sábado, janeiro 21, 2017

Louco, ma non troppo


Recebi pelo correio um manuscrito, com letra trêmula, porém legível, enviada pelo irmão do autor do texto. Este, segundo escreve o irmão, se suicidou há uma semana, não sem antes rasgar quase todos os seus cadernos. Deixou apenas essa folha intacta, porém não sabe o motivo. Decidiu me enviar, pois havia lido no jornal da cidade um artigo meu sobre a morte voluntária. Disse que poderia fazer o que bem entendesse com o manuscrito. Reproduzo aqui em homenagem ao suicida e ao escritor Jacques Fux, cuja obra é o mote do texto.
  
Por que me prendo aqui? Prendo-me porque os outros não me querem solto, mas têm receio de me prender. Simples. Não, não é tão simples. Se me refugio na leitura e na escrita é porque no mundo dos livros eu encontro o meu lugar. Que são muitos, diga-se. É porque, da mesma forma, me identifico com as personagens. Que são muitas. Eu sou muitos. Aqui eu não incomodo os outros. Aliás, incomodo meus pais apenas para que comprem livros e não me deixem nunca sem lápis, borracha e caderno. Para que eu crie novos mundos. Para que escreva sobre os mundos e as personagens que leio, mesmo sabendo que ninguém vai ler. Antes de morrer, queimo tudo. Ou rasgo tudo, pois não me darão um fósforo.
Meu irmão me trouxe um romance sobre mim e meus outros. Meu pai não me daria este livro, tampouco minha mãe. Ele me disse que era um romance, aliás, está na capa que é um romance, “um romance sobre a loucura”, mas não, não é um romance. São ensaios ficcionalizados, perfis literários, contos sobre a loucura, vá lá. Tudo amarrado por um narrador que escreve sobre judeus famosos ou não tão famosos que têm como traço em comum a loucura em seus diferentes níveis ou conceitos. Não é uma loucura qualquer. É a loucura judaica, o Meshugá que dá título à obra. É a loucura do autor, Jacques Fux, também judeu, assim como das personagens, entre elas a filósofa Sarah Kofman, passando pelo diretor Woody Allen, até chegar ao próprio narrador.
Alguns são suicidas, como o filósofo Otto Weininger, que se matou jovem, depois de tentar lidar com seu homossexualismo e as pressões da religião judaica. Outros vivem uma vida suicida, como o ator pornô Ron Jeremy. Há os judeus que se tornam antissemitas, como Daniel Burros (um nome que condiciona destino, diria outro judeu, Moacyr Scliar), que se tornou nazista e membro da Ku Klux Klan e que se suicidou como Weininger. Temos os gênios do raciocínio, o que prova que a loucura não é ausência da razão: o matemático Grisha Perelman, “o Bartleby da matemática”, segundo o narrador, pois preferiu não ir receber um prêmio milionário que ganhara; e um dos maiores ou o maior jogador de xadrez de todos os tempos, Bobby Fischer, que se tornou um paranoico e declarou apoio aos terroristas que derrubaram as Torres Gêmeas em Nova Iorque. A galeria de loucos judeus retratados por Fux tem ainda o falso messias Sabbatai Zevi.
É na escrita e na criação artística que muitos desses loucos encontram uma forma de lidar com suas agruras. Sarah Kofman, por exemplo:
“Ela tem a saúde frágil. Tem dores constantes em todos os seus membros. Tem dificuldade para andar. Para respirar. Para viver. Não consegue comer. Não se tranquiliza jamais. Só se sente bem ao escrever sobre filosofia. As palavras nunca vão salvá-la.”
Seu destino é também o suicídio: 
“A morte lhe parece uma ótima idéia. Talvez sua última e única verdade.
E seria a morte uma possibilidade artística? A arte salva? A arte consterna? Machuca?”

Woody Allen, o “judeu neurótico, risível e atormentado”, retratado a partir de um fato polêmico de sua vida, que foi o envolvimento com a filha adotiva de sua esposa, Mia Farrow, “se refugia na sua arte. Na literatura, música e cinema (...). Através da arte ele acredita que estará sempre isento de culpa.”
Por fim o narrador, aqui retratado por ele mesmo na terceira pessoa, encontra na escrita um lenitivo para o sofrimento por ter sido abandonado por uma mulher:
“Sabe que tem de se dedicar à escrita, se tem gana de sobreviver. Então começa a escrever. Escreve loucamente, por horas e horas intermináveis. Ele literalmente entra em seu livro. Vive inteiramente o sofrimento de seus personagens inventados. Sente a dor profunda de um parto, e da angústia por essa grande espera. Ele termina uma bela obra de arte”.
 Conhecendo essas outras vidas, que passam a ser minhas, vou levando a minha vida aqui em meio aos milhares de livros que venho acumulando. Se sou chamado pelos outros de “o louco dos livros”, não me importo. Uma das características do louco é pensar diferente dos demais. Prefiro ser assim.

