Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

Júlio Nogueira retorna para dizer o que o fez abandonar uma leitura

Júlio Nogueira entra em contato comigo nesta madrugada do dia 17 de junho para que eu publique uma pequena crítica no blog. Voltou a dar aulas, mas continua refugiado numa chácara no interior do RS, talvez próximo onde morou por um tempo o Belchior. Contou que andou tentando escrever em um outro blog, dessa vez com um pseudônimo, mas não deu muito certo. Havia publicado este texto por lá. “Acho que no teu blog haverá mais leituras”, ele diz, ingenuamente.
Um livro que tentei ler dessa nova geração de escritores que desponta nas redes sociais (e sabe lidar muito bem com ela, diga-se) foi Jantar Secreto, de Raphael Montes, editado pela Companhia das Letras, uma editora com uma capacidade enorme de dar um ar de sofisticação para algumas porcarias. Espero sinceramente ter começado com o romance errado a conhecer o jovem escritor, porque a primeira impressão não foi nada boa nas primeiras páginas da obra. Sim, não fui adiante na leitura, e olha que costumo ler até o fim livros ruins.
O mote…

Bloomsday

Meu primeiro exemplar de Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, tem 550 páginas, mas com letra bem miudinha. Comprei-o no final do século passado em um sebo da minha cidade. À época, estava tentando me tornar um escritor, o que tento até hoje, sem muito resultado, por isso lia enlouquecidamente. A edição em capa dura, vendida em bancas de revistas, é da coleção “Mestres da literatura contemporânea”, parceria das editoras Record e Altaya. A tradução é a clássica, realizada pelo Antônio Houaiss (sim, o mesmo que dá nome ao dicionário que veio para desbancar o Aurélio). Minha biblioteca ainda estava engatinhando (hoje posso dizer que está entrando na fase adulta) e com o novo exemplar ganhou o direito de pelo menos andar dois passinhos sem ajuda.
Agora tenho também, porém em versão digital, a tradução realizada por Caetano Galindo e editada pela Companhia das Letras. Intitulada Ulyssescom y, me fez reler parte da obra, agora renovada e com ótima introdução do professor Declan Kibe…

Conservadores querem mudanças

No Brasil, os conservadores querem mudanças, enquanto os ditos revolucionários querem deixar tudo como está. Ora, vivemos (ou vivíamos) no melhor dos mundos possíveis, afirma o Pangloss das redes sociais, que vive na pobreza há muitos anos, não é de agora, pulando de um emprego a outro (quando consegue um), morando de favor ou de aluguel em moradias precárias e mesmo assim grita que lhe tiraram o seu melhor mundo possível e que ainda querem lhe tirar mais. Não passa o óbvio pela cabeça do Pangloss, que o que ele tem (ou tinha) não é direito, mas sim migalhas que lhe servem (ou serviam), como isca, como aqueles cachorros de corrida que saem atrás de uma lebre mecânica. Há também o Pangloss da rede social, que estende seus tentáculos paras as salas de aulas, tanto do ensino básico quanto do ensino superior, acha que ele está certo, que está defendendo aqueles que necessitam, mesmo que aqueles que necessitam não concordem com que ele pensa. É aquele sujeito cheio da grana, que conseguiu b…

Escrevi sobre novo livro do Pondé para a Amálgama

Aguinaldo Severino escreve sobre "Cacos e outros pedaços"

Notas de leitura sobre El astillero, de Onetti

El astillero, de Juan Carlos Onetti, serve como metáfora para uma porção de coisas. Penso agora numa metáfora para a política nacional, em que pese ser uma obra de um uruguaio, publicada nos anos 50. A literatura, pelo menos a boa literatura, nos proporciona esse tipo de reflexão.
Larsen, o protagonista, apelidado de Junta-Cadáveres, volta para a cidade de Santa Maria depois de cinco anos de sua saída involuntária (que será tema do romance posterior de Onetti). Consegue emprego numa localidade próxima como gerente de um estaleiro em decadência. Apesar de falido, seu proprietário, Jeremías Petrus, ainda pensa que está no auge e oferece a Larsen um bom ordenado como gerente. Este, por sua vez, flerta com a filha do patrão, uma mulher com problemas mentais, com o objetivo de herdar a empresa e a suposta fortuna da família. Há ainda alguns funcionários que resistem às dificuldades financeiras vendendo por debaixo dos panos as máquinas do estaleiro.
Como se não bastasse, Petrus vendia ações …

