terça-feira, fevereiro 28, 2017

O escritor e seu pai


Relutei um pouco em reler A invenção da solidão, de Paul Auster (Companha das Letras, 200 páginas, tradução de Rubens Figueiredo), já que sabia que um de seus temas é a relação paterna e que a narrativa se iniciava com a morte do pai do autor. Meu pai morreu há pouco tempo e, como Auster, também tive que “entrar na mente do meu pai”, no meu caso revirar sua marcenaria, seu canto de trabalho, enquanto o escritor teve que mexer na casa paterna. Nossos pais morreram com idades próximas, 66 e 67, e já não viviam com suas primeiras esposas. O livro, além de tudo isso, nasce no ano em que nasci, 1979. Casualidades, que é, diga-se, outro tema da obra.
A primeira parte é um ajuste de contas do escritor ainda em formação com o pai que recém-faleceu. Um pai que inventou sua solidão é “inventariado” pelo filho que inventou também a sua. Algo não resolvido entre os dois ganha uma tentativa de solução através da escrita, porém sem sucesso: “Houve uma ferida e agora me dou conta de que é muito profunda. E o ato de escrever, em lugar de cicatrizá-la como eu acreditava, manteve esta ferida aberta.”
Na segunda parte, o ato de escrita é a sua solidão. “Passou a maior parte da sua vida de adulto inclinado sobre um pequeno retângulo de madeira, concentrado em retângulo ainda mais pequeno de papel branco. Passou a maior parte de sua vida de adulto sentando-se, pondo-se de pé e dando passeios de um lado para o outro. Esses são os limites do mundo conhecido.” O livro é o produto dessa solidão: “Cada livro é uma imagem de solidão. É um objeto tangível que se pode levantar, apoiar, abrir e fechar, e suas palavra representam muitos meses, quando não muitos anos da solidão de um homem, de modo que com cada livro que se lê pode se dizer a si mesmo que está enfrentando a uma partícula dessa solidão. Um homem se sente sozinho em um quarto e escreve. O livro pode falar de solidão ou companhia, mas sempre é necessariamente um produto da solidão.”
Estive mais uma vez na marcenaria do meu pai. Como ficou abandonada e não sabíamos o que fazer com ela, acabou sendo invadida e esvaziada. Levaram quase tudo que podiam levar. Em meio a algumas caixas atiradas pelo chão, encontrei uma carteirinha de um clube com sua foto, da época em que tinha 35 anos, mais ou menos a idade que tenho hoje. O olhar do pai mais jovem se encontra com o do filho, e o olhar diz “eu falhei na vida, mas também fiz coisas boas. Falhe e faça coisas boas também, meu filho”.

É o que venho tentando fazer, meu velho, é o que venho tentando fazer. 

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

As bacantes e o carnaval

(Fonte da imagem: https://mitologiasite.wordpress.com/2015/10/04/as-bacantes/)
Andei relendo, durante as férias, as principais tragédias gregas, seguindo a ordem proposta pelo guia de Pascal Thiercy editado pela L&PM. Depois de ler as biografias de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles, comecei com a apreciação de As bacantes, na tradução de Mário da Gama Cury, em volume editado pela Jorge Zahar Editora. Pode-se dizer que a obra é uma ode ao vinho e ao seu deus Dionísio, que recebe o nome de Baco na mitologia romana.
“De fato, sem o vinho onde haveria amor?
Que encanto restaria aos homens infelizes?”

Também conhecida como As mênades, a tragédia foi escrita por Eurípedes entre 408 e 407 a.C. Fala sobre a punição de Dionísio imposta a seu primo Penteu, rei de Tebas, e sua tia, Agave, por terem desonrado o nome da mãe desse deus, Sêmele (suas irmãs a difamaram, dizendo que ela teria mentido ao dizer que havia gerado Dionísio a partir de uma relação com Zeus), e também por não prestarem o culto que ele, Dionísio, merecia, apesar de ele ser oriundo de Tebas. Tomando forma humana, o deus entra na cidade e enfeitiça suas tias tornando-as bacantes e faz com Agave mate seu próprio filho, esquartejando-o como se fora um leão.
De certa forma, esta tragédia, na minha leitura, reflete um pouco a relação que se tem hoje com o carnaval. Há uma resistência de muitas pessoas quanto ao festejo, ligando-o a orgias (bacanais, de Baco), bebedeiras e mortes. As pessoas se fantasiam para viver este momento, como o faz Dionísio na peça, se embriagam, são enfeitiçados como as bacantes para que lhe prestem o culto e cometam, de “brincadeira”, ações que não fariam na sua vida “real”, como ficar nuas e matar animais. A partir da ideia do filósofo Nietzsche de nós seres humanos sermos ora apolíneos ou ora dionisíacos, é no carnaval que colocamos em suspensão a razão em favor da emoção.
Mas o motivo principal do carnaval é esquecer as tristezas, e nisso somos ajudados pela bebida: Dionísio
“descobriu e revelou
o leve suco produzido pelas uvas
para curar de suas muitas amarguras
a triste raça humana; a simples ingestão
do néctar tirado das uvas, nos concede
o esquecimento dos males cotidianos,
graças à paz do sono, único remédio
para nossos padecimentos.”

