terça-feira, maio 29, 2012

Mais um aforismo de Cioran

"Na arte, como em tudo, o crítico está geralmente mais prevenido e é mais lúcido do que o criticado. É a vantagem do assassino sobre a vítima."

domingo, maio 27, 2012

Livros livres



Tenho uma biblioteca considerável aqui em casa. Há mais ou menos vinte anos compro livros, sejam novos ou garimpados em sebos e balaios de feiras. Apesar de minha profissão e minha pós-graduação envolverem muitas leituras, o salário de professor não permite que consiga comprar todos os exemplares de que necessito. Faço mestrado em Letras e me interesso por literatura, por isso priorizo os livros dessa área. Procuro, então, a excelente biblioteca da universidade para ler os do campo da linguística. Nem sempre, porém, há exemplares para todos os alunos e precisamos devolver o que pegamos emprestado. Para continuar lendo, a solução encontrada é fazer uma cópia reprográfica ou, como mais popularmente se diz, “tirar um xerox”.
Para os estudantes da área de humanas, surgiu há alguns anos uma boa alternativa para compartilhar textos ou até livros inteiros. Uma espécie de biblioteca virtual, o site Livros de Humanas disponibilizava um riquíssimo material para leitura e pesquisa. Retirados de bibliotecas ou comprados por uma pessoa, os livros eram digitalizados e depois “emprestados” através do download. Infelizmente, o site teve que sair do ar em consequência de uma ação judicial movida pela ABDR (Associação Brasileira de Direitos Reprográficos) a partir de uma solicitação de duas editoras.
Seguiu-se ao fato uma onda de protestos pela internet, sendo que o mais incisivo movimento de apoio ao Livros de Humanas é o site Direito de acesso (http://direitodeacesso.net.br), que está centralizando as ações relacionadas à “livre circulação do pensamento” e ressaltando que “o acesso online de obras não prejudica os direitos autorais, na medida em que propicia maior visibilidade das obras”. Leitores, professores, profissionais de vários ramos e até escritores e editoras apoiam a causa, pois avaliam que a difusão de obras através da web só traz benefícios, pois aumenta o número de potenciais compradores e, acima de tudo, mantém viva a alta cultura, que cada vez perde mais espaço para realizações medíocres como os livros de autoajuda.
Sobre a discussão da propriedade intelectual, sempre lembrada pelas editoras e escritores que tentam censurar qualquer tipo de compartilhamento pela rede mundial de computadores, deixo uma pequena reflexão. Estou usufruindo de uma bolsa do CNPq que custeia a mensalidade do curso de mestrado, para o qual produzo um romance e um texto teórico sobre a criação literária. Posso me considerar como proprietário exclusivo da minha produção, sendo que ela só está sendo possível através do dinheiro público? Pois vale lembrar que boa parte do material antes disponível no Livros de Humanas foi financiada da mesma forma pelos nossos impostos, sendo fruto de bolsas de pesquisa ou leis de incentivo à cultura. Logo, o mínimo que um autor deveria fazer era liberar o download, pois é sua obrigação devolver o que recebeu em forma de bens intelectuais para a população. Se a obra interessar ao leitor, ele fatalmente vai comprá-la ou indicar para que outros leitores a adquiram.
Para cada Livros de Humanas que fecha, dez blogs que compartilham música de duvidosa qualidade são criados. Mais livros livres e menos mediocridade é o que queremos para reverter essa situação.
 Cassionei Niches Petry – professor e mestrando em Letras com bolsa do CNPq.

quarta-feira, maio 23, 2012

Bonsai, de Alejandro Zambra, no Traçando Livros de hoje

Meu texto sobre Bonsai, do escritor chileno Alejandro Zambra, na minha coluna Traçando Livros, do jornal Gazeta do Sul: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/347566-a_arte_minimalista_de_zambra/edicao:2012-05-23.html.

