terça-feira, novembro 28, 2017

“Decifra-me ou te devoro”


Em alguns momentos da minha vida eu vivia com a Bíblia debaixo do braço. Não ficava, porém, sempre com ela debaixo do braço. Eu também a lia. Lia, sublinhava, fazia anotações. E a questionava. Talvez a sua leitura a tenha me tornado um ateu, ou, como costumo dizer, voltado a ser ateu, afinal, nascemos sem crença alguma. É um livro repleto de contradições, mas não é o meu objetivo debatê-las agora.

Um dos métodos que seguia para ler a Bíblia era abrir aleatoriamente uma página, apontar com o dedo um trecho, de olhos fechados, e depois desfrutar dos versículos ao acaso. Achava que era alguma mensagem divina que recebia. Hoje utilizo a mesma estratégia com os livros do filósofo Friedrich Nietzsche.

Abro aleatoriamente uma página do livro Humano, demasiado humano II, em uma edição recente, de bolso, da Companhia das Letras, tradução de Paulo César de Souza. No topo da página 117, um aforismo, de número 348, me chama a atenção:

Da terra dos canibais. – Na solidão o solitário devora a si mesmo, na multidão o devoram muitos. Agora escolha.”

Há que se levar em conta, primeiramente, a palavra “canibal”: um ser vivo que come um outro ser da mesma espécie. Quando se refere à espécie humana, a palavra adequada é antropófago. Em muitas culturas, é um ritual com intuito de obter o poder, a virilidade, a inteligência, a coragem do inimigo. Os covardes não são devorados.

No aforismo de Nietzsche, no entanto, a expressão é figurativa e nos põe num dilema quanto à solidão do indivíduo: se está só, ele se devora, acaba consigo mesmo pelo sofrimento. Se está em meio a muitas pessoas, elas que acabam com ele, pois a convivência em sociedade nos expõe a muitos perigos. É uma leitura possível, a mais óbvia, talvez.

O filósofo me sugere que faça uma escolha. Penso que optar pela solidão, reclusão, introspecção, é o caminho mais instigante. Mas veja, não digo viver só, visto que ter uma família e amigos é fundamental para o ser humano. Ter alguns momentos de solidão, porém, é necessário. Nesse sentido, ao se devorar, lembro da Esfinge que desafiava Édipo na mitologia grega: decifra-me ou te devoro. É uma metáfora para a busca do conhecimento. Na solidão, busco a leitura de um bom livro, bebo as letras que se derramam do papel, devoro suas páginas e com isso me alimento intelectualmente. Mais tarde regurgito em formas de reflexões escritas. Às vezes, as compartilho com outras pessoas nas páginas dos jornais ou da internet.

Nesse momento vem a multidão. Quando expõe uma opinião elaborada e reelaborada na solidão de sua biblioteca, o escritor corre o risco de ser devorado por uma massa com fome não de conhecimento, mas de destruir conhecimento. São aqueles não podem encontrar um indivíduo que possa eventualmente saber mais do que eles, ou que possa pelo menos sustentar, através de leituras, o que pensa: partem logo para os xingamentos, para a ofensa, para a condenação, para a rotulação. O interessante é que tentam destruir o indivíduo com pouquíssimas palavras, muitas vezes pré-fabricadas. Imaginam que com isso tornam-se mais inteligentes.

O escritor (cronista, articulista, colunista) acaba escolhendo, no dilema proposto pelo filósofo, ser devorado. Ele é a Esfinge que propõe enigmas. O bom leitor é o Édipo, que os decifra. Quando encontrar um Édipo, a Esfinge pode-se atirar no abismo.


sábado, novembro 18, 2017

A intrusa: um romance quase dispensável


Por compromisso profissional, li em pouco dias o romance A intrusa, de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), numa edição em PDF do site Domínio Público, do MEC. Além de ler a obra devido a sua inclusão na lista de leituras obrigatórias de um vestibular (em cima da hora, diga-se, com pouco tempo para os candidatos se prepararem), tinha curiosidade de conhecer a obra da escritora, tendo em vista elogios de críticos como Wilson Martins e Rodrigo Gurgel. A maioria dos estudiosos de literatura, porém, ignoraram sua existência. Ela não consta em livros essenciais da história da literatura brasileira. Ou seja, não está no cânone literário do nosso país.

