sábado, fevereiro 18, 2017

Que alunos queremos formar?



Meu texto no jornal Gazeta do Sul de hoje.
Se por um lado há certas forças que tentam transformar a educação apenas em preparação para o trabalho, ou pior, em mão de obra barata para o mercado, por outro há forças que querem a educação formando apenas cidadãos críticos, na verdade massa de manobra de políticos, intelectuais e sindicatos. Ambos os lados não se preocupam com o ensino, com conhecimento, com cultura. Importa é utilizar na prática o que o aluno aprendeu em sala de aula.
Sempre que ideologias, seja de direita seja de esquerda, impõem suas visões de mundo no âmbito escolar, a educação não decola. Como são as ideologias que comandam o mundo, o avião permanece na pista do aeroporto esperando reparos, ainda muito longe de levantar voo. Vez ou outra ele parte, mas precisa descer logo em outro aeroporto ou voltar para o anterior, pois o combustível não foi suficiente, questão de corte de gastos, sabem como é. Avião novo, nem pensar, tendo em vista que é necessário seguir modelos já existentes e que deram certo em outros lugares. E assim seguimos, parados.
A mudança atual do Ensino Médio, por exemplo, já erra de cara por tentar mudar apenas esta etapa escolar, enquanto o Fundamental também vem claudicando há tempos. E o erro não é por estar no poder um governo de direita (que na verdade não é), pois o partido de esquerda que estava antes no comando vinha acenando com a mesma medida. Agem de má fé os que estão criticando a mudança agora e não o faziam antes. Por isso, repito, a educação não melhora, pois os argumentos para as críticas são sempre acompanhados de motivos partidários. 
As mudanças nos últimos anos falham porque ignoram que a função da escola deveria ser, no meu ponto de vista, guiar o aluno ao conhecimento do que a humanidade fez de bom e de ruim em todas as áreas do saber para depois ele construir se próprio caminho. Ele precisa sim saber, por exemplo, sobre grandes obras da literatura, mesmo que depois nunca vá “aproveitar esse conhecimento na sua vida”, como se pensa erroneamente. Se o professor não “deposita” no aluno esse conhecimento (Paulo Freire foi o grande crítico do que chamava de “educação bancária”, um de seus muitos equívocos), será escamoteada a possibilidade de o jovem descobrir a beleza dos livros.

Pensar, portanto, num ensino técnico ainda no Ensino Médio tem um objetivo prático, uma vez que visa preparar o jovem para o mercado de trabalho. Acredito que a educação não deveria ter essa função, ou pelo menos não tê-la como principal. Tampouco deveria formar o jovem para ser crítico, pois isso ele pode ser por si próprio, a partir das reflexões sobre as ideias que são apresentadas em aula. Para isso, porém, deveria ser apresentada uma pluralidade de ideias, o que não acontece. Mas aí é tema para outro artigo. 

domingo, fevereiro 12, 2017

Quem resiste à boa literatura?


