sábado, outubro 31, 2009

quinta-feira, outubro 29, 2009

Anthem - Rush

Hino

(Anthem)

Música e Letra por Alex Lifeson, Geddy Lee e Neil Peart

Saiba que seu lugar na vida

É onde você quer estar

Não deixe que eles te digam que

"Você deve tudo isso a mim"

Continue olhando pra frente

Não há motivo para olhar para o lado

Mantenha sua cabeça acima das massas

E eles não irão te derrotar


Hino do coração e hino da mente

Uma música fúnebre para aqueles que ficaram cegos

Admiramos os que buscaram por

Novas maravilhas no mundo, maravilhas no mundo,

Maravilhas no mundo que eles construíram.


Viva por você mesmo, não há mais ninguém

por quem se valha à pena viver

Mãos que pedem e corações que sangram

Só irão clamar por mais


Bem, eu sei que eles sempre te disseram

Que o egoísmo é errado

Até porque foi pra mim e não pra você

Que acabei escrevendo esta canção.


segunda-feira, outubro 26, 2009

Mais um concurso literário que participo, e mais uma decepção. Pergunto-me: será que devo continuar tentando ser escritor? Tapinhas nas costas já não adiantam mais.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Pepeu - Caixinha de surpresa

Um dos LP's que fizeram minha cabeça nos anos 90. Nesse link pus algumas faixas que achei na internet e outras tive que upar de uma fita k7, por isso não esperem boa qualidade de áudio. Velhos tempos do Rap nacional, na época em que eu arriscava uns "pezinhos" e um break nas rodas do Uniãozinho e Center Club Danceteria, aqui em SCS.
http://www.4shared.com/file/143127032/9f542aa7/Pepeu_-_Caixinha_de_Surpresa_por_cassioneiblogspotcom.html

sábado, outubro 17, 2009

Mais sobre Caim

Na Folha de São Paulo de hoje, o "filósofo" Luiz Felipe Pondé, critica o novo livro de Saramago e o avalia como ruim, simplemesmente porque o autor faz "birra com deus".

Apesar de trechos quase engraçados, obra é fraca e óbvia na birra com deus

Luiz Felipe Pondé

Existem escritores que beiram a unanimidade. Chegam a ser vistos como “um bem da humanidade”. Saramago é um desses. Alguns de seus títulos são mesmo pérolas. Viajei por Portugal lendo seu livro “Viagem a Portugal” e foi uma experiência fascinante. Infelizmente, seu mais recente romance, “Caim”, não faz jus a sua história. Mais do que isso, “Caim” aponta para alguns limites de sua interpretação de mundo, e isso é importante na obra de um escritor do porte de José Saramago.
Sua fórmula para discutir a herança bíblica está esgotada e é hoje conhecida por qualquer criança no jardim da infância: o ressentimento contra Deus porque existe sofrimento no mundo. Trata-se de um caso derivado do ressentimento do qual fala Nietzsche: você não suporta o sofrimento, então culpa algo, o deus de Saramago (escrevo aqui com minúscula, como ele escreve no livro), pelo sofrimento e sonha com um mundo sem dor (o mundo dos homens bonzinhos de Rousseau e seus derivados). Saramago torna explícito o fato que a crítica a Deus pode ser ela mesma uma forma de covardia diante da dureza da vida.
Saramago parece não ter percebido ainda que não é o “fator Deus” que leva os homens a serem a besta fera que são, mas sim o “fator Homem” que gera a bestialidade histórica de que ele tanto reclama. Como todo ateu (será mesmo?), não consegue deixar Deus em paz.
Em poucas palavras, afora a escrita, como sempre em cascata, e trechos quase engraçados, o livro é fraco e óbvio na sua birra. A raiva e o ressentimento para com deus nos fazem pensar que estaríamos diante de um palavrório adolescente. Como em todo ressentimento, falta humildade.
Carência afetiva
Caim, famoso por matar Abel, os dois filhos de Adão e Eva, é seu herói, revoltado contra deus e sua descarada preferência pelo irmão. Depois de apresentar Abel como um irmão que humilha seu irmão mal-amado (o que não bate com a tradição bíblica), Caim porá o dedo na cara de deus e cobrará dele o que eu chamaria de “afetividade democrática”: deus deveria amar a todos igualmente. O pobre Caim não consegue lidar com sua carência afetiva. Esse tipo de demanda dá sono.
Daí, Saramago se põe a reler vários eventos da Bíblia hebraica (ou Velho Testamento), tais como a torre de Babel, o dilúvio, o quase sacrifício do filho de Abraão, Isaac, entre outros, sempre a partir do ressentimento contra um deus que não ama a todos devidamente, assim como o irmão Chavez ama devidamente a todas as suas criaturas. Mesmo Lilith, figura máxima do feminismo bíblico ressentido, aparece como grande parceira de Caim nesta aventura que fala de como deus não é legal.
Saramago parece não perceber que grande parte do relato inicial da Bíblia fala da condição humana para além do que gostaríamos que ela fosse: somos frágeis, mortais, insuficientes, e por isso nos revoltamos. O sentido da vida é opaco para nossa inteligência.