Minha coluna de ontem no Digestivo Cultural

Notas de leitura sobre “Welcome to Copacabana e outras histórias, de Edney Silvestre

Dividido em três partes, “No Rio”, “Além do Rio” e “De volta ao Rio”, a capital fluminense é o ambiente que molda os personagens, mesmo quando estão distantes dela. E é a solidão na cidade populosa e maravilhosa que permeia as primeiras narrativas de Welcome to Copacabana e outras histórias, de Edney Silvestre (Record, 352 páginas).
No primeiro conto, que dá título à coletânea, a protagonista, Regina, uma viúva e avó, “mulher madura”, como prefere, “não sou velha, ainda falta algum tempo”, aguarda a virada do ano, cuidando as horas no relógio do micro-ondas, enquanto relembra alguns fatos da sua vida, principalmente a frustração de não conhecer Paris. Seus filhos não a visitam, salvo para tratar de assuntos do espólio. Ainda assim, rechaça a companhia de uma vizinha enxerida, e tenta se afastar de qualquer convívio permanente, indo almoçar em restaurantes distintos. “Sou sozinha (...), não solitária.”
“Ben que olhava o trem” é um conto impactante desde o início. Uma mãe que deixa o fil…

Resenha sobre livro de Pedro Gonzaga

Escrevi sobre livros de poemas de Pedro Gonzaga para o site Amálgama: https://www.revistaamalgama.com.br/05/2017/resenha-em-outros-tantos-quartos-da-terra-pedro-gonzaga/

Conto "Virgínia", de "Cacos e outros pedaços"

As ovelhinhas obedientes

Notas de leitura sobre Pájaros en la boca, de Samanta Schweblin

Saí impressionado da leitura deste livro de contos da escritora argentina, uma das grandes revelações de um país já cheio de gênios contistas. As narrativas têm como norma causar estranhamento no leitor. O primeiro conto, “Irman”, não foge disso. Num bar de beira de estrada, duas pessoas são recebidas por um anão que não pode atendê-los a contento, pois a mulher que lhe alcançava os produtos necessários para a elaboração do cardápio está estirada na cozinha, provavelmente morta, e eles tentam formas para ter seus pedidos atendidos.
Em “Mujeres desesperadas”, noivas são abandonadas pelos maridos em uma banheiro de beira de estrada. “En la estepa”, um casal sente inveja porque seus vizinhos conseguiram adotar um ser, cuja misteriosa origem e fisionomia não nos é revelada. No conto seguinte um personagem perde velocidade e em outro há um buraco interminável sendo cavado.
Em outro conto um pintor expõe quadros em que cabeças são golpeadas no asfalto. Em “Matar un perro”, a prova para um cri…

A orelha escrita por Gustavo Melo Czekster para o meu livro de contos

A orelha escrita pelo escritor Gustavo Melo Czekster para o meu livro de contos "Cacos e outros pedaços", Editora Penalux. 

Notas de leitura sobre Dias perdidos, de Lúcio Cardoso

Dias perdidos, de Lúcio Cardoso, foi publicado em 1943 e gira em torno de uma família em ruínas a partir do nascimento de Sílvio, o protagonista. Clara e Jaques divergem sobre a cor dos olhos do filho e sobre o nome. Logo o pai decide ir embora, não pela divergência do casal, mas em busca de certa liberdade. É mais um personagem inspirado no pai do próprio escritor, Joaquim (Jaques é o seu equivalente francês, se não estou equivocado), nome também do protagonista de Maleita, de 1934.
A relação conflituosa com o pai é um tema. Acredito, porém, que a doença de viver é o grande mote do enredo. Sílvio doente quando criança, o melhor amigo, Camilo, com uma doença incurável e que morre cedo, o pai que volta doente depois de anos fora de casa, a namorada Diana, carioca que vai à pequena cidade para tentar melhorar da doença herdada de sua mãe (não nos fica claro qual é), a irmã e criação de Clara, Áurea, que se torna uma empregada da casa, esbanjando saúde, mas vai perdendo gradativamente a v…

