Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

Quando a telenovela nos leva a um bom contista

Meu primeiro contato com os personagens de Aníbal Machado se deu através de uma novela de televisão, “Felicidade”, de 1991, no horário das 6, antes da novela das 7 “Vamp”, que era a preferida daquele pré-adolescente de 12 anos que sonhava em ser escritor. Chico Treva era o que mais me chamava a atenção. Pois foi nos créditos que me lembro de ter visto que a história era baseada na obra do escritor mineiro. Encontrei, para minha sorte, na biblioteca da minha escola, um exemplar dos seus contos, reunidos em A morte da porta-estandarte e outras histórias, da maravilhosa coleção “Sagarana” da José Olympio Editora, e fui apresentado a um grade contista. Pensando bem, acho que isso foi na reprise de 1998. Reli alguns dos contos por estes dias, visto que estou seguindo, em ordem cronológica, uma lista de contistas que consta nos apêndices do livro Conto moderno contemporâneo, de Antonio Hohfeldt. Reli, por enquanto, apenas os cinco contos de Vila Feliz, de 1944 (na capa original consta como n…

O suicídio é...

... o assunto do momento por causa da série "Os 13 porquês" e do tal do jogo da Baleia Azul (um boato com um quê de verdade). "Enquanto refletimos sobre o suicídio, não o cometemos", escrevo neste pequeno ensaio que escrevi sobre o tema relacionado à literatura, que já foi citado em outros ensaios acadêmicos. Talvez escreva algo neste feriadão. https://online.unisc.br/…/inde…/signo/article/view/2326/2002

Resenhas sobre obras de Machado de Assis - II

De louco todos temos um pouco
Na capa de O alienista, numa antiga edição da editora Ática, o dedo acusador do personagem principal aponta para o leitor como se dissesse: “você é o louco; é você que quero prender nessa casa.” É o que acontece com a leitura desse conto longo, quase uma novela, a qual coloco ao lado de outras “pequenas grandes” obras da literatura universal, como A metamorfose, de Kafka; A morte de Ivan Ilich, de Tolstói; A volta do parafuso, de Henry James; Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Stevenson e Bartleby,o escrivão, de Melville. Machado de Assis, nosso maior escritor, nos prende na sua narrativa e deixa uma dúvida no ar: será que somos loucos também? O conto, publicado primeiramente na coletânea Papéis avulsos, de 1882, relata a história de Simão Bacamarte, médico psiquiatra que ergue, na pequena cidade de Itaguaí do século XIX, um hospício que recebe o nome de Casa Verde, com intuito de estudar as causas e sintomas dos problemas mentais. Recolhe uma e outra pessoa, até qu…

Nélida Piñon mostra suas armas

Os contos de Sala de armas (Editora Record, 124 páginas, esgotado) nos mostra uma autora de leitura difícil, complexa, que mais sugere do que conta. Porém, se o leitor for paciente e participativo, desfrutará de uma ótima obra literária, repleta de relações intertextuais, principalmente com a mitologia. Como um personagem do cruel conto “Sangue esclarecido”, Nélida Piñon abre a porta e nos convida, como animais sedentos que sentem o cheiro da presa, a participar desse festim. Boa parte dos enredos giram em torno de relacionamentos. Homens e mulheres, quase sempre não nomeados, encaram um mundo duro, de desencontros e conflitos, de perdas e incertezas. No primeiro conto, “Ave de paraíso”, a mulher recebe visitas do homem, oferecendo-lhe “torta de chocolate e licor de pera, as frutas colhidas na horta”. O relacionamento se mantém durante muito tempo dessa forma, até que se casam, mas ele continua não morando com ela, causando, claro, estranhamento entre parentes e vizinhos, a mulher send…

Prefiro lista de livros

O ser humano adora listas. Qualquer tipo de lista. Há obras literárias que tratam do tema. Lembro-me agora, de cabeça, de dois livros: A vertigem das listas, de Umberto Eco, e Alta fidelidade, de Nick Hornby, romance adaptado para o cinema. Há, também, um conto originalíssimo de Woody Allen, na coletânea Cuca fundida, em que o narrador analisa a publicação póstuma de listas de roupas para a lavanderia elaboradas por um escritor, algo do tipo “diga-me que roupas tens para lavar, que te direi quem és”. Eu, por exemplo, faço muitas listas, principalmente relacionadas aos livros: livros que li (nome, aliás, do blog do excelente leitor Aguinaldo Severino), livros que desejo ler, livros que deixei de ler, livros que não quero ler, livros sobre suicídio, das pessoas para quem devo mandar o PDF do meu último livro, das pessoas que compraram meu livro, das pessoas que querem comprar meu livro, das pessoas que dizem que querem comprar meu livro, mas se escapam quando pergunto “quando?”, etc. A li…

