quarta-feira, dezembro 31, 2008


Ainda sobre as pedras. Gazeta do Sul, página de Opinião, 30 de maio de 2008. Resposta à carta publicada que criticava meu artigo anterior.

Ainda sobre as pedras

Fico pensando, muitas vezes, quando sento à frente da folha em branco para escrever, sobre quem vai ler meus textos. Quando escrevo para o jornal, sei que diferentes leituras vão ser feitas, e sei que posso ser mal interpretado. Na crônica publicada nesta seção no dia 21, procurei fazer um texto leve, mas que ao mesmo tempo servisse para cutucar as pessoas para agirem frente aos desafios da nossa vida. Só não esperava que alguns que fossem ler o texto, não soubessem ler. Se falo em ler, não me refiro a passar os olhos por cima. No entanto, foi o que fez o leitor Leandro D´Ávila, como demonstrou em sua carta publicada neste espaço.
Em primeiro lugar, o texto não fala sobre o jovem apenas (muito menos o jovem santa-cruzense), mas sobre todas as pessoas. Está certo, caro Leandro, você deve ter lido os primeiros parágrafos, não gostou e parou “no meio do caminho”. Não leu os outros quatro parágrafos?
Em segundo lugar, não usei a expressão “todos os jovens”. Mas é só você fazer um mea culpa (como eu fiz, também sou jovem, tenho 28 anos) e ver que a juventude, depois da era Collor, entrou em um marasmo total. Meus alunos, todos adolescentes, que leram com atenção a crônica, concordaram comigo. Creio não ser necessário que a cada texto que alguém vá escrever neste espaço deva sempre acrescentar “mas há exceções”. Tudo nesta vida, meu caro, são exceções. E me mostre: onde escrevi que não existem jovens que prestam em Santa Cruz do Sul?
Terceiro, desqualificar meu próprio texto como eu fiz no início é ter um ego nas alturas e ser presunçoso? Tudo bem, na próxima vez eu escrevo “a crônica que vocês vão ler é a melhor crônica jamais escrita na história deste jornal”.
Quarto, e esse foi um equívoco meu ao pôr a frase no parágrafo errado, não quis dizer que foram jovens que atiraram pedras em uma vitrine no centro da cidade.
Bem, acredito que este episódio poderia servir de mote para a juventude se unir, mas não para atacar um simples cronista de uma cidade do interior. Escrevam para o jornal, saiam às ruas, não desistam de lutar por um mundo melhor e mais justo. E leiam, leiam sempre.

Cassionei Niches Petry – escritor e professor de Língua Portuguesa e Literatura

Como pedra que rola. Gazeta do Sul, página de Opinião, 21 de maio de 2008. O texto causou bastante polêmica. Recebi vários e-mails com muitas críticas. Além disso, foi publicada uma carta na Gazeta atacando o artigo.
COMO PEDRA QUE ROLA

(Observação importante: crônica repleta de lugares-comuns. Se não gosta de texto com muitos chavões e auto-ajuda, não leia. Eu não leria.)

Escrevo ainda sob o impacto da peça teatral Bailei na curva. Os que já tiveram o privilégio de assisti-la nos seus 25 anos de existência sabem do que estou falando. Riso, choro, indignação e reflexão se mesclam nessa importante obra escrita por Júlio Conte. Um trecho, no entanto, se fixou na minha memória de tal forma que não posso deixar de comentar: quando a jornalista lê um poema que escreveu sobre o personagem Pedro, morto nos porões da ditadura. Diz que Pedro foi uma pedra no sapato dos poderosos da época, pois foi um jovem que ousou pensar diferente.

Pergunto-me se existem hoje Pedros entre os nossos jovens. Creio que não. Existem apenas aqueles que atiram pedras nos outros em uma violência gratuita. Fazem badernas, arruaças, mas não têm argumentos para defender suas idéias (se é que as têm, pois geralmente reproduzem frases prontas). Ou aqueles que se utilizam de pedras que enfeitam canteiros para depredar o patrimônio alheio, como aconteceu há alguns dias na nossa cidade.

