Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2017

O escritor e seu pai

Relutei um pouco em reler A invenção da solidão, de Paul Auster (Companha das Letras, 200 páginas, tradução de Rubens Figueiredo), já que sabia que um de seus temas é a relação paterna e que a narrativa se iniciava com a morte do pai do autor. Meu pai morreu há pouco tempo e, como Auster, também tive que “entrar na mente do meu pai”, no meu caso revirar sua marcenaria, seu canto de trabalho, enquanto o escritor teve que mexer na casa paterna. Nossos pais morreram com idades próximas, 66 e 67, e já não viviam com suas primeiras esposas. O livro, além de tudo isso, nasce no ano em que nasci, 1979. Casualidades, que é, diga-se, outro tema da obra. A primeira parte é um ajuste de contas do escritor ainda em formação com o pai que recém-faleceu. Um pai que inventou sua solidão é “inventariado” pelo filho que inventou também a sua. Algo não resolvido entre os dois ganha uma tentativa de solução através da escrita, porém sem sucesso: “Houve uma ferida e agora me dou conta de que é muito profu…

As bacantes e o carnaval

(Fonte da imagem: https://mitologiasite.wordpress.com/2015/10/04/as-bacantes/) Andei relendo, durante as férias, as principais tragédias gregas, seguindo a ordem proposta pelo guia de Pascal Thiercy editado pela L&PM. Depois de ler as biografias de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles, comecei com a apreciação de As bacantes, na tradução de Mário da Gama Cury, em volume editado pela Jorge Zahar Editora. Pode-se dizer que a obra é uma ode ao vinho e ao seu deus Dionísio, que recebe o nome de Baco na mitologia romana. “De fato, sem o vinho onde haveria amor? Que encanto restaria aos homens infelizes?”
Também conhecida como As mênades, a tragédia foi escrita por Eurípedes entre 408 e 407 a.C. Fala sobre a punição de Dionísio imposta a seu primo Penteu, rei de Tebas, e sua tia, Agave, por terem desonrado o nome da mãe desse deus, Sêmele (suas irmãs a difamaram, dizendo que ela teria mentido ao dizer que havia gerado Dionísio a partir de uma relação com Zeus), e também por não prestarem o culto …

Meu artigo no jornal Zero Hora

Um balde de cólera

Há escritores que param de escrever, se isolam, não querem mais saber do mundo ao seu redor. Confesso que os invejo por poderem fazer isso. Foi esta a escolha de Raduan Nassar até há pouco tempo, quando resolveu voltar aos holofotes não para escrever literatura, mas sim para defender o governo Dilma e reforçar o chavão do “golpe”. Com uma obra curta, porém consolidada, sendo o romance Lavoura Arcaica sua obra-prima, foi indicado, ainda durante o período petista, a receber o Prêmio Camões de Literatura, curiosamente logo depois de sair do seu isolamento. Apesar de não concordar com a escolha, justamente por ele ter desprezado a literatura durante todo este tempo e de ter outros bons autores ainda em atividade na fila, ainda assim é merecido. Poderia até ter feito como o angolano Luandino Vieira, que em 2006 recusou o prêmio alegando não ter publicado nada há anos, no entanto não o fez, o que é compreensível. O problema maior foi o discurso realizado durante a entrega do galardão no dia …

Que alunos queremos formar?

Meu texto no jornal Gazeta do Sul de hoje. Se por um lado há certas forças que tentam transformar a educação apenas em preparação para o trabalho, ou pior, em mão de obra barata para o mercado, por outro há forças que querem a educação formando apenas cidadãos críticos, na verdade massa de manobra de políticos, intelectuais e sindicatos. Ambos os lados não se preocupam com o ensino, com conhecimento, com cultura. Importa é utilizar na prática o que o aluno aprendeu em sala de aula. Sempre que ideologias, seja de direita seja de esquerda, impõem suas visões de mundo no âmbito escolar, a educação não decola. Como são as ideologias que comandam o mundo, o avião permanece na pista do aeroporto esperando reparos, ainda muito longe de levantar voo. Vez ou outra ele parte, mas precisa descer logo em outro aeroporto ou voltar para o anterior, pois o combustível não foi suficiente, questão de corte de gastos, sabem como é. Avião novo, nem pensar, tendo em vista que é necessário seguir modelos já…

Entrevista com Cassionei N. Petry sobre "Cacos e outros pedaços", Editora Penalux

Quem resiste à boa literatura?

