sexta-feira, junho 30, 2017

Meus textos na Zero Hora e na Gazeta do Sul de hoje



Meu artigo "Quem é mesmo massa de manobra?" saiu hoje na página de opinião do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Com o mesmo título, mas numa versão estendida, o artigo foi publicado no jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul.

quinta-feira, junho 22, 2017

Sísifo


1. Às vezes cansa existir. Cansa mesmo. No entanto, existimos. Não há um benfeitor que nos esmague com a ponta dos seus dedos como o faz Antoine Roquentin com uma mosca. “- Era um favor a se prestar a ela”, justifica-se perante o amigo que tentou impedi-lo. Esta passagem faz parte do romance A náusea, de Jean-Paul Sartre, ficção filosófica que discute justamente esse sentimento esquisito que é se saber no mundo. Por isso leio, leio e leio. É o que me conforta. Aliás, me causa um desconforto que me acalma. As inquietações provocadas pelas minhas leituras me conduzem, me elevam, não me deixam desistir da existência. Cansa existir. Basta, entretanto, descansar e começar tudo de novo, abrir um novo livro e empurrar a pedra até o topo do morro que vejo daqui da porta da minha toca. Sei que ela vai descer depois. Vai rolar de volta. Se não passar por cima de mim, tudo bem.

sábado, junho 17, 2017

Júlio Nogueira retorna para dizer o que o fez abandonar uma leitura


Júlio Nogueira entra em contato comigo nesta madrugada do dia 17 de junho para que eu publique uma pequena crítica no blog. Voltou a dar aulas, mas continua refugiado numa chácara no interior do RS, talvez próximo onde morou por um tempo o Belchior. Contou que andou tentando escrever em um outro blog, dessa vez com um pseudônimo, mas não deu muito certo. Havia publicado este texto por lá. “Acho que no teu blog haverá mais leituras”, ele diz, ingenuamente.

Um livro que tentei ler dessa nova geração de escritores que desponta nas redes sociais (e sabe lidar muito bem com ela, diga-se) foi Jantar Secreto, de Raphael Montes, editado pela Companhia das Letras, uma editora com uma capacidade enorme de dar um ar de sofisticação para algumas porcarias. Espero sinceramente ter começado com o romance errado a conhecer o jovem escritor, porque a primeira impressão não foi nada boa nas primeiras páginas da obra. Sim, não fui adiante na leitura, e olha que costumo ler até o fim livros ruins.

O mote é muito bom, e foi isso que me atraiu a adquirir o livro (na verdade o e-book). Um grupo de amigos e estudantes vindo do interior e que precisa de grana para pagar o apartamento onde mora no Rio de Janeiro, além de algumas dívidas, passa a lucrar com a venda de jantares especiais e secretos com um número restrito de clientes com vontade (e possibilidade, lógico) de gastar milhares de reais em um prato diferenciado: carne humana.

Os personagens, no entanto, me pareceram adolescentes demais, apesar de já serem estudantes universitários. Um personagem nerd, gordo, meio vagabundo, um “hacker” chamado Leitão, com um comportamento muito infantil, é quem dá a ideia dos jantares. O narrador, chamado Dante (uma das tentativas frustradas de Montes para borrifar erudição no enredo), mais Miguel e Hugo (o cozinheiro, digo, chef) completam o grupo de estereótipos forçados: o gay, o “certinho” e o vaidoso, respectivamente. Há ainda uma prostituta, Cora, que se torna amiga deles, depois de ser contratada para tirar a virgindade do amigo gordo.

O que me fez largar o livro sem nem chegar a página 100 foi um ridículo plano de roubar um cadáver no hospital e as reproduções da conversa entre eles num capítulo chamado “[Grupo do WatsApp]”. Reproduzo aqui uma imagem de parte da conversa que encontrei na internet, pois não sou bom nisso de capturar imagens e postar:


Tenho esse aplicativo por obrigação profissional (e minha patroa me obrigou também, claro) e tenho ojeriza dele. Nos grupos da escola onde leciono, entram essas bobagens vez ou outra. Não esperava vê-lo numa obra literária, ou que se pretende como tal. Há uma diferença entre literatura policial e livros de entretenimento, que o pessoal meio deslumbrado não quer enxergar. Raphael Montes pode ser mestre no segundo tipo, mas não do primeiro, como apregoam.