Resisti um pouco a começar a ler A resistência (Companhia das Letras, 144 páginas), de Julián Fuks, lançado em 2015, porque alguém dissera que era um romance panfletário, defendendo uma esquerda caduca dos anos 70 na América Latina. Creio que até as entrevistas do autor me fizeram ter essa percepção equivocada. Literatura, entretanto, não deve ser panfleto, nem de esquerda e nem de direita, deve ficar em cima do muro, no bom sentido. O romance de Fuks, por seu turno, sobe em cima do muro pelo lado da esquerda e observa os lados se digladiando. A política, porém, é apenas um elemento do enredo.
A resistência do título não é à ditadura apenas, mas à expressão de sentimentos. O narrador, Sebastián, parece sempre resistir a demonstrar o que sente pela família, principalmente em relação ao irmão, que é adotado. Aliás, era sobre o tema da adoção que o narrador queria escrever, mas até a isso ele resiste: “Queria escrever um livro que falasse de adoção, um livro com uma questão central, uma questão premente, ignorada por muitos, negligenciada até em autores capitais, mas o que caberia dizer afinal?”
Há em todo momento a resistência de Sebastián a escrever. Ao mesmo tempo, no entanto, há a necessidade de fazê-lo, pois escrever é uma resistência e uma forma de inconformismo, sem precisar de armas como seu pai que, junto com a mãe e o irmão adotivo ainda pequeno, se exila no Brasil devido à ditadura militar na Argentina. Aqui nasce sua irmã e depois ele, que conta a história voltando ao país de origem da família, numa tentativa de entender – mas também resistindo a entender –, a sombra do passado que os ronda e deixou cicatrizes: “Toda cicatriz é signo?, eu me pergunto sem querer. Toda cicatriz grita, ou é apenas memória de um grito, um grito calado no tempo? Tantas vezes a vi, tão fácil a reconheço, mas não sei dizer o que grita, ou o que cala, aquela cicatriz.”
A resistência mais emblemática é a do irmão em relação à família, quando se percebe distante dela e critica, em dado momento, os interesses pessoais de cada um: “Lembro que, enquanto ele falava, enquanto enumerava uma infinidade de pequenas mágoas, de incômodos que o visitavam dia a dia, enquanto recuperava com crescente rancor os muitos erros que havíamos cometido, as muitas distrações repreensíveis, meu pai sempre tomado pelo trabalho, minha mãe consumida por tensões dos pacientes e exigências da rotina, minha irmã afogada na residência em pediatria, eu dispersando minha atenção em qualquer livro, lembro que, enquanto meu irmão acusava absurdamente que ninguém lhe dava ouvidos, ninguém se preocupava, ninguém queria saber se ele estava bem, se do outro lado da porta, ou da casa, ou da cidade, ele subsistia, lembro que, enquanto ele falava, algo em mim recobrava o sentido. Suas palavras eram mais justas que as minhas: em suas palavras, o que era ele se fundia no nós em que eu tanto insistia, um nós tão parcial e imperfeito, um nós que o excluía. Ali, ouvindo meu irmão se exaltar aos olhos neutros de um desconhecido, lembro ter sido tomado por um velho sentimento, lembro ter sentido que estávamos em família.”

Para mim, a boa literatura necessita, sobretudo, de um trabalho exaustivo com a linguagem, sugerir mais em vez de mostrar, não duvidar da inteligência do leitor. Fuks faz isso, na medida em que A resistência não é propriamente uma narrativa, mas reflexões em que se depreende a história. O leitor completa as lacunas propositalmente deixadas. Há quem resista, no entanto, à boa literatura. E há quem seja resistente, como Julián Fuks, e continue a escrevê-la.

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Atire a primeira pedra


O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub (Companhia das Letras, 187 páginas), é um romance atualíssimo e necessário, uma vez que aborda diversos temas polêmicos. A maneira, porém, como esses temas se propagam nas redes sociais e a destruição de reputações provocadas pelo julgamento virtual se tornam a tônica do enredo.
José Victor, o narrador, é um publicitário de sucesso. Separado de Tereza, a Teca, envolve-se com uma colega vinte anos mais nova, a Dani. Seu melhor amigo é Walter, também publicitário e homossexual assumido. Os amigos trocam e-mails e mensagens no WhatsApp com piadas bobas, irônicas, típicas dos adultos meio infantis, como o tio do “é pavê ou é pra comer”, também chegando ao escatológico, tudo relacionado à separação, ao relacionamento sexual com seus parceiros ou parceiras e também sobre a AIDS, tendo em vista que Walter é soropositivo. “Ter um corpo de quarenta e três anos não impede que se pense como alguém de quinze” é a frase que abre o romance. Lidas por outras pessoas, no entanto, esses chistes podem ser interpretados de uma forma literal, sendo passível de interpretações errôneas. É o que acontece quando Teca, num domingo, descobre a senha do e-mail do ex-marido e, juntando o que achou mais escandaloso, espalha a porcaria no ventilador da internet. Nos dias seguintes, até a quinta-feira, os prints atingem uma proporção assustadora, chegando à mesa dos chefes da agência publicitária.
A fala do narrador se assemelha ao réu em um tribunal. “Bem-vindos ao tribunal. A audiência pode tomar seus assentos neste dia bonito de 2016.” É como se vê frente aos julgamentos que ele e Walter vêm sofrendo, mas principalmente com relação à Dani, a quem não queria ferir. No seu “depoimento”, relata a escalada da AIDS a partir da lembrança de uma reportagem do Fantástico nos anos 80 e o preconceito contra os homossexuais, representados pelo seu amigo. E sente-se, a todo o momento, culpado pelas brincadeiras inconsequentes, em que pese achar errado ter sua intimidade exposta para todo mundo.
Em outros capítulos, há vários trechos de postagens e comentários na principal rede social, o Facebook. Laub reproduz com precisão a linguagem utilizada. Os “julgamentos”, diga-se, não são exclusivos de ideologias de direita ou de esquerda, como se percebe pelo jargão de cada grupo:
“Antigamente as pessoas estavam preocupadas com valores, principalmente os da comunidade sem nem falar na educação das crianças […]. Não tinha violência e essa ladroagem dos políticos. Só tem deputado ladrão […]. Antigamente os mais velhos eram “respeitados” nas ruas. Eu não tenho preconceito, mas tem uma questão de “respeito” envolvida nisso não sei por que as pessoas negam […]. Eu digo e não tenho medo hoje em dia é essa “nojeira” que se vê.”
“O mais triste num indivíduo supostamente civilizado é a incapacidade de enxergar o Outro. Não é um ser humano que está ali, mas um Objeto […]. Este pode ser o nervo de certas relações, e não estou problematizando apenas os papéis culturais de Gênero, embora estes me pareçam fundamentais aqui, não só na esfera pública das relações mercantis e da Grande Política. Estou problematizando, de forma análoga, o Teatro Social entre quatro paredes, no qual este indivíduo supostamente civilizado, posto que bem-sucedido no trabalho e demais índices de sucesso em nossa coletividade, revela-se, ao contrário, um porta-voz da Barbárie […].”

