quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Vamos mudar a educação desse jeito?

Ninguém gosta de ser chamado de ultrapassado, retrógrado, tradicional, conservador, reacionário, tiozão. Se a pessoa tem alguma ideia nesse sentido, se sente inibida de falar, pois uma massa maior vai dizer que ela está indo na contramão da história. Por isso abraça qualquer proposta que tenha a palavra mudança, mesmo que essa nova direção esteja sendo conduzida de forma equivocada.
No campo da educação, mudança é a palavra de ordem. Em reuniões de professores, palestras, seminários, cursos de formação como os que acontecem antes do início do ano letivo, ela está lá, em letras garrafais, dita aos berros, afinal as coisas não podem ficar como estão. E não podem mesmo, concordo. Se há problemas, temos que solucioná-los. Acontece que os problemas também mudaram e a maioria não percebe. Ainda se acredita que a educação parou no tempo, que é conservadora, proibitiva. E pasmem: acredita-se que ela ensina demais!
Será que temos uma educação conservadora hoje? A prática de realizar recuperações paralelas, com muitas chances de o aluno atingir a aprendizagem esperada não foi uma mudança? A troca de notas numéricas por conceitos mais amplos, que coloca o aluno médio no mesmo patamar do aluno excelente, não é um processo de transformação? E as punições mais brandas, em que a conversa com aluno substitui atitudes mais drásticas como suspensão ou expulsão? Onde estão os castigos e o livro negro? A diminuição do uso desses recursos não alterou as relações entre o professor e o aluno? A interdisciplinaridade não é posta em prática há muito tempo entre os professores?  A decoreba já não caiu em desuso? Não temos recursos tecnológicos em muitas escolas? Os livros didáticos não estão sobrando a ponto de serem jogados fora? Já não se deixou de lado uma porção de conteúdos considerados supérfluos para trabalhar com a chamada “realidade do aluno”? Apesar de tudo isso, podemos dizer que os novos rumos estão dando resultado? Ou, caso a resposta for negativa, a culpa ainda é da educação tradicional?

 Todos nós desejamos mudanças, porém não são essas que estão em curso há vinte anos ou mais que vão melhorar o ensino. Os péssimos resultados da nossa educação são fruto desse rumo que tomamos. A língua portuguesa está sendo assassinada por pessoas que saíram da escola nessas últimas décadas. A desvalorização do conhecimento também. O desrespeito idem. Se não repensarmos as mudanças que estão em curso à moda gramsciana, o ensino no nosso país só vai piorar.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Professor Stoner


Stoner, de John Williams, lançado por aqui pela novata editora Rádio Londres, com tradução de Marcos Maffei, ficou esquecido durante muito tempo. Publicado nos Estados Unidos em 1965, não teve muita repercussão. Quase vinte anos depois da morte do autor em 1994, a obra foi redescoberta a partir de uma edição francesa. Fico pensando na quantidade de boas obras literárias como essa que são desprezadas hoje e que não vão ter a mesma sorte de serem valorizadas.
Temos aqui a vida de William Stoner. Filho de camponeses muito pobres, seus pais o aconselham a estudar no curso de agricultura da universidade, a fim de tocar para frente o negócio da família. No entanto, como acontece com quase todo o jovem, a universidade, quando bem aproveitada, torna-se um fator de mudanças profundas na vida do indivíduo. Cursando uma disciplina obrigatória para todos os estudantes, literatura inglesa (que bom seria se por aqui fosse assim!), Stoner encontra Archer Sloane, exigente professor que lhe faz uma pergunta sobre um poema de Shakespeare. A questão o faz repensar sua existência (“Tomou consciência de si próprio como nunca antes lhe acontecera.) e os caminhos que estava seguindo. Resolve trocar de curso e estudar Literatura.
A paixão que acaba adquirindo pelos livros (Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.”) o faz terminar o curso e depois se doutorar, chegando, por fim, a ser professor na mesma universidade. A literatura torna-se o seu refúgio, companheira de sua solidão, mesmo depois de se casar com Edith, personagem contraditória, e ter uma filha, Grace, uma das personagens mais tristes do romance, povoado de gente assim. Nem mesmo a aventura com a amante, Katherine Driscoll, sua aluna de pós-graduação (sim, aquele cara meio bobo tinha o seu quê de safadinho também), tampouco as brigas com o colega, e depois chefe, Lomax e com o aluno brilhante, mas relapso, Walker (dois vilões em boa parte do enredo), o fazem se afastar da sua pacata vida de aulas, correções, apontamentos, orientações.
Logo nas primeiras linhas, o narrador nos revela a data em que Stoner irá morrer. A forma como são narrados seus últimos dias, no entanto, deixa o leitor travado, emocionado. É um pouco piegas, confesso, mas a tristeza que nos abate no final é inevitável. Dá para se dizer, portanto, que o romance pode agradar a leitores mais exigentes e aos nem tanto. Como sou exigente, diria que não é uma obra-prima, como muitos estão afirmando. Entretanto, vale a leitura.