Falou e disse...

“Do meu ponto de vista há apenas um lugar onde existe deus, ou o diabo, ou o bem e o mal, que é na minha cabeça. Fora da minha cabeça, fora da cabeça do homem não há nada.” José Saramago

Caim, de José Saramago


A partir de segunda estará nas livrarias o novo romance de José Saramago. A julgar pelas críticas e pelo tema do livro, vem muita polêmica por aí. No caderno "Prosa e verso" de "O Globo", há uma entrevista com o autor, que publico aqui:

Em "Caim", novo romance de José Saramago, Deus e qualquer crença sucumbem sob uma narrativa em que se equilibram humor, ironia e muitas palavras duras. Sobra para cristãos e judeus. Em menos de 200 páginas, espalham-se embates quase filosóficos entre Caim e seu criador, no qual um discute a capacidade do outro de julgar ou ser julgado. Espectadores dessa luta, os leitores viajam por diversos episódios da Bíblia, da destruição de Sodoma e Gomorra ao dilúvio que exterminou a Humanidade, sempre pela ótica questionadora do rebelde Caim. Ou melhor, do ateu Saramago que, em entrevista por e-mail, diz que se limita a escrever o que pensa, deixando cada leitor fazer sua própria interpretação. Embora não tenha escrito ali nada novo para aqueles que conhecem sua profunda e propagada aversão às religiões, Saramago (acima, em foto de Vania Delpoio, de 2003) afirma que “Caim” tem papel fundamental em sua bibliografia e em sua vida. Detalhe curioso: o livro ganhou aqui uma capa preta, na qual se destaca a colagem de papel sobre madeira, em vermelho vivo, de Arthur Luiz Piza. É curioso porque, embora bela e sóbria, ela foge completamente ao padrão gráfico da coleção Saramago na Companhia das Letras, que tem até agora apenas capas brancas. A editora diz que não houve nenhum motivo especial para a mudança, que foi sugerida pelo designer Hélio de Almeida e Saramago topou.

Entre “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim” se passaram quase 20 anos. Durante todo este período o senhor continuou a falar sobre a inexistência, a inconfiabilidade ou a intransigência de Deus, mas não em forma de literatura. Como se deu a volta ao tema em livro?

“O Evangelho segundo Jesus Cristo” é literatura, não uma mera glosa dos episódios registados no “Novo Testamento”. O regresso ao tema religioso deu-se, portanto, de maneira natural, quase como uma continuidade de trabalho..

O Caim que o senhor constrói é a voz da razão, da clareza de raciocínio, mostrando um Deus tão tirano e incompreensível que torna qualquer crença patética. Qual foi sua intenção ao escrever o livro? E como acha que será a reação a ele?

No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las. Quanto às reacções, não estão na minha mão. Cada um dirá o que entender conforme as suas convicções e as suas crenças.


Entre tantas figuras bíblicas, por que a escolha de Caim? O que ele representa?

Desde há muitos anos que penso que a história de Caim, como tantas outras histórias bíblicas (por exemplo, a de David e Golias ou a de Job), é uma história mal contada. Não absolvo Caim, mas acuso Deus de ser o responsável do assassínio ao recusar a oferenda dele. Que diabo de Deus é este que para enaltecer um irmão despreza o outro?


O senhor já disse várias vezes que cresceu sem formação religiosa. Chegou a ler ou reler a Bíblia para embasar melhor os episódios do livro?

Para mim, a “Bíblia” é um livro a mais. Importante, sem dúvida, mas um livro. Como tal o li e consultei sempre que necessitei. Desta vez concentrei-me no Gênesis onde se encontram as figuras que tomei como personagens do livro.

Outros ateus convictos, como Richard Dawkins e Christopher Hitchens vêm dedicando boa parte do tempo a uma espécie de cruzada antirreligiosa, lançando livros e participando de eventos nos quais reafirmam suas ideias. Como o senhor vê essa empreitada?

Por mim não o faria. É praticamente impossível convencer alguém a virar as costas às suas crenças. Limito-me a escrever o que penso do assunto e deixo aos leitores a inteira liberdade de fazer o que entendam. O único que peço para mim é respeito.

