quarta-feira, junho 13, 2018

Júlio Nogueira escreve sobre "Quincas Borba"


Estou desmotivado para escrever sobre livros, mas o Júlio Nogueira, meu mestre imaginário e colaborador do meu blog (autor, para quem não sabe, de um “esboço da minha biografia precoce não autorizada”) enviou pelos Correios há dois meses (só chegou agora) um manuscrito com uma de suas notas de leitura (no caso releitura). Aproveito para perguntar: quando os cadernos com as notas de leitura de meu outro mestre (este bem real), Elenor Schneider, virão a público?

Notas de leitura sobre Quincas Borba, de Machado de Assis

Apesar de ser considerada uma das obras-primas de Machado de Assis, Quincas Borba não é um romance tão conhecido como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. No entanto, o Bruxo do Cosme Velho mais uma vez mostrou toda a sua criatividade e empenho de fazer uma obra diferenciada para a época, a começar pelo título, que confunde propositalmente o leitor.
Para algum desavisado, o Quincas Borba que intitula o livro seria o mendigo filósofo, amigo de Brás Cubas, e a narrativa contaria, por conseguinte, a vida dele. Na verdade, relata a sua morte. O criador do Humanitismo aparece somente no início, quando explana a um discípulo sua teoria e depois deixa sua herança a esse mesmo discípulo com a condição de que cuidasse do seu cachorro, cujo nome é o mesmo de seu dono (e que muitas vezes, fruto da loucura do segundo dono, parece encarnar o verdadeiro Quincas). É o cão, portanto, que dá título ao livro. Ainda assim, porém, não é o animal o protagonista, mas Rubião.

O narrador é em 3ª pessoa, característico das obras realistas, e é o próprio Machado, pois no capítulo IV afirma ao leitor ter sido o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas. A intratextualidade era uma novidade na literatura brasileira. Cubas também dá o ar da graça em Quincas Borba, desta feita bem vivo, numa participação especial, ao mandar uma carta para Rubião noticiando que o filósofo morrera em sua residência, como sabemos desde a leitura do romance anterior. A reutilização de personagens de uma obra para a outra levou Machado a escrever, num curto prólogo à terceira edição do romance, que um amigo sugerira que elaborasse uma trilogia, fazendo de Sofia uma protagonista de outra obra. Ele chegou a cogitar essa possibilidade, porém constatou que a personagem já estava completa ali. Como leitor, me pergunto como seria esse outro possível romance se fosse escrito por Machado. E, se o fizesse, será que existiria Dom Casmurro?

Vamos então às personagens que realmente interessam em Quincas Borba. Rubião é um professor na cidade de Barbacena, interior de Minas Gerais, onde Quincas estabeleceu residência. Este se interessa pela irmã daquele, Maria da Piedade, que não corresponde às investidas do filósofo. Logo ela morre e Rubião se torna discípulo de Quincas o qual, pela relação de amizade, coloca o quase cunhado como herdeiro universal em um testamento. Com a morte de seu mestre, o pobre mestre-escola vira de uma hora para outra um milionário.

Quando decide morar no Rio, encontra no trem o casal Sofia e Cristiano Palha. Rubião conta a eles sobre sua sorte. Ficam amigos e ele cai nos encantos da mulher, que mantém uma atitude ambígua em relação a ele, com a anuência de Cristiano. O casal e outros amigos que o novo rico conquista formam um tipo característico das narrativas machadianas: o parasita social, aquele que gruda em alguém e suga as forças do indivíduo ou apenas se encosta em outro para viver uma boa vida. Palha, Sofia e Camacho, dono de um jornal oposicionista, aproveitam-se da fortuna e da ingenuidade (que acaba em loucura) de Rubião para benefício próprio.

Com o delírio de Rubião, a importância de Quincas Borba, o cachorro, cresce. Os indícios de loucura do dono começam a aparecer quando ele ouve vozes, imaginando que a alma do filósofo está dentro do cão. Mais adiante, apara sua barba como a de Napoleão III e imagina ser o próprio.