Essa terra não tem dono

Sempre que encontro em sebos uma edição da Coleção Nosso Tempo, da Editora Ática, organizada por Jiro Takahashi nos anos 70, não penso duas vezes em adquiri-la. Somente as capas elaboradas por Elifas Andriato (cujas ilustrações também estampavam capas e encartes de LPs da MPB) valem muito artisticamente. A capa de Essa terra, de Antônio Torres, me chamou a atenção em uma de minhas garimpagens em sebos (ou num balaio de feira do livro?) já faz mais de 15 anos. Nela, um homem com a boca aberta, língua para fora e uma grossa corda amarrada ao pescoço. O suicídio, como sabem meus poucos leitores, é meu tema obsessivo. Acabei relendo há pouco o romance nessa edição que ainda tenho, mas há uma mais recente pela Record. Narra, em sua primeira parte intitulada “Essa terra me chama”, a volta de Nelo à cidade de Junco, interior da Bahia, depois de 20 anos morando em São Paulo, um dos tantos retirantes que tenta a sorte na cidade grande. Seu irmão, Totonhim, é quem narra essa volta, ele que foi o…

Mistério no Acre

(Fonte da imagem: G1) O caso do jovem estudante desaparecido no Acre é uma história maluca, que nos deixa com uma leve desconfiança de que há uma jogada de marketing em curso. Para quem ainda não conhece a história, o estudante de Psicologia Bruno Borges desapareceu de sua casa, no Acre, no dia 27 de março, deixando, para surpresa (será?) dos pais que voltaram de uma viagem de férias, seu quarto com as paredes repletas de símbolos e escritos codificados, tudo de forma bem organizada, nada caótico, bem como 15 livros encadernados igualmente em código, além de uma estátua do filósofo Giordano Bruno. Não havia quase nenhum móvel no cômodo, sequer uma cama, de acordo com as imagens divulgadas. O que se sabe é que ele trabalhava em um projeto que visava o bem da humanidade e buscava um financiamento para tanto, obtido em parte por um tio. Difundida a história através das internet, parte do material deixado foi decodificado, e não trouxe, no meu ponto de vista, nada de genial como alguns prec…

Como se fôssemos marionetes de mulheres

Elvira Vigna é uma das grandes narradoras no panorama atual da nossa literatura. Seu estilo é original, formado por frases curtas, com ideias que às vezes se interrompem, retornam ou ficam mesmo incompletas, cabendo ao leitor preencher as lacunas. No seu último romance, fiquei incomodado com as mudanças de parágrafos, que se tornam curtos, formados em alguns trechos por frases umas sob as outras, mais parecendo conjuntos de versos. Na prosa, isso faz com que a leitura seja rápida. Apressada. Não gosto disso. Dá para perceber? Por isso, pensei muitas vezes em largar o romance. Mas fui em frente. Pois é um romance de Elvira Vigna. E gostei dos outros romances dela. Como se estivéssemos em palimpsesto de putas (Companhia das Letras, 216 páginas, disponível também em e-book) é um título que já permite fazer algumas intepretações e acaba conduzindo, influenciando nossa leitura. Palimpsesto, segundo o dicionário Houaiss, é “um pergaminho cujo texto foi escrito em cima do outro que fora raspado”. …

7 coisas que aprendi

Participo da série de depoimentos de escritores no site do Escriba Encapuzado: 7 coisas que aprendi.
http://www.escribaencapuzado.com.br/2017/04/7-coisas-cassionei-niches-petry/

O gozo do assassino

“A vida se transformara em viver as ilusões alheias”, diz o narrador do conto “Não morto, apenas dormindo”. Somos, a partir daí, transportados para mundo do ilusionista Gustavo Melo Czekster, vivenciando situações absurdas, diálogos insólitos, fatos estranhos. Não há amanhã(Editora Zouk, 160 páginas) é o segundo livros de contos do autor, porém não parece. A mão segura de Gustavo denota uma obra bem acabada, quase perfeita, de um sujeito extremamente experiente. Acontece que ele demorou para publicar essa nova obra, lapidando o texto. O resultado está aí. “O livro pede para ser aberto, sorvido”, diz o protagonista de “O silêncio”. Diferentemente do personagem, no entanto, não resisti a sua súplica, não contive a curiosidade e me arremessei, aderindo à seita descoberta pelo narrador de “Os que se arremessam”, formada por pessoas que se jogam na vida, literalmente falando: na frente de carros, do alto de um edifício, do alto de cachoeiras. O leitor, incauto, demora para perceber que tamb…