Se Drummond diz que “tem uma pedra no meio do caminho”, o que podemos fazer para removê-la? Temos três alternativas: ou a levamos para cima de uma montanha, mesmo sabendo que ela vai rolar de novo para baixo, tal qual Sísifo cumprindo um castigo dos deuses; podemos ainda contorná-la e seguir adiante, mas ela continuará lá; ou, então, a destruímos para sempre, sem esquecer, porém que outras pedras aparecerão pela frente.

Se seguirmos a primeira opção, estaremos aceitando nossa vida cotidiana, o eterno retorno do mesmo, nos contentando em acordar, trabalhar, dormir, acordar, trabalhar, dormir. Aceitando que o reino dos céus é dos pobres, acreditando em tudo que o comentarista careca da televisão diz. Sendo como o Pedro Pedreiro da canção do Chico Buarque: “Esperando, esperando, esperando/ Esperando o sol/ Esperando o trem/ Esperando o aumento/ Desde o ano passado/ Para o mês que vem.” Atire a primeira pedra quem não é ou já foi assim.

Se seguirmos a segunda opção, estaremos buscando em outras pedras a fuga dos problemas: a pedra do jogo do bingo, a pedra do crack. Na selva de pedra em que vivemos, não podemos apenas contornar os problemas, pois eles vão se acumulando. Ao contrário da personagem bíblica que se transformou em uma estátua de sal, temos sim que olhar para trás e resolvermos as coisas que ficaram pendentes.

Acredito que devemos seguir a terceira opção. Devemos ser mais duros do que as pedras que atravessam nosso caminho. Só o que não pode ser duro como pedra é o nosso coração.

Cassionei Niches Petry – escritor e professor de Língua Portuguesa e Literatura


As eleições estão chegando. Gazeta do Sul, página de Opinião, 01 de abril de 2008. Texto bastante elogiado, com comentário no blog da redação do jornal.

AS ELEIÇÕES ESTÃO CHEGANDO

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato. (Barão de Itararé)

Às wenzel fico pensando sobre a situação política da nossa cidade. Nunca se sabe o que o povo santa-cruzense kelly para o seu futuro. Muitos não levam nada a sérgio, acham que a eleição é um brincadeira. Quando os políticos entram em campis para a disputa, a maior parte do eleitorado já pensa em pedir coisas para seu benefício próprio, marx se esquecem que os políticos são eleitos para promover o bem da sociedade como um todo. No moior momento da nossa democracia, o povo desperdiça o poder que tem nas mãos. Hele na verdade não pensa que suas atitudes no presente podem causar estragos no futuro. Telmos que encarar de forma diferente as eleições, pois ela não tem nada de hilário.

Muitos eleitores, infelizmente, gostariam de ficar lãonge do pleito eleitoral. Mas esse momento é o elo que liga nossos anseios com as soluções possíveis, pois o vereador, o qual deve ver a dor do povo, é o nosso representante, propondo leis para resolver nossos problemas. Já o prefeito, que não precisa ser perfeito, executa essas leis.

Trocadilhos à parte, vejo na eleição municipal um momento em que sentimos, de forma mais próxima, o que é a política na prática. Em outros pleitos, assistimos pela TV à propaganda eleitoral como se fosse mais um programa na grade televisiva (aliás, poderíamos classificá-la como comédia). Neste ano, os candidatos vão estar mais perto, vão conversar, vão nos abraçar, nos beijar, pagar uma cerveja (ou uns dois engradados em uma festa), um ranchinho, material de construção, uns remédios, prometer um cargo de CC para um parente nosso. E, claro, como a maioria dos eleitores não conhece direito seu candidato, suas idéias, o que seu partido defende, acabam se contentando com ajudas pessoais, o que, diga-se de passagem, não é de se estranhar em um país que reelegeu seu presidente devido a um programa assistencialista.

Serviu o chapéu?