Apresentação de Charlles Adriano Campos para o meu livro

Apresentação que gentilmente o Charlles Adriano Campos (http://charllescampos.blogspot.com.br/) escreveu para meu livro "Cacos e outros pedaços". 
Conheci o Cassionei por essa formalidade já não tão moderna e já não tão estranha do vínculo de amizade firmado pela internet, sem que ainda tenhamos nos encontrado no “mundo presencial”. Ele sempre me pareceu alguém meticuloso, ponderado e adepto a arraigadas sutilezas, talvez porque sua estampa inspire pensamentos de que seja um bom moço; talvez porque os textos que ele escreve em seus blogs sejam concisos, bem intimistas, o que privilegia a impressão de um jovem que já antecipou o uso para si do avatar de senhor de chinelos felpudos embrenhado em uma poltrona em sua vasta biblioteca, coisa que o Cassionei de sessenta, setenta e oitenta anos será com absoluta certeza. De modos que o Cassionei ficou acondicionado em minha mente à imagem de alguém racionalmente confiável, como convém no meu imaginário ser um idealista dos livros, …

Introdução de Sergius Gonzaga para "Cacos e outros pedaços"

(Introdução que o professor de Literatura Sergius Gonzaga gentilmente escreveu para o meu terceiro e talvez último livro, Cacos e outros pedaços. Interessados em obter um exemplar podem pedi-lo pelo e-mail: cassio.nei@hotmail.com)
Eles, o primeiro e deliciosamente humorístico conto de Cacos e outros pedaços já anuncia a adesão de Cassionei Niches Petry ao fantástico – este gênero marcado pela intromissão do estranho e do inexplicável no campo da realidade verossímil e que teve entre seus praticantes gênios literários como Poe e Maupassant, W.W. Jacobs e Kafka, Borges e Cortázar. No caso, um escritor ansioso por sucesso recebe suas criações de amáveis criaturas que não apenas lhe repassam os textos, mas lhe garantem a futura estima do público.  Não sabemos quem são esses fantasmas generosos e tampouco se o que inventam terá o êxito prometido. Porém, como em todas as obras do gênero, é necessário que haja uma possibilidade (mesmo que mínima) de interpretação racional dos fatos insólitos,…

Morre o escritor argentino Abelardo Castillo

“A literatura, pelo pouco que sei dela, nasce quem sabe de uma forte tendência à incomunicação ou à má comunicação. Um escritor de ficções é alguém que na vida cotidiana muito raramente pode comunicar o que sente, seus medos, suas admirações, suas paixões, seu amor. É algo assim como um olhar de surpresa ante o real de que falavam os gregos: o que ao filósofo lhe permite refletir e, ao escritor, escrever. O único lugar onde um homem que escreve se comunica é em seus livros, e são suas personagens que falam por ele.”  Este trecho pertence ao livro “Ser escritor”, de Abelardo Castillo, escritor argentino que morreu nesta segunda-feira. Uma das grandes descobertas literárias que fiz nos últimos anos, pois ele não é traduzido por aqui. Aliás, a tradução do trecho acima é minha e cheguei a planejar a tradução de seus contos, gênero em que foi um mestre. Contos como “El marica”, “Fermín”, “La madre de Ernesto” e tantos outros merecem ser conhecidos pelos leitores brasileiros. Além de vários l…

Escrevi sobre o Belchior no site Amálgama

Texto meu no Caderno de Sábado do Correio do Povo

Dividi com Léa Masina e Luiz Antonio de Assis Brasil as páginas centrais do Caderno de Sábado do Correio do Povo, de Porto Alegre.

Romance ou ensaio: o leitor decide
Conhecia somente a obra ensaística de Silviano Santiago e nunca havia me interessado por sua ficção. Se Machado (Companhia das Letras, 421 páginas), sua recente obra, fosse vendida como ensaio e não como um romance, conforme consta na capa, não teria saído da leitura relativamente decepcionado. Esperava, a partir dos releases e comentários sobre o livro, uma narrativa sobre os últimos anos da vida de Machado de Assis. Na quarta capa, há a informação sobre o caráter híbrido da obra, porém ela é mais ensaio do que romance. Faltam personagens agindo e sobram análises literárias e historiográficas. Para que se tenha um romance, ou seja, uma narrativa longa, faz-se necessário um enredo. Silviano Santiago sabe muito bem disso, afinal é um grande crítico. Mesmo o espanhol Enrique Vila-Matas, que admite escrever ensaios disfarçados …