Por isso, segundo a peça, devemos cultuar os deuses:
“Sendo deus
Dionísio é dado a outras divindades
e lhe devemos todo o bem que elas nos fazem.”

De minha parte, cultuo os deuses gregos através da literatura, no aconchego da minha biblioteca, longe da folia. É o meu carnaval pessoal. 

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Um balde de cólera


Há escritores que param de escrever, se isolam, não querem mais saber do mundo ao seu redor. Confesso que os invejo por poderem fazer isso. Foi esta a escolha de Raduan Nassar até há pouco tempo, quando resolveu voltar aos holofotes não para escrever literatura, mas sim para defender o governo Dilma e reforçar o chavão do “golpe”.
Com uma obra curta, porém consolidada, sendo o romance Lavoura Arcaica sua obra-prima, foi indicado, ainda durante o período petista, a receber o Prêmio Camões de Literatura, curiosamente logo depois de sair do seu isolamento. Apesar de não concordar com a escolha, justamente por ele ter desprezado a literatura durante todo este tempo e de ter outros bons autores ainda em atividade na fila, ainda assim é merecido. Poderia até ter feito como o angolano Luandino Vieira, que em 2006 recusou o prêmio alegando não ter publicado nada há anos, no entanto não o fez, o que é compreensível.
O problema maior foi o discurso realizado durante a entrega do galardão no dia 17 de fevereiro. Não pelo conteúdo ideológico, diga-se, pois todo o artista tem o direito (e para muitos o dever, do que discordo) de se posicionar politicamente. O momento, no entanto, foi inoportuno. Um prêmio como este tem o objetivo de valorizar a literatura, uma forma de arte que tem pouco espaço e precisa ser discutida. É necessário, numa oportunidade dessas, falar sobre sua relevância. Como ela parece não ser mais importante na vida do autor, o espaço foi usado como um palanque político, num discurso indigno do grande escritor, por se utilizar de ideias nada originais, repetidas a esmo por militantes, num amontoado de lugares-comuns. Raduan Nassar tem, se realmente não a perdeu, capacidade de escrita maior do que a apresentada.
A plateia, formada em boa parte por intelectuais que estão de acordo com essa narrativa de esquerda, ouviu tudo silenciosamente e depois aplaudiu. Até aí, não se esperava nada de diferente. Quando o Ministro da Cultura Roberto Freire (cuja presença no ministério é uma das tantas furadas do governo Temer) tentou responder às acusações, no entanto, foi interrompido, vaiado, ouviu gritos histéricos (por que não fiquei surpreso ao saber que um desses gritos veio da Marilena Chauí?) daqueles que defendem, dizem, a volta da democracia. Depois foram presos por terem contestado o governo opressor, ou estou enganado?
O ministro, que minutos antes elogiava o escritor nas redes sociais, se viu na obrigação de lembrar que era o governo chamado de golpista que estava oferecendo o dinheiro do prêmio. Mais coerente, portanto, seria recusá-lo, o que obviamente não aconteceu, assim como o governo antidemocrático não confiscou esse valor, como o faz o cubano. Vale lembrar que o Brasil arca, na verdade, com a metade da premiação concedida, sendo a outra de responsabilidade de Portugal.
As discussões continuam nas redes sociais, a ágora moderna. Quem ousa criticar o autor de Um copo de cólera pela sua atitude recebe um balde de cólera na cabeça, jogado pelos defensores da democracia que querem exclusividade em contestar algo.

De tudo isso, no entanto, fica uma certeza: a literatura perdeu mais uma vez para a política.

sábado, fevereiro 18, 2017

Que alunos queremos formar?