sábado, fevereiro 14, 2015

Uma novela de respeito


O seio é uma novela de Philip Roth, de 1972. No Brasil, houve uma edição ainda nos anos 70 e está esgotada. Não a encontrei nem mesmo na Estante Virtual. Sequer uma imagem da capa está disponível. Li há pouco a edição em e-book, “El pecho”, traduzido para o espanhol por Jordi Fibla. É o primeiro livro do que se tornaria a chamada Trilogia Kepesh, que teve continuação com O professor do desejo, de 1977, e termina em O animal agonizante, de 2001.
O tema é inusitado. David Kepesh, professor de literatura, acaba se transformando num seio de 70 quilos, “uma glândula mamária sem nenhuma relação com nenhuma forma humana, como só poderia aparecer, alguém pode ter pensado, em um sonho ou em uma pintura de Dali.” O leitor afeito ao cinema vai lembrar-se também do enorme seio que aparece em uma das cenas de “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)”, de Woody Allen, artista judeu como Roth. Mantido vivo em um hospital, não vê nada, mas consegue se comunicar e ficar a par da situação absurda.
Uma das situações que tem que enfrentar é o seu desejo sexual. Quando a enfermeira fica encarregada de limpá-lo, nota que se excita quando é tocado. Sua namorada, Claire, acaba lhe satisfazendo ao chupar seu mamilo fazendo-o ejacular. A sexualidade é uma obsessão de Kepeh, e será desenvolvida nas outras obras da trilogia.
É nas reflexões sobre sua existência o ponto alto da história, principalmente quando começa a negar seu estado, argumentando que talvez esteja louco e que tudo não passe de ilusão sua, provocada pela literatura. “Os livros sobre os quais tenho dado aulas... eles me meteram essa ideia na cabeça. Penso em meu curso de literatura europeia. Ocupar-me de Gogol e Kafka um ano depois de outro, explicar ‘O nariz’ e ‘A metamorfose’.” Seu psicanalista, Doutor Klinger, é representação de seu lado racional, aquele que tenta fazê-lo aceitar a realidade, e quem o adverte sobre os perigos da literatura (e por extensão, da imaginação): “Gogol, Kafka e companhia... você vai ter sérios problemas se seguir por este caminho.”

“El pecho” é uma novela de resPEITO, com o perdão do trocadilho infame. É uma das narrativas mais bem humoradas de Roth e pede uma reedição urgente por estas bandas. Aguardemos.

Outros textos sobre Roth aqui: http://cassionei.blogspot.com.br/2009/11/na-gazeta-do-sul-de-hoje.html e aqui: http://cassionei.blogspot.com.br/2012/02/o-mundo-de-zuckerman.html

