domingo, dezembro 24, 2017

Meu conto de Natal preferido


Podemos elencar muitos textos literários que tenham o Natal como tema. “Missa do Galo”, de Machado de Assis, por exemplo, ou “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles. Na literatura universal, o grande clássico é “Um conto de Natal”, de Charles Dickens.

O meu preferido é um conto não muito conhecido, de autoria de Luiz Vilela, intitulado tão somente “Feliz Natal”, publicado em 1978 no volume de contos Lindas pernas, Livraria Cultura Editora.

Nele, o narrador acompanha os passos do solitário protagonista, Ranulfo, durante a noite natalina. Ao contrário, porém, do que se possa imaginar, ele não está triste por ficar sozinho. Bem pelo contrário: ele foge de qualquer encontro com alguns conhecidos. E ele os tinha. E muitos.


Disfarçado, com um penteado diferente, barba crescida, roupa que não usava há tempos e óculos escuros, sai para comprar algo e cumprir um plano: “assim como Cristo nascia àquela noite, ele decidira renascer como outro homem (...)”. Faz de tudo para não ser visto, inclusive pelo porteiro do prédio. Quando finalmente volta ao apartamento, desembrulha sua compra: um vidro de azeitonas e uma garrafa de vinho. Depois de encher sua taça, brinda sozinho, desejando para ele mesmo um “Feliz Natal!”

quinta-feira, dezembro 21, 2017

Imortal da Academia de Letras

(Foto: Maria Regina Eichenberg/Rádio Gazeta AM)



Imortal da Academia de Letras, pelo menos da Santa-cruzense. Tive a honra ontem de tomar posse e ser um dos fundadores, além de fazer parte da primeira diretoria. O time (escolhido com critérios determinados na lei que criou a Academia) é de peso e com muita experiência, inclusive sou o caçula. A nominata completa pode ser lida no link: 

terça-feira, dezembro 19, 2017

Sobre “Amortalha”, de Matheus Arcaro


Gosto de contos concisos, daqueles que mais sugerem do que revelam. Faz-se necessário diferenciar o conto conciso do apressado. O primeiro apresenta todos os elementos da narrativa e conseguem manter, mesmo em poucas páginas, a tensão. Não sobra nada, mas também não falta. O segundo tipo pode até apresentar todos os elementos (muitas vezes não), mas falha na tensão, não provoca o clímax, sobra e falta muita coisa. Rubem Fonseca é mestre no conto conciso (vide “Passeio noturno”), porém nos últimos livros, vem nos apresentando contos apressados.

Matheus Arcaro demonstrou domínio do conto conciso no seu primeiro livro, Violeta velha e outras flores, de 2014, que já resenhei por aqui. Depois de uma experiência insatisfatória na narrativa longa em O lado imóvel do tempo, romance sobre o qual também resenhei por aqui, volta a acertar o alvo em Amortalha, livro de contos publicado, assim como as outras obras, pela brava Editora Patuá.

Como o título indica, as narrativas tratam de amor e morte. O amor por um cachorro e sua morte no comovente “Salvação”, um suicídio inusitado e, por que não dizer, criativo, no miniconto “Celebração”, o amor e a morte dos pais do narrador em “Demétrio”, a morte metafórica de uma artista em “Maturidade”.  

Há também as referências à filosofia, à psicanálise e às outras áreas do conhecimento. Em “Foucault ficcionista”, um manuscrito com um conto do filósofo é encontrado entre as páginas de um de seus livros trazendo como enredo um diálogo entre Sócrates e Freud. Em “Má educação”, o professor que ensinava Sartre, Aristóteles e Hobbes a um aluno ideal, se depara alguns anos depois com este mesmo aluno empunhando um cassetete contra ele em uma manifestação de rua. “Acho que nós somos aquilo que escolhemos fazer.” Sugeriria ao escritor um novo conto com o ponto de vista do policial.

“Alemão” e “Metade de mim” são, ao que parece, projetos de autoficção. Imagino o escritor escrevendo-os e chorando ao mesmo tempo, assim como eu li e quase chorei durante a leitura. De emoção, diga-se. No primeiro, as lembranças de infância do narrador enquanto vela o pai, a vergonha que tinha dele por ser mecânico, sempre sujo de graxa e com calos nas mãos. Por fim, uma frase dele que ficou na sua mente: “não existe morte para quem tem lembranças em vez de remorsos.” No outro conto, a mãe conversa com o filho que vai nascer e cujo sexo ainda desconhece. Vai se chamar Camila ou Matheus? Se menina, as dificuldades na vida por ser mulher. “Mas posso garantir que tu, minha filha, tu não serás uma mini-Amélia.” Se menino, “assim que saíres a sociedade te cobrirá com um manto dourado”.


Como um belo complemento ao volume de contos, as ilustrações de Ubirajara Júnior, que provocam, inclusive, novas possibilidades de leitura. Um casamento perfeito entre literatura e imagem, fazendo com que tenhamos em mãos uma pequena obra-prima artística.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

Minha crônica na Gazeta do Sul de hoje

Um cheiro estranho no ar
“Aquelas pessoas estavam apodrecendo e não sabiam.” Assim termina uma crônica de Nelson Rodrigues em O reacionário – memórias e confissões. Curioso é que muita gente considera a palavra reacionário um xingamento e ao mesmo tempo enaltece a obra do escritor. Pinçam algumas frases que, mal sabem, atingem a eles e acham que estão “lacrando”, como dizem.