Meu texto no jornal Gazeta do Sul de hoje.
Se por um lado há certas forças que tentam transformar a educação apenas em preparação para o trabalho, ou pior, em mão de obra barata para o mercado, por outro há forças que querem a educação formando apenas cidadãos críticos, na verdade massa de manobra de políticos, intelectuais e sindicatos. Ambos os lados não se preocupam com o ensino, com conhecimento, com cultura. Importa é utilizar na prática o que o aluno aprendeu em sala de aula.
Sempre que ideologias, seja de direita seja de esquerda, impõem suas visões de mundo no âmbito escolar, a educação não decola. Como são as ideologias que comandam o mundo, o avião permanece na pista do aeroporto esperando reparos, ainda muito longe de levantar voo. Vez ou outra ele parte, mas precisa descer logo em outro aeroporto ou voltar para o anterior, pois o combustível não foi suficiente, questão de corte de gastos, sabem como é. Avião novo, nem pensar, tendo em vista que é necessário seguir modelos já existentes e que deram certo em outros lugares. E assim seguimos, parados.
A mudança atual do Ensino Médio, por exemplo, já erra de cara por tentar mudar apenas esta etapa escolar, enquanto o Fundamental também vem claudicando há tempos. E o erro não é por estar no poder um governo de direita (que na verdade não é), pois o partido de esquerda que estava antes no comando vinha acenando com a mesma medida. Agem de má fé os que estão criticando a mudança agora e não o faziam antes. Por isso, repito, a educação não melhora, pois os argumentos para as críticas são sempre acompanhados de motivos partidários. 
As mudanças nos últimos anos falham porque ignoram que a função da escola deveria ser, no meu ponto de vista, guiar o aluno ao conhecimento do que a humanidade fez de bom e de ruim em todas as áreas do saber para depois ele construir se próprio caminho. Ele precisa sim saber, por exemplo, sobre grandes obras da literatura, mesmo que depois nunca vá “aproveitar esse conhecimento na sua vida”, como se pensa erroneamente. Se o professor não “deposita” no aluno esse conhecimento (Paulo Freire foi o grande crítico do que chamava de “educação bancária”, um de seus muitos equívocos), será escamoteada a possibilidade de o jovem descobrir a beleza dos livros.

Pensar, portanto, num ensino técnico ainda no Ensino Médio tem um objetivo prático, uma vez que visa preparar o jovem para o mercado de trabalho. Acredito que a educação não deveria ter essa função, ou pelo menos não tê-la como principal. Tampouco deveria formar o jovem para ser crítico, pois isso ele pode ser por si próprio, a partir das reflexões sobre as ideias que são apresentadas em aula. Para isso, porém, deveria ser apresentada uma pluralidade de ideias, o que não acontece. Mas aí é tema para outro artigo. 

domingo, fevereiro 12, 2017

Quem resiste à boa literatura?


