Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2016

Não seja o colonizador do outro

(Texto publicado no jorna Gazeta do Sul de hoje, página de opinião.) Em um texto antigo que escrevi para a página de opinião da Gazeta do Sul, reclamava que os jovens não se mobiliavam mais como em outros tempos, e que só se reuniam para fazer badernas, depredar patrimônio público e reproduzir frases feitas, sem argumentos para defender suas ideias. O artigo gerou uma resposta de um jovem estudante (atualmente professor) através de e-mail, contestando minhas afirmações. Passamos a dialogar sobre o assunto e nos tornamos amigos, apesar da diferença de pensamento. Um fato raro quando pensamos na raiva que impera nos debates ideológicos. Oito anos depois, pouca coisa mudou em relação aos protestos dos jovens e cada vez mais não vejo com bons olhos essas falsas mobilizações. Estou mais velho, é verdade. Talvez por isso, meu olhar distante, que vê as coisas por um viés diferente (culpa de muita literatura e filosofia que entrou na minha cabeça), não enxergue a autonomia necessária desse jove…

Muita louvação pode prejudicar o escritor

Gostaria de me redimir parcialmente de um comentário que escrevi numa rede social ao calor do final da leitura de um livro. Havia escrito que um romance recente de um bom escritor era ruim, mas que não escreveria a crítica, pois o autor não a mereceria, ainda mais que a mandaria para o jornal, e também porque seria voz única, visto que a obra vem recebendo somente elogios. Não quis citar nomes. Algumas pessoas, no entanto, que me enviaram mensagens chegaram a matar a charada e me pediram para escrever. Comentei em outra crítica sobre a decepção que livros como A poeira da glória, de Martim Vasques da Cunha, podem causar no leitor que antes leu elogios exacerbados sobre as obras. É o que acontece com O lado imóvel do tempo, do ainda novato Matheus Arcaro, editado pela Patuá. É já seu segundo lançamento. O primeiro, Violeta velha e outras flores, uma coletânea de contos da mesma editora, mereceu uma resenha positiva minha no blog.  Fechei o texto dizendo, inclusive, que era um nome a se …

No Traçando Livros de hoje, "O evangelista", de Manoel Herzog

Aos homens de boa vontade Há muitas denominações para quem escreve. O escrivão, por exemplo, elabora os autos e os processos de um cartório. O escriturário, por sua vez, trabalha em registros de repartições públicas. O escrevente é o subalterno dos outros dois. Há ainda o escriturador, palavra que não encontrei no dicionário, mas se refere àquele responsável pela escrituração de um órgão público ou privado. O escriba era, na antiguidade, o copista de manuscritos, no entanto uso essa expressão quando me sinto um pouco envergonhado de me denominar escritor. Poderia, quem sabe, me chamar de escrevinhador ou escrevedor, aquele que escreve com não muita qualidade. Já escritor serve como denominação geral para todas as atividades que envolvem a escrita. Temos, por exemplo, o escritor fiscal, o escritor de biografias, etc. É muito mais usada, porém, segundo o dicionário Houaiss, para designar o autor de obras literárias, científicas, filosóficas, etc. Sempre, porém, que vejo ou ouço a palavra,…

O destino em “Alceste”

“Ai de mim! Ai de mim”, repetem ad nauseam os personagens das tragédias gregas, títeres dos deuses e do destino. O sofrimento e a resignação são uma constante na obra dos dramaturgos Sófocles, Ésquilo e Eurípides.  Este último, por exemplo, escreveu Alceste, em 438 a. C., que traz a história da mulher que entregou sua vida aos deuses em troca da sobrevivência de seu marido, o rei Admeto. Segundo o mito em que se baseia a peça, Apolo foi punido por matar os ciclopes que forjaram o raio de Zeus que matou Asclépio. Para tanto, foi encarregado de servir durante um ano a um mortal. Escolhendo Admeto, consegue convencer as Parcas para que este não morresse no dia destinado a ele. Elas aceitam o pedido, desde que outra pessoa se oferecesse para morrer em seu lugar. Admeto pensava que algum servo ou seus próprios pais se sacrificassem, mas não o fazem. Alceste, esposa fiel, decide ser a vítima, e a peça começa justamente no dia em que Thânatos, a Morte, vem cumprir com sua obrigação. Apolo ai…

“Na subida do morro é diferente”

Estou lendo toda a obra de Lúcio Cardoso. Escrevi no blog sobre Maleita e agora dou uns pitacos sobre seu segundo romance. Pelo título, pela leitura do livro anterior e por ter lido uma vez sobre o escritor ter sido enquadrado entre os romancistas de 30 no início de sua carreira, pensei que Salgueiro se passasse no interior de Minas Gerais de novo e que salgueiro fosse a árvore mesmo. Trata-se, no entanto, de um enredo que conta a vida de alguns moradores do morro que dá nome a uma das maiores escolas de samba do Rio de Janeiro. Dividido em três partes, “O avô”, “O pai” e “O filho”, a narrativa foca-se nos conflitos de uma família pobre, que vive em um barraco alugado. Mais importante que as brigas, a doença do velho Manuel, a conturbada relação do pai, José Gabriel, com sua companheira, Rosa, e a vagabundagem do filho, Geraldo, são os conflitos interiores dos personagens a tônica do enredo, preconizando, como se sabe, o que viria nas obras subsequentes. O espaço externo ainda é determ…

Segismundo e o poder

El sueño del caballero o La vida es sueño, quadro do pintor barroco Antonio de Pereda. (Esta postagem não tem nada a ver com os acontecimentos da política de nenhum país da América do Sul, que fique claro.) A vida é sonho é uma peça de teatro escrita pelo espanhol Pedro Calderón de la Barca em 1635. No enredo, o rei da Polônia, Basílio, mantém preso na cela de uma torre o seu filho Segismundo desde o nascimento. O único contato que o rapaz tem com o mundo exterior é o criado Clotaldo, que lhe traz tanto a comida para o corpo como a para o espírito, pois faz às vezes de professor, ensinando-lhe inclusive sobre a religião católica. Seu pai o mantinha em cativeiro para evitar as predições de um oráculo que afirmava que o príncipe, se assumisse o poder, seria um tirano cruel e também porque o seu nascimento provocou a morte da rainha. Tentando dar uma chance para o filho e driblar o destino, o rei pede a Clotaldo que prepare uma poção para fazer o jovem dormir. Quando acorda, se vê rodeado d…

No Traçando Livros de hoje,"A poeira da glória"

Na minha coluna no caderno Mix, na Gazeta do Sul de hoje, escrevo sobre "A poeira da glória", de Martim Vasques da Cunha.
Levantando poeira

Poderiam depor contra o livro A poeira da glória, de Martim Vasques da Cunha (Record, 630 páginas) os inúmeros depoimentos que li na internet dando conta de que essa era a maior e melhor obra sobre literatura nos últimos anos no Brasil. Fazendo jus ao título, essas afirmações colocaram um pouco de poeira da glória sobre o volume e sobre o autor. Sem dúvida, estamos diante de um conjunto de ótimos ensaios. Porém, ao pretender ser o que não é, a decepção de quem vai com sede ao pote é muito grande.
Na introdução, Martim Vasques da Cunha afirma que o leitor deve esquecer a pessoa que escreveu. Para se compreender obra dele, não importa sua ideologia política, por exemplo. Boa parte do que virá pela frente, porém, tenta desmitificar escritores justamente devido a seus predicados na vida real. Essa contradição é o primeiro grande senão do livro,…