Aliás, como sei que ninguém vai ler isso aqui, posso bradar: que se danem os outros! Salvo os outros que vivem dentro de mim. E salvo aqueles que me trazem a comida do corpo e do intelecto, é claro, pois não sou tão louco como pensam. 

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Uma orgia com Alberto Mussa


Júlio Nogueira saiu um pouco de sua reclusão, criou perfis em redes sociais e um blog para divulgar suas críticas, mas logo depois se recolheu novamente. Trocamos, porém, impressões de leitura por e-mails, tendo em vista que abriguei no meu blog algumas de suas críticas, sem contar que também esboçou a minha “biografia precoce não autorizada”, publicada no site Digestivo Cultural. De seu sítio no interior de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, me pergunta se já terminei de ler Os contos completos, de Alberto Mussa (Record, 398 páginas). “Terminei a leitura há pouco”, respondi. Prosseguindo o diálogo via internet, perguntou-me o que achei e respondi que gostei muito.
“Pois olha, Cassionei”, ele escreveu, “sabes que os escritores brasileiros têm uma tendência a tratar somente do presente e, quando tocam no passado, não ultrapassam a barreira do século XX, com honrosas exceções, como a deste escritor. Quando leríamos algo sobre os índios brasileiros pré-Cabral ou relatos do tempo da colônia nas obras dos autores contemporâneos? Ele estende a linha temporal na narrativa brasileira, demonstrando ser um pesquisador, mas que não deixa de ficcionalizar, que é o que realmente interessa no âmbito literário. Aliás, ele deixa isso bem claro na sua poética ao comentar os contos. Que te parece?”
“Me chamou a atenção isso, mestre. E também a amplitude temática e geográfica. Do jogo do bicho na periferia carioca, passando pelos terreiros de umbanda e os traficantes, chega à cultura árabe e todo o seu imaginário, aterrissando também na África. Dos triângulos amorosos através dos tempos ao canibalismo dos indígenas, registra também reflexões sobre as linguagens, os jogos matemáticos, a circularidade, os crimes, o sobrenatural, etc. Vale ressaltar que ele reescreveu suas histórias publicadas no livro de narrativas Elegbara e desmembrou outras tantas de alguns romances. Modificou bastante as histórias e as recontextualizou, transformando num livro diferente dos outros, portanto sem sacanear o leitor, como fazem alguns escritores que reeditam os livros modificando-os, melhorando-os e renegando a edição anterior, fazendo assim com que o leitor que comprou a primeira edição se sinta lesado. Aliás, reescrevi dois contos meus do primeiro livro e os inseri no terceiro, que será publicado em breve. Aquele que o senhor não quis ler. Falando em ler, qual a impressão do senhor sobre o leitor Alberto Mussa?”
“Ele demonstra ser um exímio leitor, antes de ser escritor. Não reluto em dizer que ele poderia ser o nosso Borges, não apenas por ser esse grande leitor, mas pela utilização de histórias, na maioria das vezes orais, de diferentes culturas, numa apropriação literária em que prevalecem os elementos fantásticos e os enigmas e jogos intelectuais. É na releitura de clássicos literários, porém, que ele atinge o máximo da capacidade criativa. ‘A trilogia homérica’, por exemplo, em que recria a volta de Ulisses para Ítaca, dessa feita localizando o enredo no Brasil do século XVI. Mussa, na nota explicativa, menciona, provocativamente, outra versão do mito, ‘que se lê num enfadonho romance irlandês’. Já as recriações de obras machadianas, em ‘A leitura secreta’ e ‘O princípio binário’, fecham, com o perdão do lugar-comum, com ‘chave de ouro’ o livro. O primeiro, em forma de ensaio, traz uma interpretação para o conto ‘A cartomante’. No segundo, um conjunto de manuscritos propõe uma solução espetacular para o enigma de Capitu. O tema do duplo, tão caro a Borges, bem como a loucura! ‘Mas chego à conclusão de que o horror ao próprio duplo é imanente à natureza humana. Isso talvez explique todo o drama da minha vida’, escreve a autora dos manuscritos. Jamais teria me passado pela cabeça uma interpretação dessa magnitude. Não sei você, mas segui a dica do narrador e reli o conto e os capítulos mencionados de Dom Casmurro.”
“Sim, também segui a dica. Veja que todos têm a presença do triângulo amoroso e entendo que a literatura também tem um pouco disso. É o autor, a obra e o leitor, num ‘movimento pendular’, que dá título à obra de Mussa que aborda somente esse tema.”
“E quando outros leitores se metem na leitura do outro, refocilamos em orgias, para parafrasear Drummond.”

