sábado, dezembro 31, 2016

Leituras e releituras que fiz em 2016

O mundo segundo Garp, John Irving
As bacantes, Eurípedes
Psicose, Robert Bloch
Nem todo canário é belga, Flavio Moreira da Costa
Anotações durante o incêndio, Cintia Moscovich
Contarlo todo, Jeremías Gamboa
Édipo Rei, Sófocles
Jeito de matar lagartas, Antonio Carlos Viana
Todos os poemas, Paul Auster
Inventário do Ir-remediável, Caio Fernando Abreu
Noites brancas, Dostoievski
Os sete contra Tebas, Ésquilo
O primeiro da fila, Henrique Rodrigues
As fenícias, Eurípedes
Un sueño realizado y otros cuentos, Juan Carlos Onetti
Édipo em Colono, Sófocles
Logicomix Uma Jornada Épica em Busca da Verdade (Graphic Novel), Apostolos Doxiadis
Figuraciones Mías - Sobre El Gozo De Leer Y El Riesgo De Pensar, Fernando Savater
Antígona, Sófocles
El pozo, Juan Carlos Onetti
O legado de Humboldt, Saul Bellow
O evangelista, Manoel Herzog
Quem pode julgar a primeira pedra?, Gustavo Bernardo Krause
Borges vai ao cinema com Maria Kodama, Escobar Nogueira
Melhores crônicas, José Castello
Uma menina está perdida no século à procura do pai, Gonçalo M. Tavares
As suplicantes, Eurípedes
A primeira mulher, Miguel Sanches Neto
Oto e Isac, Rudinei Kopp
A literatura na poltrona, José Castello
Diarios de Emilio Renzi: los años de formación, Ricardo Piglia
Quase memória, Carlos Heitor Cony
A grande fome, John Fante
Um estudo em vermelho, Conan Doyle
Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo, Paulo Scott
Silogismos da amargura, Emil Cioran
O problema do realismo de Machado de Assis, Gustavo Bernardo Krause
Corpos divinos, Guillermo Cabrera Infante
A cartomante e outros contos, Machado de Assis
As feridas de um leitor, José Castello
Contra um mundo melhor, Luiz Felipe Pondé
Lições de mestres, George Steiner
The sunset limited, Cormarc McCarthy
Malditas fronteiras, João Batista Melo
Prosas apátridas, Julio Ramón Ribeyro
Finalmente hoje, Marcio Renato Dos Santos
A dona da casa (ou A senhoria), Dostoievski
O azul do filho morto, Marcelo Mirisola
Quem matou Juliana Klein?, Marcos Peres
Elogio de la lectura y la ficción, Mario Vargas Llosa
A dama de espadas, Puchkin
A poeira da glória, Martim Vasques Cunha
Maleita, Lúcio Cardoso
A boca do inferno, Otto Lara Resende
La vida es sueño, Calderón de la Barca
O gênio do crime, João Carlos Marinho
Héracles, Eurípedes
Estilhaços, Marcelo Backes
Salgueiro, Lúcio Cardoso
Caetés, Graciliano Ramos
O lado imóvel do tempo, Matheus Arcaro
Alceste, Eurípides
A luz no subsolo, Lúcio Cardoso
São Bernardo, Graciliano Ramos
A Bíblia do Che, Miguel Sanches Neto
Cuentos de fantasmas, Pio Baroja
O país do carnaval, Jorge Amado
Primeiro andar, Mário de Andrade
O livro das semelhanças, Ana Martins Marques
Vidas Sombrías, Pio Baroja
Brás, Bexiga e Barra Funda, António de Alcântara Machado
As traquínias, Sófocles
Winesburg, Ohio, Sherwood Anderson
O som e a fúria, William Faulkner
Duas Narrativas Fantásticas, Dostoievski
O escritor proibido, Orígenes Lessa
Parafilias, Alexandre Marques Rodrigues
Os 10 mandamentos (+1), Luiz Felipe Pondé
Laranja da China, Antônio de Alcântara Machado
Cada amanhecer me dá um soco, Andrei Ribas
A viagem, Virgínia Woolf
O conto zero e outras histórias, Sérgio Andrade Sant'Anna
Medeia, Eurípides
Papel mojado, Juan José Millás
Manifesto sem eira nem beira, Barata Cichetto
Garotos incríveis, Michael Chabon
Filosofia para corajosos, Luiz Felipe Pondé
A trágica história do Doutor Fausto, Christopher Marlowe
Naturaleza de la novela, Luis Goytisolo
Os piores dias da minha vida foram todos, Evandro Affonso Ferreira
Breves entrevistas com homens hediondos, David Foster Wallace
A cidade que o diabo esqueceu, Orígenes Lessa
Só faltou o título, Reginaldo Pujol Filho
Os contos de Belazarte, Mário de Andrade
Angústia, Graciliano Ramos
Alçapão, André Ladeia
Uma história da leitura, Alberto Manguel
Galinha cega, João Alphonsus
Mutações da literatura no século XXI, Leyla Perrone-Moisés
Así empieza lo malo, Javier Marías
Beatriz, Cristovão Tezza
Velórios, Rodrigo M. F. de Andrade
Brejo das almas, Carlos Drummond de Andrade
Fausto I – Goethe
O ladrão honesto e outros contos, Dostoiévski
Outubro, Nei Duclós
Cantos profanos, Evando Nascimento
El jardín de las delicias, Marco Denevi
Mãos vazias, Lúcio Cardoso
Visión del ahogado, Juan José Millás
Histórias de robôs, vol. 1 – Isaac Asimov (org.)
Os Heráclidas, Eurípides
Cuentos completos 1 – Philip K. Dick
A cabra vadia, Nelson Rodrigues
Cuca fundida, Woody Allen
Diálogo entre um padre e um moribundo e outras diatribes e blasfêmias, Marquês de Sade
Bartleby, o escrevente: Uma história de Wall Street, Herman Melville
Passa-três, Orígenes Lessa
O desconhecido, Lúcio Cardoso
A arte do romance, Milan Kundera
Socráticas, José Paulo Paes
Las otras puertas, Abelardo Castillo
O inverno e depois, Luiz Antonio de Assis Brasil
Rebentar, Rafael Gallo


quinta-feira, dezembro 29, 2016

Um toque


Chuva, café, música clássica e leitura. Daqui a pouco, o cachimbo. Combinação quase perfeita para uma manhã de dezembro, já de férias, final de ano, final de um péssimo ano. Os dedos escorrem pelas teclas com aquela necessidade de escrever algo. Não quero, porém, fazer nenhum balanço de final de ano como costumava fazer. As coisas ruins suplantaram as boas, peso maior para a morte trágica do meu pai, cujo rosto pude tocar pela última vez há pouco mais de dois meses.
Os dedos continuam tateando o teclado. Há pouco estava lendo o romance O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil, editado pela L&PM. O protagonista, Julius, é um violoncelista, que tateia as cordas buscando o som perfeito, que toca no seu instrumento entre as pernas (o violoncelo, que fique claro) como se tocasse as curvas do corpo de uma mulher, que toca os cobertores que o protegem do frio do pampa, que toca o corpo das mulheres (Klarika, Constanza) como se tocasse seu cello.
O toque é a preliminar do prazer. Coloco a mão sob os pingos da chuva antes de me atirar embaixo da água que cai do céu e me lembrar da infância. Toco a xícara de café e sinto o calor antes de tocar o líquido precioso com os lábios. Passo a mão sobre a capa do disco, retiro-o do plástico e limpo com um algodão sua superfície antes de rodar uma sonata de Beethoven. Sinto a textura da folha e seu cheiro antes de mergulhar numa história. Seguro o cachimbo, pego com os dedos o fumo e preparo a pipa para uma boa cachimbada. Toco suavemente o corpo da esposa antes de... vocês sabem.
Um dos trechos mais tocantes da literatura universal rende um tributo ao toque. É o primeiro parágrafo do capítulo 7 de Rayuela (O jogo da amarelinha), de Julio Cortázar: “Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.”
Basta um toque para algo desencadear. Sem ele, nada acontece. Cito uma música popular nos anos 80, de Michael Sullivan e Paulo Massadas, interpretada pela Rosana, em cujos versos o eu lírico aguarda apenas o toque da pessoa pela qual sente uma atração também correspondida. Ambos, no entanto, não têm coragem de se aproximar: “No barzinho da esquina, quase a gente se esbarra/ Nem um toque, tudo vai ficando assim”.
Toco a xícara e ela agora está fria. É necessário aquecê-la com café. Deixo de tocar os teclados e encerro por aqui. Toco o mouse para publicar esta crônica esperando que outros façam a mesmo para apreciá-la.

