sábado, dezembro 31, 2011

Morreu Daniel Piza


Informação do site do Estadão: aqui.
Mais uma perda para a cultura neste ano. Daniel Piza foi um crítico no qual me espelhei, tentando imitar sua erudição e escrita.
"Lágrimas" era como Daniel Piza intitulava a seção da coluna Sinopse no Estadão, lembrando as pessoas que morriam. Hoje, são para ele.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

O indefectível balanço do ano

Não posso me furtar do balanço de fim de ano. Estou com uma preguiça tremenda para escrever, mas, vamos lá, até porque esse ano merece ser lembrado e comemorado.

Em primeiro lugar, no campo pessoal, tudo tranquilo: a esposa é a mesma, a filha continua crescendo e ficando cada vez mais inteligente (e me ultrapassando na altura), minha mãe e meu pai continuam sendo minha mãe e meu pai (e o velho continua bebendo e bebendo...), etc. Além disso, conseguimos comprar nossa casa própria através do Minha Casa, Minha Dívida. Um sonho que deixou de ser sonho e que de vez em quando vira um pesadelo devido a um vizinho dono do mundo. Feliz, enfim.

Nos estudos, outro sonho que está deixando de ser sonho: o Mestrado. As aulas terminaram e até 2013 tenho que concluir a dissertação, juntamente com um romance, que será objeto do estudo. Um grande desafio. Aprendi muito, lógico, conheci colegas muito inteligentes e outros nem tanto (ficar conversando no MSN em plena aula de mestrado, façam-me o favor!), li e escrevi muito, me aprofundei em algumas temas, fiz apresentação num colóquio, ganhei boas notas nos artigos e ensaios escritos, enfim. Ainda escrevi um desabafo destacando pontos negativos e um segundo chegou a ser pensado, mas vão ficar inéditos por razões políticas, digamos assim, afinal o meio acadêmico é cheio de vaidades e tenho meus interesses lá dentro.

No lado profissional, foi um ano em que não precisei me deslocar à cidade vizinha para lecionar, sendo que fiquei com mais horas na escola próxima à casa que adquiri. Justamente essa economia de passagens me proporcionou encarar um financiamento. Tenho bons colegas, ótimos diretor, vice-diretoras e supervisoras, que acompanham e ajudam no trabalho e valorizam o que o profissional faz. Os alunos... bem, há ótimos alunos, mas se sobressaem aqueles que só atrapalham e desprezam o professor. Quem acompanha o blog sabe o quanto isso me deixa incomodado e frustrado.

Por falar em frustração, meu livro não saiu neste ano. O editor enrolou, enrolou e nada. Promete para o próximo, mas não sei não. Se nada estiver decidido até março, desisto e parto para outra editora. Ou abandono de vez a carreira de escritor.

Quanto ao blog e aos textos para o jornal, o ano continuou sendo bom. As visitas aumentaram, os seguidores também, houve muitos comentários enriquecedores, enfim. Por conta das minhas opiniões sobre o ateísmo, participei de um documentário feito por alunos de comunicação da Unisc, além de ter sido convidado pelo jornal e pela rádio Gazeta para falar sobre o tema, mas não pude atender por questões de horário e outros compromissos. Mantive contato com alguns escritores, mas perdi um interlocutor de peso, o Scliar.

O que mais poderia dizer? Continuo tuitando, mas orkutiando menos. Cheguei a abrir um Facebook, mas a banalidade por lá me fez desativar a conta. O MSN também é quase coisa do passado, salvo quando converso nas madrugadas com a colega Jaque ou com uma leitora muito especial lá de Santos, a Bianca. Foi um ano em que me dediquei muito a ler, preparar aulas e, claro, escrever.

Acho que é isso. Saldo positivo, portanto. Se melhorar, melhora.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

O veneno da religião segundo Hitchens




No Traçando livros de hoje, no jornal Gazeta do Sul: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/321035-o_veneno_da_religiao_segundo_hitchens/edicao:2011-12-28.html

Cassionei Niches Petry

Escritor e jornalista, Christopher Hitchens – morto recentemente devido a um câncer no esôfago, aos 62 anos – era um dos “Quatro Cavaleiros do Ateísmo”, juntamente com Richard Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris. A denominação é uma brincadeira com a profecia bíblica do Apocalipse, já que esses pensadores lideram um movimento – chamado neo-ateísmo – de combate à religião e a tudo de nefasto que ela traz. Hitchens expôs essa ideia em Deus não é grande – como a religião envenena tudo (Ediouro, tradução de Alexandre Martins, 304 páginas).

O autor inicia o livro falando sobre sua professora na escola primária, a sra. Watts, que ensinava sobre a natureza e as Escrituras. Em uma das aulas, ela afirmou que Deus, poderoso e generoso, teria criado as árvores e a grama verdes, por ser a cor mais repousante para os olhos. O pequeno Hitchens, de apenas 9 anos, percebeu o falso conceito da professora, pois, pela lógica, os olhos estão ajustados à natureza, não o contrário. O episódio destruiu não só a admiração que o aluno nutria pela professora, como também sua fé.

A partir desse momento, começou a notar “outras esquisitices”: “Se Deus era o criador de todas as coisas, por que deveríamos ‘louvá-lo’ de forma incessante por fazer o que para ele teria sido tão natural? (...) Se Jesus podia curar um cego que tinha conhecido, por que não podia curar a cegueira? (...) Apesar de todas aquelas orações constantes, por que não havia resultado?”. Nascia aí, bem jovem, o antiteísta polêmico.

Os capítulos subsequentes (com títulos como “A religião mata” e “A religião é abuso infantil?”) trazem informações críticas sobre como as religiões, principalmente as monoteístas, tentam de todas as formas serem as donas de uma verdade absoluta, impondo aos demais sua crença. Os argumentos utilizados por Hitchens se valem, além das histórias pessoais, de análise de textos religiosos e relatos documentados. O 11 de setembro, por exemplo, é uma presença constante no livro, uma vez que o extremismo religioso islâmico foi o motor das ações terroristas, justificadas por passagens do Corão. O islamismo também é criticado pela sentença de morte contra o escritor Salman Rushdie, depois das publicação de Versos Satânicos, o que obrigou seu autor a viver durante anos sob forte aparato de segurança.

O livro também reserva espaço à Madre Teresa de Calcutá. Hitchens conheceu de perto o trabalho da religiosa ao realizar uma reportagem e escreveu um livro (The Missionary Position) sobre o falso interesse dela pelos pobres, o que o levou a ser convidado pelo Vaticano para ser o “Advogado do Diabo” no processo de beatificação da freira, pois também havia desmascarado um falso milagre atribuído a ela. Em Deus não é grande, Christopher (nome irônico para um ateu, não acham?) a chama de “freira ambiciosa”.

É importante que se diga: o livro de Hitchens não se propõe a converter ninguém, como apregoam seus detratores. Deus não é grande deve ser lido, afirmo eu, por quem já é descrente e procura se aprofundar no assunto, já que a obra é repleta de informações de quem, como jornalista, conhecia bem a realidade mundial e não tinha medo de expor suas críticas às religiões, que “ensinam as pessoas a pensar em si de forma abjeta, como pecadoras infelizes e culpadas, prostradas frente a um deus raivoso e ciumento”. Como afirmou Richard Dawkins, ao se despedir do amigo, Hitchens “foi um homem que lutou contra todos os tipos de tiranos, incluindo Deus”.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Para desgosto da família, é ateu. Escreve suas impressões de leituras no Mix quinzenalmente e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Hitchens no Traçando Livros da próxima quarta-feira


"A decência humana não é derivada da religião. Precede-a."