O prezado leitor deve estar se perguntando, “mas será que não há nenhum político bom nessa cidade?”. Sim, também temos em nosso município políticos preocupados com os problemas de cada bairro. Alguns são eleitos, outros ficam de fora e perdemos a chance de termos pessoas que pensam no interessa da população como um todo. Isso, claro, quando não acabam sendo mal-influenciados quando chegam ao poder. Aí, esse tipo de parlamentar é para lamentar.
Cassionei Niches Petry - professor de Língua Portuguesa e Literatura

Artigos publicados em 2008


Buracos, Gazeta do Sul, página de Opinião, 30 de janeiro de 2008.
BURACOS

Há um ano, uma enorme cratera, provocada por uma construção de túneis para o metrô na cidade de São Paulo, engoliu caminhões, carros, casas e pessoas. Esse fato me fez lembrar das voçorocas do romance Ópera dos mortos, do escritor mineiro Autran Dourado. Voçoroca é um desmoronamento devido à erosão produzida por águas subterrâneas. Na história, uma cidadezinha chamada Duas Pontes está sendo aos poucos engolida por esse fenômeno da natureza. Mas essa destruição não é apenas física, mas também, metaforicamente, representa a degradação moral dos seus habitantes. Qualquer semelhança com a capital paulista não é mera coincidência.

Aliás, não precisamos ir muito longe. É só circularmos por Santa Cruz do Sul para vermos os buracos que enfeitam várias de nossas ruas e calçadas. Quantos automóveis já tiveram suas suspensões avariadas ou quantas pessoas, como eu, torceram o pé por causa da má conservação de nossas vias públicas. São crateras que não engolem carros, casas, pessoas, mas fazem desaparecer nosso orgulho de dizer que somos cidadãos e escolhemos nossos representantes. Por que os escolhemos, se não para atender, ao menos, as nossas necessidades mais básicas? Aqui da janela da minha casa tenho uma visão privilegiada do Lago Dourado. Um buraco sempre cheio de água. Mas para que serve, se no exato momento em que estou olhando para ele, a torneira aqui de casa está cheia de ar? Nossos representantes acham que todos têm um buraco na memória e esquecem as promessas feitas...

Buracos podem simbolizar a falta de alguma coisa. Falta inteligência, por exemplo, para quem gasta seu tempo na frente da TV vendo gente menos inteligente ainda fazendo nada. Aliás, a expressão Big Brother, que dá nome a esse edificante programa televisivo, foi criada pelo escritor George Orwell no romance 1984, também adaptado para o cinema. Na história, as pessoas sofrem uma espécie de lavagem cerebral para aceitarem tudo que é imposto pelo governo totalitário e são vigiadas 24 horas por dia. Por isso o nome tem tudo a ver com o programa da Rede Globo, não pelo fato de as pessoas serem observadas pelas câmeras, mas sim pela lavagem cerebral que provoca no povo brasileiro.

Se alguém não gostou do que escrevi, faça de conta que há um buraco nesta página...

Cassionei N. Petry, professor de Língua Portuguesa e Literatura

Gazeta do Sul, caderno Mix, 09 de fevereiro de 2007.
http://www.gazetadosul.com.br/default.php?arquivo=_pdf.php&intIdEdicao=1079&NrPagina=26

Travessuras de um romancista

O novo romance de Mario Vargas Llosa não deve ser lido por quem não conhece seus livros anteriores. Explico: o leitor pode pensar que se trata de apenas mais um best-seller no mercado. Travessuras da menina má (Alfaguara, 302 páginas) possui todos os requisitos básicos dos enlatados norte-americanos: uma história de amor e traição, cortes rápidos de cenas em uma narrativa envolvente e muitas, mas muitas coincidências inverossímeis, daquelas que, a cada vez que aparecem, nos fazem dizer: “isso acontece só em novelas”. Além disso, como todo lançamento do romancista peruano, o sucesso de público é imediato e as traduções para outras línguas são quase simultâneas.

Para quem aprendeu a admirar o escritor depois de ler clássicos como A cidade e os cachorros, Conversas na catedral, A casa verde, A guerra do fim do mundo, o novo romance causa, muitas vezes, decepção. Porém, quando descreve cenas de sexo sem cair na pornografia barata ou revela o painel político, social e cultural de décadas e países diferentes com um poder de síntese impressionante, podemos dizer: esse é o Vargas Llosa.