terça-feira, dezembro 27, 2016

Preferiria não escrever esta crônica


Há aqueles “memes” nas redes sociais que dizem “hoje estou me sentindo meio Capitu, com olhos de ressaca” ou “hoje estou me sentindo meio Brás Cubas, mais morto do que vivo”. Não vi até agora nenhum “meme” com a frase “hoje estou me sentindo meio Bartleby, prefiro não fazer”, caso contrário eu compartilharia. Essa frase, nas suas variantes em diferentes traduções, faz parte de uma novela de Herman Melville, Bartleby, o escriturário (ou o escrevente, ou o escrivão, também dependendo da tradução). No enredo, um jovem é admitido em um escritório de advocacia, com a função de copiar e revisar as cópias de documentos (século XIX, não havia xerox, é óbvio). Lá pelas tantas, quando o chefe lhe ordena algo, ele diz que preferiria não fazer, e não faz. Sua inércia causa indignação dos colegas e também do chefe que, no entanto, também sente pena do rapaz, visto que não consegue demiti-lo. Mais adiante se recusa a ir embora do escritório, chegando a morar no lugar. Por causa disso, muitas confusões vão acontecendo.
A frase de Bartleby (que Gilles Deleuze chama em um ensaio de “fórmula”) denota em princípio certa passividade do personagem. Num mundo em que agir é a regra, não fazer nada é ser um perdedor. Entretanto, escolher não fazer nada não deixa de ser uma forma de ação, até porque resulta na reação de outras pessoas. Se escolhermos não opinar sobre um assunto, outros reagem, muitas vezes de forma raivosa, afinal desejam que se diga algo, caso contrário demonstra que a pessoa concorda com o que está sendo contestado. Preferir não comentar sobre as decisões dos governantes e dos políticos, por exemplo.
Quanto à literatura, principalmente quanto a escrever literatura, muitas vezes preferir não escrever também é uma forma de fazê-lo. Posso preferir apenas ler, pensar, idealizar e deixar a escrita de lado. Isso também é escrever. Giorgio Agamben escreve em um ensaio que preferir não escrever é na verdade a potência de escrever. “O escriba que não escreve (do qual Bartleby é a última, extremada figura) é a potência perfeita, que só um nada separa agora do ato de criação.” Podemos escrever, mas não o fazemos. Preferimos o nada: “Como escriba que cessou de escrever, ele é a figura extrema do nada de onde procede toda a criação e, ao mesmo tempo, a mais implacável reivindicação deste nada como pura, absoluta potência.” Ou seja, é do nada que surge a obra. Sem o nada não há criação. Mas há que se ter a potência, juntamente com a vontade e a necessidade de escrever.
Enrique Vila-Matas escreveu um romance dialogando com a novela de Melville. Chama-se Bartleby e Companhia, em que o narrador faz um diário sobre os escritores que, por um motivo ou outro, preferiram não mais escrever. Preferiram ou, por circunstâncias diversas, não puderam mais escrever. Ou o escritor se recusa ou a obra recusa o escritor. A última alternativa é o que mais acontece. A obra prefere não existir. O escritor prefere não insistir.         
Há também o componente da rebeldia. Bartleby decide não cumprir ordens. De certa forma, quando preferimos não fazer algo, estamos reagindo, não estamos sendo passivos, estamos desobedecendo, demonstrando uma insatisfação, também estamos fazendo aquilo que não querem que façamos, estamos seguindo um caminho diferente do que querem que sigamos. Não fazer nada é também fazer algo. Preferir não opinar é melhor do que opinar sem ter a potência para tal. É o que mais se vê por aí.   

Esta é uma crônica, portanto, que preferiria não estar escrevendo. Sinto-me mais feliz com a possibilidade de escrever algo e não o fazer. A felicidade, porém, não é meu norte, caso contrário não escreveria, não opinaria, não daria a cara para bater vez em quando. Preferiria não ser tachado, não ser julgado, não ser bloqueado nas redes sociais, não ser criticado, não ser ridicularizado, não ser mal interpretado, não perder amigos, não desagradar, preferiria não ser eu. No entanto, escrevo. Prefiro não me abster de escrever. E de publicar, por conseguinte. E de incomodar.

sexta-feira, dezembro 23, 2016

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance


Notas sobre os ensaios de Milan Kundera

1
Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser.
2
Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensível, arquétipo da forma, do qual não posso escapar. Meus romances são variantes da mesma arquitetura fundamentada sobre o número sete”. 
3
Em “A herança depreciada de Cervantes”, Kundera escreve sobre Don Quixote, Madame Bovary e outras obras fundamentais da arte romanesca para, segundo ele, expor “uma concepção pessoal do romance europeu”. Destaco o que ele chama de “quatro apelos” que delineiam o romance: o “apelo da diversão”, que tem como exemplo Tristam Shandy, de Laurance Sterne, e Jacques, o fatalista, de Denis Diderot; o “apelo do sonho”, representado pela obra de Franz Kafka; o “apelo do pensamento”, a partir dos romances filosóficos de Robert Musil e Hermann Broch; e o “apelo do tempo”, cujo representante é Carlos Fuentes.
4
“Diálogos sobre a arte do romance” e “Diálogos sobre a arte da composição” fazem parte da entrevista concedida a Christian Salmon para a Paris Review. É um mergulho no processo criativo de Milan Kundera, suas escolhas estéticas, temáticas, e a influência que o processo histórico que o seu país, na época Tchecoslováquia, teve na sua obra, tendo em vista que ele foi perseguido pelo regime comunista. “O romancista não é nem historiador nem profeta: ele é explorador da existência.
5
Kafka e Broch acabam merecendo, cada um, um ensaio em particular, o que denota as preferências de Kundera. “Anotações inspiradas em Os sonâmbulos” analisa a trilogia de Broch que não é tão conhecida, pelo menos por estas bandas, já que A morte de Virgílio é a sua obra mais lida. “Em algum lugar do passado”, por seu turno, reflete sobre o que é o kafkiano, adjetivo criado a partir de obras como O processo e A metamorfose, cuja tônica é a crítica ao totalitarismo de toda a espécie. Afirma Kundera: “Franz Kafka disse sobre nossa condição humana (tal como ela se revela no século XX) aquilo que nenhuma reflexão sociológica ou psicológica poderá nos dizer”.
6
A sexta parte é intitulada “Sessenta e três palavras” e é um glossário de palavras-chave da obra romanesca de Kundera. Esquecimento (“A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.”), ironia, kitsch, leveza e riso são alguns desses vocábulos. O sétimo ensaio, um discurso de agradecimento quando recebeu o Prêmio Jerusalém em 1985, é o mais fraco, portanto uma escolha ruim para fechar o livro.
7
Dentre os vários conceitos que aparecem nos ensaios para o que é o romance, elejo este para fechar estas notas: “A grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência”. É isso.


