terça-feira, dezembro 31, 2013

Feliz ano novo, mas não esqueça o velho



Um novo ano se aproxima e, com ele, o desejo consciente ou inconsciente de mudança. A rigor, o tempo é contínuo e por isso nada acontece de diferente na passagem do 31 de dezembro para o 1º de janeiro. No entanto, levados que somos pela massa, festejamos, planejamos, prometemos modificar o comportamento ou melhorar nossas relações, desejamos tudo de bom ao parente, ao amigo ou até ao estranho que estiver ao nosso lado. Não por acaso o primeiro dia do ano é marcado no calendário como “Confraternização universal”.
Nessa passagem, até o mais cético participa de certos rituais supersticiosos (estou falando por mim, claro): usar roupas com determinadas cores simbolizando os desejos (uso quase sempre roupa branca, com leves variações), comer lentilha e guardar as sementes para melhorar a vida financeira (saudade da querida vizinha Dona França que enchia minha carteira com as sementes) e não comer aves, para não deixar a felicidade voar e fugir de nossas vistas, sem contar que elas ciscam para trás, o que representa o atraso. Essa linguagem simbólica, cultivada por diferentes pessoas que possuem crenças distintas, tem como objetivo atrair boas energias ou bons fluidos, de acordo com a nomenclatura dos místicos. Se funciona ou não, é crença de cada um. Acredito que não, mas faz parte da festa. Diga-se que tudo isso não tem nada a ver com nenhuma força superior, como muitos pensam, mas sim é um motivador interior. Se estamos dispostos a construir um ano melhor, faremos com esses ritos de passagem ou sem eles.
Esse período é chamado de réveillon, que em português significa "despertar". Temos aí a metáfora do nascimento: um novo ano nasce e temos que nos renovar, sem esquecer, no entanto, o que passou. O primeiro mês do ano é janeiro, cujo nome é uma homenagem ao deus romano Jano, porteiro dos céus, cujas imagens representativas o trazem com duas faces, uma olhando para frente, o futuro, outra olhando para trás, o passado. Assim como Jano, não podemos esquecer o que fizemos. Temos que avaliar tanto os acertos, para repeti-los ou melhor, aprimorá-los , quanto os erros, para não voltar a cometê-los. Nietzsche, o bigodudo filósofo alemão escreveu em seu livro Aurora título que remete à claridade no horizonte anunciando o nascer do sol que devemos ir além do caminho já percorrido, pois “outros pássaros voarão mais longe!”.
Outras culturas possuem calendários diferentes e, por conseguinte, celebram o Ano-Novo em datas distintas. O calendário cristão, entretanto, é predominante e mobiliza o mundo todo. Celebramos, então, e não esqueçamos de não apenas desejar um ano feliz para o próximo, mas agir para que isso aconteça.

sábado, dezembro 28, 2013

O que escrever sobre este ano que termina?



O cursor pisca na tela em branco esperando que eu decida sobre o que escrever. O cansaço do final de ano, no entanto, e a cabeça que, confesso, não está concatenando as coisas direito, não me permitem comentar sobre o que eu pretendia, o antes indefectível balanço do ano. Deixo fluir o pensamento e mexo os dedos aleatoriamente, esperando que algo baixe e qual um médium vou preenchendo o espaço com letras que, talvez, formem alguma coisa legível.
Foi um ótimo ano, em certo sentido, visto que concluí meu romance, defendi minha dissertação, recebendo um conceito A e me tornei mestre em Letras (fato aliás que não muda muito as coisas para o vivente, visto que hoje está muito fácil ser mestre, enquanto demorei quase dez anos para ser um e, hoje, gente que recém se formou já está ingressando no mestrado e logo empatará comigo), participei de uma antologia que tem como um dos autores o Antonio Skármeta, passei a lecionar em uma escola particular ligada à universidade em que me graduei e pós-graduei, vi um texto ser publicado num livro didático de distribuição nacional, continuei com minha coluna no jornal, o blog atingiu 150 mil visualizações, um texto meu foi plagiado por inúmeros estudantes e professores nas escolas desse país, o que significa que era bom, aumentei as estantes da minha biblioteca, comprei um carro, ultrapassei a barreira dos 33 (só meus leitores atentos sabem o que isso significa) e minha família vai muito bem, obrigado.
Mas o ano também foi ruim, em certo sentido, pois meu romance não foi publicado, ser mestre em Letras não mudou praticamente em nada a minha vida, ser publicado numa antologia também não, dar aulas em escola particular apenas aumentou um pouco meu salário, meu texto no livro didático foi esquecido (eu mesmo quase me esqueci de citá-lo aqui, inclusive), minha coluna no jornal continua repercutindo muito pouco (salvo quando o autor do livro resenhando compartilha o texto) e me proporcionando apenas tapinha nas costas, o blog tem muitas visitas mas pouca leitura, ninguém que utilizou meu texto em formaturas pelo país me agradeceu nos comentários do blog pelo trabalho que tive em escrevê-lo, não tenho muito tempo para ler os livros da minha biblioteca, meu carro dá problemas e despesas (e odeio dirigir). Não bastasse tudo isso, estou sofrendo um processo por uma opinião dada no facebook.
Foi bom, mas não foi. Meu lado otimista sorri, meu lado pessimista bate com a cabeça na parede. Meu lado otimista diz que as coisas estão melhorando aos poucos. Meu lado pessimista está cansado de tapinhas nas costas. No fundo, no fundo, ainda me considero um frustrado, me acho um gênio incompreendido (sei que não sou um gênio, me enganaram na infância quando disseram que era um super dotado e eu acreditei e no fundo ainda quero acreditar).
Ainda está aí, leitor? Imaginei. Não vai saber que comprei um violão e que estou aprendendo a tocá-lo. E que descobri que não tenho nenhuma habilidade para tanto.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