A frase acima encerrava uma crônica de 1970 em que um velho comunista, numa reunião de intelectuais (“Preliminarmente, devo confessar meu horror ao intelectuais, ou melhor dizendo, a quase todos os intelectuais”, escreve Nelson), afirmou ser inevitável o assassinato em nome da ideologia. Nelson, então, contestou: “Se você acha inevitável um assassinato de um inocente, também é um assassino”.

Não é diferente do que vemos hoje, quando se defende bandidos em nome de um partido, de uma ideologia, ou apenas por não dar o braço a torcer e dizer que errou. Direita e esquerda pregam aos convertidos que, em bando, em manada, atacam os que pensam de forma contrária e não querem seguir ditames, palavras de ordem. Pensar por si próprio é um defeito para essa gente.

Não compactuo com coletividade de pensamento. Nem de direita e nem de esquerda. Aliás, boa parte da direita me rejeitaria por ser ateu, assim como boa parte da esquerda me rejeitaria por não gostar de decisões coletivas. “Eu me recuso a ser um homem de esquerda, de direita ou de centro. Sou um sujeito que defende ferozmente a sua solidão”, afirma Nelson Rodrigues em outra crônica.

Um dia recebi um telefonema de um professor contestando a minha decisão de não aderir à greve do magistério (a que depois acabei aderindo). Aos gritos, me chamou de “pelego” e disse que, por escrever, deveria ter uma pensamento diferente (lê-se pensar como todos eles) e que minha literatura (não sei se a que escrevo ou a que leio) era medíocre. Ainda me ameaçou: se eu desligasse o telefone, iria ao colégio conversar cara a cara comigo. Desliguei.

Colegas me aconselharam a fazer um B.O. Não pretendo perder meu tempo com isso. Se decidi parar depois, foi por não receber meu salário e foi decisão minha. Não sigo sindicatos, corporações, grupos, associações. Nelson também escreveu: “O sujeito que opina por conta própria tem algo de suicida”.
Sigo meu caminho, o caminho menos trilhado, como no poema de Robert Frost, não aceito que digam que devo ir por outro caminho, como no poema de José Régio, meu voo vai mais longe, como no aforismo de Nietzsche, ando só, pois só eu sei pra onde ir, como diz os versos de Humberto Gessinger. Se há algo que aprendi com a leitura da minha “literatura medíocre” é que devo tirar minha próprias conclusões.

Se estou errado, sou eu o culpado pelo erro. Só não quero apodrecer.

Cassionei Niches Petry – escritor, crítico literário e professor




sábado, dezembro 09, 2017

Notas de leitura sobre “Siete casas vacías”, de Samanta Schweblin

Para Gaston Bachelard a casa representa o ser em seu interior, cada cômodo e andar simbolizando os estados da alma. O filósofo também atribui à casa o símbolo feminino de proteção, refúgio. Para mim foi inevitável ler os contos de Samanta Schweblin reunidos em Siete casas vacías (Editorial Páginas de Espuma, 123 páginas, ainda sem tradução por aqui. Se alguma editora se interessar, me habilito para a empreitada) sem pensar nessas representações. Almas vazias, mulheres desprotegidas e em busca de proteção.

Também me provocou a escolha do número sete. Por que este número? O livro originalmente se chamava “Las casas vacías”, contando com seis narrativas ganhadoras de um concurso. Posteriormente foi acrescentado outro conto, “Un hombre sin suerte”, que destoa (aparentemente como vamos ver mais adiante) dos demais. Por acaso (ou nada é por acaso?), chegou aqui na toca há pouco tempo o “Dicionário de símbolos”, de Jean Chevalier e Alan Gheerbrant, que reserva boas páginas para o verbete sobre este número (há um verbete sobre a casa também). “Simboliza um ciclo completo, uma perfeição dinâmica”, “indica o sentido de uma mudança (...) de uma renovação positiva”, entre outras representações. A busca da autora pela perfeição formal talvez seja a justificativa. No meu ponto de vista, ela alcança esse êxito.

No primeiro conto, “Nada de todo esto”, a narradora acompanha a mãe num estranho hábito: entrar na casa de outras pessoas para modificar a decoração, trocando os objetos de lugares ou sugerindo novas cores, etc. A inveja sai do campo do desejo e se realiza de forma invasiva. Outra mulher, a vítima que não consegue conter a invasão, se desprotege ao abrir a casa e ela própria se vê impelida a fazer o mesmo.

“Mis padres y mis hijos” é o único conto cujo ponto de vista é masculino. O narrador, um pai divorciado, leva seus pais idosos para ver os netos que moram na casa da mãe. Acontece que os velhos, enquanto as crianças estão no supermercado com o padrasto, correm nus pelo quintal tomando banho de mangueira e a mulher pede para ele tomar uma providência: “—Se van a morir de vergüenza de sus abuelos”.

Outros contos seguem na mesma linha: ou de mulheres que deixam alguém entrar em sua casa (vizinhos que atiram peças de roupas do filho morto no outro pátio e batem na porta da vizinha para buscá-las de volta) ou que saem de casa por sem sentirem sufocadas, porém perdem sua proteção (caso dos contos “Cuarenta centímetros cuadrados” e “Salir”).

