quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Alta literatura ou literatura?



No seu livro Aula, Roland Barthes afirma que “é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é o instrumento, mas pelo jogo de palavras de que ela é o teatro.” A literatura, nesse sentido, faz um “trabalho de deslocamento (...) sobre a língua.” Esse tipo de ideia de literatura leva em conta seu caráter artístico, de elaboração da linguagem, sendo que ela não é apenas “uma história bem contada”, no caso da narrativa, ou uma “sequência de versos rimados”, no caso da poesia. Dispor as palavras de forma elaborada e complexa cria uma forma de linguagem a que podemos chamar doravante de Literatura (com L maiúsculo) para diferenciar daquela que não tem por objetivo essa elaboração, a que denominaremos literatura (com L minúsculo). Cada uma tem seu lugar, seu espaço, sua importância e repercute no leitor. O problema está no momento em que elas desejam se destruir.
Leio bastante literatura, mas prefiro a Literatura. Stephen King escreve ótimas histórias, que envolvem o leitor. É uma leitura fácil, apesar dos temas pesados. Sérgio Sant’Anna, por sua vez, também escreve ótimas histórias, mas a leitura delas, em vários momentos, é difícil, requer que o leitor volte páginas, releia frases, preencha lacunas do texto, decifre os subtextos e que tenha uma bagagem de conhecimento para fruir a narrativa. Ambos fazem literatura, porém somente o brasileiro faz Literatura. King vende muito. Sant’Anna bem menos. Os leitores de Literatura são poucos. Compreender uma arte tão complexa é difícil para a maioria que gosta do mais fácil. Há mal nisso? Não. Assim como não há nada de mal em buscar uma literatura bem elaborada. “Literatura é linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”, escreveu Ezra Pound.
Há espaços em que a Literatura é mais valorizada. A crítica acadêmica, por exemplo. Escritores de literatura reclamam por não serem avaliados por ela. Porém, eles ocupam o lugar na mente de milhares de leitores, o que causa inveja em alguns escritores de Literatura. Tentando ocupar o lugar do outro, ambos tentam ridicularizar o trabalho alheio, seja chamando um de subliteratura, seja chamando o outro de obra incompreensível, obscura, intelectual demais. Nesse entrevero, quem perde é o próprio escritor.
Sou daqueles que acreditam na hierarquia nas artes. A Literatura é superior à literatura, assim como considero a música clássica superior ao rock, apesar de gostar dos dois. O leitor que escolha o que ler. E o escritor continue escrevendo para o público que deseja. Sempre haverá quem o leia, seja em quantidade ou em qualidade. Eu, repito, prefiro a qualidade.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Traçando o livro do Humberto Gessinger hoje

Minha coluna, que durante as férias foi quinzenal, traz hoje o mais recente livro do líder dos Engenheiros do Hawaii.

http://www.grupogaz.com.br/gazetadosul/noticia/434618-seis_paragrafos_sobre_hg/edicao:2014-03-05.html


6 parágrafos sobre HG (ou O arquipélago hawaiiano)

1
Pra entender o mundo ao seu redor (o mundo é que gira ao seu redor ou você é que gira ao redor do mundo?) é preciso seiscentos anos de estudo ou Seis segundos de atenção (Belas Letras, 167 páginas), segundo nos diz Humberto Gessinger (HG ou @1berto para os íntimos ou não tão íntimos assim) em uma de suas letras, que não por acaso estampa a quarta capa do livro.
2
Gessinger, para mim, é o melhor letrista do rock brasileiro. Como líder dos Engenheiros do Hawaii, e agora em carreira solo, faz de sua canções uma poesia filosófica-existencial-intertextual-pop-intelectual-regionalista-universal. Fora da grande mídia, continua experimentando artisticamente novas formas de expressão, entre elas a produção de crônicas em um blog, cujas postagens acontecem religiosamente à meia-noite de terça-feira e são aguardadas pelos fãs que disputam a honra de quem será o primeiro a comentar. Parte dessas crônicas foi reunida neste seu 5° livro. 
3
Se em Pra ser sincero: 123 variações sobre o mesmo tema a obsessão de Gessinger era com o número 3, aqui ele multiplica por 2 a conta. Os títulos de algumas crônicas reforçam isso: “Sexta-feira santa”, “Seis pilhas pro meu rádio”, “Seiscentos anos de estudo”, “Seis sentidos na mesma direção”, “Seis variações sobre o mesmo tema” e por aí vai.
4
“Dizem que ser genial é ver o óbvio antes dos outros”, escreve na crônica “A força do silêncio”, lembrando a obra 4’33’’, de John Cage. HG tem momentos de genialidade em suas crônicas, quando relata, por exemplo, em “Aerodinâmica num tanque de guerra”, o estranhamento que sentiu ao ouvir um grupo de pagode cantando uma versão alegre da música “Sunday bloody sunday”, do U2, que retrata o chamado “Domingo sangrento”, que aconteceu na Irlanda em 1972. Eu também tive a mesma sensação, mas ele teve antes.
5
Em “Zeitgeist”, HG comenta sobre as redes sociais, mencionando o comportamento das pessoas em bate-papos em que ele participou sobre temas desde os mais prosaicos até os mais complexos intelectualmente. Nota que “muito rapidamente uma discordância virava um estranhamento que descambava para a ofensa”. Há uma necessidade muito grande das pessoas de “emitir juízos definitivos” sobre tudo em comentários na internet e uma dificuldade igualmente enorme de entender a existência de um pensamento diferente. Contar até seis e se acalmar poderia ser uma solução, mas quem está atrás da tela se sente poderoso e tem seis motivos pelos menos para manter sua ira.