O senhor acredita que ainda é possível a existência de um mundo sem religião? O pessimismo de Caim em relação à Humanidade é também o seu?

Penso que não merecemos a vida, penso que as religiões foram e continuam a ser instrumentos de domínio e morte. Em suma, Caim teve razão para tentar impedir que outra humanidade substituísse a que teria morrido no dilúvio. Afinal, se a primeira era má, esta é péssima..

Apesar disso, todo o livro é pontuado por muito humor, com cenas que convidam o leitor a refletir sobre a narrativa. O senhor se divertiu ao escrevê-lo?

Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático.


Qual o papel de “Caim” em sua bibliografia? O senhor já disse que não é um acerto de contas com Deus. Mas enxerga nele um significado especial?

Pela maneira como enfrentei o assunto, pela linguagem com o que o tratei, considero este livro fundamental, quer na minha bibliografia, quer na minha vida.


quinta-feira, outubro 15, 2009

Orígenes Lessa


Com Orígenes Lessa inauguro uma seção para relembrar grandes escritores que estão um pouco esquecidos. Lessa foi um grande contista, que me influenciou bastante. Segue um conto publicado no livro Balbino, Homem do Mar:


Madrugada

Orígenes Lessa

Dobrei a esquina do hotel, cansado e com sono. Caminhara o dia inteiro, tomando contato com a cidade, olhando vitrinas, examinando tipos, lendo tabuletas e painéis, admirando mulheres, ouvindo frases soltas, de diálogos alheios, procurando reconstituir, pela frase mal ouvida, o rumo da conversa, o drama, a intriga, o mexerico, os interesses que uniam aquela gente cheia de gestos e abraços.

Duas horas da manhã. Às sete, devia estar no aeroporto. Foi quando me lembrei de que, na pressa daquela manhã, ao sair do hotel, deixara no banheiro o meu creme dental. Examinei a rua. Nenhuma farmácia aberta. Dei meia volta, rumei por uma avenida qualquer, o passo mole e sem pressa, no silêncio da noite. Alguma haveria de plantão... Rua deserta. Dois ou três quarteirões mais além, um guarda. Ele me daria indicação. Deu. Farmácia Metrópole, em rua cujo nome não guardei.

- O senhor vai por aqui, quebra ali, segue em frente.

Dez ou doze quarteirões. A noite era minha. Lá fui. Pouco além, dois tipos cambaleavam. Palavras vazias no espaço cansado. Atravessei, cauteloso, para a calçada fronteira. E já me esquecera dos companheiros eventuais da noite sem importância, quando estremeci, ao perceber, pelas pisadinhas leves, um cachorro atrás de mim. Tenho velho horror a cães desconhecidos. Quase igual ao horror pelos cães conhecidos, ou de conhecidos, cuja lambida fria, na intimidade que lhes tenho sido obrigado a conceder, tantas vezes, me provoca uma incontrolável repugnância.

Senti um frio no estômago. Confesso que me bambeou a perna. Que desejava de mim aquele cão ainda não visto, evidentemente à minha procura? Os meus bêbados haviam dobrado uma esquina. Estávamos na rua apenas eu e aqueles passos cada vez mais próximos. Minha primeira reação foi apressar a marcha. Mas desde criança me ensinaram que correr é pior. Cachorro é como gente: cresce para quem se revela o mais fraco. Dominei-me, portanto, só eu sei com que medo. O bicho estava perto. Ia atacar-me a barriga da perna? Passou-me pela cabeça o grave da situação. Que seria de mim, atacado por um cão feroz numa via deserta, em plena madrugada, na cidade estranha? Como me arranjaria? Como reagiria? Como lutar contra o monstro, sem pedra nem pau, duas coisas tão úteis banidas pela vida urbana?

Nunca me senti tão pequeno. Efeito do uísque de má sorte, ingerido naquela boate encontrada ao acaso, tomou-me uma descontrolada sensação de desamparo. Eu estava só, na rua e no mundo. Ou melhor, a rua e o mundo estavam cheios, cheios daqueles passos cada vez mais vizinhos. Sim, vinham chegando. Não fui atacado, porém. O animal já estava ao meu lado, teque-teque, os passinhos sutis. Bem... Era um desconhecido inofensivo. Nada queria comigo. Era um cão notívago, alma boêmia como tantos homens, cão sem teto que despertara numa soleira de porta e sentira fome. Com certeza, saindo em busca de latas de lixo e comida ao relento.