Há momentos muitos bons, que mostram o potencial do escritor, e que talvez por isso o coloquem no patamar que está hoje, sendo roteirista da Globo, apresentando programa de literatura na TV Brasil e sendo traduzido em alguns países. (Na capa há uma frase do jornal The Guardian que o compara a Hitchcock e Tarantino! Menos, menos, por favor.) Este livro, repito, este livro, deixa a desejar. E cá entre nós, o escritor posando de garçom com sangue na camisa na quarta capa do livro é outra coisa ridícula. 

sexta-feira, junho 16, 2017

Bloomsday



Meu primeiro exemplar de Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, tem 550 páginas, mas com letra bem miudinha. Comprei-o no final do século passado em um sebo da minha cidade. À época, estava tentando me tornar um escritor, o que tento até hoje, sem muito resultado, por isso lia enlouquecidamente. A edição em capa dura, vendida em bancas de revistas, é da coleção “Mestres da literatura contemporânea”, parceria das editoras Record e Altaya. A tradução é a clássica, realizada pelo Antônio Houaiss (sim, o mesmo que dá nome ao dicionário que veio para desbancar o Aurélio). Minha biblioteca ainda estava engatinhando (hoje posso dizer que está entrando na fase adulta) e com o novo exemplar ganhou o direito de pelo menos andar dois passinhos sem ajuda.

Agora tenho também, porém em versão digital, a tradução realizada por Caetano Galindo e editada pela Companhia das Letras. Intitulada Ulyssescom y, me fez reler parte da obra, agora renovada e com ótima introdução do professor Declan Kiberd. Na versão impressa, são 1112 páginas de uma volta a Dublin em um dia realizada pelo personagem Leopold Bloom e seu amigo Stephen Dedalus.

Esse é aquele romance que muitos dizem ter lido sem nunca tê-lo realmente. Alguns por esnobismo intelectual, outros por ignorância, caso do escritor mais vendido do mundo, Paulo Coelho. O “mago” afirmou que Ulisses não diz nada e que seu conteúdo poderia ser resumido nos 140 caracteres do Twitter. Na verdade qualquer obra poderia, mas apenas nas suas linhas gerais, não no que há nas entrelinhas, no não dito, na parte escondida do iceberg. A cada releitura que se faz de clássicos como o de Joyce, novas possibilidades de leitura se abrem. Seu significado nunca se esgota. 

Quando o li pela primeira vez, confesso que, mesmo gostando da história, não a captei por completo, até porque não havia lido (pelo menos na sua versão integral) a Odisseia, de Homero, cujo personagem principal, Odisseus, nome grego, recebe o nome romano Ulisses. A partir daí, na segunda leitura, guiado por textos da extinta revista Entrelivros, que explicavam as referências dos capítulos do romance com episódios da epopeia de Homero, uma nova forma de ler a obra-prima joyceana me foi apresentada, o que a tornou mais bela e instigante do que da primeira vez.

Hoje os admiradores da obra celebram – com leituras, encenações e bebidas – o Bloomsday, o dia em que acontece a odisseia de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin, na Irlanda, mais precisamente em 16 de junho de 1904. Na vida pessoal de James Joyce, foi a data em que ele e Nora Barnacle, que viria a se tornar sua esposa, se conheceram, segundo alguns, no sentido bíblico do termo.


O ganhador do Nobel de Literatura (prêmio que Joyce não recebeu), William Faulkner, disse que “o leitor deve abordar o Ulysses de Joyce como um pregador batista iletrado aborda o Velho Testamento: com fé”. Fiz a minha parte, lendo alguns versículos dessa bíblia da literatura moderna. E para quem não o considera um grande livro, rogo: “Perdoai, Joyce, eles não sabem o que falam.”   