Tornar públicas conversas privadas pode ser útil no que se refere aos políticos e suas falcatruas. Quando envolve pessoas comuns, entretanto, é uma invasão de privacidade que acaba com carreiras, com casamentos, com amizades. Quanto aos julgadores, vale lembrar que podem ser depois os julgados, assim como a plateia não está longe de sentar no banco dos réus. Ninguém está livre da intolerância das redes sociais. Por outro lado, a internet não é a responsável por isso. Fofocas venenosas sempre existiram. A rede só fez a peçonha chegar mais longe. 

terça-feira, fevereiro 07, 2017

Super-heróis ou vilões?

Na minha infância, os super-heróis eram presenças marcantes. Dos gibis das estantes dos meus tios, passando pelos desejados bonequinhos (que me serviram de inspiração para um conto do meu novo livro, Cacos e outros pedaços, publicado pela Editora Penalux) até chegar aos desenhos da TV, esses seres poderosos eram meus ídolos. Muitas vezes quis ser um deles. De nada adiantava, porém, cobrir meu rosto com aqueles saquinhos quadriculados da feira, pois não me transformava no Homem-Aranha. Tampouco amarrar um lençol no pescoço me fazia voar como Superman. Andar de calça comprida e sem camisa não me metamorfoseava no Incrível Hulk (só me causava resfriado). Empunhar uma marreta, então, nem sonhando me tornava um Thor (mas provocava sérias dores quando a deixava cair no pé).
Voltei à infância esses dias ao assistir a um desses filmes “arrasa-quarteirões” que vêm sendo produzidos nos Estados Unidos e que recriam os universos criados pela Marvel e pela DC Comics. (Minto: na verdade, com a internet, nos últimos anos venho relendo HQ’s e assistindo a desenhos como “A Liga da Justiça”, mas não contem isso pra ninguém, ok?) O filme é Batman vs Superman: a origem da Justiça, que mostra uma batalha entre os dois grandes heróis, que depois se juntam para “salvar a humanidade”.
Pois o meu olhar adulto e afeito a “filosofices”, recai justamente sobre a questão do “salvador”. Batman é aquele que representa o ser humano comum que se utiliza das próprias forças para fazer algo relevante para os outros, motivado, porém, por uma vingança pessoal. Superman, por sua vez, é a ajuda que vem de outro mundo, tem poderes extraordinários e ouve de longe os pedidos de socorro como se ouvisse o apelo de uma oração. A disputa entre ambos nos faz pensar justamente sobre nossa realidade. Quem será nosso salvador? O cidadão comum ou um messias? Devemos apenas esperar pela providência divina ou devemos, para usar de um clichê, “arregaçar as mangas” e mudar situação crítica que vivenciamos?
Depositamos nos políticos a solução para os nossos problemas, afinal são nossos representantes. Eles, no entanto, nos decepcionam, pois esperamos deles algo que não podem fazer e também, claro, porque muitos se tornam os vilões, fazendo o contrário (e bem ao contrário) do que queremos. Os políticos, entretanto, são o nosso espelho. Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma, Temer, Dória, Sartori, Telmo, Aécio, Marina, Bolsonaro, Obama e Trump somos nós. No dia a dia, somos corruptos, manipuladores, incoerentes, injustos, preconceituosos, racistas, homofóbicos, machistas. Também construímos muros. Somos seres humanos e, portanto, falhos. Os políticos também. Se eles são a encarnação do mal é porque também somos. Se são os super-vilões, é porque também somos.