Um doce alívio me tomou. Logo ele estaria dois, três, dez, muitos passinhos miúdos e leves cada vez mais à frente, cada vez mais longe... Não se prolongou, porém, a repousante sensação. O animal continuava a meu lado, acertando o passo com o meu - teque-teque, nós dois sozinhos, cada vez mais sós... Apressei a marcha.

Lá foi ele comigo. Diminuí O bichinho também. Não o olhara ainda. Sabia que ele estava a meu lado. Os passos o diziam. O vulto. Pelo canto do olho senti que ele não me olhava também, o focinho para a frente, o caminhar tranqüilo, muito suave, na calçada larga.

- Bem. na esquina ele me deixa - pensei quase em voz alta.

Para a esquina fomos. Parei, vagamente hesitante, sem saber se era naquela ou na esquina seguinte que devia dobrar. E imediatamente vi que o bicho se detinha e me fixava.

- Não me liberto deste bicho - pensei, olhando-o, quase disposto a lutar, a enfrentá-lo com decisão.

Mas o bicho desviou os olhos.

É traiçoeiro e covarde - pensei. - Se não tomo cuidado, ele me assalta.

E de novo o medo me alcançou. O animal devia estar com fome. Talvez estivesse desesperado. Não podia penetrar-lhe as intenções, é claro. Se ele ao menos me olhasse, poderia formar alguma idéia. Mas ele olhava, com uma curiosidade despreocupada, para outro lado.

Dei dois passos à frente, ele fez menção de marchar. Fiz meia volta à esquerda e atravessei a rua. O animal vacilou, ficou um instante parado.

- Desistiu - disse comigo.

E estuguei o passo. Mas ainda não alcançara o outro lado, já o tinha junto a mim, as patinhas sutis, em ritmo cadenciados pipocando no chão.

- Ele há de parar em algum poste. Nesse momento, fujo.

Mas os postes sucediam-se e caso raro entre os cães, ele continuava indiferente. Não farejava, não hesitava, não parava, parecia farto dos cheiros caninos que em todas as árvores, postes, quinas e esquinas tanto excitam os seus irmãos de toda a terra.

Assim foi que continuamos, às vezes mais rápido, outras vezes mais lento, metros, metros e metros, ao longo de calçadas, cruzando ruas, quadras, quadras, quadras. O medo maior havia passado. Já caminháramos juntos vários quarteirões, e ele não dera indício maior de hostilidade. Provavelmente nada teria contra mim. Não era de briga. Mas a sua presença me transmitia um indizível desconforto. Marchávamos quarteirões sobre quarteirões sem que houvesse outro alguém nas ruas de iluminação visivelmente racionada. E aquela sensação de continuar sozinho ao sabor dos caprichos de uma dentada de rafeiro sem dono, sem ninguém para quem apelar, sem porta aberta onde buscar refúgio, punha-me um aperto na alma, impossível de negar.

Com que alívio, num dobrar de esquina, avistei o letreiro luminoso que anunciava a farmácia. Luz vinha do interior. Estava aberta. Lá encontraria outros seres humanos, ouviria voz humana, dividiria com os outros a atenção do animal. Talvez se perdesse por entre os balcões ou por entre as pernas de outros possíveis clientes. Talvez se interessasse por eles. Talvez se assustasse com as luzes da casa e arrepiasse carreira. Ou talvez, pelo menos, estivesse distraído à minha saída, permitindo-me a fuga.

Entrei. Creme dental. Por que não uma escova nova? Quanto custava a loção de barba anunciada naquele cartaz com um homem sorridente que afinal descobrira o segredo de conquistar o olhar e o coração de todas as mulheres? Era caro? Não era? Eu queria, na verdade, encher tempo. Havia que descorçoar o meu estranho companheiro de madrugada que felizmente ficara lá fora. Após alguns minutos, já pago o creme dental e uma latinha de talco, voltei-me para a porta. Não o vi. Desaparecera, afinal! Boa-noite, satisfeito, e ganhei a rua. Mal dei os primeiros passos, porém, vi que era acompanhado outra vez.

- Você não pirou, seu cachorro?

O cachorro me olhou pela primeira vez, com olhos tão doces e interrogativos, que me comovi. Pareceu-me ver o desespero da sua incompreensão, menos pelas palavras que pela aspereza do tom. Parei. E foi numa tentativa de reconciliação, envergonhado comigo mesmo, que sorri para o meu misterioso acompanhante:

- Como é, compadre... você não tem casa?