O próximo texto da minha coluna Traçando Livros, publicada no jornal Gazeta do Sul quinzenalmente às quartas, será sobre o Deus não é grande, de Christopher Hitchens.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Poemas sobre o suicídio (I)

Num dos trabalhos para a disciplina "Leitura e texto poético", do Mestrado em Letras, tive que reunir uma seleção de poemas sobre um tema. Escolhi a temática do suicídio, sobre o qual escrevi um ensaio que está em avaliação para ser publicado em revista acadêmica e apresentei no Colóquio do curso. Compartilharei os poemas com meu cada vez menor número de leitores. Começamos com Mário Quintana:

MAU HUMOR
Os que metem uma bala na cabeça retiram-se

deste mundo batendo com a porta.

AO PÉ DA LETRA

Enforcar-se é levar muito a sério o nó na garganta.

O SUICIDA

Último bilhete deixado por um obstetra: Parto sem dor.

(QUINTANA, Mário. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.)

sábado, dezembro 24, 2011

Ritos de final de ano

Repostagem do texto que saiu no ano passado no jornal Gazeta do Sul:

Mais um ano termina e outro se aproxima. Junto vem a necessidade inata do ser humano de comemorar, refletir e também de questionar: por que comemoramos o Natal e realizamos os rituais da virada?

O Natal é lembrado pelo nascimento de Cristo. Muito antes, no entanto, já existiam celebrações nesse período relacionadas a deuses de diferentes culturas e ao solstício de inverno no Hemisfério Norte, quando o sol renasce com força vencendo a noite mais longa. Na Roma antiga, por exemplo, a celebração era em honra a Saturno, deus da agricultura e da justiça. Já para os persas, o deus Mitra, que representava justamente a luz solar, também teria nascido nessa época e é celebrado (aliás, consta que há muitas semelhanças nas histórias relacionadas a esse deus antigo com os relatos que dão conta da vida de Jesus Cristo). Os chineses, por sua vez, chamavam esse período de dong zhi, que significa “a chegada do Inverno”. A Igreja Católica, séculos depois, adaptou ao cristianismo essas antigas celebrações, que passaram a ser consideradas pagãs.

É um momento, portanto, que pode ser celebrado independente de qualquer crença, por isso não se deve condenar quem não pensa apenas no nascimento de Cristo. Aliás, a figura simbólica do Papai Noel, distribuindo presentes e ensinando as crianças a obedecerem a seus pais, representa de forma mais neutra o Natal (apesar de sua origem cristã). Natal significa nascimento, não somente de um homem filho de um deus, mas da esperança de homens e mulheres que passaram por dificuldades durante o ano e querem buscar novas forças para o que está por vir. É o sol que renasce vencendo a noite mais longa e fria.

O Ano-Novo, por sua vez, já tem um caráter mais universal. Nenhuma religião quis ser dona dessa data. Há um ecumenismo significativo, que origina vários rituais e superstições interessantes, como o uso de roupas com determinadas cores para simbolizar as mudanças desejadas, comer lentilha e guardar as sementes na carteira para melhorar a vida financeira e não comer aves, para não deixar a felicidade voar para longe. Essa linguagem simbólica, realizada por diferentes pessoas com crenças diferentes, tem como objetivo atrair boas energias ou bons fluidos, de acordo com a nomenclatura dos místicos. Se funciona ou não, é crença de cada um. Acredito, porém, que não tem nada a ver com nenhuma força superior, mas sim a força interior que temos. Se estamos dispostos a construir um ano melhor do que o anterior, faremos com os ritos de passagem ou sem eles.

Esse período também é conhecido por réveillon, que em português significa "despertar". Mais uma vez a metáfora do nascimento aparece, sendo que um novo ano nasce e temos que nos renovar. É bom lembrar que o primeiro mês do ano é janeiro, cujo nome é uma homenagem ao deus romano Jano, porteiro dos céus, sempre representado com duas faces, uma olhando para frente, o futuro, outra olhando para trás, o passado. Assim como Jano, não podemos esquecer o ano que passou. Temos que avaliar tanto os acertos, para repeti-los ou melhor, aprimorá-los , quanto os erros, para não voltar a cometê-los. Como escreveu o filósofo alemão Nietzsche em seu livro Aurora título que remete à claridade no horizonte anunciando o nascer do sol , devemos ir além do caminho já percorrido, pois “outros pássaros voarão mais longe!”.