segunda-feira, dezembro 19, 2016

Sobre mais duas novelas de Lúcio Cardoso


“Não se lê Lúcio impunemente”, afirma André Seffrin no prefácio à edição conjunta das novelas Mãos vazias e O desconhecido. Lúcio Cardoso é um escritor da angústia, de personagens angustiados e de leitores que se angustiam. Saímos de seus livros nos sentindo condenados por vivermos felizes em mundo em que a miséria humana está sempre presente ou a nossa porta ou dentro mesmo dos nossos lares.
Mãos vazias foi publicada em 1938. Inicia com a espera de uma morte que acaba acontecendo logo nas primeiras páginas e é dolorida por se tratar da morte de uma criança. Luisinho, seis anos de idade, é filho de Ida e Felipe. Ela, até os últimos momentos de vida do menino está ao seu lado, numa dedicação extrema. O pai, por sua vez, apenas demonstra certa tristeza e desespero pelo que acontece. Quando a criança enfim se vai (e escrevo estas linhas num Dia de Finados) devido à tuberculose, Ida demonstra mais tranquilidade, frieza até, tanto que acaba fazendo sexo com o médico do filho logo depois de seu enterro. (Na adaptação cinematográfica da obra, o diretor Luiz Carlos Lacerda realiza a cena na mesma cama onde está, coberto por um lençol, o corpo do menino.)  Já Felipe entra em mais desespero ainda, porém, parece, talvez apenas para demonstrar aos outros, principalmente aos vizinhos, seus sentimentos.
É o estopim para que Ida passe a externar seu desprezo pelo marido e deseja se libertar, saindo de casa, não sem antes revelar para o marido que dormiu com o médico. O marido não acredita em princípio, o que a deixa mais indignada com ele, sua falta de atitude, seu conformismo, sua mediocridade. “Queria-o mais ríspido, imaginava proezas que o pobre Felipe nunca chegaria a realizar. Nem sequer seria capaz de compreender o seu pensamento, quando chegasse a descobrir os estranhos desejos que a perturbavam.” É contra o conformismo que a protagonista mais se revolta, como nesse diálogo com sua melhor amiga: “- Ana, é possível que você viva conformada com a sua existência? (...) - Tenho marido. De que mais preciso?”
O desconhecido, de 1940, relata a história de um forasteiro que chega a uma fazenda procurando trabalho. “Batizado” pela proprietária de José Roberto (não ficamos sabendo do seu nome verdadeiro), mesmo nome de um falecido capataz da propriedade, é um estranho numa terra estranha, parafraseando o título de um romance de ficção científica. Pois esse “alien” desestabiliza ainda mais o lugar. A dona, a velha Aurélia, é dominadora e explora seus empregados, inclusive sexualmente. Expulsa a filha da empregada Elisa por ciúmes de sua beleza (“Essa menina é uma negação da minha própria existência.”) e ainda impede a mãe de vê-la. O cocheiro Miguel deixa os cachorros com fome para dominá-los e sente inveja do desconhecido, que pode lhe roubar os privilégios que tem com a velha. Já outro empregado, Paulo, namora às escondidas com a filha de Elisa que está morando em uma igreja próxima e deseja fugir com ela. José Roberto divide com ele a mesma cabana, o ensina a ler e parece ter uma atração homoerótica pelo discípulo, que parece sentir o mesmo, e tudo isso os deixa muito angustiados: “Nesse instante, ambos estavam tão próximos que um sentia no rosto a respiração do outro. E sem saber por que, ambos compreenderam que já não havia entre eles nenhuma hostilidade e que, ao contrário, alguma coisa poderosa como o instinto os tinha unido, como se, colhidos pela engrenagem de um fato misterioso e inesperado, devessem lutar juntos para se libertarem.” A condição sexual do protagonista, ao que parece, é a provável justificativa para ter saído de sua casa para buscar trabalho longe da cidade.

Vale ressaltar que o próprio Lúcio Cardoso vivia essas angústias enquanto escrevia a novela, conforme relatou em seu diário pessoal: “Os sentimentos que então me agitavam, a paixão desnorteada, a falta de caminho – ah, coisas da idade! – enquanto escrevia uma novela (O desconhecido) onde tentei lançar, encoberto, um pouco de tudo o que então me perturbava... e não era aquilo uma simples manifestação de vida, infrene e cega, do meu sangue, tumultuado e forte, manifestando por todos os modos sua vontade de existir e de criar?” Difícil aqui separar autor e personagem. E o leitor, de certa maneira, sofre junto com eles.

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Sobre Passa-tres, de Orígenes Lessa


Estou tentando ler todos os livros de contos do Orígenes Lessa, pelo menos os que eu consigo achar para comprar na internet. Depois de O escritor proibido, já comentado por aqui, e A cidade que o diabo esqueceu, li há pouco Passa-tres, primeira edição de 1935 e jamais reeditado, com a grafia da época, como se percebe no título. “Distrahido”, “egreja”, “mez”, “apparelhos”, são alguns exemplos de como as palavras tinham a escrita bem distinta. Vou manter a grafia nesta resenha, colocando um sic ao lado da palavra.
O que marca a obra de Lessa é a simplicidade de um bom contador de história. Não era um escritor experimentalista e explorador da linguagem. Os temas variam, com algumas obsessões, como o suicídio e a superstição. Fiz algumas anotações sobre cada um dos contos e compartilho com os leitores. Lembro que o livro não foi mais reeditado e por isso deixo escapar algumas revelações dos enredos.
O primeiro conto é “A virgem de Santa Anastácia”. O narrador, para se livrar de um mal entendido, inventa ter visto a imagem de Nossa Senhora nos vitrais de uma igreja. A notícia se espalha, milagres supostamente acontecem. Todos veem a imagem. Menos ele. Em “O homem perigoso”, um sujeito é responsável por “dar peso”, expressão da época que significa dar azar para as pessoas. “Havia sempre um geito (sic) de ligar o seu nome – explicação de todas as desgraças. E o infeliz passou a ser temido. Fugiam delle (sic)” Como o anterior, um conto sobre a superstição.
Também sobre o mesmo tema, mas inserindo também a questão do suicídio, “A morte a prazo fixo” traz um sujeito que ouviu uma previsão de um espírito sobre o dia e a hora em que iria morrer. Já em “Comprehensão (sic)”, é inserido o elemento fantástico. Um viaduto, isso mesmo, um viaduto fala com o narrador e conta a história do suicida que acabou de ser salvo pelo próprio narrador: “Quantas vezes a gente passa insensível por verdadeiras tragedias (sic)”. Em outro conto, “A greve da roupa”, também há um ser inanimado que fala, no caso, um terno. Vale lembra que um dos clássicos juvenis do autor se chama Memórias de um cabo de vassoura.
 Em “A vida de José de Mello Simão”, a protagonista é uma mulher que, digamos assim, “aprontava” em demasia. E quem seria o José do título? “Shonosuké” conta sobre um japonês artista de rua que é alçado a gênio da pintura por um mecenas. Há suicídio neste conto também.
Em “Revolta”, o escritor Florivaldo Munhoz percorre livrarias perguntando se seu livro foi vendido. O fracasso de um “gênio” literário é o tema. “O crime de hontem (sic)” retrata um personagem chamado Papagaio, que comete um roubo e espera ver a notícia do seu crime no jornal.
“Gargalhada” é um conto precursor do realismo mágico. Entre transmissões de rádio, começam a aparecer algumas risadas, não se sabe de quem. As gargalhadas se espalham no mundo todo, causando pânico e, inclusive, suicídios coletivos.
“Minha amante de Adolpho Menjou” fala sobre a idealização do amor. “Messalina de Paralama” é um conto trágico de carnaval. “A dama do beijo” é um conto cômico sobre a moral e os bons costumes. “O capricho de S. Excia.” tem como tema o jogo de roleta. Por último, o conto que dá título ao livro, a vida de um notório caloteiro, que vive pedindo dinheiro emprestado e nunca devolve.
A Global vem reeditando a obra de Orígenes Lessa. Espero, portanto, que Passa-tres seja contemplada com uma nova edição.

segunda-feira, dezembro 12, 2016

“Não ser o normal”