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

De heranças e livros



É difícil eu me identificar com algum livro. Geralmente não gosto de me identificar. Aliás, o uso desse verbo é um clichê de que não gosto. Mas vez ou outra eu uso. Somos refém de clichês, não adianta. Este livro do Miguel Sanches Neto, no entanto, diz coisas que eu gostaria de dizer, traz momentos que também vivenciei, produz aquela sensação de “eu já passei por isso”.
A trajetória de leitor e as reflexões sobre o objeto livro em Herdando uma biblioteca (Record, 2004,  140 páginas) nos transportam e nos fazem valorizar mais o livro impresso, as marcas que eles nos deixam, as marcas que deixamos neles. Curiosamente, comprei esta edição num sebo e há um furo de traça em suas páginas. Outra traça marcou sua passagem por ali. Chegou a minha vez.
Em princípio é um livro de crônicas. Pode, porém, ser lido como um romance, que tem como protagonista o jovem Miguel que se torna escritor e professor. Assim como ele, também tive uma Bíblia com a tradução de João Ferreira de Almeida. Meus primeiros livros também foram os escolares herdados de parentes. Também não havia biblioteca na minha casa. Também sou do interior. Também me formei como leitor em bibliotecas escolares e públicas. Também roubei livros. ("Roubar livros que nos solicitam amorosamente é uma forma de herdar à força uma biblioteca que nos foi negada.") Também comprei muitos livros em sebos (este próprio vem de um). Meus primeiros livros também foram colocados em algumas prateleiras do armário de roupas do meu quarto. Também recebi e recebo alguns livros (não tanto como o Miguel), devido à atividade (só que no meu caso não remunerada) de crítico literário. (A propósito, este texto que escrevo não é uma crítica literária e sim, quem sabe, uma crônica ou somente impressões pessoais de leitura. Impossível ser objetivo com esse livro, pois ele me pegou emocionalmente.)

Minha identificação se encerra no momento em que a personagem Miguel se torna um escritor reconhecido e professor universitário. Continuo aqui na minha vidinha de escritor desconhecido e um simples e discreto professor de escola pública numa cidade do interior do Rio Grande do Sul. Também não tenho uma vasta biblioteca ainda. Herdo daquelas pessoas que me influenciaram, entre elas o Miguel da vida real, esse gosto meio estranho por um objeto quadrado em que mentes privilegiadas descarregaram suas angústias, sofrimentos, conhecimentos, habilidades com a palavra. Herdo dos livros que li a vontade de ter mais livros, de me desfazer dos ruins para dar lugar aos bons, de conhecer outros e esquecer alguns. Foram os livros que me formaram e depois me deformaram. Eles me construíram e também me destruíram. Construo uma biblioteca para que ela me destrua, portanto. Mesmo assim não deixo de preencher prateleiras e mais prateleiras, comprar livros e também ganhá-los. “Cada livro que colocamos em nossas estantes”, escreve o Miguel, “é uma peça a mais nesse complexo quebra-cabeça que nunca chega a se completar.” 

Outro texto sobre MSN aqui: http://cassionei.blogspot.com.br/2010/09/meu-texto-sobre-o-cha-das-cinco-com-o.html

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Meu pitaco sobre "Graça infinita", de David Foster Wallace, no Traçando Livros