Temos que fazer um mea culpa, mudar nosso comportamento no cotidiano, parar de acreditar em políticos de todos os partidos, não defender nenhum deles. Não há super-heróis no meio deles, não há salvador. Devemos também parar de fingir que somos super-heróis e realmente nos tornarmos um. Como desisti do ser humano, sei que isso não vai acontecer. Eu até me tornei um Batman, no entanto não por lutar com minhas forças, mas sim porque vivo enfurnado na minha “batcaverna”, lendo e escrevendo. Sou humano, sou falho.

sábado, fevereiro 04, 2017

Críticas distorcidas só atrapalham


Há um vídeo que circula pelas redes sociais em que Donald Trump, segundo as legendas, estaria demonstrando todo seu racismo. Na ponta de um banco de uma igreja, ele aguarda a passagem de religiosos e os cumprimenta, dando-lhes a mão. Quando passa um religioso negro, não acontece o mesmo. No entanto, se prestarmos a atenção, vemos que o homem é quem não olha para Trump e também não lhe estende a mão como o fazem os demais. Quem não quis cumprimentar foi o religioso, talvez justamente considerar o presidente americano um racista.
Entretanto, esta cena, que dá margem a uma interpretação ambígua, é cortada nesse ponto. Outra postagem mais completa do vídeo nos faz ver que, na sequência, Trump sai da sua posição e se dirige a outras pessoas para cumprimentá-las, entre elas um negro, que o faz todo feliz, sendo correspondido da mesma forma. Pode-se dizer, então, que estamos diante de uma tentativa sem limites éticos de rotular uma pessoa, ainda que ela mereça o rótulo.
Quando se quer criticar alguém e estabelecer uma narrativa que comprove os argumentos, a seletividade ideológica mostra como somos maus na nossa essência. Há tempos desisti do ser humano. Por isso não confio em ninguém, salvo nas pessoas muito próximas a mim que não me deram, ainda, motivos para duvidar delas. A narrativa que nos vem dos Estados Unidos é extremamente tendenciosa e contraditória. Se fizermos o exercício de pensar em algo como “e se fosse o contrário?”, perceberemos claramente isso. O que diriam esses críticos seletivos se Obama não cumprimentasse uma pessoa que passou por ele? Seria por preconceito ou apenas distração? 
E mais: num artigo desta semana, o jornalista português João Pereira Coutinho comenta sobre o estilista que se negou a vestir Melania Trump. E se outro estilista tivesse se negado a vestir Michelle Obama, o que aconteceria? Do que ele seria chamado?
Lembro-me das “dancinhas” protagonizadas pelo casal Obama, das músicas que o ex-presidente cantou em programas de televisão – a maioria de humor –, dos “raps” protagonizados por Michelle, os dois arrancando aplausos e elogios de seus admiradores por serem despojados, fugindo da seriedade protocolar do cargo. Já Trump é criticado por ter sido protagonista de um reality show (e muitos desses críticos aqui no Brasil admiram um deputado que se tornou conhecido justamente num programa desses), é ridicularizado pelas suas participações em filmes e, com certeza, viraria chacota se tentasse cantar alguma música ou dançasse na TV. E espero que nunca o faça, porque eu riria dele também.
Outro ponto contraditório está na crítica à construção do muro, que na verdade é a continuação de um já existente, iniciado, acreditem, pelo apoiador de Obama, Bill Clinton, em 1994. Obama, por seu turno, não demoliu o tão discutido muro, e ninguém o criticou por isso. Ele também negou, a poucos dias do fim do mandato, a entrada de refugiados cubanos nos EUA. Foi criticado pelos que hoje criticam Trump por não aceitar refugiados?

