terça-feira, junho 30, 2015

O mais do mesmo do vampiro



Um escritor vampiro, um vampiro escritor. Quando ele morde o pescoço de um leitor, este vai adorá-lo incondicionalmente para o resto da vida. Não só o leitor comum, como também o editor, o crítico, o resenhista, o repórter do caderno cultural de algum jornal. Não importa se ele esteja apenas repetindo ad infinitum o que escreveu nas décadas passadas. Para as suas vítimas, ele nunca erra a mão.
Dalton Trevisan é considerado um dos nossos maiores contistas, ao lado do Rubem Fonseca, do Luiz Vilela, do Sérgio Santa’Anna, da Lygia Fagundes Telles e (complete com o seu favorito). Ele é realmente, não resta dúvida. Tudo que escreveu de bom, entretanto, foi até os anos 70, no máximo nos anos 80. Depois disso, apenas repetiu personagens e foi cada vez mais fazendo menos: menos palavras, menos histórias, menos brilho. Para piorar, revisa todas as reedições de seus bons contos com o intuito de enxugá-los, tirando os adornos, deixando apenas o dito essencial. As editoras reeditam os mesmos contos em livros diferentes, o que às vezes nem é notado pelos seus seguidores fiéis, afinal, é tudo a mesma coisa mesmo.
Seus discípulos, no entanto, mordidos pelo vampiro, que acabou de completar 90 anos, consideram que o mestre está certo, ele é brilhante na sua concisão, é impecável na construção de seus joões e marias, é inovador ao reescrever a própria obra. Ele é mesmo o melhor.
O último trabalho considerado inédito é o volume Beijo na nuca. Tente ler o primeiro conto, “A mão na pena”, e resumir o enredo. Não há enredo. Se não há enredo, não há história e se não há história não há conto. O que é esse texto então? Aforismo, reflexão filosófica, prosa poética? É-nos vendido como conto. É, no entanto, apenas uma carta de um apaixonado (“Daí escrevo-lhe estas mal traçadas linhas.”) para aquela que o deixou. Nada mais do que isso. Uma linguagem simples, algumas frases geniais, dignas do velho Trevisan (“Hoje que lanço a mão na pena, me diga se você já sentiu a picada de uma abelha-de-fogo. O beijo fatal na nuca.”) e é só. O que vai acontecer com os dois. Vai aqui aquele velho clichê de que o leitor deve construir o final?
No segundo “conto”, intitulado “Um dia”, um homem olha na janela o dia, o sol, as árvores e as flores e depois, e depois... nada. Nada. Não acontece nada. Como poesia em prosa, podemos reavaliar a crítica. A ficha catalográfica nos diz: conto brasileiro. Eu espero ler um conto, um miniconto que seja, pois nisso o Dalton Trevisan também já foi mestre. Mas não é. Estou mesmo decepcionado.
O terceiro texto, “Sinbad”, é lindo, maravilhoso. Não é, porém, conto. Estou sendo chato por querer uma classificação para o que vou ler, nesses tempos de pós-modernidade? Não sou contra experimentações linguísticas, afinal literatura é arte e arte é também experimentar, sair do mesmo. Vendam o texto, então, como tal. Não chamem de conto o que não é conto. Conto é narrativa e se vou ler uma narrativa espero uma narrativa.
Os demais “contos” seguem o mesmo diapasão. O mais do mesmo que é o menos continua. Mas sabe como é, vampiro é vampiro e, lá pelo sexto ou sétimo título começo a sentir um bafo na nuca. Alguns contos fazem efeito. Antes do beijo, fecho o livro e procuro na estante um antigo do autor, “Novelas nada exemplares”, numa edição ainda pouco fatiada. Leio e confirmo: o antigo vampiro era bem melhor!