“Un hombre sin suerte” não se passa em uma casa, como os demais contos, porém a menina que quase sofre um abuso estava fora do lar, num hospital, junto com a família para socorrer sua irmã que havia se intoxicado com água sanitária. Ou seja, saiu de sua proteção. Para alguns críticos, esse é um dos melhores contos do livro, rivalizando com “Respiración cavernaria”, em que uma senhora com Alzheimer vive com o marido que deixa entrar no pátio um garoto da casa ao lado. Um conto cheio de surpresas e reviravoltas, num trabalho preciso sobre a questão da memória e a perda da sanidade mental.


Mais centrado no real e no que de mais estranho e fantástico ele nos oferece, Siete casas vacías se difere de Pájaros en la boca, já comentado aqui no blog, mais fantasioso. Não perde, no entanto, a qualidade do anterior. 

terça-feira, dezembro 05, 2017

Quando se perde um membro


Leonardo Brasiliense reforça intencionalmente alguns clichês sobre famílias disfuncionais em seu segundo romance, Roupas sujas (Companhia das Letras, 177 páginas): a primogênita que vê a irmã mais nova se casar primeiro e além disso precisa assumir o papel materno já que a mãe morreu, os gêmeos que disputam a mesma mulher, um pai autoritário e beberrão, que também tem uma rixa com um vizinho por causa de limites de propriedade, terminando de forma trágica, a irmã boazinha e o irmão que a tudo observa, analisa e depois transforma em um romance.

O que poderia ser um problema, nas mãos de um bom escritor como Leonardo Brasiliense se percebe que é uma estratégia e não deixa de ser um resgate de um tipo de narrativa que pouco se faz hoje em dia, um relato de uma família do interior com todos os códigos patriarcais bem delineados e as funções de cada membro estabelecidas e que são devidamente trocadas quando um membro falta. Não por acaso cada um dos gêmeos perde uma parte do corpo (um a orelha e outro o pé) e uma irmã vai morar longe depois de casar, simbolizando todas as perdas existenciais.

O narrador de boa parte da trama é um dos filhos do meio, Antônio, contando a história de sua família a partir da morte da mãe no parto do sétimo filho, que quebrou todo o equilíbrio do lar. Sua ausência é sentida por todos daquela família de descendentes de italianos do interior, que vivem em meados dos anos 70, colonos que tiram da terra o seu sustento e que por isso são em grande número: “Aquilo na roça, e na época, era necessário. Um empregado custava caro, um meeiro exigia dividir a colheita. Filhos, portanto, eram riqueza, e todos tinham função.” Aliás, na primeira frase o narrador nos informa que seu pai teve oito filhos. Na casa, temos, além de Antônio, Geni, a mais velha, Maria Francesca, que se casa e vai embora, os gêmeos Estevam e Ferrucio, Valentina, a irmã mais próxima do narrador, e o caçula Pedro. São sete. O oitavo, ou a oitava, deduziremos no decorrer da trama.

Os conflitos que vão se sucedendo, dentro da própria família e com outra família vizinha, são narrados com precisão, mas deixando lacunas que aos poucos vão sendo preenchidas, muitas vezes por um narrador em terceira pessoa, que aparece em notas de rodapé. A tensão aumenta, sempre esperamos que algo grave está para se suceder: o que acontecerá entre gêmeos por causa do amor de Ana, a filha do casal vizinho? Haverá mais uma perda na família por causa disso? Maria Francesca viverá feliz com o marido? Geni aguentará até quando sua vida de solteira? E a briga entre os vizinhos por questões de terra, até onde vai? Brasiliense consegue nos enredar até o final dessa primeira parte e nos dá um desenlace convincente. O problema é que ele resolve estender o enredo e aí o romance perde seu impacto.

 Na segunda parte, a narradora é Valentina, no que parece ser uma série de cartas, ou talvez e-mails, para o irmão anos depois dos acontecimentos. O que poderia ser apenas um fechamento da história, revelando o que acontece com cada um dos personagens no futuro, traz, no entanto, alguns dramas da família que ela recém-formou, numa revelação de que tudo não passa do eterno retorno do mesmo, mudam-se as pessoas mas os problemas se sucedem, porém são fatos contados de forma apressada, sem a tensão da primeira parte e com novos personagens que não são desenvolvidos. Torna-se um trecho dispensável.

Ainda somos levados a ler uma derradeira parte, dessa vez narrada por Pedro, o caçula responsável pela morte da mãe, e que agora está se tornando padre. Em páginas de um diário, elenca as pessoas a quem gostaria de agradecer pela ordenação e são citados outros personagens, que mais uma vez não serão desenvolvidos pois já estamos nas páginas finais, como um companheiro do seminário e um detento que é atendido pela Pastoral Carcerária, que parece saber algo sobre a vida do quase padre. Ainda há uma pequena nota de rodapé final, e mais uma personagem nova surge e desaparece, de forma totalmente dispensável.


Saio da leitura, infelizmente, com a sensação de que há páginas sobrando, membros que poderiam ser amputados no romance e que, nesse caso, não fariam nenhuma falta.

terça-feira, novembro 28, 2017

“Decifra-me ou te devoro”


Em alguns momentos da minha vida eu vivia com a Bíblia debaixo do braço. Não ficava, porém, sempre com ela debaixo do braço. Eu também a lia. Lia, sublinhava, fazia anotações. E a questionava. Talvez a sua leitura a tenha me tornado um ateu, ou, como costumo dizer, voltado a ser ateu, afinal, nascemos sem crença alguma. É um livro repleto de contradições, mas não é o meu objetivo debatê-las agora.