Ao ler os dados biográficos de Júlia Lopes de Almeida, destaca-se o fato de ela ter sido uma intelectual influente no final do século XIX, tendo inclusive participado do grupo que discutiu a existência da Academia Brasileira de Letras. Não levou nenhuma cadeira, porém, pelo fato de decidirem seguir o modelo francês e fundar uma instituição exclusivamente masculina. Para o seu lugar, foi o escolhido o próprio marido, o poeta português Filinto de Almeida.
Isso já bastaria, claro, para os adeptos do politicamente correto e as feministas tentarem resgatar a obra da autora. Pesa ainda o fato de constarem no nosso cânone escritores da mesma época que podem ser avaliados como medíocres. Rodrigo Gurgel, em seu livro Esquecidos e Superestimados, cita os exemplos de Adolfo Caminha e Franklin Távora, ressaltando que Júlia Lopes de Almeida não deveria ser esquecida, pelo menos devido ao romance A falecida, analisado pelo crítico, e que ainda não li.

A intrusa, no entanto, traz, no meu ponto de vista, claro, um enredo inverossímil e bobo. Os personagens são patéticos, propositalmente, talvez, porém não me convenceram. No final do século XIX, o advogado Argemiro Cláudio de Menezes é um viúvo que prometeu a esposa, no seu leito de morte, que jamais se casaria com outra mulher. A filha pequena do casal, Maria da Glória, fica com os avós maternos, um barão e uma baronesa, morando numa chácara no subúrbio do Rio de Janeiro e ele só a vê esporadicamente. Na tentativa de se aproximar da menina, decide contratar uma governanta para cuidá-la. Publica um anúncio de jornal, porém impõe uma condição: que ele nunca veja o rosto da contratada. Quem aparece para a entrevista é Alice Galba, com um véu escondendo suas feições. Ela começa a trabalhar rapidamente e agrada ao patrão pelo zelo na administração da casa e pela forma como educa a menina, inclusive modificando seu comportamento mimado. Por outro lado, Alice provoca inveja do empregado negro, Feliciano, que agora não pode mais desviar dinheiro do patrão (a propósito, há estudos que apontam rastros de racismo nas obras da escritora) e principalmente da avó, Luiza, por sentir que a intrusa estava substituindo-a na preferência de sua neta e por medo de que a governanta fizesse o genro quebrar a promessa.

São cansativos os acessos de ciúmes da avó, assim como a apatia do avô, a ingenuidade do protagonista, a mudança brusca de comportamento da menina (influenciada por um discurso moralista e de caridade de Alice), a mudez da governanta e suas escapadas dentro de casa para não ser vista por Argemiro, sem falar do padre Assunção, que vestiu a batina porque perdera seu amor, que no final é revelado ter sido a mulher de Argemiro (apesar de ser previsível o fato desde a metade do romance, assim como é previsível o casamento do advogado e a intrusa).

Quando estava lendo o romance, destaquei alguns trechos e postei nas redes sociais, como costumo fazer quando gosto de alguma coisa. São conselhos de uma personagem que quase salva o romance de torná-lo dispensável (vale destacar ainda como ponto positivo a maestria de Júlia Lopes de Almeida na criação de diálogos, visto que também foi dramaturga). Conhecida como A Pedrosa, tenta a todo custo arrumar um bom casamento para a filha. Em determinada altura, afirma: “– Infelizmente, no mundo só os espertos alcançam bom lugar. Quem não tiver cotovelos, não se meta nas multidões...” E arremata: “– Filhinha, assim como devemos procurar certas relações, devemos evitar outras...”


Acrescento que, assim como devemos procurar ler certos livros, devemos evitar os outros. Talvez A intrusa devesse ser evitado, não fosse a necessidade de pontuar no vestibular.

sábado, novembro 11, 2017

Minha resenha no Caderno de Sábado do Correio do Povo


Criar é transgredir

O artista é um transgressor por excelência, mesmo se não está transgredindo. O simples fato de não fazer nada pode ser uma transgressão. Se esperam algo dele e ele não o faz, está transgredindo. Penso nisso quando vejo uma patrulha que espera uma posição do artista em meio a questões políticas e ele se furta a participar, opinar. “Alienado!”, gritam os inquisidores das redes sociais. Ou “fascista!”, “comunista!”, “coxinha!”, “mortadela!”, se o seu silêncio for interpretado como adesão a um lado da peleia ou se ele muda de posição.

Paulo Ribeiro é um transgressor em vários sentidos. Sua obra é prova disso, bem como suas posições ideológicas declaradas. Recentemente, rompeu com o PT, do qual era filiado, em meio às reiteradas denúncias de corrupção. Decepcionou-se justamente porque não viu mais na sigla a transgressão que a firmava como o partido dos transgressores, muito menos dos trabalhadores. Os petistas traíram os transgressores (e os trabalhadores) ao se adaptar ao sistema a que tanto combatiam.

Paulo Ribeiro também é um transgressor porque, enquanto os profissionais de ensino buscam uma posição que os valorize financeiramente, resolveu deixar de lecionar na Universidade de Caxias do Sul para se dedicar à literatura. Quer maior exemplo de transgressão?

Transgressores também são os personagens de seu mais recente livro, um conjunto de contos longos intitulado, claro, O transgressor (Kotter/Ateliê Editorial), em que pese nenhuma das narrativas ter esse título. Todas têm, entretanto, algum modo de transgredir.

O primeiro conto é “Cacambo”. Quando o protagonista, Ricardo, era estudante, a professora o considerava parecido com o empregado de Cândido, da novela de Voltaire, e o apelido pegou entre os colegas. Cada capítulo dessa narrativa é denominado “Planilha”, com os subtítulos “lançamento e saldo”, referências ao trabalho de Ricardo como datilógrafo em um escritório. Mas também se refere ao Caixa 2 das propinas delatadas na Operação Lava-Jato, na qual seu chefe está envolvido. É o conto que mais bate na questão da corrupção e na curva em declive praticada pela esquerda nos último anos. Seu chefe, diga-se, também se chama Cândido e acha que vivemos no melhor dos mundos possíveis (para ele, claro): “— Tudo está bem. O Brasil é um Eldorado”, diz ao empregado. A transgressão do personagens, está, entre outras coisas, relacionada ao fato de ele vencer várias dificuldades, apesar de ser ingênuo e ser “filho de uma mãe solteira, analfabeta, lavadeira de pratos em hotel” e que também se prostituía.
Em “Lazarus”, temos a figura do artista atormentando, mais precisamente um pintor. Leitor de Schopenhauer, reflete sobre a idealização do objeto artístico: “A pura contemplação. Eu não quero, eu, homem-pintor, cobiçar a passista da Mangueira, suas coxas rijas, malhadas, sua bunda proeminente a me idiotizar. Eu só quero esta passista afortunadamente em minha ideia, eu quero o pleno conhecimento do seu corpo modelar. A terei em meu domínio, a terei em minha paleta, a terei em minha tela em branco e pincéis aptos para o meu lograr.” Na parte intitulada “Telas”, descreve os óleos sobre telas que pinta, e aqui a escrita competente de Paulo Ribeiro nos faz visualizar as pinturas, entre elas, uma denominada “Propineiros”: “(...)Dou-me por satisfeito e lavo os pincéis. Minhas figuras, a propósito, estão também ali a lavar.” Bem sabemos o que elas lavam.

“Os pássaros de Ícaro”, por sua vez, beira o fantástico e nos lembra a telenovela “Saramandaia”. Numa cidade chamada Oaio do Sul, em homenagem à cidade americana, um ser com asas cai na torre da igreja. Esse ser é Ícaro, transgressor por excelência, tendo em vista que, de acordo com a mitologia grega, voou alto com suas asas de cera, desobedecendo a orientação de seu pai. Querendo aproveitar-se eleitoralmente da situação, o prefeito Gordon (boa parte dos personagens tem nome americano) cria um plano mirabolante. A elaboração da linguagem do conto é importante, principalmente quando dá voz aos moradores, cujo vocabulário necessita de um glossário no final, principalmente para quem não mora no interior do Rio Grande do Sul.

Chegamos depois a outra narrativa, “As mãos trêmulas do aeiou”, cujo espaço temporal percorre dos anos 40 aos 70, começando com um professor de português numa pequena cidade, Usina de Touros, até desembocar nas mulheres (suas ex-alunas), que lutam contra a repressão. “Em ditaduras militares, merda, mijo e vômito vira uma areia movediça aos pés acostumados aos regimes democráticos. Quanto mais se mexe, mais afunda na merda, no mijo, no vômito. Urubus ali não sobrevoavam. Nem aos urubus apetecia aquele caldo bárbaro e fedorento.”

“O cabelo de Dalila” fecha o livro, numa tour de parágrafos fragmentários e rápidos, em que um escritor fala sobre Dalila, mas também sobre sua criação literária, um romance sobre duas famílias e sobre ele mesmo, que tenta escrever: “O livro não anda, tchê! Oigalê!, que é coisa difícil este tal de romance! Um escritor maragato. Um escritor de lenço colorado, as botas fedendo a esterco, e buscando o referencial lá num irlandês.”


Vale ressaltar a inventividade de Paulo Ribeiro, transgressor por trabalhar com as palavras além de apenas contar histórias, transgressor por ser verdadeiramente um escritor que valoriza o leitor inteligente, enquanto muitos escrevinhadores buscam apenas “likes” nas redes sociais. Que este período dedicado exclusivamente à literatura nos traga outros bons livros como este.