quinta-feira, junho 15, 2017

Conservadores querem mudanças

No Brasil, os conservadores querem mudanças, enquanto os ditos revolucionários querem deixar tudo como está. Ora, vivemos (ou vivíamos) no melhor dos mundos possíveis, afirma o Pangloss das redes sociais, que vive na pobreza há muitos anos, não é de agora, pulando de um emprego a outro (quando consegue um), morando de favor ou de aluguel em moradias precárias e mesmo assim grita que lhe tiraram o seu melhor mundo possível e que ainda querem lhe tirar mais. Não passa o óbvio pela cabeça do Pangloss, que o que ele tem (ou tinha) não é direito, mas sim migalhas que lhe servem (ou serviam), como isca, como aqueles cachorros de corrida que saem atrás de uma lebre mecânica.
Há também o Pangloss da rede social, que estende seus tentáculos paras as salas de aulas, tanto do ensino básico quanto do ensino superior, acha que ele está certo, que está defendendo aqueles que necessitam, mesmo que aqueles que necessitam não concordem com que ele pensa. É aquele sujeito cheio da grana, que conseguiu bons empregos, que “cresceu” na vida e que depois viu a fonte para os seus projetos secar, pois o dinheiro não cai do céu, mas sim de raspagens de cofres públicos, de acúmulos de dívidas que levaram a fonte a uma crise econômica. O novo responsável pela fonte fechou a torneira e por isso não merece estar onde está, mesmo que ele esteja fazendo os reparos para a fonte voltar a jorrar. Ora, se o pobre que nunca se beneficiou da fonte dele não pensa como ele, esse pobre é burro, é manipulado, é o idiota útil que não vê que está precisando da verdade que ele Pangloss detém: de que vivíamos no melhor dos mundos possíveis e que de uma hora para outra, como num passe de mágica, tudo virou contra o pobre. Por que só agora a revolta e por que a crítica contra quem antes se revoltou?
Quem estava nas ruas na greve do dia 28 de abril (que, diga-se, fui obrigado a fazer porque meus colegas professores decidiram parar)? Quem está fora da bolha viu funcionários públicos, estudantes, sindicalistas e militantes partidários. E muitos baderneiros. O Brasil não é formado apenas por essas pessoas. O comércio estava funcionando, as empresas estavam em pleno funcionamento. A maioria da população estava trabalhando. Muitos gostariam de parar, mas não há leis que as amparem. Aliás, os funcionários públicos lutam para manter privilégios que a maioria da população não tem. Os sindicatos lutam para manter a grana que entra nos cofres e pelo direito de não trabalhar para poder protestar. Os estudantes têm a rebeldia no sangue e são motivados a ir às ruas por ser do contra e pronto (e para alguns matar aula é a motivação). Os militantes partidários, por seu turno, saíram às ruas preocupados em trazer de volta o poder para suas mãos.   
A maioria da população estava trabalhando, porque precisa se sustentar. Muitos não são empregados dos “terríveis patrões”, são empreendedores também: o pedreiro que trabalha por hora e não tem seu dinheiro garantido se parar; o barbeiro ou a cabeleira que conta com o dinheiro que pinga dia sim, dia não no seu caixa; a diarista que trabalha em diferentes casas e não recebe se não trabalha; o jardineiro, pois justamente na sexta é o dia em que tem mais serviço e não pode parar; a lista é enorme.
Como disse um aluno que acha o máximo ter um parente próximo na cadeia e exalta a vida da bandidagem, devo ficar no meu mundinho dos livros e deixar as ruas pra ele, que não entendo nada nas ruas, mesmo que eu já tivesse tido um passado nelas. Ou um colega professor que acha um alívio eu dizer que não entendo nada de política, pois não penso como ele. Sim, prefiro ficar na minha biblioteca, lendo e observando o mundo da minha maneira, do que seguir a matilha, a manada, a massa que não pensa por si próprio e apenas reproduz palavras de ordem achando que com isso vai salvar o mundo. Na verdade quer salvar o seu mundo.
Eu vivia dentro dessa bolha, mas finalmente saí dela. Entrei em outra, é verdade, mas nessa bolha tenho os meus livros, meus discos, meus filmes e nela eu sou o rei. Ninguém me diz o que eu devo ou não fazer aqui (salvo minha esposa, mas rainha é rainha, não é?). É o meu melhor mundo possível.