto que visava o bem da humanidade e buscava um financiamento para tanto, obtido em parte por um tio.
Difundida a história através das internet, parte do material deixado foi decodificado, e não trouxe, no meu ponto de vista, nada de genial como alguns preconizam. Um amontoado de ideias retiradas de livros de filosofia, outras tantas de livros místicos e só. Todo o auê em cima do caso, porém, vai atrair um bom contrato com alguma editora, não resta dúvida.
O que me encantou no caso, num primeiro momento, foi a ideia de um jovem se trancar no seu quarto e se dedicar aos estudos, à leitura, à escrita de livros, milhares de páginas inéditas que viriam a público na hora certa, mesmo que essa hora fosse a morte do autor. Planejei muitas vezes fazer algo parecido, confesso, quando morava, vejam a coincidência, numa rua chamada Acre! A sorte, talvez, é que na minha juventude eu dividia o meu tempo de leitura com amigos, música, festas e depois com minha namorada, que hoje é minha esposa. Da mesma forma, não consigo guardar nada do que escrevo, tenho que dar à luz os textos. Por isso, quase tudo que escrevi eu já publiquei (eu disse quase tudo).
O resultado do trabalho desse jovem, no entanto, parece ser algo místico ou relacionado à ufologia, alquimia, sei lá, sendo esses assuntos, presumivelmente, considerados por ele como verdade absoluta que a humanidade precisa conhecer para seu crescimento e blá, blá, blá.
Pelo que consta no site do jornal O Globo, Bruno Borges desapareceu com celular, um HD de computador e roupas. Logicamente, está escondido em algum lugar, pronto para aparecer e receber as loas que alguns já estão promovendo para ele. Nada de abdução ou coisa parecida que alguns estão afirmando. Tampouco o sujeito é a reencarnação de Giordano Bruno, apesar do nome e das semelhanças com o filósofo, como se percebe comparando uma foto do jovem com uma ilustração de Giordano.

Vale destacar também o sobrenome Borges, que nos lembra, é claro, o escritor argentino, que escreveu belíssimos contos sobre temas místicos. Nada a ver, no entanto, com o que o Borges tupiniquim deixou.

terça-feira, abril 04, 2017

Como se fôssemos marionetes de mulheres


Elvira Vigna é uma das grandes narradoras no panorama atual da nossa literatura. Seu estilo é original, formado por frases curtas, com ideias que às vezes se interrompem, retornam ou ficam mesmo incompletas, cabendo ao leitor preencher as lacunas. No seu último romance, fiquei incomodado com as mudanças de parágrafos, que se tornam curtos, formados em alguns trechos por frases umas sob as outras, mais parecendo conjuntos de versos. Na prosa, isso faz com que a leitura seja rápida.
Apressada.
Não gosto disso.
Dá para perceber?
Por isso, pensei muitas vezes em largar o romance.
Mas fui em frente.
Pois é um romance de Elvira Vigna.
E gostei dos outros romances dela.
Como se estivéssemos em palimpsesto de putas (Companhia das Letras, 216 páginas, disponível também em e-book) é um título que já permite fazer algumas intepretações e acaba conduzindo, influenciando nossa leitura. Palimpsesto, segundo o dicionário Houaiss, é “um pergaminho cujo texto foi escrito em cima do outro que fora raspado”. Pode-se pensar no estilo da escritora, que parece escrever e depois apagar, porém com vestígios que o leitor possa encontrar. Pode-se pensar nas camadas de leituras que o leitor pode decifrar. Pode-se pensar nas camadas de personalidades que tem uma prostituta: a mãe, a filha, a estudante, a retirante que se escondem na pele da garota de programa, a vida ou as vidas que estão escondidas atrás da máscara que ela usa para atender seus clientes. Pode-se pensar em quantos homens ficaram em cima de uma puta, cada um deixando seus restos de células sobre o corpo, formando camadas e mais camadas de histórias. Ou pode-se pensar nas putas que ficaram embaixo de João, um dos protagonistas, e foram várias, cada uma com suas histórias, cada uma gerando camadas na narrativa, vestígios do passado que são deixados à mostra através da fala de João para a narradora.
Esta, não por acaso, trabalha como designer, planejando reformas de interiores, “apagando” o velho para renová-lo. Vai fazer um serviço para o escritório da editora onde João trabalha. Conhecem-se. Conversa vai, conversa vem, ele começa a contar suas histórias com as prostitutas, ela se interessa pelas histórias, por isso deixa João pensar que é lésbica só porque divide o aluguel de um apartamento com uma mulher, a Mariana, por sinal prostituta, e que tem um filho, Gael. Deixa João pensar que, sendo lésbica, vai compreender suas histórias, pois entende de “putaria”.
“Sou lésbica, o que ele notou por causa da irritação que qualquer um veria, entre mim e o Arquiteto, durante a visita profissional ao escritório dele uns meses antes. E sou lésbica também porque uso botas, calça preta de napa, camisa masculina sem sutiã, cabelo curto. E porque não escondo uma raiva do mundo que não há jeito de conciliar com qualquer ideia de feminino que ele possa ter.”
A narrador, então, reflete sobre os depoimentos de João, julgando-o, claro, como um machista contumaz. Elvira Vigna, no entanto, não carrega nenhuma bandeira feminista, não há nada de panfletário nos seus romances e é isso que também a torna a boa escritora que é. O que temos aqui é uma boa história (ou várias boas histórias) sobre o relacionamento humano, mesmo que parta de relacionamentos em que o homem se considere no poder. Na verdade, quem conduz o homem é a mulher. Ela é origem de tudo. Está nela a origem do mundo:
“Não conhece Courbet.
Não conhecem, nenhum deles. Nunca ouviram falar. Não viram, nem ele nem os colegas dele, nunca, uma reprodução de “A origem do mundo”. Intuem que há um mundo. Um outro mundo. Que tem de haver algo melhor que se inicia ali. Ou que é possível começar tudo outra vez, dar origem a um mundo por ali. Na buceta. Não se pode criticá-los. Courbet também achava.”