Um dos métodos que seguia para ler a Bíblia era abrir aleatoriamente uma página, apontar com o dedo um trecho, de olhos fechados, e depois desfrutar dos versículos ao acaso. Achava que era alguma mensagem divina que recebia. Hoje utilizo a mesma estratégia com os livros do filósofo Friedrich Nietzsche.

Abro aleatoriamente uma página do livro Humano, demasiado humano II, em uma edição recente, de bolso, da Companhia das Letras, tradução de Paulo César de Souza. No topo da página 117, um aforismo, de número 348, me chama a atenção:

Da terra dos canibais. – Na solidão o solitário devora a si mesmo, na multidão o devoram muitos. Agora escolha.”

Há que se levar em conta, primeiramente, a palavra “canibal”: um ser vivo que come um outro ser da mesma espécie. Quando se refere à espécie humana, a palavra adequada é antropófago. Em muitas culturas, é um ritual com intuito de obter o poder, a virilidade, a inteligência, a coragem do inimigo. Os covardes não são devorados.

No aforismo de Nietzsche, no entanto, a expressão é figurativa e nos põe num dilema quanto à solidão do indivíduo: se está só, ele se devora, acaba consigo mesmo pelo sofrimento. Se está em meio a muitas pessoas, elas que acabam com ele, pois a convivência em sociedade nos expõe a muitos perigos. É uma leitura possível, a mais óbvia, talvez.

O filósofo me sugere que faça uma escolha. Penso que optar pela solidão, reclusão, introspecção, é o caminho mais instigante. Mas veja, não digo viver só, visto que ter uma família e amigos é fundamental para o ser humano. Ter alguns momentos de solidão, porém, é necessário. Nesse sentido, ao se devorar, lembro da Esfinge que desafiava Édipo na mitologia grega: decifra-me ou te devoro. É uma metáfora para a busca do conhecimento. Na solidão, busco a leitura de um bom livro, bebo as letras que se derramam do papel, devoro suas páginas e com isso me alimento intelectualmente. Mais tarde regurgito em formas de reflexões escritas. Às vezes, as compartilho com outras pessoas nas páginas dos jornais ou da internet.

Nesse momento vem a multidão. Quando expõe uma opinião elaborada e reelaborada na solidão de sua biblioteca, o escritor corre o risco de ser devorado por uma massa com fome não de conhecimento, mas de destruir conhecimento. São aqueles não podem encontrar um indivíduo que possa eventualmente saber mais do que eles, ou que possa pelo menos sustentar, através de leituras, o que pensa: partem logo para os xingamentos, para a ofensa, para a condenação, para a rotulação. O interessante é que tentam destruir o indivíduo com pouquíssimas palavras, muitas vezes pré-fabricadas. Imaginam que com isso tornam-se mais inteligentes.

O escritor (cronista, articulista, colunista) acaba escolhendo, no dilema proposto pelo filósofo, ser devorado. Ele é a Esfinge que propõe enigmas. O bom leitor é o Édipo, que os decifra. Quando encontrar um Édipo, a Esfinge pode-se atirar no abismo.


sábado, novembro 18, 2017

A intrusa: um romance quase dispensável


Por compromisso profissional, li em pouco dias o romance A intrusa, de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), numa edição em PDF do site Domínio Público, do MEC. Além de ler a obra devido a sua inclusão na lista de leituras obrigatórias de um vestibular (em cima da hora, diga-se, com pouco tempo para os candidatos se prepararem), tinha curiosidade de conhecer a obra da escritora, tendo em vista elogios de críticos como Wilson Martins e Rodrigo Gurgel. A maioria dos estudiosos de literatura, porém, ignoraram sua existência. Ela não consta em livros essenciais da história da literatura brasileira. Ou seja, não está no cânone literário do nosso país.

Ao ler os dados biográficos de Júlia Lopes de Almeida, destaca-se o fato de ela ter sido uma intelectual influente no final do século XIX, tendo inclusive participado do grupo que discutiu a existência da Academia Brasileira de Letras. Não levou nenhuma cadeira, porém, pelo fato de decidirem seguir o modelo francês e fundar uma instituição exclusivamente masculina. Para o seu lugar, foi o escolhido o próprio marido, o poeta português Filinto de Almeida.
Isso já bastaria, claro, para os adeptos do politicamente correto e as feministas tentarem resgatar a obra da autora. Pesa ainda o fato de constarem no nosso cânone escritores da mesma época que podem ser avaliados como medíocres. Rodrigo Gurgel, em seu livro Esquecidos e Superestimados, cita os exemplos de Adolfo Caminha e Franklin Távora, ressaltando que Júlia Lopes de Almeida não deveria ser esquecida, pelo menos devido ao romance A falecida, analisado pelo crítico, e que ainda não li.