segunda-feira, junho 22, 2015

Ode a Fernando Brant, ode aos criadores


Fernando Brant, grande letrista da MPB, morreu no dia 12 de junho, Dia dos Namorados. Talvez um casal deva ter namorado alguma vez ao som de “Coisas da vida”: “O amor enfim ficou senhor de mim/E eu fiquei assim,/Calado sem latim/Coisas da vida.” No entanto, esse casal não deve ter lamentado a perda do compositor porque talvez nunca tenha ouvido falar dele e ligava a música somente à voz de Milton Nascimento, também autor da canção (um gênio vivo, bem vivo, porém esquecido pelo grande público).
A pouca repercussão da morte de Fernando Brant nos mostra o desprezo que se dá aos criadores. As letras de Brant são cantadas por quase todos os brasileiros, no entanto, poucos o conheciam. Esse gênio das palavras foi quem escreveu "Bola de meia, bola de gude" (“Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto balança/Ele vem pra me dar a mão”), "Maria, Maria" (“Mas é preciso ter força/É preciso ter raça/É preciso ter gana sempre”), "Encontros e despedidas" (“Todos os dias é um vai-e-vem/A vida se repete na estação/Tem gente que chega pra ficar/Tem gente que vai/Pra nunca mais...”), "Travessia" (“Quando você foi embora fez-se noite em meu viver/Forte eu sou, mas não tem jeito/Hoje eu tenho que chorar”), “Paisagem da janela” (“Mensageiro natural de coisas naturais/Quando eu falava dessas cores mórbidas/Quando eu falava desses homens sórdidos/Quando eu falava desse temporal/Você não escutou”), “Nos bailes da vida” (“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão/Todo artista tem de ir aonde o povo está”) e tantas outras letras cantadas pelo Milton Nascimento e pela banda 14 Bis.
Aqueles que criam, na literatura, na música, em todas as artes, deveriam ser mais valorizados. O que se vê, no entanto, é a exaltação da reprodução e da cópia. O cantor é a estrela solitária; o ator é o gênio que interpreta a personagem elaborada pelo dramaturgo; na universidade, o autor de um artigo de 12 páginas sobre uma obra literária recebe mais pontuação nas avaliações do que o próprio escritor da obra analisada, que tem 200 páginas.
  Bernardo Vilhena, você conhece? Não? Mas já teve ter cantado os versos de “Vida louca vida”, que fez em parceria com o Lobão. Vítor Martins? Também não? Esses versos, porém, você deve conhecer: “Começar de novo e contar comigo/Vai valer a pena ter amanhecido”. E Ronaldo Bastos? E Paulo César Pinheiro? Poderia citar dezenas de grandes letristas que fazem o trabalho quietos, em seus cantos, criando, jogando, brincando com as palavras.
“Canção da América" é uma das mais conhecidas de Fernando Brant e ganhou ainda mais repercussão quando morreu o ídolo do esporte Ayrton Senna, que dizia ser fã da música. Os versos “Amigo é coisa para se guardar/Debaixo de sete chaves/Dentro do coração/Assim falava a canção que na América ouvi” estouraram e hoje ilustram homenagens e simbolizam a amizade, mas também podem representar o esquecimento daqueles que mereciam ser lembrados. “Mesmo que o tempo e a distância digam ‘não’/Mesmo esquecendo a canção/O que importa é ouvir/A voz que vem do coração.” A voz do meu coração me pede para não esquecer, me pede para reverenciar, me pede para lembrar as pessoas para que não se esqueçam dos criadores. Não esqueçam aqueles que tiram do nada algo para preencher nossas vidas.

segunda-feira, junho 15, 2015

quinta-feira, junho 11, 2015

Barata lê o poema "Ateu"

Aqui no blog do Luiz Carlos Barata Cichetto dá para ouvir a leitura que ele fez do poema "Ateu", escrito pelo Fred, personagem do meu romance "Os óculos de Paula". A leitura acontece em torno de 1 hora e 13 segundos do programa. A postagem também reproduz o poema escrito, que diga-se, já foi publicado aqui no blog também. Acesse o programa aqui:

http://baratacichetto.blogspot.com.br/?zx=6752ef9312f5374d

quarta-feira, junho 10, 2015

Machado de Assis no "Traçando livros" de hoje


“Rabugens de pessimismo”
Cassionei Niches Petry

Apesar de assinar sempre como escritor esta coluna e outros textos que publico no jornal ou na internet, não é essa a função que sustenta a minha família. Sou o claro exemplo do escriba amador, no sentido de não receber e também no de amar o que faz, sem esperar receber por isso. Escolhi como atividade profissional, então, a de professor, principalmente o de Literatura, para poder me manter e, ainda assim, continuar falando e escrevendo sobre livros.
É essa profissão que me dá a satisfação de, quase todos os anos, ler e reler, quando a memória começa a falhar (e ela sempre falha), obras literárias fundamentais. Entre elas está justamente a que é intitulada Memórias póstumas de Brás Cubas, do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, publicada em 1881. A releitura do romance também foi motivada por uma edição recente da Penguim/Companhia das Letras, com prefácio de Hélio de Seixas Guimarães e estabelecimento de texto e notas de Marta de Senna e Marcelo Diego. Edição caprichada, portanto, apesar da capa sem graça. Há outras boas edições à venda, como a da Ática, na série Bom Livro, assim como adaptações para os quadrinhos, como a elaborada em 2014, também pela Ática, com arte e roteiro de César Lobo e Luiz Antônio Aguiar. A HQ serve para abrir o apetite e procurar o banquete principal.
Brás Cubas, que narra suas memórias, está morto (“não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço”) e resolve contar a sua vida começando pelo fim, relatando a própria morte, por pneumonia, enquanto refletia sobre a criação de um emplastro, espécie de remédio contra a melancolia que iria imortalizar seu nome. Antes, porém, descreve um delírio, que alguns chamariam de uma experiência de quase morte, em que faz uma viagem em poucos segundos por todas as eras, do passado ao futuro, guiado por uma mulher, chamada Natureza ou Pandora (“a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme”), que lhe apresenta os flagelos e delícias, glórias e misérias da condição humana. “Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana.”
Depois, Brás Cubas retoma o seu nascimento, contando as diabruras da infância e os maus-tratos ao pequeno escravo da família. No entanto, o cerne da narrativa são os seus amores, da adolescência à idade adulta, pintados com tintas nada coloridas. O narrador não pouca a si mesmo ao relatar a paixão pela interesseira Marcela, mulher mais velha a quem enchia de presentes. “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.” Também não esconde o misto de encanto e desprezo por Eugênia, linda jovem que tinha um problema físico de nascença. “O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?”
Seu grande amor, entretanto, é Virgília, que acaba se casando, devido ao interesse do pai, com um político de carreira promissora. Tornam-se amantes durante muito tempo, até que ela vai embora, seguindo o marido que assumiria a presidência de uma província do norte. Quando se reencontram, já estão velhos e nada mais há entre eles.
Brás Cubas, aos 64 anos e solteiro, morre. No final, no capítulo das negativas, afirma: “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto”. Pesando os prós e contras, o defunto reconhece seus erros e por isso declara, considerando ser um saldo positivo, o fato de não ter deixado herdeiros: “−Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
Um dos grandes monumentos artísticos da arte brasileira, o romance mescla filosofia, sociologia, psicologia e literatura para revelar nossa triste condição humana. Só não é reconhecida como uma das grandes obras da literatura universal, porque Machado de Assis teve a má sorte de ter nascido brasileiro.

Cassionei Niches Petry é escritor. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com

sábado, junho 06, 2015

Um blog carente precisa de ajuda

Meu blog está carente. Para ter mais leitores ele vai começar a se lamuriar, se fazer de coitado, de vítima, assim chama a atenção e as pessoas farão carinho nele, o incentivarão a continuar a persistir. Meu blog contará suas dificuldades, como teve uma vida sofrida. Seu dono não tinha internet em casa, nem mesmo computador, o blog sofreu para se manter e por isso merece ganhar chances da sociedade para crescer. Quando estiver doente, meu blog vai dizer a todos como está passando mal e todos vão desejar melhoras para ele.
Meu blog vai também puxar o saco de todo mundo, chamar as pessoas de maravilhosas, competentes, sensacionais, mesmo que no fundo, no fundo não ache que elas são. O blog vai curtir todas as postagens do Facebook, comentará, elogiará tudo que postam, mesmo que pensem diferente dele. Vai se segurar e não vai fazer nenhuma crítica ao amigo facebookeano, nem mesmo corrigirá seus erros de português.
O blog também vai ser politicamente correto em suas postagens, vai pensar como a maioria, não fará críticas ao deus Paulo Freire, por exemplo, bem pelo contrário, fará apenas elogios, demonstrará como as ideias dele não são doutrinárias e fará postagens de frases do divino mestre, mesmo que fora do contexto. Meu blog não quer criticar a esquerda, mas também não fará críticas à direita. Como não pode elogiar e nem criticar ambas, não quer mais saber de política. Por isso não criticou nem elogiou projetos como o do “Escola sem partido” ou do “Kit gay”.
O blog também não vai mais criticar a literatura de entretenimento, afinal isso é preconceito, já que ela vende muito bem, portanto é boa literatura. A maioria dos leitores a lê e a maioria tem sempre a razão. Meu blog passará a dizer que a complexidade da literatura deve ser deixada de lado para dar lugar à linguagem simples, direta, coloquial, que diga o que as pessoas querem ouvir e não deve tirá-las do seu conforto. Paulo Coelho será elogiado no blog.
Meu blog acha que devo fazer essa política de boa vizinhança, vive me dizendo que está ficando à mercê das traças, pede até para que eu mude o nome da minha coluna no jornal para “Perfumando livros”, talvez com o patrocínio do Boticário. Pede para que eu pegue leve nas minhas opiniões, para não provocar polêmica, como se meus textos a provocassem, pois as pessoas preferem ignorá-los ou apenas criticá-los nas rodas de amigo ou nas salas dos professores. Meu blog se equivoca, portanto. Meu blog deseja publicar apenas textos com palavras bonitinhas, poéticas, que fale sobre gatinhos ou cachorros, da beleza das flores e que invente palavras, imitando outros poetas. As pessoas não vão entender nada, mas vão achar bonito.
Meu blog também não quer mais textos que critiquem as religiões, muito menos os textos que contestem a existência de Deus, pelo menos o cristão. Os outros deuses estão liberados para serem criticados e ridicularizados, afinal são apenas mitos. Quer dizer, menos o Paulo Freire.
Enfim, o blog está carente, precisa de cuidados, atenção. Se quiser ajudá-lo, compartilhe este texto no Facebook e peça para seus amigos dizerem “Amém”.

