segunda-feira, março 26, 2018

"Jeremias falou", conto inédito



Foi publicado um conto meu inédito (o último texto de ficção que escrevi) no jornal Fuxico, do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Feira de Santana, da Bahia. Infelizmente houve uns problemas na edição que o deixaram incompreensível, por isso segue abaixo o conto original para quem quiser ler.

Jeremias falou
por Cassionei Niches Petry


Jeremy spoke in class today
Eddie Vedder


Jeremias falou com o pai sobre o que vinha sofrendo no colégio. Como resposta, ouviu: “filho meu não traz desaforo pra casa. Se apanhar na rua, apanha em casa também. Responde à altura, ora.”

Ele não tinha, porém, a mesma força que os outros. Mas isso ele não falou para o pai. Não era de briga, era calmo, só queria ficar no seu canto, lendo ou ouvindo no “walkman” sua banda favorita, que narrava as angústias que ele sentia. Pensava em compor suas próprias canções e os temas seriam a incomunicabilidade com os pais, a solidão como escolha de vida, seu mundo pessoal.

Jeremias falou para o pai que queria mudar de colégio. A resposta foi negativa. Jeremias falou que outra escola poderia oferecer uma educação melhor, os professores atuais estavam mais preocupados em politizar seus alunos do que qualquer outra coisa. Seu pai negou mais uma vez e apenas disse que ia reclamar com a diretora.

Jeremias não falou para o pai que sabia o esconderijo da arma. Levou-a consigo para a aula e anotou mentalmente quais eram seus agressores, enquanto caminhava segurando o revólver que estava sob a jaqueta com o emblema do colégio. Foi ao banheiro e se trancou em um dos sanitários. Não foi para a sala de aula. Puxou seu caderno de anotações e anotou os nomes que havia gravado mentalmente. Também registrou os motivos, tudo aquilo que poderia ser evitado e não foi.

Saiu do banheiro e se dirigiu ao auditório vazio. Ligou uma das caixas de som e aumentou o volume do microfone. Retirou a arma e a colocou sobre a mesa de discursos. Faltavam alguns minutos para a troca de períodos. Quando deu o sinal, Jeremias falou:

–Atenção. Quero que todos venham ao auditório. Alunos, professores, funcionários. Prometo ser breve no que vou falar, assim como breve é a vida.

Enquanto iam todos se acomodando, sem entender o que estava acontecendo, a diretora se aproximou do palco. Jeremias, porém, mostrou discretamente a arma e falou para ela se afastar. Atônita, não disse nada para não alarmar os alunos e provocar uma correria.

Jeremias em vez de falar, pensou. Por que motivo iria explicar algo para quem não tinha vontade alguma de entender? Arrancou as folhas do caderninho, amassou-as numa bolinha de papel e a engoliu. Todos o olhavam sem entender, como sempre. Jeremias então pegou o revólver, que falou por ele.

sexta-feira, março 23, 2018

"Esquerda ou direita: é preciso escolher?", meu artigo no jornal Gazeta do Sul de ontem



Esquerda ou direita: é preciso escolher?

Já fui ligado à política na juventude. Influenciado pelo movimento Hip Hop, eu era de esquerda, preocupado com questões sociais. Era petista, daqueles que usavam estrelinha no peito. Entrando na universidade, minha ideologia foi fortalecida, afinal os professores que não eram indiferentes à política faziam questão de demonstrar seus ideais esquerdistas, a admiração pelo socialismo, o ódio à direita. Na aula de didática, no lugar de práticas de ensino, aprendi a criticar a visão neoliberal e capitalista que acabava com a educação. Fui muito bem doutrinado. Emocionei-me com o Lula eleito.

Algo, porém, me inquietava. Não conseguia aceitar a visão coletivista do esquerdismo. Os que criticavam a condição do povo como massa de manobra do capital se tornavam uma massa obediente aos ditames socialistas. Minha individualidade estava ameaçada. Porém, conheci livros e sites da internet que reconheciam a importância do indivíduo. As letras do Neil Peart, baterista da banda Rush, também começaram a me fazer refletir sobre o homem frente à massa. Esse pensamento, no entanto, é relacionado à “direita” e para mim isso era uma ofensa. Era o que minha mente ainda presa à esquerda pensava.

Boa parte da direita, infelizmente, mantém uma postura religiosa dogmática, e criticam os ateus como eu. Por isso, hoje digo que estou em cima do muro, com uma visão privilegiada dos dois lados. Todas as manifestações dos últimos anos, sejam as dos “mortadelas”, sejam as dos “coxinhas”, foram observadas aqui de casa, pela TV e pela internet. Não saio às ruas porque não quero parecer uma ovelha a mais no rebanho.

O que me incomoda é a visão simplista de meus pares intelectuais (professores, escritores, filósofos, artistas) tentando defender a todo o custo o governo que foi deposto. Há uma subserviência incrível a um partido que partiu não só o Brasil como a própria esquerda. Penso que a falta de independência política limita a ação desses intelectuais que fingem não enxergar a realidade de miséria que vivemos em todos esses anos (não começou só agora) e a corrupção que atingiu altos níveis justamente com seus heróis.

Esquerda e direita já estiveram no poder. O que mudou? Os Engenheiros do Hawaii já cantavam nos anos 80: “Esquerda e direita, direitos e deveres,/ Os 3 patetas, os 3 poderes/ Ascensão e queda, são dois lados da mesma moeda/ Tudo é igual quando se pensa/Em como tudo poderia ser/ Há tão pouca diferença e há tanta coisa a fazer.” Uma das coisas a fazer é reconhecer que existe tanto ditadura de direita como de esquerda. Ambas são indesejáveis.

quarta-feira, março 14, 2018