“É uma ‘orgia perpétua’, mestre, segundo Flaubert.”

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Um pouco de loucura faz bem


Assisti ontem a “Loki – Arnaldo Baptista”, documentário de 2008, sobre a vida e a obra do líder da banda “Os Mutantes”, uma das mais importantes do rock nacional. Um dos assuntos abordados foram os surtos de loucura do músico, provocados pelo uso de drogas, principalmente o LSD, que resultaram inclusive numa tentativa de suicídio. A loucura dos artistas é um tema que vem me atraindo. Tem, inclusive, um lugar importante no enredo do meu livro Os óculos de Paula, bem como em alguns dos meus contos. Tive, vale ressaltar, de assumir um papel de maluco para escrever e publicar essas obras, assim como tenho que ser louco para insistir nessa coisa de criar histórias.
Talvez a música de maior sucesso de “Os Mutantes” seja a “Balada de um louco”. Os versos “Mas louco é quem me diz/E não é feliz” e “Eu juro que é melhor/Não ser o normal” estão no nosso imaginário cultural.  Ser louco é ser diferente, não atender aos padrões rígidos da sociedade que nos deixam infelizes. Ser louco é ser um indivíduo e não fazer parte da massa, de uma coletividade que pensa certinho, anda na linha. Escrever livros é sinal de quem não é normal. Ler também.
Para o artista, essa dose de loucura, mesmo que metafórica, é essencial. O problema está quando se extrapola, quando os limites não têm um fim. O artista precisa deixar seu lado lunático de lado para trabalhar racionalmente, caso contrário a obra falha, suas criações se perdem e a genial loucura acaba. Foi o que aconteceu com o Arnaldo Baptista e acontece com outros tantos.
Sou leigo no assunto, mas dá para dizer que muitos nascem com distúrbios mentais, que afloram com o tempo, enquanto outros acabam adquirindo essa condição devido a substâncias químicas ou naturais. Muitos ficam loucos apenas sob o efeito dessas substâncias (“cê ta pensando que sou loki, bicho”, diz os versos de uma música solo do Arnaldo Baptista, cujo álbum foi elaborado quando o compositor dizia estar construindo um disco voador), inclusive precisam delas para criar. Outros, no entanto, necessitam de uma mente limpa, que é meu caso (salvo se o café faça o papel de sujá-la). Para mim, a maluquice é metafórica. Tenho que ser um louco para escrever, tenho que ser diferente, necessito ser outros “eus” para contar uma história, devo “pensar que Deus sou eu”.     

Na pilha de livros que aguardam minhas leituras está Meshugá – um romance sobre a loucura, de Jacques Fux, que merecerá uma resenha depois. Voltarei, portanto, ao assunto.

