sábado, março 29, 2014

Sobre o chavão "quem critica é quem não sabe fazer"...

Sobre o chavão "quem critica é quem não sabe fazer", então não posso criticar os políticos, porque não sou um. Não posso falar mal da televisão, porque não trabalho nela. Não posso nem mesmo falar mal da rede Globo, porque não sei fazer o que eles fazem lá dentro. Ora, no âmbito da literatura, o crítico pode não escrever uma obra literária de qualidade, mas, como leitor, e leitor profissional, ele sabe quando uma obra é boa ou não. Portanto, escritores, não desqualifiquem uma crítica só porque ela não diz o que você quer ler. E, se vale o seu argumento, não critique uma crítica literária se você não é um crítico literário.

quarta-feira, março 26, 2014

Traçando Livros de hoje é sobre Fernando Monteiro


http://www.grupogaz.com.br/gazetadosul/noticia/436161-a_sombra_por_tras_da_cortina/edicao:2014-03-26.html



A sombra por trás da cortina

Conheci a obra do pernambucano Fernando Monteiro pelas páginas da extinta revista Bravo!, que abrigava os seus contundentes artigos e divulgou seus primeiros romances. Foi a publicação de O grau Graumann, no entanto, em 2002, que me tornou um leitor mais atento ao que ele escrevia, afinal, trazia como personagem o primeiro brasileiro ganhador de um Prêmio Nobel, no caso de Literatura, Lúcio Graumann, que, como se não bastasse, era gaúcho de Santa Cruz do Sul! Escrevi na época uma resenha sobre o livro para o Variedades, página diária de cultura que foi antecessora deste caderno Mix.
Em 2006, saiu o romance As confissões de Lúcio, dando continuidade ao que seria uma trilogia, interrompida, entretanto, segundo o próprio autor me informou, pelo fim das atividades da editora Francis e porque nenhuma casa editorial se interessou em publicar uma caixa com os três livros como ele desejava. O terceiro volume ficou engavetado.
 O mundo ficcional em torno de Lúcio Graumann continuou sendo ampliado por Fernando Monteiro em outros suportes, como a sua coluna no jornal literário Rascunho, através de contos e também entrevistas fictícias. Nestes textos, aparece a figura de Alba de Céspedes, uma escritora ítalo-cubana, que teria tido um relacionamento com Graumann e é mencionada em As confissões de Lúcio. Uma narrativa escrita por ela, O anelante, é lida pela protagonista de O livro de Corintha (Companhia editora de Pernambuco, 117 páginas), mais recente romance de Monteiro e, segundo ele, o derradeiro de sua carreira. Também no Rascunho surgem algumas notas que nos remetem a essa obra e que revelam que O livro de Corintha seria um romance inacabado de Graumann e se chamaria A intrusa na sombra, título que seria do terceiro livro da trilogia de Monteiro.
A trama se inicia com a chegada de Corintha Arnauld à casa de um escritor cego, Methódio Guerreiro, contratada para trabalhar como datilógrafa no novo projeto do autor, uma história em que um voyeur observa com uma luneta uma mulher em outro apartamento e passa a escrever sobre o que vê. Corintha, por sua vez, passa também a relatar ao seu patrão os livros que leu e essas histórias vão aparecendo e desaparecendo como se fossem abrindo cortinas ou derrubando véus que escondem sem esconder e revelam sem revelar verdades das personagens: “Há tantos pequenos mistérios em torno de uma vida sem mistério algum, numa janela aberta para a curiosidade, quando ela se abre, é claro, sem cortinas para a visão de rotinas suaves ou agitadas, tensas ou calmas, das mulheres sozinhas ou das casadas, que se tocam e não se tocam (...).”
O leitor vai empurrando as cortinas, tentando penetrar na obra, mas novas cortinas vão surgindo e nada é revelado. Sentimo-nos como Methódio, não enxergamos um palmo a nossa frente, mas vemos pelos olhos de Corintha, que nos desvia do caminho, ela mesmo dando novos rumos para a narrativa que datilografa. Resta-nos a sombra por trás destas cortinas. Uma intrusa. Seria a própria literatura?

terça-feira, março 25, 2014

"Os óculos de Paula" em e-book na Amazon


Fruto da minha dissertação de mestrado sobre o processo de criação literária, "Os óculos de Paula" surge, depois de esperar mais de um ano por respostas de editoras, no formato Kindle, com o objetivo de atender a alguns leitores que estavam ansiosos para ler o romance. É um edição experimental, digamos assim, pretendo mais tarde ainda vê-lo na versão impressa. Pode ser comprado na Amazon e ser baixado na hora, bastando instalar os aplicativos Kindle para PC, tablet, smartphone ou notebook. O preço, creio que está de bom tamanho, menos de 10 pila, como dizemos aqui no sul. Segue o link (pode baixar também uma amostra grátis).=> https://www.amazon.com.br/dp/B00J4YBDAO
Sobre o processo de criação do romance, as notas estão disponíveis=> http://btd.unisc.br/Dissertacoes/CassioneiPetry.pdf

domingo, março 23, 2014

Urobórico trecho de "As confissões de Lúcio”, de Fernando Monteiro



“estamos em 2002, o ano estranho do calendário, palindrômico e voltando o rabo do dois nos dois sentidos do tempo que se suicida pelo rabo.”