Com a graça de David


O escritor que criou uma obra como Graça infinita (Companhia das Letras, 1.136 páginas) não poderia ter feito o que fez: enforcar-se na garagem de sua casa, justamente o lugar onde escrevia seus livros. David Foster Wallace nasceu em 1962 e se suicidou em 2008, mas foi reconhecido ainda em vida como um dos grandes nomes da literatura de sua geração nos Estados Unidos. No Brasil, era lido por poucos, na língua inglesa, em tradução para o português de Portugal ou até mesmo em espanhol, através de e-books compartilhados na internet. Agora, finalmente chega por estas bandas.
Pensando bem, não dá pra julgar a atitude de DFW (sigla pela qual é chamado por seus leitores mais fiéis. Não me surpreenderia se alguém começasse a dividir a literatura em antes e depois de DFW.). Ele sofria de depressão e vivia à base de medicamentos. Como bem escreveu o tradutor de Graça infinita no Brasil, Caetano Galindo, em um artigo para a revista Piauí, “ninguém entende os motivos de um suicida. Ninguém. A única pessoa talvez capaz de entendê-los é morta pelo ato. Nem mesmo quase suicidas que quase morreram dão relatos muito racionais e organizados. Eu? Nem tento.”
O romanção Graça infinita foi publicado originalmente em 1996. Antes disso, DFW havia publicado o romance The broom of system, que serviu como conclusão de seu curso de graduação, e o volume de contos Girl with Curious Hair, além de um tratado acadêmico sobre o Rap, escrito em conjunto com um colega da universidade. Presentes nessas obras estão a metalinguagem, os jargões acadêmicos, o vocabulário científico, a criação de palavras, a ironia, o humor negro, os enormes enunciados e as notas de rodapé que se tornaram características marcantes do autor.
Não deixe de ler as notas de rodapé. Algumas são essenciais para o entendimento da história. Faz-se necessário, para não se perder tempo, a utilização de dois marcadores de páginas, pois as notas estão no final do romance e são difíceis de localizar. Aliás, não espere nada fácil nesse livro. Desde o peso para segurá-lo, passando pelas letras pequenas e chegando à complexidade do enredo, tudo é difícil, chegando a ser chato e cansativo muitas vezes. O livro é para aqueles que realmente não buscam uma literatura de entretenimento, apesar de a trama tratar, entre outras coisas, sobre esse tema. É o que chamo de Literatura com L maiúsculo e que requer um Leitor com L maiúsculo. Feitas essas ressalvas, vamos à história.
O enredo é ambientado na ONAN, Organização das Nações da América do Norte, numa época futura, em que as denominações dos anos são subsidiadas por marcas de produtos, sendo que boa parte dos acontecimentos se passam no Ano da Fralda Geriátrica Depend. A maioria das personagens – que são inúmeras – gira em torno dos Incandenzas, uma família feliz ou infeliz a sua maneira – para glosar Tolstói, também adepto do romanção, mas no século XIX. O patriarca é James O. Incandenza, cientista e cineasta, produtor de filmes experimentais, mas chamados de entretenimento, contidos em cartuchos, o que seria o equivalente às fitas de videocassete dos anos 90, e o principal e mais misterioso desses filmes é o que dá título ao romance – retirado, por sua vez, de uma frase de Hamlet, de Shakespeare – e que, devido à elevada carga de entretenimento, provoca a morte de quem assiste. James, conforme ficamos sabendo logo no início, cometeu suicídio metendo a cabeça num forno de micro-ondas – a descrição de como isso foi possível é impagável. Completam a família a mãe, Avril, diretora da Academia de Tênis Enfield, de propriedade da família; o filho mais velho Orin, jogador de futebol americano; Mario, o filho do meio, adolescente com dificuldades físicas e mentais; e Hal, o caçula, gênio na escola e prodígio como jogador de tênis, personagem central da história.
 As primeiras páginas me fazem lembrar do clichê do início de muitos filmes hollywoodianos, em que um estudante é entrevistado para ingressar em uma universidade, sendo que os diretores estão interessados muito mais nas suas qualidades de esportista do que nas notas do indivíduo. O comum é vermos promissores jogadores de basquete ou futebol americano. Em Graça infinita, a história gira em torno do tênis, e Hal passa por uma fracassada conversa com diretores de uma instituição de ensino superior onde quer ingressar. Os jogos, de uma forma geral, são importantes na trama, mas o tênis é talvez uma das principais metáforas para serem decifradas. “Você compete com seus próprios limites para transcender o eu em imaginação e execução. Sumir no jogo: romper limites: transcender: melhorar: vencer. (...) Você busca vencer e transcender o eu limitado cujos limites são a mesma razão do próprio jogo.”
Há ainda a destacar os outros núcleos que, de certa forma, se relacionam com os Incandenzas: 1 – Os internos na Casa Ennet de Recuperação de Drogas e Álcool alimentam outro tema importante do romance, que é o vício, seja o proporcionado por substâncias tóxicas ou mesmo o proporcionado pelo entretenimento dos cartuchos. Pode-se dizer que a leitura do romance também é viciante. “Que quase todas as pessoas viciadas em Substâncias também são viciadas em pensar, o que significa que elas têm uma relação compulsiva e patológica com o seu pensamento.” 2 – Os separatistas denominados Cadeirantes Assassinos do Quebéc, que praticam atos terroristas com intuito de separar o Canadá dos EUA e usam como instrumento o cartucho com o filme de James O. Incandeza.
Já revelei muitas coisas, por isso paro por aqui, para não estragar a viagem de quem resolver se embrenhar na mata fechada de DFW. Fica o convite ao leitor, ou melhor, ao Leitor, que reserve boas horas do seu dia, durante os próximos meses, nessa experiência infinita. Torne-se um viciado, se necessário, e saia da leitura em estado de graça.