O que comemora o ateu no Natal?



Quando era cristão, o Natal era uma das melhores épocas do ano para mim. Não, não era por causa dos presentes, pois ganhava muito pouco. Gostava do clima, das músicas, dos enfeites e presépio que minha avó fazia, da comilança, da reunião da família, dos Papais Noéis que apareciam na vizinhança (desde os de barba postiça passando pelos mascarados), contanto que não me perseguissem com uma varinha para me lanhar as pernas. Também não faltava às missas natalinas na paróquia a que pertencia.
Para o ateu que sou agora, no entanto, esse período é um inferno. Quando tu sabes que essa data não te diz mais nada, não te representa mais, tudo se torna um estorvo. É duro ser obrigado a ouvir cantilenas melosas que exaltam um deus que nasce e vai morrer daqui a alguns meses. É chato ter que responder a um Feliz Natal, receber mensagens exaltando a festa cristã e desejando que o menino Jesus te ilumine. Isso tudo é chato e constrangedor. No entanto, tu não queres ser chato também e retribui a boa vontade da outra pessoa, que pensa estar te agradando. Pior ainda quando ela sabe que tu não acreditas em nada do que está sendo comemorado, mas faz questão de te dizer “mesmo assim o deus menino está contigo, um dia tu vais descobrir”. Sei.
O ateu poderia fazer descer das prateleiras de seu cérebro as leituras que fez sobre os mitos que deram origem a essa data. Poderia dizer que outras crenças consideradas pagãs e que existiam bem antes do cristianismo celebravam o período próximo ao solstício de inverno no hemisfério norte e reverenciavam outros deuses. Na Roma antiga, a celebração era em honra a Saturno, deus da agricultura e da justiça. Para os persas, o deus Mitra, que representava justamente a luz solar, também teria nascido nessa época e é celebrado (aliás, consta que há muitas semelhanças nas histórias relacionadas a esse deus antigo com os relatos que dão conta da vida de Jesus Cristo). Os chineses, por sua vez, chamavam esse período de dong zhi, que significa “a chegada do Inverno”. Porém, o cristianismo, séculos depois, adaptou essas antigas celebrações, escondendo seu real significado e impondo o seu como o verdadeiro.
O ateu vai se abster de dizer tudo isso, pois sabe que não adianta. Todos os anos ele vai continuar ouvindo a mesma história, vai ser obrigado a engolir os rituais, a tolerar a chatice da data, a ter que dizer obrigado a uma felicitação que não lhe diz nada, a ver sua casa enfeitada com motivos natalinos, pois a esposa é cristã, a ver tudo e todos a seu redor fazendo referências a um indivíduo que supostamente teria nascido de uma mãe virgem para salvar o mundo do pecado.
Como o ateu vive essa data, então? No meu caso, acompanho todas as festas desse período com meus familiares como se fosse outra reunião de família qualquer e tolero as crenças deles. No geral, inclusive, o ateu é mais tolerante que a maioria dos cristãos que não aceita quem não tenha deus no coração. Aproveito os pratos tradicionais, dou e recebo presentes, mas não participo de amigo secreto ou celebrações exclusivamente religiosas. Adoro ver o Papai Noel e, principalmente, o encanto das crianças ao ver o bom velhinho (que devido ao politicamente correto abandonou sua vara de marmelo). É uma das fantasias que precisamos para aguentar as dificuldades da vida real. É uma personagem de ficção que, por ser mais verossímil e encantadora, ganha mais espaço do que outra personagem ficcional, que já não convence mais tanto, o tal de Jesus.

domingo, dezembro 15, 2013

Plágios do meu discurso de formatura

Escrevi no ano passado e publiquei aqui no blog um discurso de formatura do ensino médio representando os professores dos terceiros anos do Colégio Luiz Dourado (http://cassionei.blogspot.com.br/2012/12/discurso-de-formatura-do-ensino-medio.html). Nos últimos meses essa postagem passou a receber milhares de acessos o que me fez ter a certeza de que o texto seria lido em muitas escolas. Como sempre acontece, os verdadeiros autores são ignorados (afinal, quem é o tal professor Cassionei, ninguém conhece). Achei partes do meu texto publicado em um blog e em um site de duas escolas, religiosas ainda por cima. Se encontrar outros, vou atualizando a postagem:

Colégio N. S. de Belém, de Guarapuava, Paraná, aqui copiado por um professor: http://www.esicolegiobelem.com.br/Noticia.aspx?n=224

Atualização do dia 22 de fevereiro de 2014: Mais um plágio realizado por um professor. Até está em itálico, mas sem a fonte: http://www.insp2.com.br/?p=7073

quarta-feira, dezembro 11, 2013

150 mil visualizações

O blog atingiu hoje a marca de 150 mil visitas, sendo que nos últimos tempos teve uma média de 6000 visitas mensais. Mesmo sabendo que boa parte é de gente que só entra mas não lê e de gente que pesquisa e cai de para quedas, acho que é um bom número. Obrigado, gente.

"O Amante Alemão" da Lélia Almeida no Traçando Livros de hoje


Clique na imagem para ampliá-la.

A escritora recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Narrativa Longa.

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Ano Cortázar (V)



Casa 5
A terceira parte, “De outros lados (capítulos prescindíveis)”, é composta por vários fragmentos que complementam a história: trechos de jornais e revistas, citações e anotações de Morelli, escritor e figura importante para a história. Não é necessário ler esta parte, mas ela contém elementos que podem iluminar as passagens do enredo. É onde também se localizam as discussões sobre o processo de criação de um romance, dando o caráter metaliterário para a obra.
 Céu
Terminar a leitura do romance (publicado no Brasil pela Civilização Brasileira e com tradução de Fernando de Castro Ferro) é alcançar o céu e com vontade de retornar. Voltamos a percorrer os capítulos aleatoriamente, pulando as casas e juntando as pedrinhas do caminho. A cada releitura, a emoção é diferente, como qualquer outro jogo em que participamos. Quer jogar também, caro leitor?

Voltar para a Terra
Voltar para a Casa 1 e Casa 2
Voltar para a Casa 3
Voltar para a Casa 4

sábado, dezembro 07, 2013

Texto meu na Zero Hora de hoje


Clique na imagem para ampliá-la.

Minha resenha sobre o romance "A cidade, o inquisidor e os ordinários", de Carlos de Britto e Mello saiu hoje no caderno Cultura do jornal Zero Hora de Porto Alegre. Fiz uma versão estendida daquela que já havia sido publicada aqui e o título foi dado pelo editor. É o terceiro texto meu que sai na ZH e o segundo no Cultura.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

O silêncio


Já fui um indivíduo que fazia muito barulho. Para mim, música deveria ser sempre ouvida no volume máximo, por exemplo. Andava às vezes com meu “boombox” de pobre (leia-se “microsystem” do Paraguai) pelas ruas da cidade ouvindo rap daqueles com o bumbo bem pesado, como os do Run DMC ou LL Cool J. Também gostava de lugares barulhentos, como boates ou ensaios de escolas de samba.
O tempo foi passando, fui amadurecendo e comecei a prezar o silêncio. Silêncio para criar (escrever, compor), silêncio para ler, silêncio para ouvir música (em volume baixo), silêncio para ouvir meus próprios pensamentos. Em contrapartida, o mundo começou a ficar mais barulhento: carros, máquinas, música, risadas, TV ligada, fogos de artifício, cachorros, crentes em suas igrejas, escolas de samba, bailes e humanos em geral fazem questão de mostrar para todo mundo até aonde vai sua capacidade de fazer barulho.
O mundo ficou mais barulhento ou eu fiquei mais intolerante?
Contraditório que sou desde o nascimento, fui escolher uma profissão em cujo ambiente o silêncio deixou de imperar há algum tempo. Ser professor é aguentar não aguentando conversas, gritos, berros de alunos, tanto na sala de aula quanto no pátio. Aliás, para muitas pessoas gritar é sinal de que a criança está se divertindo, aproveitando sua época. Não são somente os alunos, mas também os professores. Rubem Alves uma vez chamou de “bosques das professoras cacarejantes” um grupo sempre presente em suas palestras que fala alto, grita.
“O silêncio foi a primeira coisa que existiu”, cantou Arnaldo Antunes. Silêncio, diga-se, que ninguém ouviu. Qual teria sido o primeiro barulho, me pergunto. Um trovão, os raios, os pingos da chuva, um fruta caindo do pé, as vozes dos animais, a voz de um ser autodenominado superior quebrou o silêncio? Seria o Deus bíblico o primeiro filha da puta que incomodou os outros perturbando a paz?
Uma coisa é certa: o barulho do homem é sempre insuportável, ou melhor, o barulho que o outro faz, não o que eu faço.
E vamos ouvir agora o 4’33’’ do John Cage.