Duas tuítadas indignadas numa véspera de Natal


@cassioneipetry Crentes católicos afirmam que a vida só pertence a deus quando um cara que ia receber eutanásia acordou do coma. Que deus amável!

Não questionam por que esse poderoso deus deixa as pessoas sofrerem por anos e anos? Vão à merda com esse deus de vocês!

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Palavra de escritor


Só existe uma receita: ter o maior cuidado na hora de cozinhar.
Henry James, sobre a arte da escrita, lógico.

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Fala, mestre Cioran


O homem é livre, exceto no que possui de mais profundo. Na superfície, faz o que quer; em suas camadas mais obscuras, "vontade" é uma palavra carente de sentido.

domingo, dezembro 18, 2011

Hemingway e o iceberg


«Se um prosador sabe o suficiente acerca daquilo de que está escrevendo, pode omitir coisas que sabe, que o leitor, se o escritor está escrevendo com suficiente autenticidade, terá um sentimento dessas coisas, tão fortemente como se o escritor as tivesse declarado. A dignidade de movimento de um icebergue é devida a só um oitavo dele estar acima de água.»

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Duas verdades sobre meus alunos


Meus alunos são muito esforçados: se esforçam bastante para rodar.
*
Aluno que fica contando pontos para atingir somente a média e passar será medíocre pelo resto da vida.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

No Traçando Livros de hoje, o romance de Elvira Vigna



Na minha coluna Traçando Livros, no caderno Mix do jornal Gazeta do Sul de hoje, escrevo sobre o romance Nada a Dizer, de Elvira Vigna: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/318508-o_que_dizer/edicao:2011-12-14.html. Obs.: O "mixgourmet" no alto da página foi erro da edição, se bem que tem a ver com o traça que come livros...

O que dizer?

Cassionei Niches Petry

Há muito a dizer sobre Nada a dizer, de Elvira Vigna (Companhia das Letras, 161 páginas). O espaço, porém, é limitado, o que é bom, pois só assim escapo da tentação de contar tudo e afastar, dessa forma, o leitor da obra. Sugerir é mais sensato, provocar a leitura, dar pistas talvez. Bem, o melhor é dizer pouco.

Carioca, nascida em 1947, Elvira Vigna tem uma obra consolidada, que inclui romances como Coisas que os homens não entendem e Deixei ele lá e vim. É uma escritora que sabe o que quer dizer e diz. Seus projetos literários são baseados em estudos teóricos bem fundamentados que ela expõe em palestras ou vídeos disponíveis no seu site. Não é diferente com esse Nada a dizer.

No romance, há uma história de adultério. Tema que pode parecer comum, mas que na mão da escritora ganha outro brilho, pela maneira como é contada, pela voz que relata, pela forma como ficamos sabendo da traição. Aliás, o ponto de vista da narrativa, para quem não lê a orelha ou a contracapa do livro, é uma surpresa que se desvenda logo no início, mas que já demonstra o trabalho criterioso da autora. É difícil, inclusive, resumir parte do enredo sem falar sobre o narrador. Tentaremos.

A personagem principal, cujo nome desconhecemos, é casada com Paulo. Ambos estão recém se mudando do Rio de Janeiro para São Paulo. A casa ainda por arrumar tem caixotes espalhados pelos cômodos, dando um indício do que acontecerá com os dois. A vida deles será bagunçada devido a algumas visitas que Paulo faz ao Rio de Janeiro, com o pretexto de encontrar os amigos e jogar futebol. Através de troca de e-mails, conversas no Skype e mensagens de celular, o marido marca encontros com N., uma amiga do casal no Rio. A mulher traída, depois de descobrir tudo, lê obsessivamente os rastros de conversas que foram deixados, bem como o blog escrito pela amante, numa tentativa de entender os motivos de o marido, já com seus sessenta e poucos anos, se envolver com uma mulher vinte anos mais nova.