A intrusa, no entanto, traz, no meu ponto de vista, claro, um enredo inverossímil e bobo. Os personagens são patéticos, propositalmente, talvez, porém não me convenceram. No final do século XIX, o advogado Argemiro Cláudio de Menezes é um viúvo que prometeu a esposa, no seu leito de morte, que jamais se casaria com outra mulher. A filha pequena do casal, Maria da Glória, fica com os avós maternos, um barão e uma baronesa, morando numa chácara no subúrbio do Rio de Janeiro e ele só a vê esporadicamente. Na tentativa de se aproximar da menina, decide contratar uma governanta para cuidá-la. Publica um anúncio de jornal, porém impõe uma condição: que ele nunca veja o rosto da contratada. Quem aparece para a entrevista é Alice Galba, com um véu escondendo suas feições. Ela começa a trabalhar rapidamente e agrada ao patrão pelo zelo na administração da casa e pela forma como educa a menina, inclusive modificando seu comportamento mimado. Por outro lado, Alice provoca inveja do empregado negro, Feliciano, que agora não pode mais desviar dinheiro do patrão (a propósito, há estudos que apontam rastros de racismo nas obras da escritora) e principalmente da avó, Luiza, por sentir que a intrusa estava substituindo-a na preferência de sua neta e por medo de que a governanta fizesse o genro quebrar a promessa.

São cansativos os acessos de ciúmes da avó, assim como a apatia do avô, a ingenuidade do protagonista, a mudança brusca de comportamento da menina (influenciada por um discurso moralista e de caridade de Alice), a mudez da governanta e suas escapadas dentro de casa para não ser vista por Argemiro, sem falar do padre Assunção, que vestiu a batina porque perdera seu amor, que no final é revelado ter sido a mulher de Argemiro (apesar de ser previsível o fato desde a metade do romance, assim como é previsível o casamento do advogado e a intrusa).

Quando estava lendo o romance, destaquei alguns trechos e postei nas redes sociais, como costumo fazer quando gosto de alguma coisa. São conselhos de uma personagem que quase salva o romance de torná-lo dispensável (vale destacar ainda como ponto positivo a maestria de Júlia Lopes de Almeida na criação de diálogos, visto que também foi dramaturga). Conhecida como A Pedrosa, tenta a todo custo arrumar um bom casamento para a filha. Em determinada altura, afirma: “– Infelizmente, no mundo só os espertos alcançam bom lugar. Quem não tiver cotovelos, não se meta nas multidões...” E arremata: “– Filhinha, assim como devemos procurar certas relações, devemos evitar outras...”


Acrescento que, assim como devemos procurar ler certos livros, devemos evitar os outros. Talvez A intrusa devesse ser evitado, não fosse a necessidade de pontuar no vestibular.

sábado, novembro 11, 2017

Minha resenha no Caderno de Sábado do Correio do Povo


Criar é transgredir

O artista é um transgressor por excelência, mesmo se não está transgredindo. O simples fato de não fazer nada pode ser uma transgressão. Se esperam algo dele e ele não o faz, está transgredindo. Penso nisso quando vejo uma patrulha que espera uma posição do artista em meio a questões políticas e ele se furta a participar, opinar. “Alienado!”, gritam os inquisidores das redes sociais. Ou “fascista!”, “comunista!”, “coxinha!”, “mortadela!”, se o seu silêncio for interpretado como adesão a um lado da peleia ou se ele muda de posição.

Paulo Ribeiro é um transgressor em vários sentidos. Sua obra é prova disso, bem como suas posições ideológicas declaradas. Recentemente, rompeu com o PT, do qual era filiado, em meio às reiteradas denúncias de corrupção. Decepcionou-se justamente porque não viu mais na sigla a transgressão que a firmava como o partido dos transgressores, muito menos dos trabalhadores. Os petistas traíram os transgressores (e os trabalhadores) ao se adaptar ao sistema a que tanto combatiam.

Paulo Ribeiro também é um transgressor porque, enquanto os profissionais de ensino buscam uma posição que os valorize financeiramente, resolveu deixar de lecionar na Universidade de Caxias do Sul para se dedicar à literatura. Quer maior exemplo de transgressão?

Transgressores também são os personagens de seu mais recente livro, um conjunto de contos longos intitulado, claro, O transgressor (Kotter/Ateliê Editorial), em que pese nenhuma das narrativas ter esse título. Todas têm, entretanto, algum modo de transgredir.

O primeiro conto é “Cacambo”. Quando o protagonista, Ricardo, era estudante, a professora o considerava parecido com o empregado de Cândido, da novela de Voltaire, e o apelido pegou entre os colegas. Cada capítulo dessa narrativa é denominado “Planilha”, com os subtítulos “lançamento e saldo”, referências ao trabalho de Ricardo como datilógrafo em um escritório. Mas também se refere ao Caixa 2 das propinas delatadas na Operação Lava-Jato, na qual seu chefe está envolvido. É o conto que mais bate na questão da corrupção e na curva em declive praticada pela esquerda nos último anos. Seu chefe, diga-se, também se chama Cândido e acha que vivemos no melhor dos mundos possíveis (para ele, claro): “— Tudo está bem. O Brasil é um Eldorado”, diz ao empregado. A transgressão do personagens, está, entre outras coisas, relacionada ao fato de ele vencer várias dificuldades, apesar de ser ingênuo e ser “filho de uma mãe solteira, analfabeta, lavadeira de pratos em hotel” e que também se prostituía.
Em “Lazarus”, temos a figura do artista atormentando, mais precisamente um pintor. Leitor de Schopenhauer, reflete sobre a idealização do objeto artístico: “A pura contemplação. Eu não quero, eu, homem-pintor, cobiçar a passista da Mangueira, suas coxas rijas, malhadas, sua bunda proeminente a me idiotizar. Eu só quero esta passista afortunadamente em minha ideia, eu quero o pleno conhecimento do seu corpo modelar. A terei em meu domínio, a terei em minha paleta, a terei em minha tela em branco e pincéis aptos para o meu lograr.” Na parte intitulada “Telas”, descreve os óleos sobre telas que pinta, e aqui a escrita competente de Paulo Ribeiro nos faz visualizar as pinturas, entre elas, uma denominada “Propineiros”: “(...)Dou-me por satisfeito e lavo os pincéis. Minhas figuras, a propósito, estão também ali a lavar.” Bem sabemos o que elas lavam.