Não é um romance tão bom como as duas outras obras-primas machadianas, mas vale pelas referências literárias e filosóficas que vão surgindo ao longo da narrativa, assim como as sutilizes dos caracteres das personagens, sempre ambíguas e dissimuladas. Apesar de afirmar que Sofia está toda no romance, Machado de Assis deixa em aberto a vida dela, pois não sabemos sobre seu futuro com o marido na nova fase de rica (com a mãozinha do Rubião, que é abandonado por eles) e nem mesmo como termina seu amor por outro personagem, Carlos Maria. É um romance que deve estar entre os volumes da “Livraria das obras inéditas”, conto de Nelson Bond, e na biblioteca das obras sonhadas de Sandman, da história em quadrinhos homônima de Neil Gaiman.

quinta-feira, maio 31, 2018

Fugindo da manada




Desconfio de protestos coletivos, greves (embora já tenha sido grevista), passeatas, panelaços, boicotes. Onde há uma manada que vai por um caminho, sigo a direção contrária. Ou então a observo passar de longe, geralmente em cima de um muro.

O Brasil viveu mais uma onda, mais precisamente um tsunami de manifestações. E aqui a metáfora faz sentido, pois ora tinha apoio da ideologia da esquerda, ora da direita, o que causou um estranhamento: por mais incrível que possa parecer, a direita passou a ser grevista e a esquerda criticou a greve. Minha mente, sempre confusa com o oceano de incoerências de nossa política, tenta encontrar um lugar alto para escapar do maremoto e ver os estragos.

Após conseguir afastar do poder uma presidente e um partido que levaram o país ao desastre, uma massa conduzida por “forças ocultas” resolve parar o Brasil. E conseguiu, uma vez que se utilizou daqueles que transportam o que precisamos no cotidiano, interrompendo o fluxo de nossa riqueza. Para usar de outra metáfora, estancou nosso sangue.

A questão é que, conforme o sangue deixa de circular, começa a faltar oxigênio para o cérebro, que passa a funcionar com dificuldade. Chega um momento em que, mesmo com o sangue voltando a circular, os danos tornam-se irreversíveis. E é o que vai acontecer depois da greve dos caminhoneiros. A riqueza deixou de circular, produtos parados, estragando, prejuízos incalculáveis que mexerão depois justamente nos bolsos da massa que apoiou toda essa bagunça.

Uma greve de sucesso tem um fator importante que é o “time”, saber o momento de parar, mesmo que todas as reivindicações não sejam conquistadas. A greve dos caminhoneiros passou do “time” e, o que é pior, os “paneleiros”, ao apoiá-la, desejam que continue para que outras demandas sejam atendidas.

A massa, porém, não pensa. Ela é conduzida cegamente por um pastor. Os rebanhos podem ser pastoreados por um engravatado no escritório ou por um corrupto na cela da cadeia. Estes não sofrerão as consequências. A massa é masoquista, pelo que parece. Gosta de sofrer, gosta de apanhar e sente prazer com isso. E quando se revolta, apenas substitui o algoz por outro parecido.

 Para Elias Canetti, no ensaio Massa e poder, além do mar, um dos símbolos da massa é o bosque. O homem é como uma árvore entre outras árvores. Há porém, trilhas a seguir entre elas, o que me faz lembrar de um poema de Robert Frost: “Pois duas trilhas em um bosque divergiram, e eu,/ Eu tomei aquela que menos percorreram,/ E isso fez toda a diferença”. Procurar outras rotas, fugir dos bloqueios. É dura a vida de quem quer fugir da manada.

domingo, maio 13, 2018

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Promoção (e pra mocinha), freguesia! A partir de hoje até quinta-feira, meu romance "Os óculos de Paula" pode ser baixado gratuitamente na sua versão para Kindle no site da
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quinta-feira, maio 03, 2018

quinta-feira, abril 19, 2018

Minha resenha sobre "A tinta da melancolia", de Jean Starobinski


Na minha colaboração com o blog do Gustavo Nogy, no site do jornal Gazeta do Povo, escrevo sobre "A tinta da melancolia", de Jean Starobinski. Para ler este e minhas outras críticas por lá, você pode assinar e acessar todo o site ou apenas se cadastrar com direito de acesso a até 5 textos gratuitos: