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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2015

Edgar Allan Poe no "Traçando livros" de hoje

Poe e a insanidade como arte

Dia desses, num colégio de Ensino Médio, um professor de literatura teve uma daquelas experiências, ultimamente raras, em que consegue despertar o interesse dos alunos pela obra de um escritor. Realizando uma sessão de cinema na sala de aula, apresentou-lhes a obra de Edgar Allan Poe através do filme O corvo, direção de James McTeigue. O ator John Cusack interpreta o próprio escritor, que se vê envolvido na perseguição de um assassino que comete crimes e deixa pistas inspirado em suas histórias. Depois de assistir ao filme, uma aluna disse que ficou com vontade de ler os livros do Poe. Restou ao professor abrir um largo sorriso. A propósito, há uma excelente série televisiva, The following, com um mote parecido com o do filme, porém o assassino já é conhecido desde o primeiro episódio: um sedutor professor de literatura que transformava seus crimes em arte. E o pior, arregimentou uma porção de seguidores. Como dá para perceber, Poe influencia muita gente.
Pr…

Sobre o conceito de família para os cristãos

Na chamada "Sagrada Família", a mulher pulou a cerca, ficou grávida, deu a desculpa que foi de um espírito, e o pai, que não é o pai, acreditou e assumiu a criança. O pai de verdade é solteirão e o filho também não formou família oficialmente, mas, dizem as más línguas, teve filhos fora do casamento, no entanto. Amém?

As histórias magras de Rubem Fonseca

Ele é um dos meus heróis literários. Seus contos e romances – de narrativas envolventes, numa dosagem precisa de ação e pausas reflexivas, misturando palavras de baixo calão com expressões eruditas e rebuscadas, repletas de citações literárias e cinematográficas que me levaram a conhecer outros artistas – o colocaram merecidamente no panteão dos grandes escritores da nossa nem tão grande literatura. As obras recentes, no entanto, carecem da genialidade daquele que escreveu O cobrador, Feliz ano novo, Bufo & Spallanzani e A grande arte. Se outro grande contista, Dalton Trevisan, vem escrevendo também obras fracas, pecando por realizar o mais do mesmo, Rubem Fonseca nos frustra porque ele não é mais o mesmo. Tentei encontrar o bom e velho Rubem Fonseca na sua mais recente reunião de contos, Histórias curtas(Nova Fronteira, 176 páginas). Não deu. O livro chega a ser vergonhoso, apesar de alguns críticos terem afirmado que ele ainda está em plena forma. Não, não está, e não é porque te…

Philip Roth trapaceiro

Philip Roth publicou Deception originalmente em 1990. No Brasil, houve um edição da Siciliano em 1991, já esgotada, com o título Mentiras. Em Portugal, foi intitulada Engano. Este é mais apropriado. Roth nos engana, criando um personagem chamado Philip, que pensamos ser ele próprio. Engana, mas não mente. Esse Philip engana sua esposa, que descobre a traição ao ler as anotações de diálogos entre o escritor com as suas amantes. Ele alega, porém, que aquilo é ficção: “É uma representação, um jogo, uma imitação de mim mesmo! Faço ventriloquismo comigo mesmo. Ou quem sabe seja mais fácil entendê-lo ao contrário: tudo é falsificado, exceto eu. Talvez inclusive eu mesmo o seja. Mas de um ou outro modo, querida, tudo se reduz a uma invenção, um entretenimento do homo ludens.” Philip Roth​, ou o personagem Philip, tenta convencer a esposa de que ele não é ele mesmo nas anotações que ela havia lido. Não consegue convencê-la, assim como não consegue convencer o leitor. Isso já está na segunda pa…

O dia em que a Terra parou

Conto do meu livro Arranhões e outras feridas. (Porque hoje é 11 de setembro.) 
“a noite tem peso/e tem feridas”, Noite em chamas, Romar Beling
São mais ou menos oito da matina e estou fechando o primeiro baseado do dia, ouvindo o Raul: “O dia em que a Terra parou”. A mulher do meu lado ainda dorme. Tento acordá-la: “Tu não trabalha, não?”. Ouço apenas um grunhido que tanto pode significar um “sim” ou um “não enche, porra, que eu quero dormir”.
Não sei nem seu nome. Eu a encontrei ontem à noite na Imigrante com uma long neck, na mão, recitando Bilac (ou cantando a música da Paula Toller, não sei): “...direis ouvir estrelas, certo perdeste o senso”. Perguntou se eu não tinha um baseado, eu disse que só em casa. Viemos pra cá, mas quando chegamos, ela desabou na cama dizendo “boa noite, amor” e apagou.
Olho pro calendário, dia 11, meu aniversário. Tenho alguma coisa pra comemorar? Será que vai aparecer alguém da família hoje à noite ou ninguém vai vir porque eles sabem que eu não vou pag…

Do inconveniente de ter escrito

(Publicado na minha coluna no site Digestivo Cultural: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4180&titulo=Do_inconveniente_de_ter_escrito)
Dia desses, provocado por muitos elogios sobre seu primeiro livro, li um romance de um escritor da nova geração da literatura brasileira. A leitura, no entanto, me decepcionou. Desde o prefácio, que demonstra um escritor medroso, como que se desculpando por ter trabalhado determinado tema, passando por algumas incoerências narrativas e uso de muitos lugares-comuns, a obra seria criticada por mim de forma impiedosa, apesar de alguns momentos muito bem elaborados. Já antevia alguma polêmica, talvez o escritor me bloqueasse nas redes sociais, como já o fizeram outros escritores, apesar de não fazer críticas muito duras a eles, ou talvez meu texto fosse apenas ignorado, como acontece geralmente.
Pensei melhor, porém, até porque minhas resenhas não têm como objetivo fazer críticas negativas. Apesar de muitas vezes me denominar …

Somos todos Dante

Na página de opinião do jornal Gazeta do Sul de hoje.
Somos todos Dante
Dante Alighieri, para quem não sabe, foi o poeta italiano que escreveu A divina comédia, poema épico que narra a viagem do próprio escritor feito personagem ao Inferno, indo depois para o Purgatório até chegar ao Paraíso, onde estava sua amada Beatriz. O inferno dantesco é composto por nove círculos e o poeta os desce um a um, guiado por Virgílio, poeta latino, autor de Eneida. Cada círculo corresponde a diferentes punições, dependendo do pecado cometido. No último círculo, está Satanás, devorando os três maiores traidores da humanidade segundo o poema: Judas, Brutus e Cassius.
Pois descemos o primeiro círculo no final de julho, quando os servidores públicos do Rio Grande do Sul receberam apenas uma parte do seu salário, que seria parcelado, conforme as ameaças que já vinham acontecendo. Ninguém, no entanto, acreditava que isso viria a se concretizar. Como resultado, paralisações, inclusive dos policiais, professore…

No Traçando Livros de hoje, Kafka e Cortázar

Creio em Franz Kafka e em Julio Cortázar como se fossem deuses. Já escrevi em algum lugar que a religião é minha literatura. Sou um ateu que crê. Meu panteão tem duas divindades, portanto. Ambos os sobrenomes começam com o mesmo fonema. Som de cacos retirados do vidro quebrado do espelho em que os vejo. Peço perdão pelo tom da minha escrita, que é realmente de veneração.
Kafka é um percursor de Cortázar, em que pese este não ter mencionado muito o outro em sua obra. Em “O jogo da amarelinha”, ele é citado uma vez numa das notas de Morelli. Em ensaio sobre Edgar Allan Poe, de quem foi tradutor, diz que Kafka é um dos mestres em criar ambientes. No ensaio “Aspectos sobre o conto”, por seu turno, Cortázar escreveu: “Basta perguntar por que determinado conto é ruim. Não é ruim pelo tema, porque em literatura não há temas bons nem temas ruins, há somente um tratamento bom ou ruim do tema. Também não é ruim porque os personagens careçam de interesse, já que até uma pedra é interessante quand…