“Os pássaros de Ícaro”, por sua vez, beira o fantástico e nos lembra a telenovela “Saramandaia”. Numa cidade chamada Oaio do Sul, em homenagem à cidade americana, um ser com asas cai na torre da igreja. Esse ser é Ícaro, transgressor por excelência, tendo em vista que, de acordo com a mitologia grega, voou alto com suas asas de cera, desobedecendo a orientação de seu pai. Querendo aproveitar-se eleitoralmente da situação, o prefeito Gordon (boa parte dos personagens tem nome americano) cria um plano mirabolante. A elaboração da linguagem do conto é importante, principalmente quando dá voz aos moradores, cujo vocabulário necessita de um glossário no final, principalmente para quem não mora no interior do Rio Grande do Sul.

Chegamos depois a outra narrativa, “As mãos trêmulas do aeiou”, cujo espaço temporal percorre dos anos 40 aos 70, começando com um professor de português numa pequena cidade, Usina de Touros, até desembocar nas mulheres (suas ex-alunas), que lutam contra a repressão. “Em ditaduras militares, merda, mijo e vômito vira uma areia movediça aos pés acostumados aos regimes democráticos. Quanto mais se mexe, mais afunda na merda, no mijo, no vômito. Urubus ali não sobrevoavam. Nem aos urubus apetecia aquele caldo bárbaro e fedorento.”

“O cabelo de Dalila” fecha o livro, numa tour de parágrafos fragmentários e rápidos, em que um escritor fala sobre Dalila, mas também sobre sua criação literária, um romance sobre duas famílias e sobre ele mesmo, que tenta escrever: “O livro não anda, tchê! Oigalê!, que é coisa difícil este tal de romance! Um escritor maragato. Um escritor de lenço colorado, as botas fedendo a esterco, e buscando o referencial lá num irlandês.”


Vale ressaltar a inventividade de Paulo Ribeiro, transgressor por trabalhar com as palavras além de apenas contar histórias, transgressor por ser verdadeiramente um escritor que valoriza o leitor inteligente, enquanto muitos escrevinhadores buscam apenas “likes” nas redes sociais. Que este período dedicado exclusivamente à literatura nos traga outros bons livros como este.

segunda-feira, outubro 16, 2017

A insustentável leveza de ler (porque gosto de fazer trocadilho com títulos, deu pra perceber?)

Ler Milan Kundera é uma aventura estética, em que a escrita cuidadosa, numa mistura de ficção e ensaio, ao mesmo tempo que nos transporta para uma situação política complicada e descreve relacionamentos amorosos tão conturbados quanto à situação do seu país, também nos faz refletir sobre temas universais, tanto do mundo das artes quanto do mundo das pessoas.

Não sei por que razão ainda eu não havia lido A insustentável leveza do ser. Receio pela obra ter se tornado um best-seller? Talvez. Sua reedição pela Companhia das Letras, com tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, em mais uma bela edição de capa dura, num projeto gráfico que dá uma cara particular para as publicações do autor por aqui, me fizeram preencher essa inexplicável lacuna.

“O acaso tem suas mágicas”, escreve o narrador. E pelas forças do acaso é que se cruzam os caminhos de quatro personagens: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. O primeiro é médico e solteiro, mas que se relaciona com muitas mulheres. Ele e Sabina, uma pintora, se encontram regularmente, sem compromisso maior a não ser desenvolver seus jogos eróticos. Certo dia, encontra Tereza, que trabalhava em um bar, mas que nutre o sonho de ser fotógrafa. Ela se encanta por vê-lo lendo um livro.

“Nesse café ninguém jamais abrira um livro sobre a mesa. Para Tereza, o livro era o sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta. Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros (...).”

Mais tarde, vão morar juntos, enquanto Sabina se torna apenas a melhor amiga de ambos. Mais tarde, ela se envolve com Franz, um professor casado e os dois se apaixonam. Sabina é quem personifica o título do romance.

“O drama de uma vida pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixar um homem porque quis deixá-lo. [Refere-se a Franz.] Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? Não. Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.”

Boa parte das ações se passa na cidade de Praga, com escalas em Zurique, em Paris e na fronteira do Camboja. A invasão da russa comunista na antiga Tchecoslováquia e a tensão vivida entre intelectuais e artistas são a bigorna política do enredo que pesa sobre os personagens. Vale lembrar que Milan Kundera teve que sair do país devido a seu posicionamento contrário ao totalitarismo soviético, indo morar na França em 1975.

