segunda-feira, janeiro 15, 2018

Minha homenagem ao Cony no Caderno de Sábado do Correio do Povo


Uma quase-homenagem


Neste quase-país em que vivemos, terra de quase-leitores, em que quase-escritores tentam escrever seus quase-livros, um escritor, sem o quase, publicou, na sua quase-humildade, o que chamou de quase-romance e pôs o título de Quase memória, isso décadas depois de ter declarado abandonar a literatura (ou seja, quase deixou de escrever). Foi essa obra que me fez conhecê-lo, lá pelos anos 90, quando começava a me interessar cada mais pela arte literária. Neste 2018, prenunciando o que promete ser um dos piores anos de nossa história, ele nos deixa.

A morte, diga-se, é uma constante em sua obra, bem como nas frases espirituosas com as quais ele nos presenteava em entrevistas e nas suas participações como comentarista no rádio. Conviveu com a espera por ela nos últimos anos em que a saúde o debilitava. Era favorável ao suicídio assistido, como declarou em entrevista ao site da BBC Brasil: “Ninguém quer morrer sofrendo, chorando e gritando. Eu, pelo menos, não. Quero morrer numa boa (...). Há casos em que os remédios já não produzem mais efeito, a família gasta um dinheiro que não tem e, pior, o paciente não tem mais condições de viver, só de sofrer. Se não há uma solução médica ou científica, o suicídio assistido é a saída mais humana que existe". Em entrevista para a Folha, concedida ao jornalista Álvaro Costa e Silva, disse: "Jamais comemorei meu aniversário. E, nas poucas vezes em que cantei parabéns, nunca disse o último verso: 'Muitos anos de vida'. Não desejo isso para ninguém". Também disse que "a vida não é mortal, a morte é que é vital".

Ele viveu, porém, 91 anos. Para a nossa sorte, ainda escrevendo e publicando. Durante certo tempo, porém, esteve no seminário, e por isso quase perdemos um escritor para a Igreja. Essa saga vem retratada em Informação ao crucificado, de 1961. Romance em forma de diário, traz a história de João Falcão, seminarista (que seria o próprio Cony) que acaba questionando sua fé. As últimas palavras do livro são emblemáticas: “E eis que vos dou a informação: Deus acabou”. No seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, no entanto, afirmou: “Continuo agnóstico, mas devoto dos meus santos tutelares. Considero-me em processo, doloroso mas sincero, de retorno à fé naquele Deus que o rei e profeta Davi dizia ter alegrado a sua juventude.”

Quanto à política, sempre esteve envolvido nas discussões nacionais, inclusive escreveu crônicas sobre o golpe de 1964, reunidas em O ato e o fato, sendo um dos primeiros escritores a se pronunciar sobre a ditadura que iniciava. Em outro trecho do seu discurso de posse na ABL, escreveu: “Não tenho disciplina mental para ser de esquerda, nem firmeza monolítica para ser de direita. Tampouco me sinto confortável na imobilidade tática, muitas vezes oportunista, do centro.” Mesmo assim, no entanto, diversas declarações na internet, de gente de esquerda e de direita, afirmavam que não devíamos lamentar a sua morte já que ele pertenceria ao outro lado. Que lado, cara pálida?

Independentemente dos seus posicionamentos (e ele era, como podemos ver, um escritor que se posicionava, mesmo que fosse para observar tudo de cima do muro, com uma visão privilegiada), é uma morte a se lamentar sim, até porque temos poucos intelectuais que dizem o que pensam sem estar sob as botas de X ou Y. Quanto à literatura, não vejo herdeiros. Seu estilo era único, assim como a abordagem dos temas.

Certa vez, Cony disse que “biquínis e mensagens devem ser curtos para aguçar o interesse e longos o suficiente para cobrir o objeto”. Portanto, encerro por aqui, deixando curta esta homenagem, em que não se revelam detalhes dos enredos dos livros para provocar a curiosidade do leitor: ao ler a obra do Cony, a homenagem estará completa.

quarta-feira, janeiro 03, 2018

Leituras e releituras de 2017

Algumas tiveram resenhas, é só procurar no blog:

Janeiro

1 Os contos completos, Alberto Mussa
2 Tras el símbolo literário – escuelas e técnicas de interpretación, Raúl H. Mora
3 Meshugá – um romance sobre a loucura, Jacques Fux
4 Susan Sontag: entrevista completa para a revista Rolling Stones, Jonathan Cott
5 A ilha do tesouro, Robert Louis Stevenson
6 La biblioteca secreta, Haruki Murakami
7 Sentimento do mundo, Carlos Drummond de Andrade
8 Los libros sin tapas, Felisberto Hernández
9 As suplicantes, Ésquilo

Fevereiro

10 Proyecto XI, Francesc Blanco
11 A pesca da baleia, João Alphonsus
12 O tribunal da quinta-feira, Michel Laub
13 Da mão para a boca: crônica de um fracasso inicial, Paul Auster
14 A resistência, Julián Fuks
15 A literatura greco-latina por Carpeaux, Otto Maria Carpeaux
16 A invenção da solidão, Paul Auster
17 Ifigênia em Áulis, Eurípides
18 Cuentos crueles, Abelardo Castillo
19 A montanha mágica, Thomas Mann
20 O filho de Machado de Assis, Luiz Vilela
21 Negra espalda del tiempo, Javier Marías
22 Bagagem, Adélia Prado
Março