Tenho minhas reservas em relação a Donald Trump. Não gosto de tipos como ele no poder de uma nação. Aliás, não venho gostando de ninguém que tem o poder em qualquer instância. Causa-me desconforto, porém, quando as críticas são desmedidas, seletivas, distorcidas e mal-intencionadas. Isso não contribui com o debate, não melhora a situação e depõe contra quem se julga o dono da razão. Poderia apontar as críticas distorcidas que estão acabando com nosso país, mas é assunto para outro artigo.

segunda-feira, janeiro 30, 2017

Janelas indiscretas


O que faria hoje um sujeito com a perna imobilizada por conta de um acidente, tendo que ficar em casa, sem poder trabalhar? Acredito que ficaria no seu celular ou no computador acessando redes sociais na internet e também assistindo à TV. Poucas pessoas aproveitariam o tempo de molho para ler. No clássico filme de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta, o fotógrafo Jeff fica observando as janelas dos fundos da casa de seus vizinhos, como se abrisse muitas páginas na tela do computador. Passam pelos seus olhos cenas do cotidiano desses personagens, que o permitem saber suas vidas, que eles não fazem questão de esconder, achando ou fingindo achar que suas janelas abertas não seriam bisbilhotadas por ninguém.
Um casal de mais idade que dorme na sacada devido ao forte calor, demonstra felicidade com seu cachorrinho, porém, depois que ele é envenenado de forma misteriosa, grita para toda a vizinhança reclamando da falta de humanidade e companheirismo entre os vizinhos, como se tivesse escrevendo um textão no Facebook. Dois andares abaixo, uma mulher solitária finge receber uma pessoa, oferecendo jantar e bebida ao amigo virtual. No entanto, depois que ele se materializa num encontro real, percebe que o homem com quem marcou o encontro é um cafajeste que só queria aproveitar-se dela. Tenta ainda cometer suicídio, mas a bela música tocada por um dos vizinhos a faz mudar de ideia.
Esse vizinho é um pianista que tenta criar sua obra-prima e toca trechos para outros ouvirem e o assistirem através da vidraça de seu apartamento, como se postasse vídeos no Youtube. Em outro prédio próximo, uma loira de corpo escultural dança com pouca roupa e de forma sensual, sem se preocupar em fechar porta e janela, como se estivesse se exibindo numa webcam. No apartamento ao lado, um homem rude, cuja esposa está supostamente doente, oferta-lhe uma viagem para que ele possa ficar em paz por um tempo. Entretanto, deixou rastros que denunciaram seu verdadeiro ato, como alguém achando que apagar arquivos no computador é suficiente para esconder um crime.
Baseado em um conto de Cornell Woolrich, Janela indiscreta é de 1954 e nos permite muitas interpretações. Analisá-lo sob uma perspectiva atual não é tão absurdo como possa parecer, afinal, o voyeurismo e o poder que ele proporciona é o tema principal.  Gustavo Bernardo, no ensaio “Janela dos fundos”, uma boa análise do filme publicada em O livro da metaficção, destaca: “O voyeurismo supõe simultâneos desejo de poder sobre o outro e medo desse mesmo outro”. Ora, mesmo sabendo que pode ser prejudicial para sua vida, o indivíduo não faz muita questão de esconder sua vida pessoal, inclusive chega a escancará-la e tem essa noção, afinal pode ganhar curtidas e comentários que aumentam sua auto-estima. Por outro lado, quem acompanha a vida das outros sente-se poderoso, inclusive para criticar, muitas vezes de forma agressiva, se escondendo em perfis falsos, como o protagonista de Janela Indiscreta que se escondendo na sombra de seu apartamento e liga anonimamente para o criminoso com o intuito de observar sua reação ao ser informado que foi visto tentando esconder um crime.
O desfecho do filme não vem ao caso, afinal já deixei escapar spoilers que chega (uma forma de demonstrar a superioridade de quem já assistiu frente aos pobres mortais que ainda não tiveram a oportunidade). Sobre o desfecho da exibição de vidas nas redes sociais, todos já tomamos conhecimento e geralmente não é nada feliz. Cometemos, não obstante, os mesmos erros e proporcionamos aos mal-intencionados armas para nos atacar. Ou então viramos nós mesmos os algozes e destilamos veneno contra os outros sem medir as consequências.