Em entrevista à Paris Review, Kundera diz que “as vigas de A insustentável leveza do ser são: peso, leveza, a alma, o corpo, a grande marcha, merda, kitsch, compaixão, vertigem, força e fraqueza”. As reflexões sobre os temas a que essas palavras se referem reivindicam o caráter filosófico do romance, que abre justamente com uma reflexão do “eterno retorno” de Nietzsche. Questões existenciais e políticas, o sexo, o amor, o engajamento, o medo, a farsa ideológica, fazem da narrativa aquilo que o próprio autor denominou, em A arte do romance, como “apelo do pensamento”, “fazer do romance a suprema síntese intelectual”. 

sábado, outubro 14, 2017

Meu artigo sobre censura nas artes publicado no jornal Gazeta do Sul


Arte vista por todos os lados

Nas últimas semanas, a arte vem sendo debatida e valorizada nos meios de comunicação. SQN, como escrevem os jovens nas redes sociais. Na realidade, sob o manto da defesa da liberdade de expressão artística ou da moral e dos bons costumes se esconde uma polarização política que vem se acentuando depois das eleições de 2014. A arte ganha alguma coisa com isso?
Arte não "tem que ser", ela simplesmente "é". Não tem que ser transgressora, não tem que ser do contra, não tem que respeitar a moral, não tem que limitar seus temas. A arte é um trabalho elaborado com as linguagens, sejam elas as palavras, a expressão corporal, o desenho, as cores, as imagens, as notas musicais, etc., com o intuito de despertar os sentidos do apreciador. É o que chamamos de "estética" (do grego "aisthesis", que significa "faculdade de sentir"), por isso a relação com a beleza, sendo que o belo não é necessariamente algo "bonito" na arte. O feio pode ter beleza estética.
Dizer, então, que algo não é arte é uma questão complicada. O que se pode é criticar, dizer se a arte é boa ou não, a partir de critérios de quem conhece o tipo de arte que se queira praticar. Eu, por exemplo, não tenho o conhecimento necessário para dizer que a performance "La Bête", exposta no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em que um homem nu tem seu corpo tocado pelas pessoas, é arte, muito menos se tem qualidade. Como apreciador de arte, porém, posso não gostar dela, posso achá-la desprezível por ter sido exposta a uma criança de 5 anos. Mas posso protestar para que ela não exista?
Da mesma forma, meus conhecimentos para decretar se um filme é bom ou ruim são limitados. Não posso dizer que o documentário "O jardim das aflições", sobre o professor de filosofia Olavo de Carvalho, é uma boa obra cinematográfica. Como apreciador, no entanto, tenho o direito de não gostar dela, de desprezar seu personagem. Mas posso impedir que ela seja exibida?
Citei dois exemplos de obras execradas tanto pelos ideólogos da direita, quanto pelos ideólogos da esquerda. O que há em comum é o ódio com que os protestos são levados adiante, inclusive com pedidos que podem sugerir censura. Vejamos outros casos.
A diretora Daniela Thomas foi duramente criticada num debate após a exibição do seu filme "Vazante", no Festival de Brasília deste ano, e um crítico chegou a dizer que o filme não deveria ser lançado, pois ela é branca e a obra, mesmo sendo um retrato da escravidão no Brasil, não agradou a militantes do movimento negro que estavam na plateia. No Santander Cultural em Porto Alegre, militantes do MBL protestaram a favor do fechamento da exposição "Queermuseu", visto que obras artísticas que sugerem várias formas de relações sexuais estavam sendo vistas por crianças. No ano passado, o ator Cláudio Botelho foi impedido pelo público de continuar o espetáculo teatral baseado em músicas de Chico Buarque porque criticou no palco a então presidente Dilma. Como se não bastasse, depois o próprio compositor proibiu o ator de continuar realizando a peça, o mesmo compositor, diga-se, que foi censurado durante a ditadura e tem sua obra criticada hoje porque defende a esquerda. O mesmo que deseja a censura de biografias junto com seu amigo Caetano Veloso, que hoje encabeça um protesto de artistas justamente contra a censura. Vai entender essa gente.   

No meio desse fogo cruzado, a arte vira apenas pretexto para discussão política e deixa de ser simplesmente arte. Particularmente, gosto da arte que não tenha lado, mas que possa ser olhada, apreciada e criticada por todos os lados. E que nos inquiete, que nos tire o sono. E, convenhamos, as formas que foram citadas neste artigo não conseguiram tirar o sono de muitos?  

sexta-feira, outubro 13, 2017

Vamos falar sobre suicídio?: Crônicas e ensaios sobre a morte voluntária na literatura


Publiquei na Amazon um e-book, em versão para Kindle, uma reunião de artigos, crônicas, resenhas ensaios em que aparece a questão do suicídio, sempre relacionado, como não poderia deixar de ser, à literatura. Os textos já foram publicados aqui, em sites e em jornais em que colaboro.

"Crônicas e ensaios que tratam sobre o suicídio, principalmente na literatura: sobre obras que tematizam a morte voluntária ou sobre artistas que decidiram tirar suas vidas. Falar sobre o assunto tão impactante é uma forma de prevenção e isso pode ser feito de uma forma até bem-humorada. Cassionei Niches Petry não se furta em abordar o tema em suas obras, tanto nestes textos, quanto nos livros de contos ("Arranhões e outras feridas" e "Cacos e outros pedaços") e no romance ("Os óculos de Paula") que publicou. Não deixar de refletir sobre o suicídio é uma forma de jamais cometê-lo."