Resisti um pouco a começar a ler A resistência (Companhia das Letras, 144 páginas), de Julián Fuks, lançado em 2015, porque alguém dissera que era um romance panfletário, defendendo uma esquerda caduca dos anos 70 na América Latina. Creio que até as entrevistas do autor me fizeram ter essa percepção equivocada. Literatura, entretanto, não deve ser panfleto, nem de esquerda e nem de direita, deve ficar em cima do muro, no bom sentido. O romance de Fuks, por seu turno, sobe em cima do muro pelo lado da esquerda e observa os lados se digladiando. A política, porém, é apenas um elemento do enredo.
A resistência do título não é à ditadura apenas, mas à expressão de sentimentos. O narrador, Sebastián, parece sempre resistir a demonstrar o que sente pela família, principalmente em relação ao irmão, que é adotado. Aliás, era sobre o tema da adoção que o narrador queria escrever, mas até a isso ele resiste: “Queria escrever um livro que falasse de adoção, um livro com uma questão central, uma questão premente, ignorada por muitos, negligenciada até em autores capitais, mas o que caberia dizer afinal?”
Há em todo momento a resistência de Sebastián a escrever. Ao mesmo tempo, no entanto, há a necessidade de fazê-lo, pois escrever é uma resistência e uma forma de inconformismo, sem precisar de armas como seu pai que, junto com a mãe e o irmão adotivo ainda pequeno, se exila no Brasil devido à ditadura militar na Argentina. Aqui nasce sua irmã e depois ele, que conta a história voltando ao país de origem da família, numa tentativa de entender – mas também resistindo a entender –, a sombra do passado que os ronda e deixou cicatrizes: “Toda cicatriz é signo?, eu me pergunto sem querer. Toda cicatriz grita, ou é apenas memória de um grito, um grito calado no tempo? Tantas vezes a vi, tão fácil a reconheço, mas não sei dizer o que grita, ou o que cala, aquela cicatriz.”
A resistência mais emblemática é a do irmão em relação à família, quando se percebe distante dela e critica, em dado momento, os interesses pessoais de cada um: “Lembro que, enquanto ele falava, enquanto enumerava uma infinidade de pequenas mágoas, de incômodos que o visitavam dia a dia, enquanto recuperava com crescente rancor os muitos erros que havíamos cometido, as muitas distrações repreensíveis, meu pai sempre tomado pelo trabalho, minha mãe consumida por tensões dos pacientes e exigências da rotina, minha irmã afogada na residência em pediatria, eu dispersando minha atenção em qualquer livro, lembro que, enquanto meu irmão acusava absurdamente que ninguém lhe dava ouvidos, ninguém se preocupava, ninguém queria saber se ele estava bem, se do outro lado da porta, ou da casa, ou da cidade, ele subsistia, lembro que, enquanto ele falava, algo em mim recobrava o sentido. Suas palavras eram mais justas que as minhas: em suas palavras, o que era ele se fundia no nós em que eu tanto insistia, um nós tão parcial e imperfeito, um nós que o excluía. Ali, ouvindo meu irmão se exaltar aos olhos neutros de um desconhecido, lembro ter sido tomado por um velho sentimento, lembro ter sentido que estávamos em família.”

Para mim, a boa literatura necessita, sobretudo, de um trabalho exaustivo com a linguagem, sugerir mais em vez de mostrar, não duvidar da inteligência do leitor. Fuks faz isso, na medida em que A resistência não é propriamente uma narrativa, mas reflexões em que se depreende a história. O leitor completa as lacunas propositalmente deixadas. Há quem resista, no entanto, à boa literatura. E há quem seja resistente, como Julián Fuks, e continue a escrevê-la.

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Atire a primeira pedra


O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub (Companhia das Letras, 187 páginas), é um romance atualíssimo e necessário, uma vez que aborda diversos temas polêmicos. A maneira, porém, como esses temas se propagam nas redes sociais e a destruição de reputações provocadas pelo julgamento virtual se tornam a tônica do enredo.
José Victor, o narrador, é um publicitário de sucesso. Separado de Tereza, a Teca, envolve-se com uma colega vinte anos mais nova, a Dani. Seu melhor amigo é Walter, também publicitário e homossexual assumido. Os amigos trocam e-mails e mensagens no WhatsApp com piadas bobas, irônicas, típicas dos adultos meio infantis, como o tio do “é pavê ou é pra comer”, também chegando ao escatológico, tudo relacionado à separação, ao relacionamento sexual com seus parceiros ou parceiras e também sobre a AIDS, tendo em vista que Walter é soropositivo. “Ter um corpo de quarenta e três anos não impede que se pense como alguém de quinze” é a frase que abre o romance. Lidas por outras pessoas, no entanto, esses chistes podem ser interpretados de uma forma literal, sendo passível de interpretações errôneas. É o que acontece quando Teca, num domingo, descobre a senha do e-mail do ex-marido e, juntando o que achou mais escandaloso, espalha a porcaria no ventilador da internet. Nos dias seguintes, até a quinta-feira, os prints atingem uma proporção assustadora, chegando à mesa dos chefes da agência publicitária.
A fala do narrador se assemelha ao réu em um tribunal. “Bem-vindos ao tribunal. A audiência pode tomar seus assentos neste dia bonito de 2016.” É como se vê frente aos julgamentos que ele e Walter vêm sofrendo, mas principalmente com relação à Dani, a quem não queria ferir. No seu “depoimento”, relata a escalada da AIDS a partir da lembrança de uma reportagem do Fantástico nos anos 80 e o preconceito contra os homossexuais, representados pelo seu amigo. E sente-se, a todo o momento, culpado pelas brincadeiras inconsequentes, em que pese achar errado ter sua intimidade exposta para todo mundo.
Em outros capítulos, há vários trechos de postagens e comentários na principal rede social, o Facebook. Laub reproduz com precisão a linguagem utilizada. Os “julgamentos”, diga-se, não são exclusivos de ideologias de direita ou de esquerda, como se percebe pelo jargão de cada grupo:
“Antigamente as pessoas estavam preocupadas com valores, principalmente os da comunidade sem nem falar na educação das crianças […]. Não tinha violência e essa ladroagem dos políticos. Só tem deputado ladrão […]. Antigamente os mais velhos eram “respeitados” nas ruas. Eu não tenho preconceito, mas tem uma questão de “respeito” envolvida nisso não sei por que as pessoas negam […]. Eu digo e não tenho medo hoje em dia é essa “nojeira” que se vê.”
“O mais triste num indivíduo supostamente civilizado é a incapacidade de enxergar o Outro. Não é um ser humano que está ali, mas um Objeto […]. Este pode ser o nervo de certas relações, e não estou problematizando apenas os papéis culturais de Gênero, embora estes me pareçam fundamentais aqui, não só na esfera pública das relações mercantis e da Grande Política. Estou problematizando, de forma análoga, o Teatro Social entre quatro paredes, no qual este indivíduo supostamente civilizado, posto que bem-sucedido no trabalho e demais índices de sucesso em nossa coletividade, revela-se, ao contrário, um porta-voz da Barbárie […].”