sábado, janeiro 07, 2017

Um belo rebento

Rebentar, primeiro romance de Rafael Gallo (Record, 328 páginas), tinha tudo, pela sua temática, para ser um romance piegas, sentimental demais, se tornar um best-seller e, por último, arrancar lágrimas na sua adaptação para o cinema. O autor, no entanto, optou por fazer literatura de verdade e, por conseguinte, não escolheu soluções fáceis ou um final previsível e mágico. É um romance que requer paciência e ao mesmo tempo uma imersão do leitor, caso queira desfrutar da arte literária.
Ângela é uma professora que deixou a profissão para ser única e exclusivamente, durante mais de 30 anos, a mãe de uma criança desaparecida. O pequeno Felipe sumiu quando tinha 5 anos, em uma galeria de lojas e nunca mais foi encontrado. Ângela, porém, manteve durante décadas a esperança de encontrá-lo, ajudada por uma ONG, denomina “Mães em busca”, porém se frustra, junto com o marido, Otávio, depois de cada falsa pista, de cada falso Felipe que aparece em algum abrigo. Uma dor incomparável: “Um filho desaparecido é um filho que morre todos os dias. Nem mesmo nas mitologias mais cruéis há tragédia equivalente; essa dor nenhum deus teve de suportar”.
Depois de muito refletir, no entanto, Ângela decide encerrar as buscas, decisão que acarreta mais problemas, desencadeia novos conflitos, dela consigo mesmo, dela com outras mães da ONG, cujos filhos também estão desaparecidos há anos, dela com a irmã, que não concorda com a decisão. Recebe, no entanto, o apoio do marido e da sobrinha, Isa, companheira de infância de Felipe, que cresceu com a sombra do desaparecido e agora revela estar grávida.
O “rebentar” do título aparece em muitos momentos. Ora o “rebento”, no sentido de filho, tanto o que desapareceu e o que está para nascer, ora o “rebentar em choro”, ora “as ondas rebentando nas rochas”. Esta talvez é a metáfora mais interessante. O vai e vem das ondas do mar batendo em algo sólido, que resiste, mas que com o tempo vai se desgastando. Assim é a vida de Ângela, em idas e vindas, sofrendo, entrando em depressão, porém, firme, mostrando mais firmeza ainda na desistência. Desistir de sofrer para renascer, rebentar novos frutos: “Sofrimento é só sofrimento, Regina, não há nada de edificante nele”. O leitor acompanha esse movimento das ondas, as repetições das reflexões, as mudanças de humor, as indecisões da protagonista e corre o risco de sofrer junto com ela. Risco bem medido pelo narrador.

Rafael Gallo, nascido em 1981, teve sua estreia em 2012, com o volume de contos Réveillon e outros dias, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Rebentar já recebeu importantes premiações e vem confirmar seu nome como um dos mais relevantes atualmente. Como compôs Gilberto Gil, “Rebento, substantivo abstrato/ O ato, a criação, o seu momento (...)/ Tudo o que nasce é rebento/ Tudo que brota, que vinga, que medra”. Esperemos outros bons rebentos do autor.

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Concerto em LAAB Maior


Allegro
Luiz Antonio de Assis Brasil foi violoncelista. Trocou o arco pela pena. Não o fizesse, talvez não conhecêssemos o grande artista. Assis Brasil seria um bem sucedido, porém obscuro músico como Julius, o protagonista de seu novo romance, O inverno e depois (L&PM, 348 páginas), mais uma obra pensada, estudada, preparada e bem executada pelo composi, digo, escritor gaúcho.  
Encontramos Julius esperando sua mala no aeroporto de Porto Alegre. Vindo de São Paulo, seu destino é a Estância Júpiter, onde nasceu, na fronteira com o Uruguai. Pretende estudar o Concerto em Si Menor, op. 104, de Antonín Dvořák, cuja execução é uma ideia fixa (“Tocar Dvořák poderia dar um sentido a sua vida”). A mala contém partituras e diferentes gravações do concerto, mas acaba se extraviando. É o primeiro percalço da viagem.
Adagio ma non troppo
Enquanto isso, a narrativa volta no tempo e em diferentes espaços para elucidar, aos poucos, as escolhas de Julius. Somos conduzidos a São Paulo, onde ele vive atualmente com a esposa Sílvia; passamos por Würzburg, na Alemanha, onde estudou, nos anos 80, numa importante escola de música, e onde encontrou um grande amor; e, mais remotamente, conhecemos o menino Julius na Estância Júpiter, com seu violino de brinquedo.
São as mulheres, no entanto, as personagens mais fortes e que moldam, de certa forma, a personalidade de Julius. A tia Erna, que o criou depois da morte trágica dos pais, é quem lhe ensina os primeiros passos da música clássica. A esposa Sílvia é o complemento racional do marido, cuidando inclusive das questões burocráticas relacionadas à parte da renda da distante estância que herdou. Agripina Antônia é a meia-irmã, que conhece apenas por fotos, e com quem teve que dividir a herança. Fruto do adultério de seu pai, Julius receia encontrá-la na estância. “Pois se irmãos-irmãos têm assegurados os alicerces desse afeto, já a atenção mútua que se devem os meio-irmãos exige cuidado em dobro a quem se acha em débito com a nobreza de seus próprios sentimentos.”
Na sua estada na Alemanha, Klarika Király é uma colega de estudos e primeira amante e a quem faz a promessa de tocar o concerto de Dvořák, apesar de um primeiro fracasso. A figura feminina mais importante, entretanto, é Constanza Zabala, uma uruguaia, estudante de clarinete, com quem vive uma intensa paixão, mas acabam se separando por um motivo inexplicável. Como a estância da família está próxima do Uruguai (“tal como ela dissera em Würzburg, apenas um rio nos separa”), não seria a possibilidade inconsciente de reencontrá-la o real motivo para a volta de Julius às origens?     
     Finale. Allegro moderato
A arte, em várias representações, sendo a música, por motivos óbvios, a mais destacada, costura as reflexões das personagens. Durante a viagem, Julius lê um romance em francês de Pascal Quignard, presente da esposa. Perto do final, uma jovem que conheceu na estância, a romântica Maria Eduarda, outra figura feminina de certa relevância, por simbolizar a inocência perdida pelo protagonista, pergunta o que ele está lendo:
“— O que diz aqui?
— Em por português é Todas as manhãs do mundo.
— Que bonito. É uma história de amor?
— Todos os livros são uma história de amor.”
O inverno e depois é uma história de amor à arte, à música, à literatura. É uma história de amor entre amigos, entre irmãos, entre homem e mulher. É uma história de amor entre o artista e a obra. É uma história de amor entre o escritor, o livro e o leitor. 