Carlos Drummond de Andrade, outro profeta que antecipou as redes sociais, escreveu, lá nos anos 20 do século passado: “Devagar... as janelas olham/ Eta vida besta, meus Deus”. Ou seja, Camões estava errado séculos atrás: “Mudam-se os tempos”, mas as vontades não mudam.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

sábado, janeiro 21, 2017

Louco, ma non troppo


Recebi pelo correio um manuscrito, com letra trêmula, porém legível, enviada pelo irmão do autor do texto. Este, segundo escreve o irmão, se suicidou há uma semana, não sem antes rasgar quase todos os seus cadernos. Deixou apenas essa folha intacta, porém não sabe o motivo. Decidiu me enviar, pois havia lido no jornal da cidade um artigo meu sobre a morte voluntária. Disse que poderia fazer o que bem entendesse com o manuscrito. Reproduzo aqui em homenagem ao suicida e ao escritor Jacques Fux, cuja obra é o mote do texto.
  
Por que me prendo aqui? Prendo-me porque os outros não me querem solto, mas têm receio de me prender. Simples. Não, não é tão simples. Se me refugio na leitura e na escrita é porque no mundo dos livros eu encontro o meu lugar. Que são muitos, diga-se. É porque, da mesma forma, me identifico com as personagens. Que são muitas. Eu sou muitos. Aqui eu não incomodo os outros. Aliás, incomodo meus pais apenas para que comprem livros e não me deixem nunca sem lápis, borracha e caderno. Para que eu crie novos mundos. Para que escreva sobre os mundos e as personagens que leio, mesmo sabendo que ninguém vai ler. Antes de morrer, queimo tudo. Ou rasgo tudo, pois não me darão um fósforo.
Meu irmão me trouxe um romance sobre mim e meus outros. Meu pai não me daria este livro, tampouco minha mãe. Ele me disse que era um romance, aliás, está na capa que é um romance, “um romance sobre a loucura”, mas não, não é um romance. São ensaios ficcionalizados, perfis literários, contos sobre a loucura, vá lá. Tudo amarrado por um narrador que escreve sobre judeus famosos ou não tão famosos que têm como traço em comum a loucura em seus diferentes níveis ou conceitos. Não é uma loucura qualquer. É a loucura judaica, o Meshugá que dá título à obra. É a loucura do autor, Jacques Fux, também judeu, assim como das personagens, entre elas a filósofa Sarah Kofman, passando pelo diretor Woody Allen, até chegar ao próprio narrador.
Alguns são suicidas, como o filósofo Otto Weininger, que se matou jovem, depois de tentar lidar com seu homossexualismo e as pressões da religião judaica. Outros vivem uma vida suicida, como o ator pornô Ron Jeremy. Há os judeus que se tornam antissemitas, como Daniel Burros (um nome que condiciona destino, diria outro judeu, Moacyr Scliar), que se tornou nazista e membro da Ku Klux Klan e que se suicidou como Weininger. Temos os gênios do raciocínio, o que prova que a loucura não é ausência da razão: o matemático Grisha Perelman, “o Bartleby da matemática”, segundo o narrador, pois preferiu não ir receber um prêmio milionário que ganhara; e um dos maiores ou o maior jogador de xadrez de todos os tempos, Bobby Fischer, que se tornou um paranoico e declarou apoio aos terroristas que derrubaram as Torres Gêmeas em Nova Iorque. A galeria de loucos judeus retratados por Fux tem ainda o falso messias Sabbatai Zevi.
É na escrita e na criação artística que muitos desses loucos encontram uma forma de lidar com suas agruras. Sarah Kofman, por exemplo:
“Ela tem a saúde frágil. Tem dores constantes em todos os seus membros. Tem dificuldade para andar. Para respirar. Para viver. Não consegue comer. Não se tranquiliza jamais. Só se sente bem ao escrever sobre filosofia. As palavras nunca vão salvá-la.”
Seu destino é também o suicídio: 
“A morte lhe parece uma ótima idéia. Talvez sua última e única verdade.
E seria a morte uma possibilidade artística? A arte salva? A arte consterna? Machuca?”

Woody Allen, o “judeu neurótico, risível e atormentado”, retratado a partir de um fato polêmico de sua vida, que foi o envolvimento com a filha adotiva de sua esposa, Mia Farrow, “se refugia na sua arte. Na literatura, música e cinema (...). Através da arte ele acredita que estará sempre isento de culpa.”
Por fim o narrador, aqui retratado por ele mesmo na terceira pessoa, encontra na escrita um lenitivo para o sofrimento por ter sido abandonado por uma mulher:
“Sabe que tem de se dedicar à escrita, se tem gana de sobreviver. Então começa a escrever. Escreve loucamente, por horas e horas intermináveis. Ele literalmente entra em seu livro. Vive inteiramente o sofrimento de seus personagens inventados. Sente a dor profunda de um parto, e da angústia por essa grande espera. Ele termina uma bela obra de arte”.
 Conhecendo essas outras vidas, que passam a ser minhas, vou levando a minha vida aqui em meio aos milhares de livros que venho acumulando. Se sou chamado pelos outros de “o louco dos livros”, não me importo. Uma das características do louco é pensar diferente dos demais. Prefiro ser assim.

Aliás, como sei que ninguém vai ler isso aqui, posso bradar: que se danem os outros! Salvo os outros que vivem dentro de mim. E salvo aqueles que me trazem a comida do corpo e do intelecto, é claro, pois não sou tão louco como pensam. 

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Uma orgia com Alberto Mussa


Júlio Nogueira saiu um pouco de sua reclusão, criou perfis em redes sociais e um blog para divulgar suas críticas, mas logo depois se recolheu novamente. Trocamos, porém, impressões de leitura por e-mails, tendo em vista que abriguei no meu blog algumas de suas críticas, sem contar que também esboçou a minha “biografia precoce não autorizada”, publicada no site Digestivo Cultural. De seu sítio no interior de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, me pergunta se já terminei de ler Os contos completos, de Alberto Mussa (Record, 398 páginas). “Terminei a leitura há pouco”, respondi. Prosseguindo o diálogo via internet, perguntou-me o que achei e respondi que gostei muito.
“Pois olha, Cassionei”, ele escreveu, “sabes que os escritores brasileiros têm uma tendência a tratar somente do presente e, quando tocam no passado, não ultrapassam a barreira do século XX, com honrosas exceções, como a deste escritor. Quando leríamos algo sobre os índios brasileiros pré-Cabral ou relatos do tempo da colônia nas obras dos autores contemporâneos? Ele estende a linha temporal na narrativa brasileira, demonstrando ser um pesquisador, mas que não deixa de ficcionalizar, que é o que realmente interessa no âmbito literário. Aliás, ele deixa isso bem claro na sua poética ao comentar os contos. Que te parece?”
“Me chamou a atenção isso, mestre. E também a amplitude temática e geográfica. Do jogo do bicho na periferia carioca, passando pelos terreiros de umbanda e os traficantes, chega à cultura árabe e todo o seu imaginário, aterrissando também na África. Dos triângulos amorosos através dos tempos ao canibalismo dos indígenas, registra também reflexões sobre as linguagens, os jogos matemáticos, a circularidade, os crimes, o sobrenatural, etc. Vale ressaltar que ele reescreveu suas histórias publicadas no livro de narrativas Elegbara e desmembrou outras tantas de alguns romances. Modificou bastante as histórias e as recontextualizou, transformando num livro diferente dos outros, portanto sem sacanear o leitor, como fazem alguns escritores que reeditam os livros modificando-os, melhorando-os e renegando a edição anterior, fazendo assim com que o leitor que comprou a primeira edição se sinta lesado. Aliás, reescrevi dois contos meus do primeiro livro e os inseri no terceiro, que será publicado em breve. Aquele que o senhor não quis ler. Falando em ler, qual a impressão do senhor sobre o leitor Alberto Mussa?”
“Ele demonstra ser um exímio leitor, antes de ser escritor. Não reluto em dizer que ele poderia ser o nosso Borges, não apenas por ser esse grande leitor, mas pela utilização de histórias, na maioria das vezes orais, de diferentes culturas, numa apropriação literária em que prevalecem os elementos fantásticos e os enigmas e jogos intelectuais. É na releitura de clássicos literários, porém, que ele atinge o máximo da capacidade criativa. ‘A trilogia homérica’, por exemplo, em que recria a volta de Ulisses para Ítaca, dessa feita localizando o enredo no Brasil do século XVI. Mussa, na nota explicativa, menciona, provocativamente, outra versão do mito, ‘que se lê num enfadonho romance irlandês’. Já as recriações de obras machadianas, em ‘A leitura secreta’ e ‘O princípio binário’, fecham, com o perdão do lugar-comum, com ‘chave de ouro’ o livro. O primeiro, em forma de ensaio, traz uma interpretação para o conto ‘A cartomante’. No segundo, um conjunto de manuscritos propõe uma solução espetacular para o enigma de Capitu. O tema do duplo, tão caro a Borges, bem como a loucura! ‘Mas chego à conclusão de que o horror ao próprio duplo é imanente à natureza humana. Isso talvez explique todo o drama da minha vida’, escreve a autora dos manuscritos. Jamais teria me passado pela cabeça uma interpretação dessa magnitude. Não sei você, mas segui a dica do narrador e reli o conto e os capítulos mencionados de Dom Casmurro.”
“Sim, também segui a dica. Veja que todos têm a presença do triângulo amoroso e entendo que a literatura também tem um pouco disso. É o autor, a obra e o leitor, num ‘movimento pendular’, que dá título à obra de Mussa que aborda somente esse tema.”
“E quando outros leitores se metem na leitura do outro, refocilamos em orgias, para parafrasear Drummond.”