quinta-feira, junho 04, 2015

Os Quasímodos e seus celulares

Uma ilustração compartilhada nas redes sociais da internet mostra um jovem sozinho descendo uma escada rolante de um shopping enquanto lê um livro. Na escada ao lado, uma fila de pessoas, representadas apenas pelas suas sombras, sobe com os olhos vidrados em luminosas telas de aparelhos celulares, sendo que apenas uma desvia sua atenção e olha, talvez com espanto, para o jovem que lê e segue o sentido contrário. A legenda sugere para desligarmos o celular e lermos um livro.
A imagem é apenas uma representação do que presenciamos no nosso cotidiano, em família, roda de amigos, local de trabalho, sala de aula, dentro de carros, elevadores, em praças, shows, etc. Como um Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame, indivíduos se debruçam sobre pequenas telas e movimentam freneticamente seus dedos, ou então entram em desespero para tirar de suas bolsas o objeto, caso ele emita um sinal indicando uma mensagem. Nada é mais importante nesse momento do que acessar o mundinho guardado no aparelho celular. Parem o mundo, pois o grupo no “WhatsApp” é mais importante, a curtida no “Facebook” é minha salvação, o vídeo do momento precisa ser compartilhado agora!
O adepto e viciado por estes objetos, porém, vai dizer que o garoto que aparece na imagem também está debruçado sobre um objeto retangular e parece esquecer o mundo ao seu redor. Que esse objeto conta apenas uma história, não tem imagem, não tem possibilidade de apertar um botão para “curtir”, não pode ser compartilhado com os amigos. Que o leitor também parece um zumbi na frente do livro.
Tem razão, em parte. O livro também nos transporta para um mundo virtual, porém nos faz refletir sobre o nosso mundo real. A leitura aprofundada nos apresenta a condição humana de uma forma que não percebemos através de visualizações rápidas de imagens “bonitinhas”, “edificantes”, que fazem apenas rir, ou frases vazias e pré-fabricadas, na maioria das vezes com erros de ortografia.
A superficialidade das redes sociais e da tela do celular serve apenas como distração, o que é válido em determinados momentos. É bom rir com alguma bobagem de vez em quando. O problema está na recorrência, no seu uso em horas inoportunas: no tempo perdido do aluno que em uma aula não aprende o conteúdo transmitido pelo professor; no momento em que a mãe perde o sorriso do seu bebê porque está vendo vídeos de outros bebês sorrindo no “smartphone”; no silêncio do grupo de amigos da mesa do bar, pois estão conversando com outras pessoas através dos seus aparelhos; quando um homem e uma mulher se cruzam na rua e poderiam se olhar e se apaixonar, mas estão trocando mensagens em uma rede social em busca de um amor virtual que talvez não se concretize.
Estamos ficando, sim, imbecis, no momento em que um texto mais complexo é menos relevante que um simples, no momento em que uma pintura de Van Gogh tem menos “curtidas” do que a “selfie” da “funkeira” e seu “popozão”,  quando a música clássica é ouvida apenas em comercial de perfume.

O jovem que lê um livro, um bom livro, é o Quasímodo que admira a beleza da cigana Esmeralda e não a feiura da tela do aparelho celular.