Com a espada no pescoço

Sherazade precisava contar histórias todos os dias, caso contrário seria morta pelo marido em As mil e uma noites. O paranaense Marcio Renato dos Santos parece ter a mesma sina, pois está publicando novas coletâneas de contos a cada ano. A alusão é inevitável, tendo em vista que o título de seu novo livro dialoga com o clássico árabe, que por sua vez empresta um trecho para a epígrafe da obra. Outras dezessete noites, lançado pela Tulipas Negras, de Curitiba, tem 120 páginas e é o 6º livro do autor. Diferentemente das outras coletâneas de Marcio Renato dos Santos, há pouca experimentação de linguagem nessa. A preocupação agora é realmente contar histórias que nos envolvam, no seduzam, nos prendam na leitura, apesar da curta extensão dos contos. Há personagens que são retomados na história seguinte, algumas vezes narrando sob outro ponto de vista os fatos, como o empresário japonês que assiste ao show de uma banda favorita em um bar, no conto “O voo de Ryouji”, e que depois aparece em “…

Bolaño para iniciados

Mais um texto meu lá na Revista Amálgama. Dessa vez, escrevi sobre mais um livro do baú de Roberto Bolaño: https://www.revistaamalgama.com.br/03/2017/resenha-o-espirito-da-ficcao-cientifica-roberto-bolano/.

O ventre, de Cony, e o suicídio assistido

Nascidos do mesmo ventre, um é mais estudioso, calado, comportado, enquanto o outro vai mal nos estudos e tem um comportamento inadequado de acordo com as normas paternas. Por isso é este é desprezado pela família, uma ovelha negra. Ele mesmo narra sua nada agradável situação. O amor não correspondido, o amigo que era o exemplo de safadezas e deixa de sê-lo, o irmão protegido pelos pais, o horrível internato. José Severo, o protagonista de O ventre (Editora Nova Fronteira, 208 páginas, também disponível em e-book) é um anti-herói à moda de Macunaíma, feio, desengonçado, alto e narigudo, pouco inteligente, mas esperto para certas coisas (com muitos zeros no boletim, mas “um seis em composição”). Carlos Heitor Cony estreou com esse romance em 1959. E estreou muito bem. O ventre aqui não é só o útero que gera a vida, mas também o abdome da vizinha do colégio pelo qual a mão do jovem passa até chegar aos pelos pubianos. O ventre que degenera. Apesar das brincadeiras com Helena no porão de …

"Cacos e outros pedaços" no Caderno de Sábado do Correio do Povo

O lançamento do meu livro na semana passada teve divulgação no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre.

Resenhas sobre obras de Machado de Assis - I

“Rabugens de pessimismo”
Apesar de assinar sempre como escritor os textos que publico no jornal ou na internet, não é essa a função que sustenta a minha família. Sou o claro exemplo do escriba amador, no sentido de não receber e também no de amar o que faz, sem esperar receber por isso. Acabei escolhendo como atividade profissional a de professor, principalmente de Literatura, para poder me manter e, ainda assim, continuar falando e escrevendo sobre livros. É essa profissão que me dá a satisfação de, quase todos os anos, ler e reler, quando a memória começa a falhar (e ela sempre falha), obras literárias fundamentais. Entre elas está Memórias póstumas de Brás Cubas, do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, publicada em 1881. Reli a obra em uma edição recente da Penguim/Companhia das Letras, com prefácio de Hélio de Seixas Guimarães e estabelecimento de texto e notas de Marta de Senna e Marcelo Diego. Edição caprichada, portanto, apesar da capa sem graça. Brás Cubas, que narra sua…

Hoje é o lançamento de "Cacos e outros pedaços"

Primeira resenha sobre "Cacos e outros pedaços"

Resenha de Romar Beling na Gazeta do Sul, mais precisamente no Caderno Mix, sobre o meu livro de contos “Cacos e outros pedaços” (Editora Penalux). Apenas uma correção na matéria: o livro custa R$ 34,00.


"Somos filhos de Machado de Assis"

Quem é mesmo massa de manobra?

O escritor e seu pai

Relutei um pouco em reler A invenção da solidão, de Paul Auster (Companha das Letras, 200 páginas, tradução de Rubens Figueiredo), já que sabia que um de seus temas é a relação paterna e que a narrativa se iniciava com a morte do pai do autor. Meu pai morreu há pouco tempo e, como Auster, também tive que “entrar na mente do meu pai”, no meu caso revirar sua marcenaria, seu canto de trabalho, enquanto o escritor teve que mexer na casa paterna. Nossos pais morreram com idades próximas, 66 e 67, e já não viviam com suas primeiras esposas. O livro, além de tudo isso, nasce no ano em que nasci, 1979. Casualidades, que é, diga-se, outro tema da obra. A primeira parte é um ajuste de contas do escritor ainda em formação com o pai que recém-faleceu. Um pai que inventou sua solidão é “inventariado” pelo filho que inventou também a sua. Algo não resolvido entre os dois ganha uma tentativa de solução através da escrita, porém sem sucesso: “Houve uma ferida e agora me dou conta de que é muito profu…

