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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2016

O escritor vende seu corpo

Poderia estar matando, poderia estar roubando, poderia estar me prostituindo e é justamente isso tudo que faço e mais um pouco quando escrevo. O escritor mata personagens, rouba o tempo de quem lê ou de quem gostaria que o lesse. Vende seu produto pelo preço mais baixo possível e, às vezes, o oferece até de graça. Mesmo assim muitos não o querem. O escritor é uma puta feia e acabada, portanto. Seu produto não é cobiçado, não é desejado, mas mesmo assim o escritor tenta expô-lo, deixa-se usar por cafetões que o exploram, frequenta lugares onde talvez encontre alguém que o deseja. Há aqueles que colocam seu produto em puteiros sofisticados, onde inclusive se encontra bebidas como o café para vender. O leitor até apalpa o produto, abre suas pernas, cheira, mas toma só o nobre líquido negro porque não tem mais dinheiro para gastar. Há aqueles escritores que colocam seu produto à venda em sites pornográficos, mas ele fica apenas lá, exposto em fotos com poses de gosto duvidoso e o leitor ape…

Minha crônica no jornal Gazeta do Sul de hoje

Inicio minha colaboração com a Revista Amálgama

Sobre “The Sunset Limited”, de Cormac McCarthy

Quem me lê sabe que o suicídio me atrai. Como tema de estudo, claro, sobretudo na literatura. Outro assunto sobre o qual me debruço vez ou outra é o ateísmo. Disto sim eu sou adepto. Por isso me detive algumas horas deste dia de folga para ler a peça teatral, ou romance em forma dramática, “The Sunset Limited”, de Cormac McCarthy. (Vale acrescentar que a capa da edição norte-americana tem uma xícara de café, outra coisa que me atrai. E muito.) Há tempos estava querendo ler a obra antes de assistir a adaptação de Tomy Lee Jones, um telefilme que conta com Samuel  L. Jackson no papel do negro e o próprio Lee Jones no papel do branco. Vou tentar assistir ainda neste fim de semana. Um filme obviamente pouco conhecido, pois não há ação e as cenas se passam todas em um único lugar e somente com dois atores. Um filme de ideias, se seguiu o original, e que por aqui recebeu o título “No limite do suicídio”. A peça toda se passa no apartamento de um ex-presidiário recuperado e religioso fervoros…

O verdadeiro mestre

Estou lendo, em uma edição em espanhol, o livro Lessons of the masters, de George Steiner. Há uma edição publicada pela Record, Lições dos mestres, porém esgotada, sendo que na Estante Virtual chega a ser vendida por proibitivos R$ 165.  Estou diante da obra de um grande mestre escrevendo sobre outros mestres, tanto se referindo a professores em relação a seus alunos quanto a sábios e seus discípulos. Depois de citar os óbvios filósofos gregos, mormente Sócrates e Platão, passando também pelo inevitável Jesus Cristo, o livro aborda relações em que mestre e aluno acabam se envolvendo afetivamente, como Heidegger e Hannah Arendt. Também retrata as personagens da literatura que são mestres, como Fausto em relação a Wagner, seu criado e aprendiz, e aqui Steiner se detém mais na peça de Marlowe do que na de Goethe, ou o rato de biblioteca Causabon e sua aluna Dorothea, em Middlemarch, de George Eliot. Como sou professor há mais de dez anos (tempus fugit), sou chamado de mestre por alguns alu…

Aceita um café, caro leitor?

Hoje é o Dia Internacional do Café. Daqui a algumas semanas teremos o dia nacional, depois o universal... Essa mania de dia para tudo se popularizou com as redes sociais, tornando-se um motivo para postar coisas e fazer a roda girar. Às vezes é um saco, outras vezes até eu entro na brincadeira. Mas voltemos ao café. Enquanto escrevo estas mal traçadas linhas, de acordo com o ritual descrito na crônica anterior, já tomei minha primeira xícara de café e estou partindo para a segunda. Na revisão do texto, já estarei com certeza na terceira. Não começo o meu dia sem o café, assim como não durmo sem ele. Verdade, se não tomo café aí é que tenho dificuldade para dormir, diferentemente das demais pessoas. Sou anormal? Não considero, no entanto, que tenho um vício (já viu algum viciado dizer que é viciado?), porque não entro em desespero se faltar. Porém sinto a todo o momento uma necessidade enorme degustar o líquido negro mais valioso do mundo (o petróleo fica em segundo lugar) todos os dias,…

"O suicídio na literatura" na minha coluna no Digestivo Cultural

Mais um texto meu na página de opinião da Gazeta do Sul

Soneto do Datafolha

De repente o Datafolha tornou-se um tanto Verdadeiro e certeiro para uma turma  E das bocas partidárias a voz era só uma E das mãos com nove dedos criou-se um santo.
De repente os dezessete por cento Que para os olhos de alguns era uma trama Agora aumentados é um sentimento De que tudo é um mar de lama.
De repente, não mais que de repente Fez-se da justiça algo distante E o corrupto ficou bem contente.

Fez-se da mentira uma constante Fez-se do povo uma besta ambulante De repente, não mais que de repente.

“Com a razão em parafuso”

Um dos argumentos para os defensores de quem está no poder (e que curiosamente há alguns anos tinham como missão lutar contra os poderosos) é de que os que irão tomar o poder querem retomar a ditadura militar. Curiosamente, estes defensores da democracia (que curiosamente querem ser donos da palavra democracia e calar a voz de boa parte do povo que não pensa como eles) se esquecem de que um dos partidos que apoiam os que estão no poder tem origem, curiosamente,  no partido que detinha o poder na ditadura militar.
Os que defendem quem está no poder afirmam que quem tomará o poder é um político corrupto. Curiosamente, esse político foi eleito pelos mesmos votos de quem botou democraticamente os políticos que hoje estão no poder.
Curiosamente, boa parte dos defensores de quem está no poder é de artistas, intelectuais, professores, gente esclarecida, formadores de opinião que acabam deformando a opinião, na medida em que expressam, refletem, ensinam as outras pessoas a ter pensamento crít…

Traçando Livros de hoje é sobre romance de Cabrera Infante

“Recuerdos” de Infante

Na manhã em que iniciei a leitura de Corpos divinos, de Guillermo Cabrera Infante (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista), os noticiários repercutiam os atentados terroristas em Bruxelas, na Bélgica. Por coincidência, o escritor escreveu as primeiras páginas do romance quando era adido cultural de Cuba na capital belga, em 1962, antes de romper com o governo de Fidel Castro. As coincidências, porém, não terminam por aí.
Enquanto lia e escrevia as notas que resultariam nesta resenha, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fazia uma visita histórica à Havana, capital cubana. Uma imagem de sua chegada à terra governada agora pelos irmãos Castro, no entanto, foi o que mais me chamou a atenção. Enquanto o Air Force One descia em solo cubano, pessoas na rua, escoradas em seus carros antigos, observavam a aeronave moderna sobrevoando a cidade. A capa do livro de Cabrera Infante estampa uma fotografia de 1963, feita pelo suíço René Burri, em que…

Meu texto sobre "Conto de escola", do Machado de Assis, na Gazeta do Sul

Meu texto sobre "Conto de escola", do Machado de Assis, na página de opinião da Gazeta do Sul de hoje. O segundo texto que publico nesta semana.