 Você olha para os outros e enxerga os mesmos rostos. Ouve suas vozes e elas são as mesmas. Homens, mulheres, crianças. Passageiros do avião, taxistas, funcionários do hotel, ex-amante, esposa, filho, amigos. Todos são iguais, inclusive o presidente George W. Bush (o enredo se passa no ano de 2005) em uma foto na parede. Sua vida é monótona, lenta. Também sempre igual. Você está triste. Mesmo assim você escreve livros e profere palestras sobre vendas, dá dicas de como agradar ao consumidor, como, enfim, se dar bem com o público. Você se tornou um best-seller, é o famoso Michael Stone, seu rosto é reconhecido em todos os lugares. Você, no entanto, não reconhece as pessoas, ex-amante, esposa, filho, amigos. Você não sabe lidar com os outros, não os vê como seres únicos, especiais, apesar de ensinar a fazer isso em seu livro.
Então você ouve uma voz diferente, uma voz encantadora no corredor de um hotel de uma cidade onde foi dar uma de suas tantas palestras. Você bate nas portas dos quartos à procura da dona da voz e a encontra. Vê um rosto diferente dos demais, se apaixona por ela, porém... Deixemos o “porém” de lado. Ela se chama Lisa, operadora de telemarketing, está no mesmo hotel porque fora justamente vê-lo com uma colega de trabalho. Lera seu livro, era sua admiradora. Vocês bebem, depois a convida para conversarem no seu quarto. Ela se espanta, pensando que ele queria a amiga, mais bonita e que sempre se dava bem com os homens. Diz que se considera diferente dos demais, um pouco por causa de uma cicatriz de queimadura do lado do rosto que esconde com o cabelo. Diz ser uma anomalia, palavra que lera no seu livro e teve que buscar no dicionário o significado. Você então a batiza de Anomalisa, trocadilho que a agrada.
“Anomalisa” é o título desta história, uma animação em stop motion com roteiro de Charles Kaufmann, autor também de “Adaptação” e “Brilho eterno de uma noite sem lembranças”. A questão da identidade é um tema presente em todas as suas obras e em “Anomalisa” não é diferente. Aqui os personagens são vividos por bonecos de silicone quase perfeitos, não fossem algumas sulcos no rosto sugerindo que usam máscaras. As máscaras, “personas” em grego, escondem ou disfarçam nossa personalidade e as usamos muitas vezes para agradar aos demais. É o que sugere o tipo de palestra que Stone faz. Devemos sorrir, ou aparentar sorrir, mesmo que a conversa seja apenas por telefone. Esse é segredo para o sucesso: ser personagem.
Um detalhe importante. O hotel onde o protagonista está hospedado se chama “The Fregoli” e é justamente Síndrome de Fregoli o nome que se dá para um transtorno psicológico em que o indivíduo vê os outros todos iguais, na verdade considera que são todos uma só pessoa que se disfarça para realizar um complô contra ele.

Uma das reflexões do filme é que devemos saber lidar com a anormalidade, fugir do normal, das convenções e tentar também enxergar no outro o diferente, aquilo que identifica cada ser. Ver por baixo da máscara é entender que não somos massa, mas sim indivíduos. Como diz a canção, “é melhor não ser o normal”. 

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Você está demitido!


Já fui demitido duas vezes. Poucas, é verdade, mas foi porque tive poucos empregos na iniciativa privada. Da primeira vez, fui chutado de um motel, onde trabalhei por mais de 5 anos como auxiliar de escritório com múltiplas funções. Fiquei p... da vida, principalmente pelo motivo alegado. O tempo passou e me conformei. Logo depois fui trabalhar numa empresa de remessas expressas e dessa vez fui eu que pedi para sair, pois havia conseguido um contrato como professor no ensino público. Fiquei quase 10 anos lecionando com contrato temporário e fui nomeado, depois de passar em concurso, há apenas 3 anos.
Nesse meio tempo, também consegui emprego em uma escola particular. Depois de 2 anos, no entanto, fui chutado, e bem chutado, me senti humilhado, inclusive. Vida que segue. Uma coisa que aprendi é que o empregador tem o direito de demitir quem ele bem entender e que não somos insubstituíveis. Por isso me incomoda quando vejo, principalmente na imprensa, uma gritaria quando profissionais são demitidos. Às vezes, a crítica é só por corporativismo, outras vezes por questão ideológica. Questiono, por exemplo, por que a rádio CBN não pode demitir seus jornalistas, se assim achar por bem? Por que os sindicatos reclamam? E por que a TV Brasil não pode escolher não renovar o contrato de uma apresentadora como Leda Nagle? Só porque o seu programa tinha mais de 20 anos no ar? Só porque outro partido comanda a estatal? O que dizer então da maioria da população que trabalha apenas três meses de um contrato? Quem grita por ela?
Perder o emprego é ruim para todo mundo. Dá uma sensação de fracasso, a gente fica sem saber o que fazer, bate uma angústia danada. São planos de vida que escoam pelo bueiro, uma indecisão sobre o que se vai fazer para pagar as contas, comprar comida e livros, sustentar ou colaborar com o sustento da família. Entretanto, apesar de estar relativamente tranquilo na minha posição, sinto que é uma injustiça com o contribuinte que eu tenha estabilidade profissional por conta de um concurso público. O contribuinte é meu chefe, no entanto ele pode ser demitido a qualquer momento e eu não. Por conseguinte, há funcionários que fazem corpo mole, não trabalham a contento porque sabem que não vão para o olho da rua. Já passei por isso depois da morte do meu pai por conta de um acidente de trânsito. Primeiro, o policial civil que não registrou devidamente a ocorrência, por mais que eu tenha dito que não havia sido feito o BO da Brigada Militar. Depois, os médicos do IML, que não faziam plantão na madrugada e somente de manhã liberaram o corpo para a funerária, deixando a família angustiada.

Entendia antes a estabilidade do funcionário público como decorrência da política, já que servia para evitar que fossem demitidos todos aqueles que não concordassem com o partido que tivesse o poder estatal. Se penso diferente, é porque mesmo assim as pressões políticas continuam, a possibilidade de fazer greves diminui por conta de leis que coíbem a prática, e me sinto culpado por ter regalias que os demais trabalhadores não têm. E ser demitido faz parte do jogo. Não somos donos de cargos. Outros, mais ou menos competentes, podem tomar nosso lugar, por que não? É a roda.

sexta-feira, dezembro 02, 2016

Traçando Livros de hoje é sobre o samba


Traçando sambas
Aos mestres Jorjão e Alcemiro dos Santos

Vários sambas, não apenas livros, deixaram traços na minha vida. Muitas letras retratam passagens marcantes, momentos de prazer, dor, mas também felicidade, ou me fazem refletir sobre a questão humana. Letra de música não é gênero literário (por isso discordo do Prêmio Nobel concedido a Bob Dylan), mas a carga poética de muitas obras de sambistas não é inferior a de muitos escritores. De qualquer forma, é arte de primeira e foi trilha sonora de muitas de minhas leituras, bem como me inspirou a criar alguns contos, por isso me sinto na obrigação de render homenagem ao centenário do samba.
Há 100 anos, foi realizada a primeira gravação de um samba: “Pelo telefone”, de Donga. O ritmo, que mistura diversos elementos da cultura negra com os de outras culturas, notabiliza-se pela qualidade de seus letristas, grande parte oriunda de morros e bairros pobres e sem estudos formais. Nelson Cavaquinho, por exemplo, empunhando seu violão nos bares da vida, rascunhava versos como os de “A flor e o espinho”, junto com Guilherme de Brito, (“Tire o seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor”) ou os de “Notícia”, que inspiraram um conto meu chamado “Arranhões”: “Guardei até onde eu pude guardar o cigarro deixado em meu quarto é a marca que fumas confesse a verdade não deves negar.” Neste mesmo conto, cito também os versos de outro gênio, numa cena em que a protagonista ouve um LP do Cartola, mais precisamente a faixa “Meu mundo é um moinho”, que está arranhada: “Vai reduzir, as ilusões a pó-a pó-a pó-a pó...”
Em outro conto que escrevi, “Aprendizado”, os versos “As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”, de “Coisas do mundo, minha nega”, samba de Paulinho da Viola, serviram como epígrafe. Já em “Feliz aniversário”, usei como epígrafe os versos “E o meu medo maior é o espelho se quebrar”, do samba “Espelho”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro.
Pois esta música e sua continuação, “Além do espelho”, têm versos que me emocionaram demais no último mês, depois da morte do meu pai em um acidente de trânsito. Tratam justamente da relação do filho com a figura paterna, filho que depois também se torna pai. Em “Espelho”, há a perda ("Num dia de tristeza me faltou o velho/ Que falta lhe confesso que ainda hoje faz"), e na segunda canção, o filho, agora pai, pensa na sua responsabilidade ("Quando eu olho o meu olho ali no espelho/ Tem alguém que me olha e não sou eu/ Vive dentro do meu olho vermelho/ É o olhar de meu pai que já morreu/ O meu olho parece um aparelho/ De quem sempre me olhou e protegeu/ Assim como meu olho dá conselho/ Quando eu olho no olhar de um filho meu”).
Se fôssemos reunir as melhores letras de samba em um livro, lá estariam, além dos já citados, os versos magistrais de Silas de Oliveira e Joaquim Lirindo em “Meu drama (Senhora tentação)”: Será, que o amor por ironia/ Deu-me esta fantasia/ Vestida de obsessão”; a singela “Prova de carinho”, de Adoniran Barbosa e Hervê Cordovil: “Com a corda Mi, do meu cavaquinho/Fiz uma aliança pra ela, prova de carinho”; a sofrida “Nervos de aço”, de Lupicínio Rodrigues: “Há pessoas com nervos de aço/ sem sangue nas veias e sem coração”; “Sonho meu”, de Ivone Lara e Délcio Carvalho: “No meu céu a estrela guia se perdeu/ A madrugada fria só me traz melancolia”; e tantos, tantos outros versos que não serão citados devido ao espaço.
Em outra cultura, talvez, esses sambistas seriam grandes romancistas, contistas, poetas. Quis o destino que nascessem aqui. Neste caso, para nós, como diria o sambista Wilson das Neves, “ô, sorte!”

Cassionei Niches Petry é escritor e professor. Publicou Arranhões e outras feridas e Os óculos de Paula. Já arriscou algumas letras de samba, ainda inéditas. Seu blog: cassionei.blogspot.com.

segunda-feira, novembro 21, 2016

Uma crônica paranoica


Observe, caro leitor, este curto poema de Carlos Drummond de Andrade chamado “Cota zero”: “Stop./ A vida parou/ ou foi o automóvel?”. Minha interpretação dos versos sempre relaciona a vida ao homem e o automóvel à máquina. Se respondermos a pergunta dizendo que foi o homem que parou, podemos dizer que, em consequência disso, a máquina também vai parar, afinal somos nós que a ativamos. Por outro lado, parando a máquina, o homem também para, pois estamos nos tornando tão dependentes da tecnologia que não fazemos nada sem clicar botões. O resultado disso está no título do poema, pois a nossa cota de participação no mundo será zerada: já há máquinas que criam, acionam e fazem a manutenção de outras máquinas. Sobrará algo para nós?
A ficção científica discute há muitos anos a questão. As histórias de robôs (e para mim toda máquina é um robô em potencial) ora os mostram como vilões, ora como aliados. Um conto de Harl Vincent, “Rex”, de 1934, época próxima do poema drummondiano, traz um autômato desenvolvido que realizou um golpe para se tornar o rei da humanidade. Já Isaac Asimov criou para seus contos e romances as “três leis da robótica”, que proíbem os robôs de fazerem algum mal para o ser humano. Isso pelo menos no âmbito ficcional.
Quando penso numa possível dominação das máquinas, vejo assustado os olhares fixados nas telas dos celulares, os dedos nervosamente digitando, os corpos excitados depois de ouvirem o sinal sonoro ou perceberem a luz que acende, como animais condicionados em laboratório reagindo sob estímulos. Os aparelhos móveis, que hoje fazem de tudo, despertam o meu lado paranoico. Assusta-me a possibilidade desses pequenos robôs dominarem de tal forma o ser humano, fazendo-nos abrir a guarda para a chegada de autômatos maiores, que poderão controlar o mundo e relegar ao ser humano o papel de escravos, numa vingança premeditada há décadas, apesar de estarmos sendo alertados pela ficção.
Digito essas palavras justamente em uma máquina, o computador, que vez ou outra parece não atender os meus comandos, tranca teimosamente, fica lento na hora em que eu mais preciso de agilidade. Parece ter vida própria. A resposta realista é a possibilidade de que algum vírus (metáfora que deveria aumentar nossa paranoia) tenha infectado os programas. Os vírus, dizem, são criações de seres humanos com o intuito de obter informações de seu computador, dados pessoais que possam ser usados para crimes. Deve existir, porém, vírus criados pelas próprias máquinas. Não me surpreenderei no dia em que a tela escurecer e um emoji aparecer para me dizer “olá, humano, você agora está sob o meu comando”.
Meu lado cético, geralmente predominante, duvida de teorias conspiratórias. Já meu lado paranoico, porém, cada vez que vê uma pessoa absorta em seu celular, tem medo de uma possível dominação das máquinas. Espero que isto nunca venha a acon#@ ((()))&*%1!!bzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

sábado, novembro 19, 2016

De certezas e não-certezas vamos vivendo


Gostaria de ter a certeza que muitas pessoas têm. Elas acreditam tão fielmente nas suas verdades e acham que os demais estão errados, são “massa de manobra”, “corrompidos pelo sistema”, “ovelhinhas do capitalismo”. Por incrível que pareça esses chavões ainda persistem. Eu próprio caí em muitos deles. E ouvi essas frases feitas por estes dias.
Mas se duvidarmos das nossas certezas, veremos que não são apenas os outros a “massa de manobra”. Se alguém diz, por exemplo, que não devemos simplesmente aceitar a tal da PEC (qual o número dela agora?), pois estaríamos sendo manipulados, devemos nos perguntar se quando somos contra porque nos disseram que ela é ruim, não estaríamos servindo da mesma forma de fantoches de alguém. Vejam que coloco tudo no plural porque me incluo como um cara que acaba sendo dirigido, robotizado, pois desconheço o assunto, meus interesses são outros. Minha opinião acaba sendo pautada por terceiros, por isso não exponho para não passar vergonha depois. Ou seja, não vou falar que sou contra nem a favor, pois não tenho a capacidade para analisar o assunto, tampouco li a proposta para saber que tudo que me dizem faz sentido. E olha que sou bombardeado todos os dias por opiniões distintas.
Penso sobre o assunto depois de me lembrar de um Rap que escrevi em fins dos anos 90, início dos anos 2000. Quando leio os versos que escrevi, não me reconheço, ou melhor, reconheço um jovem cujas opiniões não eram próprias, eram orientadas por seus amigos, pelos seus pares na arte que praticava, pelas músicas que ouvia, pelos livros, artigos e entrevistas que lia. Era um ser totalmente alienado e que achava que os outros o eram.
Hoje tento ter uma visão individual, porém, até sem saber, ela continua sendo influenciada pelas coisas que leio, pelas informações que recebo, pelo que “os outros dizem”. Lógico que tento colocar tudo numa balança, equilibrar e, a partir daí, estabelecer minha análise pessoal. Estaria, porém, mentindo para mim mesmo se dissesse que não sou influenciado.
Por isso que a literatura, de certa maneira, me conforta, mesmo se me tira do clichê da zona de conforto. Sua incerteza, seu desequilíbrio, sua incoerência, às vezes até sua covardia, sua alienação, sua fugacidade, sua submissão, sua confusão me dão o chão, ou me tiram esse chão, me sustentam ou me derrubam, no entanto não deixam minha mente se conformar, parar de funcionar, fazem-na mudar constantemente. Isso angustia, mas uma vida sem angústia é muito chata de ser vivida.