Escrevi sobre o suicídio no site Amálgama

Nei Duclós escreve sobre Cacos e outros pedaços

http://outubro.blogspot.com.br/2017/04/o-mosaico-literario-de-cassionei.html

Quando a telenovela nos leva a um bom contista

Meu primeiro contato com os personagens de Aníbal Machado se deu através de uma novela de televisão, “Felicidade”, de 1991, no horário das 6, antes da novela das 7 “Vamp”, que era a preferida daquele pré-adolescente de 12 anos que sonhava em ser escritor. Chico Treva era o que mais me chamava a atenção. Pois foi nos créditos que me lembro de ter visto que a história era baseada na obra do escritor mineiro. Encontrei, para minha sorte, na biblioteca da minha escola, um exemplar dos seus contos, reunidos em A morte da porta-estandarte e outras histórias, da maravilhosa coleção “Sagarana” da José Olympio Editora, e fui apresentado a um grade contista. Pensando bem, acho que isso foi na reprise de 1998. Reli alguns dos contos por estes dias, visto que estou seguindo, em ordem cronológica, uma lista de contistas que consta nos apêndices do livro Conto moderno contemporâneo, de Antonio Hohfeldt. Reli, por enquanto, apenas os cinco contos de Vila Feliz, de 1944 (na capa original consta como n…

O suicídio é...

... o assunto do momento por causa da série "Os 13 porquês" e do tal do jogo da Baleia Azul (um boato com um quê de verdade). "Enquanto refletimos sobre o suicídio, não o cometemos", escrevo neste pequeno ensaio que escrevi sobre o tema relacionado à literatura, que já foi citado em outros ensaios acadêmicos. Talvez escreva algo neste feriadão. https://online.unisc.br/…/inde…/signo/article/view/2326/2002

Resenhas sobre obras de Machado de Assis - II

De louco todos temos um pouco
Na capa de O alienista, numa antiga edição da editora Ática, o dedo acusador do personagem principal aponta para o leitor como se dissesse: “você é o louco; é você que quero prender nessa casa.” É o que acontece com a leitura desse conto longo, quase uma novela, a qual coloco ao lado de outras “pequenas grandes” obras da literatura universal, como A metamorfose, de Kafka; A morte de Ivan Ilich, de Tolstói; A volta do parafuso, de Henry James; Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Stevenson e Bartleby,o escrivão, de Melville. Machado de Assis, nosso maior escritor, nos prende na sua narrativa e deixa uma dúvida no ar: será que somos loucos também? O conto, publicado primeiramente na coletânea Papéis avulsos, de 1882, relata a história de Simão Bacamarte, médico psiquiatra que ergue, na pequena cidade de Itaguaí do século XIX, um hospício que recebe o nome de Casa Verde, com intuito de estudar as causas e sintomas dos problemas mentais. Recolhe uma e outra pessoa, até qu…

Nélida Piñon mostra suas armas

Os contos de Sala de armas (Editora Record, 124 páginas, esgotado) nos mostra uma autora de leitura difícil, complexa, que mais sugere do que conta. Porém, se o leitor for paciente e participativo, desfrutará de uma ótima obra literária, repleta de relações intertextuais, principalmente com a mitologia. Como um personagem do cruel conto “Sangue esclarecido”, Nélida Piñon abre a porta e nos convida, como animais sedentos que sentem o cheiro da presa, a participar desse festim. Boa parte dos enredos giram em torno de relacionamentos. Homens e mulheres, quase sempre não nomeados, encaram um mundo duro, de desencontros e conflitos, de perdas e incertezas. No primeiro conto, “Ave de paraíso”, a mulher recebe visitas do homem, oferecendo-lhe “torta de chocolate e licor de pera, as frutas colhidas na horta”. O relacionamento se mantém durante muito tempo dessa forma, até que se casam, mas ele continua não morando com ela, causando, claro, estranhamento entre parentes e vizinhos, a mulher send…

Prefiro lista de livros

O ser humano adora listas. Qualquer tipo de lista. Há obras literárias que tratam do tema. Lembro-me agora, de cabeça, de dois livros: A vertigem das listas, de Umberto Eco, e Alta fidelidade, de Nick Hornby, romance adaptado para o cinema. Há, também, um conto originalíssimo de Woody Allen, na coletânea Cuca fundida, em que o narrador analisa a publicação póstuma de listas de roupas para a lavanderia elaboradas por um escritor, algo do tipo “diga-me que roupas tens para lavar, que te direi quem és”. Eu, por exemplo, faço muitas listas, principalmente relacionadas aos livros: livros que li (nome, aliás, do blog do excelente leitor Aguinaldo Severino), livros que desejo ler, livros que deixei de ler, livros que não quero ler, livros sobre suicídio, das pessoas para quem devo mandar o PDF do meu último livro, das pessoas que compraram meu livro, das pessoas que querem comprar meu livro, das pessoas que dizem que querem comprar meu livro, mas se escapam quando pergunto “quando?”, etc. A li…