Tornar públicas conversas privadas pode ser útil no que se refere aos políticos e suas falcatruas. Quando envolve pessoas comuns, entretanto, é uma invasão de privacidade que acaba com carreiras, com casamentos, com amizades. Quanto aos julgadores, vale lembrar que podem ser depois os julgados, assim como a plateia não está longe de sentar no banco dos réus. Ninguém está livre da intolerância das redes sociais. Por outro lado, a internet não é a responsável por isso. Fofocas venenosas sempre existiram. A rede só fez a peçonha chegar mais longe. 

terça-feira, fevereiro 07, 2017

Super-heróis ou vilões?

Na minha infância, os super-heróis eram presenças marcantes. Dos gibis das estantes dos meus tios, passando pelos desejados bonequinhos (que me serviram de inspiração para um conto do meu novo livro, Cacos e outros pedaços, publicado pela Editora Penalux) até chegar aos desenhos da TV, esses seres poderosos eram meus ídolos. Muitas vezes quis ser um deles. De nada adiantava, porém, cobrir meu rosto com aqueles saquinhos quadriculados da feira, pois não me transformava no Homem-Aranha. Tampouco amarrar um lençol no pescoço me fazia voar como Superman. Andar de calça comprida e sem camisa não me metamorfoseava no Incrível Hulk (só me causava resfriado). Empunhar uma marreta, então, nem sonhando me tornava um Thor (mas provocava sérias dores quando a deixava cair no pé).
Voltei à infância esses dias ao assistir a um desses filmes “arrasa-quarteirões” que vêm sendo produzidos nos Estados Unidos e que recriam os universos criados pela Marvel e pela DC Comics. (Minto: na verdade, com a internet, nos últimos anos venho relendo HQ’s e assistindo a desenhos como “A Liga da Justiça”, mas não contem isso pra ninguém, ok?) O filme é Batman vs Superman: a origem da Justiça, que mostra uma batalha entre os dois grandes heróis, que depois se juntam para “salvar a humanidade”.
Pois o meu olhar adulto e afeito a “filosofices”, recai justamente sobre a questão do “salvador”. Batman é aquele que representa o ser humano comum que se utiliza das próprias forças para fazer algo relevante para os outros, motivado, porém, por uma vingança pessoal. Superman, por sua vez, é a ajuda que vem de outro mundo, tem poderes extraordinários e ouve de longe os pedidos de socorro como se ouvisse o apelo de uma oração. A disputa entre ambos nos faz pensar justamente sobre nossa realidade. Quem será nosso salvador? O cidadão comum ou um messias? Devemos apenas esperar pela providência divina ou devemos, para usar de um clichê, “arregaçar as mangas” e mudar situação crítica que vivenciamos?
Depositamos nos políticos a solução para os nossos problemas, afinal são nossos representantes. Eles, no entanto, nos decepcionam, pois esperamos deles algo que não podem fazer e também, claro, porque muitos se tornam os vilões, fazendo o contrário (e bem ao contrário) do que queremos. Os políticos, entretanto, são o nosso espelho. Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma, Temer, Dória, Sartori, Telmo, Aécio, Marina, Bolsonaro, Obama e Trump somos nós. No dia a dia, somos corruptos, manipuladores, incoerentes, injustos, preconceituosos, racistas, homofóbicos, machistas. Também construímos muros. Somos seres humanos e, portanto, falhos. Os políticos também. Se eles são a encarnação do mal é porque também somos. Se são os super-vilões, é porque também somos.