Não, não tenho certeza sobre isso que escrevi. A escrita às vezes tenta ordenar meu pensamento, o caos que tenho dentro de mim, tenta buscar um norte. Saio, porém, desnorteado da imersão em um texto literário de um grande autor e ao ficar sem rumo encontro um caminho. Saber que o mundo é esse caos e que minha cabeça é só uma peça dessa máquina avariada é o que conduz minhas elucubrações. É um sentido para a existência.

sexta-feira, novembro 18, 2016

Uma barata chamada Cichetto


Prefácio que escrevi para o livro que reúne as crônicas do Barata Cichetto. Para comprar o livro, entre em contato com o autor: barata.cichetto@gmail.com

Conheci o Barata Cichetto há pouco mais de cinco anos através de um de seus programas de web rádio. Depois de muita paulada sonora, rock de primeira, entrava uma voz cavernosa, com efeito de eco e ar messiânico lendo poesia! Estava diante de algo diferente, não me lembrava de ter ouvido algo parecido em um programa de rádio, mesmo na internet. Entrei em contato com ele, visitei seus blogues, e conheci o Barata cronista, além do poeta, contista, editor e mais das “trocentas” atividades que o cara faz há décadas. E, bem, ele tem como uma das referências o Franz Kafka. A confraria dos kafkianos é seleta.
Reunir suas crônicas em um volume que “para de pé” é necessário (e mais um desafio de uma cara que sempre arrisca) para registrar suas opiniões contundentes, sua pena sarcástica, seu lado “lítero-rock-cronicamente-incorreto”. Ter a honra de ser escolhido para ler e reler os fragmentos do pensamento dessa mente inquieta (mais de quatrocentas páginas que não dão conta do que ele tem para dizer!) e escrever sobre isso me pôs numa responsabilidade tremenda. Um pedido do poeta, porém, é uma ordem, apesar dessa palavra, “ordem”, não ser da predileção deste artista caótico.
 A crônica é um gênero que aceita uma porção de formas para sua composição. Barata sabe utilizar essa infinidade de recursos. Alguns, por exemplo, são poemas em prosa (como “O Escafandro e o Leão”), contos (“A História do Incrível Tom Vermelho e seu Incrível Gato Matapun”), manifestos (como o que dá título ao livro), depoimentos pessoais e memórias, resenhas (de livros, filmes ou discos), textos”desabafos do facebook”, prefácios, ensaios, artigos.
Já na “Introdução nada elegante” ele mostra a que veio, usando da escatologia para mostrar que sua escrita é uma necessidade fisiológica. Quem conhece seus poemas não se surpreenderá com a crônica-introdução. Quem não o conhece terá o prazer ou desprazer de ser apresentado de forma nada lisonjeira ao Barata Cichetto. 
Os temas são diversos. Fala sobre o Barata adolescente em “O Sofá-Cama Vermelho (Ou As Mulheres Preferem os Espertos)”, mais precisamente sobre o que é ser esperto nessa idade, se é ser o valentão, o pegador ou leitor. Sabiamente, e para nossa sorte, ele escolheu por esse último “tipo de esperteza”. Em “O Que Eu Poderia Ter Sido, o Que Fui... E o Que Sou”, lembra, entre outros momentos de sua vida, quando deixou os estudos regulares do colégio, procurando somente as putas da Boca do Lixo. Seguiu na época, sem saber, um dos conselhos do escritor chileno Roberto Bolaño, cuja obra ele veio a conhecer anos depois: “A un aspirante a escritor le daría el consejo que nos dábamos los jóvenes infrarrealistas en México. Cuando teníamos 20, 21 años, teníamos un grupo poético, y éramos jóvenes, maleducados y valientes. Nos decíamos: vivir mucho, leer mucho y follar mucho.”
Escreve sobre a paixão pelos livros, em “O Amante Perfeito” e pela poesia em vários textos. Imagina o ano de 2058, quando teria 100 anos. Diz: “Sou racista: não suporto a raça humana!” na sucessão de frases de “Tarde Demais!”. Escreve sobre os palavrões, cria um prefácio para um romance que nunca escreveu (mas que ainda dá tempo!), analisa a web rádio, tece uma ode ao cigarro (e lembro quando recebo seus livros com o forte odor dos cilindros brancos), fala sobre a morte, a dos outros e a dele.
Barata escreveu muitas notas de rodapé para citar as referências que vão aparecendo ao longo dos textos, mas às vezes escamoteia essas explicações para deixar para os bons entenderes essas relações. Tem ciência de que a obra literária não pode ser didática, por isso não abusa das notas. Quer dizer, às vezes abusa sim, mas esse é o Barata que usa e abusa das palavras, do leitor, da literatura.
Escreve em uma das crônicas: “...eu contemplo as ondas, pois são elas que formam o oceano”. Mais do que contemplar, antes ele dá o sopro forte (soprando a fumaça do cigarro) que movimenta as ondas, provoca ressacas e nos puxa para a amplidão do mar. Aí sim contempla o efeito das suas palavras, sempre contundentes, sempre ferindo.
O Luiz Carlos é a barata raul-seixeana na tua sopa (mosca é para os fracos!), a barata clariceana que te espreita num quarto abandonado e que tu desejas engolir, é a barata kafkiana que prende teu corpo em uma cama. É a barata que não é pisada, mas sim aquela que pisa e esmaga o nojento ser humano.
Cassionei Niches Petry é leitor, escritor, professor e mestre em Letras (necessariamente nesta ordem), ainda que muitos pensem o contrário. Cometeu o crime de publicar, em edições precárias que quase ninguém leu, o livro de contos Arranhões e outras feridas e o romance Os óculos de Paula. Tem pelo menos três livros prontos para também não serem lidos. Suas palavras ao vento podem ser recuperadas no blog “Cassionei lê e escreve” (www.cassionei.blogspot.com). 



quarta-feira, novembro 16, 2016

Sobre “Visión del ahogado”, de Juan José Millás


Visión del ahogado, de Juan José Millás, tem uma condução da narrativa que começa a surpreender logo nos primeiros capítulos. O foco, sempre em terceira pessoa, recai no primeiro capítulo sobre Jorge e pensamos que ele será, por conseguinte, o protagonista. Nos próximos capítulos, no entanto, o foco vai alternando entre os demais personagens. O ponto em comum entre todos é Luis, apelidado Vitaminas, de quem Jorge era amigo desde os tempos da universidade. Este agora está dormindo com a ex-esposa do outro, Julia, que tem uma filha com Luis, que por sua vez está sendo perseguido pela polícia nas ruas de Madrid devido a um assalto a uma farmácia, buscando remédios para sua febre (são os seus delírios que inspiram o título do livro).
 Uma testemunha que viu o fugitivo e faz a denúncia aos policiais, Jesús Villar, também foi colega dos outros dois, e sua esposa, Rosario, havia tido um caso com Vitaminas, sendo que ela era filha de um dono de uma farmácia... Paro de falar para não revelar alguns detalhes e coincidências que vão surgindo. Vale acrescentar que a narrativa volta ao passado, relatando a amizade e os desejos contidos na época da academia, assim como se situa também no ano anterior aos fatos do presente, quando Jorge se aproxima de Julia.
Publicado em 1977, é inevitável ler o romance e não fazer referências com o fim do franquismo na Espanha. Julia tem medo de represálias da polícia por estar dormindo com outro sendo que oficialmente não está divorciada, o que era proibido pelo regime. Ambos também têm receios do porteiro, mesmo que ele se mostre prestativo e se preocupe com os dois quando a polícia desconfia que Vitaminas possa estar escondido no apartamento. Vitaminas tenta se esconder no subterrâneo do metrôs e depois no porão do edifício de Julia. Ocultar, se esconder, fugir, desconfiar e ter medo são símbolos de um tempo em viviam os espanhóis.