Cassionei Niches Petry é professor e escritor. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com

Sobre outro livro de DFW: http://cassionei.blogspot.com.br/2012/11/dfw-no-tracando-livros-de-hoje.html

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

A hora de José J. Veiga

Foto: divulgação da editora



Hoje faz 100 anos que nasceu um dos mais inventivos escritores da literatura brasileira, José J. Veiga, que infelizmente já nos deixou em 1999. Entre as homenagens ao autor, a Companhia das Letras inicia a publicação das suas obras completas, começando pelos primeiros livros, Cavalinhos de Platiplanto e A hora dos ruminantes, em edições com capa dura e prefácios inéditos.
Poucos escritores conseguem marcar sua estreia com uma obra-prima. José J. Veiga conseguiu. Os contos reunidos em Cavalinhos de Platiplanto foram publicados quando o autor já tinha os seus 44 anos, em 1959, o que explica, de certa forma, a escrita já madura. São histórias ambientadas no interior de um Brasil em desenvolvimento, mas ainda com suas superstições, códigos de ética e uma cultura bastante atrasada. As personagens, geralmente crianças, lidam com o mundo ao seu redor, ora realista, ora onírico, maravilhoso, fantástico. Enfrentam o mundo violento dos adultos, mas não deixam de brincar, caso de “A ilha dos gatos pingados”.  Ou então lidam com a perda de pessoas queridas através da fantasia, como acontece no conto que dá título à coletânea.
Chamam a atenção os contos que antecipam um tipo de história que o escritor desenvolverá mais tarde em seus romances. Nelas, pessoas, não se sabe quem, invadem o cotidiano de uma cidade, provocando um estranhamento e gerando a pergunta: “quem são eles?”. Representam o estado opressor? Simbolizam nossos medos que são exteriorizados? José J. Veiga não nos responde e é esse incômodo o cerne de sua inventividade. Da primeira coletânea, essa temática aparece em “A usina atrás do morro” e “Era só brincadeira”.
A hora dos ruminantes, seu primeiro romance, publicado em 1966, segue essa linha. Na pequena Manarairema, a chegada de pessoas estranhas que se alojam num descampado próximo à cidade causa um rebuliço entre os moradores. “Seriam engenheiros? Mineradores? Gente do governo?” Como se não bastasse, depois disso, nas ruas acontece uma invasão de cachorros que, assim como aparecem, desaparecem. Por fim, é a vez dos bois tomarem conta de tudo, impedindo, inclusive, as pessoas de saírem de suas casas. São cenas das mais impactantes da literatura brasileira:
Não se podia mais sair de casa, os bois atravancavam as portas e não davam passagem, não podiam; não tinham para onde se mexer. Quando se abria uma janela não se conseguia mais fechá-la, não havia força que empurrasse para trás aquela massa elástica de chifres, cabeças e pescoços que vinha preencher o espaço.
Uma interpretação possível, mas não única, relaciona o romance a uma alegoria da ditadura que se instalava no Brasil na época da sua publicação. Sabe-se, no entanto, que a obra já estava pronta em 1964, mas não foi lançada justamente para não ser tomada como uma afronta ao golpe. A universalidade dos contos de José J. Veiga amplia esse aspecto a todo e qualquer poder, institucional ou não, exterior ou interior ao indivíduo. É essa amplitude que nos permite ainda ler e refletir sobre a obra desse mestre da nossa literatura. Aguardemos as outras reedições.