O romance (que marca a estréia, no Brasil, do selo espanhol Alfaguara) começa nos anos 50, em Lima, no Peru. Ricardo Somocurcio, adolescente de 15 anos, se apaixona por outra jovem, Lily, admirada pelos meninos e invejada pelas meninas, pois afirmava que havia nascido no Chile. Logo é desmascarada e some pela primeira vez da vida de Ricardito. Nos anos 60, Ricardo realiza seu sonho de morar em Paris. Trabalha como tradutor e intérprete na UNESCO. Tem um amigo militante de esquerda, responsável por acolher jovens peruanos que irão estudar táticas guerrilheiras nos países comunistas. Pois um dos jovens é justamente Lily. Os dois mantém um relacionamento, mas ela tem de partir para Cuba, onde se torna amante de um militar. Já na década de 70, em Londres, por uma coincidência, acaba encontrando-a, já com outro amante e outro nome. E assim segue o baile em Paris, no Japão... Uma sucessão de coincidências, e é aí que está a grande falha do romance. O leitor se pergunta: como pode ele sempre se encontrar com a menina má em qualquer parte? Fosse em uma cidade apenas, mas em várias partes do mundo? Além disso, quando retorna a Lima para visitar seu tio, encontra, adivinhem: o pai de Lily! Sinceramente, nesse ponto, o autor deixou a desejar.

Por outro lado, há sempre uma história dentro de outra história, o que Llosa chama de “dado escondido”, em seu livro Cartas a um jovem escritor, que também está nas livrarias. Em meio à paixão doentia de Ricardito, o escritor percorre momentos importantes da política mundial e, principalmente, do Peru. É onde se manifesta as posições políticas de Vargas Llosa, que partiu da esquerda no começo da carreira para depois se tornar um neoliberal, inclusive concorrendo à presidência de seu país em 1990.

Travessuras de uma menina má é uma narrativa que nos prende do início ao fim. Vargas Llosa utiliza a técnica do folhetim, embora não em capítulos curtos, o que provoca uma narrativa ágil, novelesca, lembrando o romance Tia Júlia e o escrevinhador, cujo protagonista era um escritor de novelas de rádio. Ele ainda deixou de lado a multiplicidade de focos narrativos, que nas outras obras mudavam de um parágrafo para outro, o que pode desagradar seus admiradores, que desejam um desafio de leitura maior, porém, conquista novos leitores.


Daniel Galera aprontou uma comigo. Saí da leitura de seu mais recente romance me sentindo transportado para a primeira metade dos anos 90: vídeo-game, tênis M200 com “amortecedores piramidais”, a passagem das bicicletas de bicicross para as de mountain bike, as festinhas regadas a guaraná e com a “hora da música lenta”, em que “Patience”, do Guns and Roses, nunca podia faltar. Cabe lembrar a clássica definição de Julio Cortazar: o romance vence o leitor por pontos, enquanto o conto vence por nocaute.

Fui pouco a pouco sendo atingido, capítulo a capítulo e, quando conseguia me recuperar, lá vinha outro soco e também pontapés, aliás, como acontece literalmente com alguns personagens. Se até agora essa resenha te parece muito emotiva, caro leitor, não estás enganado. Quem ler o livro e tiver a mesma idade do autor, assim como eu, e for um pouco saudosista, também vai se emocionar ao se ver jovem, filmado por uma grua, como sugere a epígrafe do livro.

Mão de cavalo (Companhia das Letras, 192 páginas) se apresenta em 3 espaços temporais distintos, que aos poucos vão se juntando. Primeiro, o menino de 10 anos com sua Caloi Cross; depois, o “adulto” que planeja se aventurar numa escalada nos altiplanos bolivianos; e, por último, o adolescente que começa a conhecer os primeiros problemas da vida. Todos são (e não são) Hermano, o protagonista do romance.

A história inicia com uma das aventuras do Ciclista Urbano, andando em alta velocidade pelas ruas de Porto Alegre. A comparação com o cinema americano é inevitável, pois parece que as imagens do menino em sua bicicleta se sucedem enquanto passam os créditos iniciais de um filme. Até o tombo que ele leva, me desculpem o clichê, é cinematográfico!

Na parte adulta, por seu turno, vemos aquele menino agora dentro do seu carro, fazendo algumas reflexões sobre um passado cronologicamente não muito distante. Está casado, com uma filha, numa vida normal de acordo com os padrões da classe média. Pretende se encontrar com um amigo para fazerem alpinismo nos altiplanos bolivianos, porém a escalada que acaba fazendo é nos seus próprios pensamentos.