As bacantes e o carnaval

(Fonte da imagem: https://mitologiasite.wordpress.com/2015/10/04/as-bacantes/) Andei relendo, durante as férias, as principais tragédias gregas, seguindo a ordem proposta pelo guia de Pascal Thiercy editado pela L&PM. Depois de ler as biografias de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles, comecei com a apreciação de As bacantes, na tradução de Mário da Gama Cury, em volume editado pela Jorge Zahar Editora. Pode-se dizer que a obra é uma ode ao vinho e ao seu deus Dionísio, que recebe o nome de Baco na mitologia romana. “De fato, sem o vinho onde haveria amor? Que encanto restaria aos homens infelizes?”
Também conhecida como As mênades, a tragédia foi escrita por Eurípedes entre 408 e 407 a.C. Fala sobre a punição de Dionísio imposta a seu primo Penteu, rei de Tebas, e sua tia, Agave, por terem desonrado o nome da mãe desse deus, Sêmele (suas irmãs a difamaram, dizendo que ela teria mentido ao dizer que havia gerado Dionísio a partir de uma relação com Zeus), e também por não prestarem o culto …

Meu artigo no jornal Zero Hora

Um balde de cólera

Há escritores que param de escrever, se isolam, não querem mais saber do mundo ao seu redor. Confesso que os invejo por poderem fazer isso. Foi esta a escolha de Raduan Nassar até há pouco tempo, quando resolveu voltar aos holofotes não para escrever literatura, mas sim para defender o governo Dilma e reforçar o chavão do “golpe”. Com uma obra curta, porém consolidada, sendo o romance Lavoura Arcaica sua obra-prima, foi indicado, ainda durante o período petista, a receber o Prêmio Camões de Literatura, curiosamente logo depois de sair do seu isolamento. Apesar de não concordar com a escolha, justamente por ele ter desprezado a literatura durante todo este tempo e de ter outros bons autores ainda em atividade na fila, ainda assim é merecido. Poderia até ter feito como o angolano Luandino Vieira, que em 2006 recusou o prêmio alegando não ter publicado nada há anos, no entanto não o fez, o que é compreensível. O problema maior foi o discurso realizado durante a entrega do galardão no dia …

Que alunos queremos formar?

Meu texto no jornal Gazeta do Sul de hoje. Se por um lado há certas forças que tentam transformar a educação apenas em preparação para o trabalho, ou pior, em mão de obra barata para o mercado, por outro há forças que querem a educação formando apenas cidadãos críticos, na verdade massa de manobra de políticos, intelectuais e sindicatos. Ambos os lados não se preocupam com o ensino, com conhecimento, com cultura. Importa é utilizar na prática o que o aluno aprendeu em sala de aula. Sempre que ideologias, seja de direita seja de esquerda, impõem suas visões de mundo no âmbito escolar, a educação não decola. Como são as ideologias que comandam o mundo, o avião permanece na pista do aeroporto esperando reparos, ainda muito longe de levantar voo. Vez ou outra ele parte, mas precisa descer logo em outro aeroporto ou voltar para o anterior, pois o combustível não foi suficiente, questão de corte de gastos, sabem como é. Avião novo, nem pensar, tendo em vista que é necessário seguir modelos já…

Entrevista com Cassionei N. Petry sobre "Cacos e outros pedaços", Editora Penalux

Quem resiste à boa literatura?

Resisti um pouco a começar a ler A resistência (Companhia das Letras, 144 páginas), de Julián Fuks, lançado em 2015, porque alguém dissera que era um romance panfletário, defendendo uma esquerda caduca dos anos 70 na América Latina. Creio que até as entrevistas do autor me fizeram ter essa percepção equivocada. Literatura, entretanto, não deve ser panfleto, nem de esquerda e nem de direita, deve ficar em cima do muro, no bom sentido. O romance de Fuks, por seu turno, sobe em cima do muro pelo lado da esquerda e observa os lados se digladiando. A política, porém, é apenas um elemento do enredo. A resistência do título não é à ditadura apenas, mas à expressão de sentimentos. O narrador, Sebastián, parece sempre resistir a demonstrar o que sente pela família, principalmente em relação ao irmão, que é adotado. Aliás, era sobre o tema da adoção que o narrador queria escrever, mas até a isso ele resiste: “Queria escrever um livro que falasse de adoção, um livro com uma questão central, uma …