O homem é o joguete da mulher. João foi a marionete das prostitutas. Elas que o usavam, assim como a narradora o usa para contar suas histórias. E assim como Elvira me usou para que chegasse ao fim da narrativa e escrevesse sobre. Obedeço.

sábado, abril 01, 2017

O gozo do assassino



“A vida se transformara em viver as ilusões alheias”, diz o narrador do conto “Não morto, apenas dormindo”. Somos, a partir daí, transportados para mundo do ilusionista Gustavo Melo Czekster, vivenciando situações absurdas, diálogos insólitos, fatos estranhos. Não há amanhã (Editora Zouk, 160 páginas) é o segundo livros de contos do autor, porém não parece. A mão segura de Gustavo denota uma obra bem acabada, quase perfeita, de um sujeito extremamente experiente. Acontece que ele demorou para publicar essa nova obra, lapidando o texto. O resultado está aí.
“O livro pede para ser aberto, sorvido”, diz o protagonista de “O silêncio”. Diferentemente do personagem, no entanto, não resisti a sua súplica, não contive a curiosidade e me arremessei, aderindo à seita descoberta pelo narrador de “Os que se arremessam”, formada por pessoas que se jogam na vida, literalmente falando: na frente de carros, do alto de um edifício, do alto de cachoeiras. O leitor, incauto, demora para perceber que também faz parte disso, afinal se atira na leitura, assim como o texto cai com todo seu peso sobre quem o lê: “talvez todas as histórias, em sua essência, sejam formas de se jogar em alguém”.
Imagine você ver não um duplo, mas vários símiles seus. É o que acontece com a protagonista de “Os problemas de ser Cláudia”, quando chega em casa, preocupada com os afazeres domésticos e se depara com uma cópia sua já realizando suas tarefas. Até aí, ô coisa boa! No entanto, outras vão aparecendo, fazendo tudo, tudo mesmo. O que era bom, pode se transformar em algo indesejado. “O inferno era as outras Cláudias”.
Em primeira parte de “Efemeridade”, que se desdobra em mais três variações durante o livro, Paulo, “um porteiro simpático”, sai dando tiros numa praça, acertando em borboletas e crianças, depois de se espantar com um documentário do National Geographic que mostra, ao que parece, o nascimento de seres, provavelmente nós, humanos, podendo, no entanto, ser outro animal: “corpos besuntados livrando-se da quente prisão, o espanto de quem enxerga o mundo pela primeira vez, membros desconexos encontrando funcionalidade”. Bebês ou adultos se livrando da Matrix? Esse e outros contos, na verdade todos os demais, tratam do sentido da existência, pois sentido é a palavra-chave da obra, presente em dois títulos e mencionada por alguns personagens.
Qual o sentido da criação artística? “Cinco (ou infinitos) fragmentos em busca de”, cujo enredo glosa, como se percebe pelo título, Luigi Pirandello, e “Mas não falam” são exemplos metalinguísticos da obra. Este último trata de um escritor recluso que aceita a proposta do editor para realizar palestras sobre sua obra, porém com a condição de que sejam em cidades pequenas, fora dos grandes centros culturais. Quando se depara com o público que espera para assisti-lo, ele, o editor e nós, leitores, somos surpreendidos. Em “Um outro sentido”, Gustavo se torna um personagem, odiado por uma blogueira por ter se recusado a ceder uma entrevista. Ela acaba considerando o próprio livro Não há amanhã como “uma excrescência”, “objeto de puro asco”, “uma declaração de ódio à Literatura”. Seus planos, porém, vão além de apenas criticar a obra e o autor.

“Não existe texto inocente, o que implica em dizer que todo texto é um crime passional”, diz o narrador e protagonista de outro conto fenomenal. Gustavo Melo Czekster segue perpetuando crimes, inspirado por Poe, Kafka, Borges e outros criminosos. O leitor, por sua vez, achando que é um cúmplice, na verdade é a vítima, que não percebe que tomou, pelas mãos do ilusionista, um cálice de veneno. O efeito não é imediato. Mas esse é o gozo do assassino: ver sua vítima sucumbindo aos poucos, pelo menos não antes da última palavra lida. Adivinha qual é essa palavra?