Paulo, num primeiro momento, nega tudo. Mente. Mas depois confessa, a esposa o ouve e expressa esse momento numa das passagens mais belas do romance: “Não sei como exprimir o que vivi. Eu teria de falar em frases lentas, muito suaves, uma música de câmera dessas que nos embalam e se preocupam em nos avisar quando terminam graças aos compassos em tom menor, mais curtos. Quando então saímos de nossa letargia para bater palmas discretamente e nos dirigir à pessoa ao lado, com acenos de cabeça, sim, a execução foi exatamente como esperávamos, sim, muito satisfatório esse sentimento de realização que nos fica quando acompanhamos até o fim uma melodia”.

Paulo havia mentido para a mulher. É a mentira que torna o caso uma traição. Não ter nada a dizer sobre o que aconteceu, negar tudo. O romance, por isso, é muito mais sobre a mentira do que o adultério. Mentir é inerente ao ser humano. A história escrita por Elvira Vigna pode ser uma mentira. O escritor mente e cria personagens que mentem, inclusive a própria mulher traída mente. Por isso dizemos que um romance é uma ficção. A mentira aqui serve para mostrar a verdade, revelar questões humanas que só se revelam na ficção. Acreditamos mais em uma mentira bem contada do que numa verdade com roupa rota. Inclusive esta resenha pode ser mentirosa, mas sobre isso não tenho nada a dizer. O que tenho a dizer é que Nada a dizer é um romance que merece e deve ser lido. Pronto, já disse.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Como deseja ser escritor, está se especializando na arte da mentira. Escreve suas impressões de leituras no Mix quinzenalmente e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

domingo, dezembro 11, 2011

Crença na não-existência?


Estive acompanhando um debate entre ateus em alguns blogues. Causa-me certa surpresa – nem tanta, é verdade – uma tentativa reiterada de lideranças importantes do meio em estabelecer o que é e o que não é ateísmo. Para esses, o termo se refere a uma crença na não-existência de deuses. Há lógica, argumentos e citação de autoridades que defendem o conceito. No entanto, vejo que usar a palavra crença soa religioso. E, o pior, os defensores alegam que é um erro definir ateísmo pela sua etimologia.

Acompanhei o debate mais precisamente no blog do Paulo Lopes, a partir da reprodução de um texto de Daniel Sottomaior, presidente da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), que foi alvo de críticas de Eli Vieira, presidente da LiHS (Liga Humanista Secular), acusando Daniel de praticar uma “falácia etimológica” ao definir ateísmo como ausência de crença. Parece haver uma disputa de egos ou é simplesmente a tentativa de estabelecer uma verdade única para os ateus, criando, assim, uma espécie de nova religião ou seita, o que tornaria a ironia do bule voador proposta por Bertrand Russell num dogma.

A discussão também acabou me esclarecendo um fato que me ficou nebuloso nos últimos meses, uma sensação de que havia censura sistemática no Bule Voador, blog pertencente à LiHS. Tive comentários cortados e fui ridicularizado por editores do blog, principalmente em um post sobre o “livro do MEC”. Por isso parei de comentar no blog e de abordar o ateísmo, inclusive aqui no meu blog. Pois Marcelo Esteves, fundador do Bule original, que publicou um texto meu há uns 2, 3 anos, expôs, numa crítica ao Eli, fatos esclarecedores sobre os bastidores de lá. Fiquei, pelo menos, aliviado em saber que eu não estava ficando paranoico.

Nunca me associei nem na ATEA, nem na UNA, muitos menos na LiHS por não gostar de fazer parte de nenhuma associação. Posso ser influenciado pelas pessoas que divulgam suas ideias nessas organizações, mas procuro manter uma postura mais própria. Não quero entrar em nada que estabeleça regras, principalmente regras que não podem ser contestadas. Dizer que o ateísmo é uma crença ou ausência de crença é transformá-lo em uma religião e disso estou fora. Sou descrente, não crente.

Estou voltando a escrever sobre o ateísmo porque será um dos temas do meu romance e, consequentemente, da minha dissertação de mestrado sobre a criação literária. No meu “Diário de um fracasso anunciado” escreverei mais sobre os personagens que se veem enroscados nessa questão.