Para ler não é necessário um Kindle. Basta baixar os aplicativos para PC, tablet ou celular. A versão impressa está disponível apenas na Amazon americana.



quarta-feira, outubro 11, 2017

Notas de Cassionei Petry, professor (a respeito de Sant'Anna)


Sérgio Sant'Anna vem desde 1969, com O sobrevivente, realizando uma literatura de alto nível, sem deslizes, diferentemente de muitos autores de sua geração, que não conseguem manter a mesma pegada. Anjo noturno, recém lançado pela Companhia das Letras, traz um conjunto de narrativas (termo que ele prefere no lugar de contos) em que mais uma vez o diálogo com diferentes tipos de arte (pintura, artes plásticas, teatro, música e, por que não, a TV)  unidade aos enredos, além do tom memorialístico. 
Em "Augusta", o primeiro conto, um professor universitário se aproxima de uma produtora musical em uma festa no Rio de Janeiro. Vão depois para a casa dela, onde um quadro pintado pelo antigo morador que se suicidou (o suicídio é um tema recorrente na obra) atrai a atenção dele"uma mulher nua retratada frontalmente, mas com as pernas fechadas, de maneira que o seu sexo não se exibe ostensiva ou vulgarmente". Na altura de um dos seios, uma perfuração feita com faca pelo autor, como se quisesse matar a mulher retratada. A escolha deste conto como abertura do livro é um convite do escritor, como se dissesse: "entre nesta obra de arte, caro leitor, mas por sua conta e risco. Nela estão minhas feridas abertas". 
 "Um conto límpido e obscuro" tem a artes plásticas como tema, visto que o narrador recebe em sua casa uma artista, com quem havia tido um relacionamento, que vem mostrar a ele alguns projetos de instalações, um deles denominado "Menina rezando em uma cama" (e o autor nos informa em uma nota de rodapé que é uma obra de Cristina Salgado, que realmente existe). Aqui temos o desejo de algo fantasioso transformar-se em real, visto que o narrador, através das palavras, tenta materializar o sonho de ter de volta a mulher. 
A terceira narrativa, "Talk show", é a mais divertida, plena de peripécias. Traz à tona a questão da espetacularização do escritor ou a necessidade que ele tem de aparecer para vender, mesmo que ele não queira e prefira viver no isolamento. Célio Andrade é convidado para falar sobre a sua obra literária no programa de TV que Edwina Sampaio apresenta em um canal por assinatura. Pelas características, percebemos que a personagem é inspirada na Hebe Camargo (por exemplo, "é divina" e Hebe, deusa grega da juventude, saca?) e é difícil não ver na figura do escritor o próprio Sérgio Sant'Anna. Célio afirma à apresentadora: "a libido, nem que seja verbal, está presente em todos os meus livros". E é, realmente, um assunto constante na obra de Sant'Anna, inclusive neste Anjo noturno. O título do livro, diga-se, vem desse conto. Uma das atrações do programa de Edwina é uma cantora que está caindo no esquecimento e enfrenta problemas com a bebida. Chegando atrasada, mas a tempo de cantar uma música, cujos versos iniciais são estes:
"Sou anjo 
Noturno 
Sombra perdida 
Pairando nas trevas". 
Os próximos três contos são autobiográficos, memorialísticos, tendência dos últimos livros de Sérgio Sant'Anna. Pelo menos aqui aparecem os nomes reais das personagens, inclusive de Sônia, sua irmã, que também é escritora. Curiosamente, o nome do irmão não aparece. São relatos de um lirismo comovente por um lado, no caso de "A mãe" e "A rua e a casa", e de outro conduzidos por uma perspectiva política, que é o caso de "Amigos", pois boa parte do conto é sobre o início da ditadura militar no país. 
Depois de uma pequena reflexão sobre o pensamento e de uma narrativa em forma de texto de teatro, do qual não gostei muito, o livro fecha muito bem com um tipo de texto costumeiro do autor, quando experimenta a metalinguagem, mais precisamente o "metaconto", refletindo sobre a criação de narrativas, na linha de "Conto (não conto)" e "Estudo para um conto", de obras anteriores. Em "O conto fracassado", o narrador fala sobre um contista que tenta escrever vários enredos, todos fracassados, uma série de histórias que poderiam ter sido e que não foram, para citar de forma distante Manuel Bandeira, que escreveu "Meu último poema", talvez inspiração para o contista. 
"O conto fracassado era híbrido, não tinha um enredo preciso, porque havia pretensões do autor de abarcar vários enredos possíveis. Havia um desejo de salvação pela palavra, de uma procura errática e musical que contivesse múltiplos significados e, por outro lado, um desejo de clareza e precisão." 
Sérgio Sant'Anna, por sua vez, não fracassa. Vem empilhando nos últimos anos pequenas obras-primas como se estivesse em plenos anos 70, época de sua melhor obra, na minha modesta opinião: Notas de Manfredo Rangel repórter (a respeito de Kramer). Num dos contos desse livro de 1973, o narrador escreve sobre os personagens: "Eles se encontram ali, numa página qualquer de um livro empoeirado, na expectativa de um leitor que os leia". Esperemos que Anjo noturno encontre muitos leitores. E que as notas escritas por este professor ajudem no intento.