A terceira parte aborda sua adolescência, num momento importante, que vai definir sua personalidade. É a fase que ocupa a maior parte do livro e, como as outras, é narrada na terceira pessoa, porém na perspectiva de Hermano.

Mãos de cavalo talvez seja o primeiro romance de formação da chamada geração 00. Até agora só lemos textos fragmentados, que abordam partes da vida de personagens e que não prestam contas das idas e vindas de um indivíduo. Galera, paradoxalmente, inovou ao utilizar um gênero tradicional. A temática da violência, por seu turno, em que pese aparecer na obra de 9 em cada 10 escritores contemporâneos, também foi tratada de uma forma diferente.

Autor de Dentes guardados (2001) e Até o dia em que o cão morreu (2003), Daniel Galera é um dos grandes nomes da literatura atual. Como a maioria dos seus parceiros, começou escrevendo na Internet e depois, junto com outros escritores, fundou uma editora independente, a “Livros do Mal”, por onde publicou as duas primeiras obras. Desconhecido do grande público, Daniel Galera, agora em uma das maiores editoras do país, terá o reconhecimento que merece.

Gazeta do Sul, caderno Mix, 03 de fevereiro de 2006. O Mauro Ulrich me contou que, na reunião de pauta, o texto não seria aprovado porque já havia sido publicado outro sobre o livro do Saramago. Mas o Mauro bateu pé, pois disse que o artigo era muito bom e mereceria ser publicado. Que tal?

http://gazeta.via.com.br/arquivos/pdf/28168.pdf

SARAMAGO E A MORTE

Viemos a este mundo para nascer, crescer e morrer, certo? Talvez. Talvez? Bom, eu nasci, você nasceu, eu cresci, você cresceu. Mas eu vou morrer? Você vai morrer? Já disseram que a única coisa certa na nossa vida é que vamos morrer. Certa por quê? Porque outros morreram? Agora porque os outros passaram dessa para melhor (?) eu tenho que ir também?

Bom, não estou velho e nem no fim da vida para me preocupar com isso, muito menos uma inquietação filosófica me faz escrever este texto. O tema vem à tona por causa do último romance de José Saramago (ou melhor, do mais recente, porque ele não vai morrer agora), As intermitências da morte (Companhia das Letras, 208p.). Imaginem, senhoras e senhores, se as pessoas deixassem de morrer. Quais as conseqüências? Imaginaram? Pois esse é o ponto de partida da história. Bem, mas o que vocês, simples mortais, imaginaram está longe do que a mente brilhante de Saramago pode criar, me desculpem. A capacidade criativa do autor português também nunca morra. Basta lembrar romances como Ensaio sobre a cegueira ou Jangada de pedra, e depois ler o atual, para entender por que ele é um dos maiores escritores contemporâneos e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

A maioria dos críticos, porém, não pensa dessa forma ou porque gostaria que ele escrevesse sempre obras-primas ou porque nunca gostou de nenhum dos seus livros. Nessa última categoria estão os que admiram o também português António Lobo Antunes e não querem admirar ao mesmo tempo José Saramago, pois para eles o primeiro, autor de romances como Exortação aos crocodilos, era quem deveria ter ganhado o Prêmio Nobel. Da mesma forma, a postura política de Saramago incomoda muitas pessoas, como se isso influenciasse na qualidade de um livro.

Voltemos ao romance, então.

A principal personagem é a própria morte. Por um simples capricho ela resolve que não vai mais “trabalhar” em um determinado país. As conseqüências são alarmantes. Nessa primeira parte, cabe de tudo um pouco do rol de temas do escritor português: há a discussão sobre a finitude do ser humano, a velhice, etc. Não poderia, da mesma forma, faltar o lado polêmico do autor, quando ele analisa as conseqüências políticas e principalmente religiosas que a ausência da morte acarreteria. Pouco foi comentado, porém - apesar de ser um tema que seguidamente está em pauta -, que o romance também trata da eutanásia. Não havendo morte, como ficariam os doentes em estado terminal? Vale lembrar que as mortes cessaram, mas não as doenças. A solução para esse impasse? Leia o romance.