Dando estas pistas para o leitor seguir, Juan José Millás escreveu um romance que não subestima o leitor. Pena não ter sido traduzido por aqui, aliás, poucas obras do autor o foram, nem mesmo seu best-seller juvenil Papel mojado, sobre o qual já escrevi aqui na blog. Lacunas que ainda podem ser preenchidas pelas nossas editoras.

sexta-feira, novembro 11, 2016

No Traçando Livros de hoje, Alberto Manguel


Indo além do conhecido

O menino olhava para as prateleiras de um móvel antigo e via enfileirados os gibis que pertenciam a seu tio. Não os alcançava e, por isso, a curiosidade por conhecer o que havia neles só aumentava. Quando descobriu uma forma de pegá-los, arrastando uma cadeira para poder subir nela, finalmente teve acesso àquele mundo misterioso. Abriu uma das revistas e os desenhos dos super-heróis, que antes via apenas na televisão ou nos bonecos de brinquedo, estavam ali, para serem admirados em suas cores e traços. Porém, as letras e as palavras dos balões ainda eram outro mistério que precisava ser desvendado. A curiosidade de saber o que estava escrito o levou a aprender a ler sozinho. E assim passaram-se os anos e novas coisas que surgiam aumentavam sua vontade de saber mais, de ler mais, de ouvir mais, de ver mais.
Semelhante ao menino (que por acaso era este que vos escreve), a existência de Alberto Manguel também foi e ainda é movida pela curiosidade. O escritor argentino, na verdade mais leitor do que escritor, tendo inclusive trabalhado para o cego Jorge Luis Borges com a função de ser os seus olhos para ler, já nos mostrou esse percurso em obras como Uma história da leitura, A biblioteca à noite ou A cidade das palavras. É, no entanto, no seu mais recente livro lançado no Brasil, Uma história natural da curiosidade (Companhia das Letras, 486 páginas), que ele explica o que é essa tal de curiosidade, por que queremos saber sempre mais, quais as perguntas que movem o ser humano, quais foram os indivíduos mais curiosos e qual a contribuição deles para o mundo.
“Cheguei à Divina comédia tarde, pouco antes de completar sessenta anos de idade”, admite humildemente Manguel, que nasceu em 1948. Sua curiosidade, portanto, não se apaga, mesmo que já tenha lido e escrito sobre quase tudo. Como não é egoísta, compartilha conosco sua descobertas, nos conduzindo a conhecer a história da curiosidade assim como a leitura da Divina comédia de Dante conduz os capítulos, lembrando que este foi, por sua vez, guiado por Virgílio pelos círculos do inferno. Guiados pelos três, então, aprendemos, entre muitas outras coisas, a origem do ponto de interrogação, “enrolado sobre si mesmo como contestação de um orgulho dogmático”; viajamos com Ulisses que “anseia pelo que está além do fim do mundo conhecido”; nos encantamos com Eva e Pandora, as primeiras mulheres de mitologias distintas, mas que têm em comum a curiosidade que trouxe a punição para os humanos, devido ao “desejo ilícito de conhecer o proibido”; percebemos a importância da escrita, “a arte de materializar o pensamento”; filosofamos juntos com Sócrates, que mais perguntava do que respondia, ou melhor, respondia com perguntas.

“A tentação do horizonte está sempre presente, e mesmo se, como acreditavam os antigos, ultrapassando o fim do mundo um viajante caia no abismo, isso não faz com que nos abstenhamos da exploração, como diz Ulisses a Dante em A divina comédia.” Por isso não nos contentamos com o conhecido, queremos ir além, por isso terminamos a leitura de Uma história natural da curiosidade e não ficamos satisfeitos, não nos saciamos. Se deixarmos a busca, deixamos de existir.

segunda-feira, novembro 07, 2016

Um exame que precisa ser reexaminado

O ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, pode estar com os dias contados, pelo menos nos moldes como está sendo aplicado. Particularmente, espero por isso, depois de um novo governo ter assumido o poder. O que era para ser apenas uma avaliação do nível de conhecimento dos alunos que saem da educação básica acabou, nos últimos 10 anos, “metamorfoseando-se num inseto monstruoso”, tal qual o personagem Gregor Samsa, da obra de Franz Kafka, virando um processo de seleção obrigatório e único para muitas universidades, com os alunos sendo chamados de candidatos, realizando provas com questões de cunho ideológico acentuado, conduzindo o estudante a pensar do mesmo modo que os membros do partido que estava no poder, ainda o responsável pelo exame deste ano.
Uma abordagem rápida da prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias nos mostra alguns caminhos estranhos que o ENEM vem percorrendo, e olha que vou deixar de lado o caráter ideologicamente tendencioso nessa minha síntese crítica. Foco na parte de Literatura, ou pelo menos a que envolve escritores, tendo em vista que não há uma separação nítida entre as disciplinas que envolvem as linguagens (além de Literatura, temos a Língua Portuguesa, as Línguas Estrangeiras Modernas, a Educação Física e a Arte, as duas últimas com pouquíssimas questões).
Os autores contemplados são, em sua maioria, da década de 50 pra cá, alguns, inclusive, desconhecidos até por mim. Como a prova acontece muito cedo, no começo de novembro, os professores, preocupados em seguir o conteúdo programático da escola, estão começando a ver esse período somente agora, nos últimos dois meses de aula. Nas minhas aulas, não cheguei ao João Cabral de Melo Neto e à Clarice Lispector, por exemplo, dois nomes presentes de forma merecida. Está certo que as questões são mais interpretativas, o que é um ponto positivo, mas os alunos vão me questionar: "professor, o senhor não passou pra gente nada sobre Zorzetti, H.". Terei de assumir que nem mesmo eu conheço esse escritor (tive que procurar no Google para saber a quem se refere, porém há poucas informações na internet, muito menos em livros didáticos). Como vamos adivinhar o que vai cair no exame se não há um guia de estudos? Ensinamos bastante sobre os contos e romances de Machado de Assis, no entanto há só uma questão sobre uma crônica dele, no âmbito da Língua Portuguesa, e mais nada sobre o nosso maior escritor. Falei bastante sobre Carlos Drummond de Andrade nos últimos dias em sala de aula, o autor mais citado nas outras provas, lemos e analisamos as poesias dele, mas não houve nenhuma questão sobre o maior poeta brasileiro. “Ah, mas tem uma questão sobre o Arcadismo, Cassionei”, dirá alguém, entretanto, caiu um autor deste período que não é muito estudado, Cláudio Manuel da Costa.

Acredito que a intenção é acabar com a Literatura como disciplina. A Base Nacional Curricular Comum a coloca como apêndice de Língua Portuguesa, sendo que já o é em muitos Estados, porém no Rio Grande do Sul ela ainda tem seu lugar. Aliás, querem acabar com todas as disciplinas (criticadas pejorativamente como “gavetinhas”), transformando-as em áreas de conhecimento misturadas e confusas, como se isso fosse resolver os problemas da educação. Para muitos, as disciplinas são coisa do passado. Querem enterrar o passado. E estão conseguindo.

domingo, novembro 06, 2016

Meu primeiro texto no jornal há 20 anos


Acabei esquecendo (ah, memória!) de postar antes, mas foi no dia 26 de outubro de 1996, há 20 anos, que estreei em letra impressa, escrevendo minha primeira crônica, intitulada "Memorião". Tinha 17 anos de idade. Foi publicada no Riovale Jornal, mais precisamente no Caderno 2, editado na época pelo escritor e advogado Roni Ferreira Nunes, meu primeiro editor, portanto. Imaginem a minha felicidade ao ver meu nome impresso pela primeira vez.

sexta-feira, outubro 28, 2016

Tchau, pai!