Resisti um pouco a começar a ler A resistência (Companhia das Letras, 144 páginas), de Julián Fuks, lançado em 2015, porque alguém dissera que era um romance panfletário, defendendo uma esquerda caduca dos anos 70 na América Latina. Creio que até as entrevistas do autor me fizeram ter essa percepção equivocada. Literatura, entretanto, não deve ser panfleto, nem de esquerda e nem de direita, deve ficar em cima do muro, no bom sentido. O romance de Fuks, por seu turno, sobe em cima do muro pelo lado da esquerda e observa os lados se digladiando. A política, porém, é apenas um elemento do enredo. A resistência do título não é à ditadura apenas, mas à expressão de sentimentos. O narrador, Sebastián, parece sempre resistir a demonstrar o que sente pela família, principalmente em relação ao irmão, que é adotado. Aliás, era sobre o tema da adoção que o narrador queria escrever, mas até a isso ele resiste: “Queria escrever um livro que falasse de adoção, um livro com uma questão central, uma …

Atire a primeira pedra

O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub (Companhia das Letras, 187 páginas), é um romance atualíssimo e necessário, uma vez que aborda diversos temas polêmicos. A maneira, porém, como esses temas se propagam nas redes sociais e a destruição de reputações provocadas pelo julgamento virtual se tornam a tônica do enredo. José Victor, o narrador, é um publicitário de sucesso. Separado de Tereza, a Teca, envolve-se com uma colega vinte anos mais nova, a Dani. Seu melhor amigo é Walter, também publicitário e homossexual assumido. Os amigos trocam e-mails e mensagens no WhatsApp com piadas bobas, irônicas, típicas dos adultos meio infantis, como o tio do “é pavê ou é pra comer”, também chegando ao escatológico, tudo relacionado à separação, ao relacionamento sexual com seus parceiros ou parceiras e também sobre a AIDS, tendo em vista que Walter é soropositivo. “Ter um corpo de quarenta e três anos não impede que se pense como alguém de quinze” é a frase que abre o romance. Lidas por outras…

Super-heróis ou vilões?

Na minha infância, os super-heróis eram presenças marcantes. Dos gibis das estantes dos meus tios, passando pelos desejados bonequinhos (que me serviram de inspiração para um conto do meu novo livro, Cacos e outros pedaços, publicado pela Editora Penalux) até chegar aos desenhos da TV, esses seres poderosos eram meus ídolos. Muitas vezes quis ser um deles. De nada adiantava, porém, cobrir meu rosto com aqueles saquinhos quadriculados da feira, pois não me transformava no Homem-Aranha. Tampouco amarrar um lençol no pescoço me fazia voar como Superman. Andar de calça comprida e sem camisa não me metamorfoseava no Incrível Hulk (só me causava resfriado). Empunhar uma marreta, então, nem sonhando me tornava um Thor (mas provocava sérias dores quando a deixava cair no pé). Voltei à infância esses dias ao assistir a um desses filmes “arrasa-quarteirões” que vêm sendo produzidos nos Estados Unidos e que recriam os universos criados pela Marvel e pela DC Comics. (Minto: na verdade, com a inte…

Escrevo no Amálgama sobre "A montanha mágica"

Críticas distorcidas só atrapalham

Há um vídeo que circula pelas redes sociais em que Donald Trump, segundo as legendas, estaria demonstrando todo seu racismo. Na ponta de um banco de uma igreja, ele aguarda a passagem de religiosos e os cumprimenta, dando-lhes a mão. Quando passa um religioso negro, não acontece o mesmo. No entanto, se prestarmos a atenção, vemos que o homem é quem não olha para Trump e também não lhe estende a mão como o fazem os demais. Quem não quis cumprimentar foi o religioso, talvez justamente considerar o presidente americano um racista. Entretanto, esta cena, que dá margem a uma interpretação ambígua, é cortada nesse ponto. Outra postagem mais completa do vídeo nos faz ver que, na sequência, Trump sai da sua posição e se dirige a outras pessoas para cumprimentá-las, entre elas um negro, que o faz todo feliz, sendo correspondido da mesma forma. Pode-se dizer, então, que estamos diante de uma tentativa sem limites éticos de rotular uma pessoa, ainda que ela mereça o rótulo. Quando se quer critica…

Meu texto sobre "Janela indiscreta" no Cineplayers