Na segunda parte, a morte resolve voltar a atuar e escreve uma carta para uma emissora de TV, para que seja anunciado que, à meia-noite daquele dia, tudo voltaria ao normal e que todos aqueles que deveriam ter morrido naquele período, morreriam agora. Mais caos à vista, continuando a narrativa a flertar com o realismo mágico latino-americano. Ela anuncia também uma novidade: antes de morrer, cada pessoa receberá uma carta anunciando sua partida com 7 dias de antecedência, podendo assim resolver suas pendências no mundo dos vivos e se despedir dos familiares e amigos. Uma das cartas, no entanto, teima em voltar para a remetente. E é quando começa a terceira parte, a melhor do romance.

Num estilo mais poético, ao contrário do tom mais amargo e irônico do restante da história, a morte toma feições humanas, se transformando numa mulher, e vai ao encontro do destinatário da carta. Trata-se de um violoncelista, escolha acertada para poder contrapor a suavidade da música clássica com uma situação tão dura que é a morte. Pode surpreender os fãs acostumados com a acidez saramaguiana. O desfecho, no entanto, pode decepcionar um pouco, mas nada que tire o brilho do resto do romance.

As intermitências da morte faz parte do tipo de literatura que nos deixa inquietos, no faz refletir, acaba com nossas certezas. Devemos nos preocupar com a morte ou o que vem depois dela? Em vez de pensar somente nela, não deveríamos viver o tempo presente, aproveitando nossa vida na Terra? José Saramago nos mostra que a morte é, paradoxalmente, parte da vida e não passagem para outra. Ateu, acredita que as religiões se apoderam da idéia da morte para existirem. Certo ou não, se há outra vida depois dessa, espero que lá tenha romances tão bons como esse para ler.

Cassionei N. Petry, escritor e professor de Língua Portuguesa e Literatura.

Amilcar Bettega Barbosa


Resenha que escrevi sobre o livro de contos Deixe o quarto como está, de Amílcar Bettega Barbosa no Riovale Jornal, caderno Radar, coluna Rastreador Cultural, do Luis Fernando, autor do box que acompanha o texto. 19 de setembro de 2003. Clique na imagem para ampliá-la.

Altair Martins



Riovale Jornal, página de Variedades editada por Luis Fernando Ferreira, 07 de fevereiro de 2003. Clique na imagem para ampliá-la.

O Grau Graumann - Fernando Monteiro


Gazeta do Sul, 24 de julho de 2002. Clique na imagem para ampliá-la.

Mais crônicas antigas


Crônica publicada em 27 de novembro de 1999, caderno Sábado da Gazeta do Sul. Clique na imagem para ampliá-la.


Crônica publicada em 18 de setembro de 1999, caderno Sábado da Gazeta do Sul. Clique na imagem par ampliá-la.

quarta-feira, dezembro 17, 2008


Crônica publicada em 14 de fevereiro de 1998, no jornal Gazeta do Sul, caderno Sábado. Clique na imagem para ampliá-la.

sábado, dezembro 13, 2008


Crônica publicada dia 28 de dezembro de 1996 na Gazeta do Sul, maior jornal da cidade, no caderno Sábado editado por Mauro Ulrich. De quebra, ganhei um livro do Roni Ferreira Nunes, que está devendo um novo livro para seus leitores. Mas o orgulho que tenho deste texto é que ele foi usado na aula de crônica do Prof. João Arendt, no curso de Letras da Unisc, em 1999, para exemplificar a crônica humorística. Minhas colegas fizeram uma encenação e promoveram um debate sobre a crônica.
Clique na imagem para ampliá-la.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Textos publicados em jornais


Vou postar textos que escrevi para jornais desde os anos 90. O primeiro foi uma crônica, intitulada "Memorião", publicada no Caderno 2, editado pelo escritor Roni Ferreira Nunes, no Riovale Jornal de Santa Cruz do Sul, dia 26 de outubro de 1996. Imaginem a minha felicidade de ver meu nome impresso pela primeira vez. Clique na imagem para ampliá-la.