Naturalmente ele não entendeu as palavras, mas sentiu que o tom era outro. Havia agora uma tranqüilidade amiga nos seus olhos bons. Recomecei a caminhada, pleque-pleque ele seguia, sereno, humilde, cabisbaixo. Resolvi fazer experiências. Dobrava esquinas, cruzava as ruas, ia de uma para outra calçada. Sempre que mudava de rumo ele estava a meu lado, não atrás, não à frente, silencioso e calmo, sem mostrar surpresa, jeito cansado de resignação e doçura.

Voltei a falar-lhe várias vezes. Sempre que falava, detinha-me. Ele se detinha também e me encarava com uma curiosidade muda e mansa. Não havia sofrimento na sua impossibilidade de responder. Nem esforço. Era um pobre cão de rua na madrugada sem homens nem carros nem barulhos.

Como se chamaria? Fiel? Sultão? Peri? Lord? Leão? Jo1i? Chamei vários nomes e nenhum teve sentido. Era cão sem dono e sem nome, apesar de não dar impressão de desnutrido, que ele saberia seguramente se defender na batalha pelos ossos da rua.

Mas não estaria com fome?

Assaltou-me de novo aquela idéia. Aquela marcha silenciosa ao lado do homem desconhecido talvez não significasse outra coisa.

- Está com fome, velhinho?

Seus olhos doces nada disseram, mas ainda assim convenci-me de que era esse o problema. Tive remorso da minha insensibilidade. Fiel, Lord ou Sultão, com ou sem dono, ele tinha fome. Por isso caminhava pela noite adentro. Por isso aderia ao primeiro passante. E alonguei os olhos a ver se descobria algum bar ou botequim. Alguns quarteirões adiante, numa rua transversal, havia feixes de luz sobre a calcada. Para lá rumei, certo de que o meu amigo me acompanharia. Os passinhos se amiudaram em meu seguimento. Era um bar de última classe. Um mulato dormia, a cabeça caída sobre a mesa de ferro.

- Tem queijo?

Atirei-o ao cachorro. O animal olhou-o com indiferença.

- Mortadela?

O meu companheiro não se mostrou interessado.

Vi um pernil de porco. Pedi um pedaço. O português do balcão me achava muito mais bêbado que o seu bebedor solitário e adormecido. Mas satisfez a encomenda.

Abaixei-me, chamei o cão, ele se aproximou agitando a cauda, estendi-lhe, sem o jogar no chão, o naco cheiroso e tentador. O cachorro, os olhos onde nadava uma doçura ainda mais contagiosa, contemplou longamente a oferta inesperada e voltou-se para a rua, como a dizer que não tinha fome.

- Quanto é?

Paguei a despesa e saí, meu amigo a meu lado, teque-teque na calçada.

- É amigo desinteressado - pensei. - Talvez esteja aqui para me proteger. Sentiu, talvez, que estou correndo algum perigo.

E um receio novo me encheu o coração. Dois quarteirões adiante ouviam-se os passos de um noctâmbulo apressado, atravessando a rua. Nisso, avistei as luzes do hotel. Senti a necessidade de correr para ele, de fugir novamente. Atravessei a rua e, pela primeira vez, o meu cão ficou do outro lado, pensativo. Tomou-me um medo supersticioso.

- Como é! Você não vem?

Sem hesitação e sem festa, como num gesto de rotina, ele baixou a cabeça e veio ao meu encontro, continuou a marchar comigo.

Meu coração se alegrou: Você está aqui para me proteger, não é, velhinho? Ele continuou caminhando, de cabeça humilde. Estávamos na porta do hotel.

- Quer entrar?

Ele me contemplou com o jeito triste de quem sabia ser inútil o convite. A larga porta iluminada não fora feita para os cães de rua. Examinei o meu relógio de pulso. Três da manhã. Dentro de quatro horas deveria estar no aeroporto.

- Então adeus, camarada ...

Curvei-me, acariciei-lhe a cabeça, ele fez um movimento macio de agrado e de gratidão.

Dois ou três minutos depois eu estava no meu apartamento do segundo andar. Cheguei-me à janela. O cachorro continuava na calçada, solitário e sereno, olhando talvez com tristeza as luzes do hotel imponente.

Nisso, vem da esquina, do outro lado, um vulto de homem. Os passos ressoam. O vulto cambaleia na noite. O animal voltou os olhos, ficou a contemplá-lo, por alguns segundos. O homem caminhava pela calçada fronteira, passava agora sob as luzes fortes, continuava, incerto e só. Foi quando o meu companheiro se movimentou. Cruzou a rua, teque-teque, foi chegando, acertou o passo com o desconhecido. Vi-os caminhando lado a lado, mais um quarteirão. Na segunda esquina o homem dobrou. Meu amigo também.