Temos que fazer um mea culpa, mudar nosso comportamento no cotidiano, parar de acreditar em políticos de todos os partidos, não defender nenhum deles. Não há super-heróis no meio deles, não há salvador. Devemos também parar de fingir que somos super-heróis e realmente nos tornarmos um. Como desisti do ser humano, sei que isso não vai acontecer. Eu até me tornei um Batman, no entanto não por lutar com minhas forças, mas sim porque vivo enfurnado na minha “batcaverna”, lendo e escrevendo. Sou humano, sou falho.

sábado, fevereiro 04, 2017

Críticas distorcidas só atrapalham


Há um vídeo que circula pelas redes sociais em que Donald Trump, segundo as legendas, estaria demonstrando todo seu racismo. Na ponta de um banco de uma igreja, ele aguarda a passagem de religiosos e os cumprimenta, dando-lhes a mão. Quando passa um religioso negro, não acontece o mesmo. No entanto, se prestarmos a atenção, vemos que o homem é quem não olha para Trump e também não lhe estende a mão como o fazem os demais. Quem não quis cumprimentar foi o religioso, talvez justamente considerar o presidente americano um racista.
Entretanto, esta cena, que dá margem a uma interpretação ambígua, é cortada nesse ponto. Outra postagem mais completa do vídeo nos faz ver que, na sequência, Trump sai da sua posição e se dirige a outras pessoas para cumprimentá-las, entre elas um negro, que o faz todo feliz, sendo correspondido da mesma forma. Pode-se dizer, então, que estamos diante de uma tentativa sem limites éticos de rotular uma pessoa, ainda que ela mereça o rótulo.
Quando se quer criticar alguém e estabelecer uma narrativa que comprove os argumentos, a seletividade ideológica mostra como somos maus na nossa essência. Há tempos desisti do ser humano. Por isso não confio em ninguém, salvo nas pessoas muito próximas a mim que não me deram, ainda, motivos para duvidar delas. A narrativa que nos vem dos Estados Unidos é extremamente tendenciosa e contraditória. Se fizermos o exercício de pensar em algo como “e se fosse o contrário?”, perceberemos claramente isso. O que diriam esses críticos seletivos se Obama não cumprimentasse uma pessoa que passou por ele? Seria por preconceito ou apenas distração? 
E mais: num artigo desta semana, o jornalista português João Pereira Coutinho comenta sobre o estilista que se negou a vestir Melania Trump. E se outro estilista tivesse se negado a vestir Michelle Obama, o que aconteceria? Do que ele seria chamado?
Lembro-me das “dancinhas” protagonizadas pelo casal Obama, das músicas que o ex-presidente cantou em programas de televisão – a maioria de humor –, dos “raps” protagonizados por Michelle, os dois arrancando aplausos e elogios de seus admiradores por serem despojados, fugindo da seriedade protocolar do cargo. Já Trump é criticado por ter sido protagonista de um reality show (e muitos desses críticos aqui no Brasil admiram um deputado que se tornou conhecido justamente num programa desses), é ridicularizado pelas suas participações em filmes e, com certeza, viraria chacota se tentasse cantar alguma música ou dançasse na TV. E espero que nunca o faça, porque eu riria dele também.
Outro ponto contraditório está na crítica à construção do muro, que na verdade é a continuação de um já existente, iniciado, acreditem, pelo apoiador de Obama, Bill Clinton, em 1994. Obama, por seu turno, não demoliu o tão discutido muro, e ninguém o criticou por isso. Ele também negou, a poucos dias do fim do mandato, a entrada de refugiados cubanos nos EUA. Foi criticado pelos que hoje criticam Trump por não aceitar refugiados?

Tenho minhas reservas em relação a Donald Trump. Não gosto de tipos como ele no poder de uma nação. Aliás, não venho gostando de ninguém que tem o poder em qualquer instância. Causa-me desconforto, porém, quando as críticas são desmedidas, seletivas, distorcidas e mal-intencionadas. Isso não contribui com o debate, não melhora a situação e depõe contra quem se julga o dono da razão. Poderia apontar as críticas distorcidas que estão acabando com nosso país, mas é assunto para outro artigo.