“É uma ‘orgia perpétua’, mestre, segundo Flaubert.”

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Um pouco de loucura faz bem


Assisti ontem a “Loki – Arnaldo Baptista”, documentário de 2008, sobre a vida e a obra do líder da banda “Os Mutantes”, uma das mais importantes do rock nacional. Um dos assuntos abordados foram os surtos de loucura do músico, provocados pelo uso de drogas, principalmente o LSD, que resultaram inclusive numa tentativa de suicídio. A loucura dos artistas é um tema que vem me atraindo. Tem, inclusive, um lugar importante no enredo do meu livro Os óculos de Paula, bem como em alguns dos meus contos. Tive, vale ressaltar, de assumir um papel de maluco para escrever e publicar essas obras, assim como tenho que ser louco para insistir nessa coisa de criar histórias.
Talvez a música de maior sucesso de “Os Mutantes” seja a “Balada de um louco”. Os versos “Mas louco é quem me diz/E não é feliz” e “Eu juro que é melhor/Não ser o normal” estão no nosso imaginário cultural.  Ser louco é ser diferente, não atender aos padrões rígidos da sociedade que nos deixam infelizes. Ser louco é ser um indivíduo e não fazer parte da massa, de uma coletividade que pensa certinho, anda na linha. Escrever livros é sinal de quem não é normal. Ler também.
Para o artista, essa dose de loucura, mesmo que metafórica, é essencial. O problema está quando se extrapola, quando os limites não têm um fim. O artista precisa deixar seu lado lunático de lado para trabalhar racionalmente, caso contrário a obra falha, suas criações se perdem e a genial loucura acaba. Foi o que aconteceu com o Arnaldo Baptista e acontece com outros tantos.
Sou leigo no assunto, mas dá para dizer que muitos nascem com distúrbios mentais, que afloram com o tempo, enquanto outros acabam adquirindo essa condição devido a substâncias químicas ou naturais. Muitos ficam loucos apenas sob o efeito dessas substâncias (“cê ta pensando que sou loki, bicho”, diz os versos de uma música solo do Arnaldo Baptista, cujo álbum foi elaborado quando o compositor dizia estar construindo um disco voador), inclusive precisam delas para criar. Outros, no entanto, necessitam de uma mente limpa, que é meu caso (salvo se o café faça o papel de sujá-la). Para mim, a maluquice é metafórica. Tenho que ser um louco para escrever, tenho que ser diferente, necessito ser outros “eus” para contar uma história, devo “pensar que Deus sou eu”.     

Na pilha de livros que aguardam minhas leituras está Meshugá – um romance sobre a loucura, de Jacques Fux, que merecerá uma resenha depois. Voltarei, portanto, ao assunto.
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