A arte minimalista de Zambra
Cassionei Niches Petry
                                                                                                                                                                                           

Literatura é uma forma de arte. A matéria-prima são as palavras. Através delas, o artista constrói mundos, sugere imagens e sons, provoca a reflexão. Os instrumentos variam, de acordo com as idiossincrasias do escritor. Alguns são adeptos dos recursos avançados do computador; outros imaginam como música o bater das teclas da máquina de escrever; mas ainda há aqueles que querem sentir na mão o nascimento de sua obra, usando canetas ou lápis para riscar a folha em branco. Para estes, a ponta dos dedos e a frieza dos teclados distanciam o criador da sua criação.

Escrever a lápis denota delicadeza e precisão. Também significa escrever com o mínimo de recursos. “Menos é mais”, disse o arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe, que também afirmou que “Deus está nos detalhes”. Com essa visão minimalista devermos ler Bonsai, do chileno Alejandro Zambra, editado pela Cosacnaify e traduzido por Josely Vianna Baptista. Com essa visão minimalista o escritor escreveu sua obra. Com essa visão minimalista o protagonista Julio vê mundo.

No início do romance já nos é revelado que o grande amor de Julio morre no final e ele fica sozinho, “ainda que na realidade ele já havia ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília”. Os dois namoraram na época em que estudavam Letras e, quando ela morre, cometendo suicídio, os dois já não se viam há anos. A literatura e o sexo os mantiveram unidos no pouco tempo em que se relacionaram. Liam juntos, antes de fazer amor, escritores como George Perec, Juan Carlos Onetti, Ted Hughes e E. M. Cioran. Dizia Emília: “é bonito ler e comentar o que foi lido antes de enlaçar as pernas”. Mas é a leitura de Tantalia, conto de Macedonio Fernández, que os marcará definitivamente. Nessa história, um casal compra uma pequena planta para simbolizar o amor entre os dois. 

Mais tarde, quando já estão separados, Julio escreve um romance. Na verdade, iria transcrever para o computador os manuscritos de um romancista famoso, mas lhe foi negado o trabalho por ter cobrado muito caro. Mesmo assim, escreve, imaginando que está trabalhando para o escritor. Esse romance se chama “Bonsai”, referência à árvore em miniatura cultivada artisticamente pelos japoneses. Depois, compra sementes e instrumentos para fazer ele mesmo um bonsai de verdade.

Criação literária, metaficção, suicídio e vida universitária (mais precisamente na área de Letras) são temas que me atraem e perpassam o romance que estou escrevendo. Tudo isso aparece em Bonsai, mas de uma forma poética e minimalista. A começar pelo número de páginas, 64 na edição brasileira, passando pelas frases e capítulos curtos, além de focar a atenção nas pequenas coisas do cotidiano. O protagonista, ao cuidar de um bonsai, revela o trabalho do escritor em aparar, cortar, deixar apenas o essencial nos textos que escreve. A essência está no mínimo. “Escrever é como cuidar de um bonsai, pensa Julio”, mesma afirmação de Zambra em texto sobre o processo de criação do romance. E acrescenta: “escrever é podar os ramos até tornar visível uma forma que já estava ali, escondida.” 

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras, com bolsa do CNPq. Cultiva um bonsai no seu computador. Escreve regularmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

segunda-feira, maio 21, 2012

Depois de ler Bonsai, de Alejandro Zambra

Depois de ler Bonsai, de Alejandro Zambra, saborear o livro, respirar o cheiro de suas páginas e escrever sobre ele (o texto será publicado na quarta, no Traçando Livros), gostaria imensamente de poder assistir ao filme baseado na obra. Acima, imagem do filme, divulgado no trailler oficial.

domingo, maio 20, 2012

Mais um suicídio

"Ahora queda Emilia, sola, interrumpiendo el funcionamiento del metro." Em Bonsai, romance de Alejandro Zambra, fazendo referência aos versos de Construção, do Chico Buarque. O Traçando Livros da próxima quarta-feira será sobre essa obra.

sexta-feira, maio 18, 2012

Sobre o concurso do magistério

Carta aberta que enviei para as páginas de leitores dos jornais Zero Hora e Gazeta do Sul.

Venho a público externar minha revolta com a declaração do senhor secretário da educação do RS, José Clóvis de Azevedo, ao afirmar que os “professores que não passaram [no concurso do magistério] talvez não tenham a formação adequada para a escola pública”. Leciono desde o ano de 2004 no magistério estadual, quando assumi um contrato na escola Monte das Tabocas em Venâncio Aires, dando aulas na minha área, Língua Portuguesa, Literatura e Língua Espanhola, mas também me desdobrei em outras disciplinas, Filosofia, Sociologia, Educação Artística e Ensino Religioso. Em 2005, passei no concurso realizado no governo Yeda, como um dos melhores colocados, mas não fui nomeado. Nesse meio tempo, aprendendo na prática, ouvindo os professores mais experientes e corrigindo erros, obtive elogios pelo meu trabalho. Hoje leciono numa das mais importantes escolas estaduais de Santa Cruz do Sul, o Colégio Prof. Luiz Dourado, faço mestrado em Letras na Unisc e estagio na graduação dessa mesma instituição. Além disso, colaboro regularmente com o maior jornal da região do Vale do Rio Pardo, escrevendo sobre literatura e, eventualmente, sobre assuntos diversos na página de opinião. Também escrevo livros, ainda inéditos, mas que já mereceram elogios de pessoas como o saudoso Moacyr Scliar. Como no último concurso não atingi 60% de acertos na prova de legislação, fui reprovado. Nas demais provas, obtive boas notas, tanto que minha média foi superior a de alguns dos aprovados. Apesar disso, sou considerado despreparado publicamente. Relato o meu caso pessoal, mas, tenho certeza, é semelhante ao de muitos professores.

quinta-feira, maio 17, 2012

sábado, maio 12, 2012

Leituras do Traça

http://www.youtube.com/watch?v=NXYvokj_WNE

Leitura de um exercício poético (ainda não tenho a cara de pau de chamar de poema) que escrevi em setembro do ano passado, reinagurando o "Leituras do Traça".

 “ora”, direis, “escrever poemas”
certo, perdi o senso
viver escrevendo é perdê-lo

não, não escrevo poemas,
apenas os assassino.
sina, destino

narrar é o que faço
passo noites morrendo
escrevendo, bebendo

inseparável café
aroma, sabor, dor,
palavras, amargor

Sobre aforismos

El Babelia, suplemento cultural do jornal espanhol El País, traz excelentes textos sobre o aforismo na sua edição de hoje. Destaco uma citação do poeta Carlos Edmundo de Ory, falecido em 2010, sobre seu livro Los aerolitos: 

 “Nietzsche los llama: sentencias y dardos / Novalis los llama: polen / Baudelaire los llama: cohetes / Joubert: pensamientos, Cioran: pensamientos estrangulados, y Andréi Siniaski: pensamientos repentinos / Rozanov: hojas caídas y René Char: hojas de Hypnos / Malcolm de Chazal: sentido-plástico, y Louis Scutenaire: inscripciones / Antonio Porchia los llama: voces, y yo aerolitos”.

quarta-feira, maio 09, 2012

Bolaño no Traçando livros de hoje


Minha colaboração no jornal Gazeta do Sul de hoje, no caderno Mix:  http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/344910-uma_literatura_do_desconforto/edicao:2012-05-09.html
Uma literatura do desconforto
 
Roberto Bolaño, o nome literário do momento no cenário mundial, já apareceu no “Traçando Livros” quando do lançamento, no Brasil, do romanção póstumo 2666. A obra, no entanto, pode não atrair o leitor iniciante devido a sua extensão e complexidade. Pois a editora Companhia das Letras lança agora um volume de contos do escritor chileno, morto em 2003, que podemos classificar como mais acessível. Chamadas telefônicas (traduzido por Eduardo Brandão), originalmente publicado em 1997, abrange, de certa forma, boa parte do universo temático bolañiano em narrativas curtas, mas com o mesmo desconforto causado pelas narrativas mais extensas do autor.