O destino é duro com o ser humano. Penso nele como um cara cruel, que nos dá bons momentos para depois nos derrubar. Também nos faz refletir sobre algumas coisas para depois tudo que refletimos cair em nosso colo. No último sábado, escrevi no meu “blog” sobre um livro de contos chamado Velórios, de Rodrigo M. F. de Andrade. Coincidentemente, eu havia ido, nas últimas semanas, a alguns velórios de mães e sogras de amigos e também no de um primo, na verdade primo de minha mãe. Pois o destino, na mesma noite, levou o meu pai, de forma trágica, e me vi, então num velório que não gostaria de enfrentar assim tão cedo.
Para ser sincero, não acredito em destino. Também não acredito nas Moiras, mas as utilizo simbolicamente para pensar sobre a vida e a interrupção dela. Na mitologia grega, as Moiras são as responsáveis pelo destino, tanto dos mortais como dos deuses. Elas são três e, através da Roda da Fortuna (e por mais uma dessas coincidências inexplicáveis, enquanto estou escrevendo, começa a rodar no rádio justamente a “A fortuna”, parte da cantata Carmina Burana, de Carl Orff), fabricam, tecem e depois cortam o fio da vida. Quando o fio está no topo da roda, são os momentos bons. Na parte de baixo, estamos com má sorte. Por isso, quando as coisas acontecem, costumo dizer “é a roda, é a roda”. A mais temida das Moiras é a Átropos, responsável por cortar o fio, orientada por Tânatos, a personificação da morte. É o fim da existência do indivíduo.
O que vem depois? Para a mitologia grega, as almas vão para o Hades. Eu, particularmente, não acredito em outro plano. Uso sempre uma frase do escritor russo Vladimir Nabokov: “nossa existência é um curto circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”. Não há nada antes e nem depois. Há tão somente a vida e a ausência dela. O que dói é quando essa vida se ausenta, é a falta dela no nosso convívio. É a dor que sinto nos últimos dias pela perda do meu pai.
Quiseram as Moiras ou o Moro, deus do destino, que não fôssemos à festa de aniversário da neta do meu pai naquele dia. Nesse momento surge o famoso “e se...”. E se tivéssemos ido à cidade vizinha para abraçar a pequena cujo fio da vida roda há apenas dois anos, o pai não teria atravessado a rua na faixa de segurança e o motociclista imprudente não o teria atingido de forma violenta? E se um conhecido que viu meu pai passando na frente da sua casa o tivesse chamado para tomar um chimarrão, ele ainda estaria entre nós?

Não, não existe “e se...”. Existe a vida como uma roda que de repente para. Há rodas que param, outras que continuam. As rodas de um carro pararam para o pai atravessar a rua. As rodas da moto não. O fio da vida do pai foi cortado, mas o nosso fio continua a ser tecido. Precisamos levar a lição para sermos prudentes, saber que por mais que façamos o certo, os outros fazem o errado e esse erro pode nos afetar. E precisamos aprender a viver a vida da forma como gostamos de vivê-la. E isso o meu pai fez, da sua maneira, errando e acertando, foi uma de suas lições. Ainda gerou sete novas vidas que por sua vez, até o momento, geraram outras seis vidas e essas rodas continuam rodando, rodando...

sábado, outubro 22, 2016

A morte e a vida em “Velórios”, de Rodrigo M. F. de Andrade


Por essas coincidências que não podem ser explicadas, enquanto lia os contos de Velórios, de Rodrigo M. F. de Andrade (1898-1969), tive a tristeza de ir a três velórios no espaço de poucos dias. Mães e sogras de amigos e também um parente meu não muito próximo acabaram nos deixando. É a roda, como costumo dizer. Dela não podemos escapar.
Livro único do autor, que deixou de escrever para se dedicar exclusivamente à direção do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, cargo que assumiu até quase o fim de sua vida, Velórios (publicado em 1936) tem como unidade a “indesejada das gentes”, mais precisamente o reflexo dela nas pessoas que ficam. A maioria tem algumas cenas que acontecem justamente nesse ambiente algo sombrio e melancólico, em que a vida e a morte se intercalam em uma mesma sala, em que conversamos com o corpo frio do ente querido e fazemos homenagem a sua memória. É também local de conversa, de reencontro, há de tudo um pouco nesse momento.
Há, por exemplo, os “fiascos”, como o protagonizado pela viúva no conto “Martiano e a campesina”, que grita: “Mataram meu marido! Essa gente matou ele! Perseguiram ele até matar!”. Há os falatórios, como as das cunhadas da viúva em “O enterro do Seu Ernesto”, que criticam a mulher por não querer chegar perto do corpo do marido: “Ela tem nervoso de ver ele? Isso é porque ficou com a consciência suja.” Há também as revelações de que o morto não era assim tão bom como se dizia, dessa vez em “Seu Magalhães suicidou-se”, cuja viúva relata ao sócio do marido os casos que este teve com as irmãs da própria mulher.
Pedro Dantas, autor do prefácio da edição que tenho em mãos (José Olympio Editora, 1982, 3. ed.), escreve que “neste Velórios, o que mais importa não é a morte dos homens, é a sua vida”, tanto a do morto quando as do que os velam. Não à toa relembramos sempre as histórias que a pessoa vivenciou e da qual, de certa forma, fizemos parte. Rodrigo M. F. de Andrade registrou algumas dessas histórias, não ocultou nada e imortalizou essa instituição tão brasileira que é o velório e tudo que o cerca.
A leitura desse pequeno volume faz parte de uma sequência de leituras que venho tentando realizar de livros de contos publicados a partir dos anos 20 do século passado, tendo como guia o estudo Conto brasileiro contemporâneo, Antonio Hohlfeldt.  Li por esses dias Galinha cega, de João Alphonsus, e A cidade que o diabo esqueceu, de Orígenes Lessa, lançado já nos anos 30.

  

sexta-feira, outubro 21, 2016

O escritor que ainda não ganhou o Nobel



O Traçando Livros de hoje poderia ser sobre um Prêmio Nobel de Literatura. Javier Marías é sempre um dos cotados para ser laureado, porém a academia sueca, neste ano, resolveu prestigiar o cantor Bob Dylan, que produz poesia para suas músicas, mas não faz literatura. Seria uma longa discussão que não vou realizar aqui, pelo menos não na coluna de hoje. Marías tem uma obra sólida, construída ao longo dos anos de forma impecável, elabora a palavra artisticamente para ser publicada em livro. Faz grande literatura, portanto, assim como Philip Roth, também ignorado pelo Nobel.
Assim começa o mal, lançado recentemente pela Companhia das Letras, com tradução de Eduardo Brandão e generosas 520 páginas, é um título retirado de versos de Hamlet, peça de Shakespeare. O bardo inglês é uma referência na obra de Javier Marías e, dessa forma, a voz do fantasma do pai de Hamlet me soprava a todo o momento para fazer uma leitura do romance como tragédia teatral. E aí poderia surgir outra questão: por que letra de música não pode ser literatura e o roteiro teatral sim? Tenho minha resposta, mas não cabe discutir agora.
No palco montado em minha mente, temos o narrador em 1ª pessoa, que ora se dirige para o público, ora dialoga com os outros personagens. Juan de Vere relembra uma fase marcante de sua vida quando, com vinte e três anos, trabalha como secretário particular de um diretor de cinema, Eduardo Muriel, servindo como assessor na tradução dos roteiros. É início dos anos 80 na Espanha e o país vive o momento posterior à ditadura de Franco, época de retomada da liberdade antes sufocada. Indo morar temporariamente na casa do seu empregador, De Vere conhece a esposa de Eduardo, Beatriz Noguera, que vive numa situação complicada com o marido. Dormem em quartos separados, mas não se divorciam, atitude até aquela data ainda proibida mesmo depois do regime franquista. Outro teatro dentro do teatro, com o jovem sendo o único membro da plateia, esperando descobrir qual o segredo que separa o casal.
Os conflitos do enredo começam a partir de um pedido de Muriel para o narrador: que se aproximasse de um amigo, o médico Jorge Van Vechten, para descobrir se era verdadeira uma informação sobre sua conduta no passado, mais precisamente seu comportamento com uma determinada mulher. De Vere, então, passa a levar o doutor para a noite pulsante de Madrid, tendo contato com mulheres mais novas, despertando no velho homem os seus desejos juvenis. Enquanto, isso, obcecado por Beatriz, De Vere começa a segui-la em suas andanças pelas ruas da cidade e mais uma vez é plateia, agora de uma cena na janela de um santuário católico. Leia e “verá” a cena, caro leitor.
Javier Marías conduz com maestria a narrativa. As frases longas, bem como as digressões filosóficas do narrador, fluem de tal maneira que, mesmo com a complexidade dos temas (o segredo, a verdade revelada, as armadilhas da verdade, o silêncio de quem sabe, o suicídio) o leitor não se perde na rede tecida pelo escritor. A tragédia vai sendo urdida e, sem nos darmos conta, ela acontece e irrompe, deixando-nos perplexos diante do resultado. As atitudes discutíveis das personagens revelam algo do ser humano que nos é inato e é isso também que faz de Assim começa o mal uma obra-prima, dentre tantas escritas por Marías.