23 Conversas com quem gosta de ensinar, Rubem Alves
24 Machado, Silviano Santiago
25 Viagem, Cecília Meireles
26 Memorial de Aires, Machado de Assis
27 O ventre, Carlos Heitor Cony
28 O espírito da ficção científica, Roberto Bolaño
29 Escucha la canción del viento, Haruki Murakami
30 Até você, Capitu?, Dalton Trevisan
31 Outras dezessete noites, Marcio Renato dos Santos
32 Não há amanhã, Gustavo Melo Czekster                  

Abril
33 Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, Elvira Vigna
34 Pé de ouvido, Alice Sant’Anna
35 Eis a noite!, João Alphonsus
36 Essa terra, Antônio Torres
37 Marienbad electrico, Enrique Vila-Matas
38 Sala de armas, Nélida Piñon
39 Vila Feliz, Aníbal Machado
40 Contos, Machado de Assis
41 Ilíada, Homero
42 Dias perdidos, Lúcio Cardoso

Maio
43 O universo, os deuses, os homens, Jean-Pierre Vernant
44 Pájaros en la boca, Samanta Schweblin
45 Niétotchka Niezvânova, Dostoiévski
46 Insônia, Graciliano Ramos
47 em outros tantos quartos da terra, Pedro Gonzaga
48 Welcome to Copacabana e outras histórias, Edney Silvestre
49 El astillero, Juan Carlos Onetti
50 Meia noite e vinte, Daniel Galera
51 Melodia mortal, Pedro Bandeira e Guido Carlos Levi
52 Ao “Chat-qui-pelote”, Balzac
53 Contra um mundo melhor, Luiz Felipe Pondé

Junho
54 As fantasias eletivas, Carlos Henrique Schroeder
55 Marketing existencial, Luiz Felipe Pondé
56 A náusea, Jean Paul Sartre
57 Omelete em Bombaim, Orígenes Lessa
58 La parte inventada, Rodrigo Fresán
59 Contos novos, Mário de Andrade
60 Nós, Ievguêni Zamiátin
61 Formas e exegese e Ariana, a mulher, Vinícius de Moraes

Julho
62 O jardim das Hespérides, Daniel Gruber
63 Noite e dia, Virgínia Woolf
64 Os invernos da ilha, Rodrigo Garcia Duarte
65 La trama celeste, Adolfo Bioy Casares
66 As mil e uma histórias de Manuela, Marcelo Maluf
67 Laços de família, Clarice Lispector
68 Las cosas que perdimos en el fuego, Mariana Enríquez
69 Que você é esse?, Antonio Risério
70 O caminho para a distância, Vinícius de Moraes
71 Lado B, Sérgio Augusto

Agosto
72 O transgressor, Paulo Ribeiro
73 El túnel, Ernesto Sabato
74 Agamêmnon (Oréstia I), Ésquilo
75 O mito de Sísifo, Albert Camus
76 Correr com rinocerontes, Cristiano Baldi
77 Os espectadores, Flávio Moreira da Costa
78 Minha luta 1 - A morte do pai, Karl Ove Knausgård
79 Suicídio, Édouard Levé
80 As quatro estações, Stephen King
81 Inácio, Lúcio Cardoso
82 Pedra do sono, João Cabral de Melo Neto

Setembro
83 Siempre hemos vivido en el castillo, Shirley Jackson
84 A jaca do cemitério é mais doce, Manoel Herzog
85 Areia nos dentes, Antonio Xerxenesky
86 A página assombrada por fantasmas, Antonio Xerxenesky
87 Una casa para siempre, Enrique Vila-Matas
88 Mac y su contratempo, Enrique Vila-Matas
89 Edições perigosas, John Dunning
90 A professora Hilda, Lúcio Cardoso
91 A casa de papel, Carlos María Dominguez

Outubro
92 A insustentável leveza do ser, Milan Kundera
93 Anjo noturno, Sérgio Sant’Anna
94 Maravalha, Cláudio B Carlos
95 Antologia poética, Gregório de Matos
96 F, Antônio Xerxenesky
97 Neve negra, Santiago Nazarian
98 Minha luta 2 – Um outro amor, Karl Ove Knausgård

Novembro
99 Moby Dick, Herman Melville
100 Sagarana, Guimarães Rosa
101 O ex-mágico, Murilo Rubião
102 A intrusa, Júlia Lopes de Almeida
103 A estrela vermelha, Murilo Rubião
104 Os dragões e outros contos, Murilo Rubião
105 Diário da queda, Michel Laub
106 As perguntas, Antônio Xerxenesky
107 Teia, Autran Dourado
108 A legião estrangeira, Clarice Lispector
109 O cânone americano, Harold Bloom

Dezembro
110 Sete casas vacías, Samanta Schweblin
111 Roupas sujas, Leonardo Brasiliense
112 Felicidade clandestina, Clarice Lispector
113 A ilha da infância, Minha luta 3, Karl Ove Knausgard
114 Amortalha, Matheus Arcaro
115 Uma temporada no escuro 4, Karl Ove Knausgard
116 Coéforas (Oréstia II), Ésquilo
117 Dentro da noite veloz, Ferreira Gullar
118 Crônica do pássaro de corda, Haruki Murakami
119 Sobre a brevidade da vida, Sêneca