O livro é dividido em três partes. A primeira, nomeada com o mesmo título do volume, traz contos metaliterários, ou seja, cujos temas giram em torno de escritores, principalmente o alter ego de Bolaño, Arturo Belano, protagonista do romance Os detetives selvagens. No conto inicial, Belano troca correspondência com Sensini, um escritor argentino que vive exilado na Espanha, e aprende com ele táticas para ganhar concursos literários e, assim, obter um bom dinheiro para sobreviver. Uma das estratégias, conta Belano, era “que eu participasse do maior número possível de prêmios, mas sugeria que como medida de precaução mudasse o título dos contos se com um só, por exemplo, me inscrevesse em três concursos cujos resultados saíssem mais ou menos na mesma data”. Belo conto sobre a condição do escritor que pena durante anos pelo reconhecimento de sua obra, mesmo tendo já um grupo limitado de fiéis leitores. “O mundo da literatura é terrível, além de ridículo”, afirma Sensini, que alguns críticos dizem ser um espelho do próprio Bolaño, que durante anos buscou ganhar vários concursos que tinham prêmios em dinheiro, enquanto outros afirmam que se trata do argentino Antonio Di Benedetto, autor do romance Os suicidas.

Os demais contos dessa primeira parte continuam tratando de escritores malditos em busca de reconhecimento, como Henri Leprince, poeta que vive na França em plena Segunda Guerra Mundial, dividido entre a resistência ao nazismo e ao colaboracionismo, escolhendo o que convém aos seus interesses literários. Em “Enrique Martín” – conto dedicado ao espanhol Vila-Matas, autor do livro de contos Suicídios exemplares –, um poeta desiste de ser valorizado pelo seu talento (que não tem, segundo o narrador), passando a se dedicar a uma revista de ufologia e, por fim, tirando sua própria vida.

A segunda parte traz contos sobre violência, um dos temas principais de 2666. Aparecem mais elementos autobiográficos, como em “Detetives”, conto escrito sem narrador, todo em forma de diálogo entre dois policiais de um presídio, que falam sobre Belano, que esteve sob a guarda deles durante a ditadura do Chile, sendo que um deles teria sido seu colega de escola, fato que aconteceu com o próprio Bolaño. Já a seção derradeira da coletânea de contos traz personagens femininas, como “Joanna Silvestri”, uma atriz pornô dos EUA que, internada numa clínica, fala a um detetive sobre outro grande astro deste gênero de filme, por quem era apaixonada.

Roberto Bolaño sabe como poucos expressar nossas angústias, sejam elas relacionadas à literatura ou aos relacionamentos humanos. Uma personagem reflete sobre “como é possível que um ser humano passe de um extremo a outro em seus sentimentos, em seus desejos. Logo se embriaga ou busca consolo em um livro”. Os livros, no entanto, pelo menos os que trazem literatura de qualidade, não servem para consolar, mas para incomodar. Como escrevi outra vez nesse espaço, fazendo referência a uma frase do próprio Bolaño, o livro é o melhor travesseiro que existe, mas um travesseiro nada confortável.

Quem deseja consolo, melhor fazer uma chamada telefônica para o seu melhor amigo.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras e bolsista do CNPq. É um bolañomaníaco assumido. Quinzenalmente escreve para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

domingo, maio 06, 2012

Mais suicídio


“Durante muchas noches, en la soledad de mi casa del Ampurdán que pronto abandonaría, estuve pensando en el suicidio de Enrique. Me costaba creer que el hombre que quería tener un hijo, que quería parir él mismo un hijo, tuviera la indelicadeza de permitir que su dependienta y ex compañera descubriera su cuerpo ahorcado, ¿desnudo?, ¿vestido?, ¿en pijama?, acaso aún balanceándose en medio de la habitación.” (Llamadas telefónicas, Roberto Bolaño)

sábado, maio 05, 2012

O caos

Estou ainda organizando este caos aí, mas já está próximo do meu cosmo pessoal. E aguardo sugestões para o novo nome do blog.