6
O livro também reúne as letras do mais recente CD do Humberto Gessinger, o primeiro solo, Insular, título que por si só já renderia uma análise: a palavra designa o que está isolado, ilhado. Desmembrando-a, temos o termo in, que traduzindo do inglês significa “dentro”, mais as palavras sul e lar. Mas in também pode ser o sufixo de negação. Ou seja, o artista é regional, mas também é universal. Como ele escreveu no seu blog, insular é a crença de que todo artista constrói um mundo próprio com sua arte e a vontade de conectar estas ilhas com pontes que respeitem suas particularidades.” Com seus discos e livros, mais os ouvintes e leitores, HG forma um arquipélago.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com. Nos anos 90, era um garoto que não amava os Beatles e os Rolling Stones, mas amava os Engenheiros do Hawaii.

sábado, fevereiro 15, 2014

Listas

Clique na imagem para ampliá-la. 
 
Hoje no jornal Gazeta do Sul, a partir de uma "provocação" do Mauro Ulrich na sua coluna Gás, foram publicadas duas listas minhas: as dos 10 livros fundamentais da minha vida e a de 5 músicas para se ouvir chorando. Listar apenas 10 livros é muito difícil. Elaborei o que seria para mim os livros fundamentais na minha vida, faltando porém algum do Fernando Sabino, Faulkner, Érico Veríssimo, Moacyr Scliar, Enrique Vila-Matas, Rubem Fonseca... bah! melhor parar por aqui.

terça-feira, fevereiro 11, 2014

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Anotações sobre a leitura de Contos e novelas reunidos, de Sérgio Sant’Anna



Lendo e relendo algumas obras de Sérgio Sant’Anna em Contos e novelas reunidos, “tijolo” de mais de 700 páginas publicado pela Companhia das Letras em 1997, mas já fora de catálogo. Conhecia sua obra através da coletânea de contos Notas de Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer) e fui capturado pela escrita experimental e sofisticada do autor. Depois fui lendo erraticamente outras obras e já escrevi aqui no blogsobre O livro de Praga.
Um dos livros reunidos no volume é O monstro, de 1994. Na sua edição original tinha o subtítulo “três histórias de amor”, que não consta na edição de 97. Na primeira novela, “A carta”, temos Beatriz, uma engenheira que escreve uma longa carta para Carlos, um secretário de governo do estado de São Paulo, com quem teve uma aventura sexual numa pequena cidade.
“O monstro” é composto por uma entrevista do professor de filosofia Antenor Lott Marçal para uma publicação sensacionalista. Acusado por ter, juntamente com sua namorada, estuprado e assassinado uma mulher cega, a história do professor antecipa de certa forma o enredo de Um crime delicado, romance publicado também em 97. Em “O monstro”, porém, o crime não tem nada de delicadeza.
Por fim, “As cartas não mentem jamais” acompanha um pianista brasileiro famoso, Antônio Flores, num quarto de hotel em Chicago com uma jovem de 16 anos. Arte e jogo se misturam numa trama sexual, em que o músico relembra fatos de sua infância, ora para a jovem com quem vive uma noite de amor, ora para o suposto pai da moça, um cientista, e a mulher que está com ele em outro quarto, uma psicanalista que foi amante de Godard.
Como costuma acontecer neste blog, talvez as notas de leitura sobre o “tijolo” de Sérgio Sant’Anna não continuem. A leitura, porém, continuará durante o resto das minhas férias. Será?