quarta-feira, março 05, 2014

Traçando livros de hoje: "Um best-seller do ateísmo"



Frequentemente me perguntam: “como você se tornou ateu?” Respondo que não me tornei. Eu nasci ateu, mas a família e a sociedade me fizeram ser cristão. Voltei (esse é o verbo correto) a ser ateu na época da universidade, mas não por causa dela. Foram as leituras de literatura e filosofia que me fizeram questionar as verdades que carregava comigo e me fizeram ver o que não via, mas já desconfiava. Ler toda a Bíblia também me pôs a semente da dúvida, pois aqueles textos ditos sagrados, repletos de contradições e fantasias, não poderiam ser considerados a verdade para guiar a vida de ninguém. Com algumas recaídas (na minha monografia de conclusão do curso de Letras agradeci a esse ser imaginário chamado “Deus”), assumi minha posição de ateu há mais de dez anos. Nesse tempo, tive contato com a obra de autores que serviram para reforçar meus argumentos. Entre eles, está Daniel C. Dennett.
O filósofo faz parte de um grupo de intelectuais chamado “4 cavaleiros do ateísmo”. Ele, Richard Dawkins, Sam Harris e Cristopher Hitchens, já falecido, escreveram best-sellers contestando a existência de divindades e criticando fortemente as religiões, além de participarem ativamente de debates públicos. São odiados pelos crentes do mundo todo, principalmente pelos criacionistas.
Quebrando o encanto – a religião como fenômeno natural (Globo Livros, tradução de Helena Londres) foi lançado no EUA em 2006 e no mesmo ano no Brasil. Como as idéias são criadas pela mente é o ponto central do livro. Porque deixamos a religião se tornar uma espécie de parasita que nos invade o cérebro? Para chegar a essa resposta, Dennett procura definir o termo religião, sua essência, as crenças (principalmente as monoteístas), tentando aprender o máximo possível sobre elas, para então “quebrar o encanto”: mostrar que as pessoas vivem uma ilusão que consola.
O estilo de Dennett no livro é, em alguns momentos, tedioso, devido a idas e voltas num mesmo argumento ou afirmação, como repetir várias vezes nos primeiros capítulos que devemos estudar cientificamente as religiões e que elas têm seu lado bom e lado ruim. Na verdade, o autor, me parece, ironiza a tática dos religiosos que repetem ad nauseam seus ensinamentos, fazendo com que uma verdade seja incutida na mente do fiel. Dennett vai além, pois seus “volteios” filosóficos e relativizações servem para, nos capítulos seguintes, fazer jus ao título do livro. Se ele não consegue quebrar o encanto, pelo menos consegue uma leve rachadura.
Por que ateus como Dennett se preocupam tanto com as religiões? Pegando o meu caso como exemplo, elas ocuparam boa porção de tempo da minha infância e adolescência. Na idade adulta, continuam invadindo minha privacidade, minha “timeline” nas redes sociais da internet (“quem acredita em Deus compartilha, quem não acredita só olhe”), a porta da minha casa (“tem um minuto para Jesus?”) ou até entram dentro dela (“você aí no sofá, levante-se e ponha um copo de água ao lado de sua televisão”), os lugares onde trabalho, as decisões governamentais, etc. Sinto-me, portanto, no direito de opinar sobre elas, afinal, se não as sigo, se digo que não acredito em um ser superior, sou considerado uma pessoa insensível, sem coração e culpada pelos males do mundo. Não posso ignorá-las porque as pessoas fazem questão que não as ignore. Então, se sou questionado, por que não posso questionar? Daniel C. Dennett, no papel de filósofo, faz isso, questionar.

terça-feira, março 04, 2014

Leitura para o final do Carnaval: Rubem Fonseca


A leitura para encerrar o feriadão de Carnaval acabou sendo a do Rubem Fonseca, mais precisamente seu primeiro livro, "Os prisioneiros". Dois contos são ambientados durante a festa de Momo: "Fevereiro ou março" e "Teoria do consumo conspícuo". Este último se passa exatamente na virada do último dia de folia até o amanhecer da quarta-feira de cinzas. O volume que tenho faz parte dos "Contos reunidos", editado nos anos 90 pela Companhia das Letras, mas a Agir reeditou o livro recentemente.

segunda-feira, março 03, 2014

Artigo "Sobre as críticas ao futebol e ao Carnaval" rendendo

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O artigo publicado no último post saiu hoje também nas páginas de opinião da Gazeta do Sul e, além disso, gerou um convite para eu participar do programa Polêmica, do Lauro Quadros, na Rádio Gaúcha. Será amanhã, às 9 da matina.