sábado, dezembro 31, 2016

Leituras e releituras que fiz em 2016

O mundo segundo Garp, John Irving
As bacantes, Eurípedes
Psicose, Robert Bloch
Nem todo canário é belga, Flavio Moreira da Costa
Anotações durante o incêndio, Cintia Moscovich
Contarlo todo, Jeremías Gamboa
Édipo Rei, Sófocles
Jeito de matar lagartas, Antonio Carlos Viana
Todos os poemas, Paul Auster
Inventário do Ir-remediável, Caio Fernando Abreu
Noites brancas, Dostoievski
Os sete contra Tebas, Ésquilo
O primeiro da fila, Henrique Rodrigues
As fenícias, Eurípedes
Un sueño realizado y otros cuentos, Juan Carlos Onetti
Édipo em Colono, Sófocles
Logicomix Uma Jornada Épica em Busca da Verdade (Graphic Novel), Apostolos Doxiadis
Figuraciones Mías - Sobre El Gozo De Leer Y El Riesgo De Pensar, Fernando Savater
Antígona, Sófocles
El pozo, Juan Carlos Onetti
O legado de Humboldt, Saul Bellow
O evangelista, Manoel Herzog
Quem pode julgar a primeira pedra?, Gustavo Bernardo Krause
Borges vai ao cinema com Maria Kodama, Escobar Nogueira
Melhores crônicas, José Castello
Uma menina está perdida no século à procura do pai, Gonçalo M. Tavares
As suplicantes, Eurípedes
A primeira mulher, Miguel Sanches Neto
Oto e Isac, Rudinei Kopp
A literatura na poltrona, José Castello
Diarios de Emilio Renzi: los años de formación, Ricardo Piglia
Quase memória, Carlos Heitor Cony
A grande fome, John Fante
Um estudo em vermelho, Conan Doyle
Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo, Paulo Scott
Silogismos da amargura, Emil Cioran
O problema do realismo de Machado de Assis, Gustavo Bernardo Krause
Corpos divinos, Guillermo Cabrera Infante
A cartomante e outros contos, Machado de Assis
As feridas de um leitor, José Castello
Contra um mundo melhor, Luiz Felipe Pondé
Lições de mestres, George Steiner
The sunset limited, Cormarc McCarthy
Malditas fronteiras, João Batista Melo
Prosas apátridas, Julio Ramón Ribeyro
Finalmente hoje, Marcio Renato Dos Santos
A dona da casa (ou A senhoria), Dostoievski
O azul do filho morto, Marcelo Mirisola
Quem matou Juliana Klein?, Marcos Peres
Elogio de la lectura y la ficción, Mario Vargas Llosa
A dama de espadas, Puchkin
A poeira da glória, Martim Vasques Cunha
Maleita, Lúcio Cardoso
A boca do inferno, Otto Lara Resende
La vida es sueño, Calderón de la Barca
O gênio do crime, João Carlos Marinho
Héracles, Eurípedes
Estilhaços, Marcelo Backes
Salgueiro, Lúcio Cardoso
Caetés, Graciliano Ramos
O lado imóvel do tempo, Matheus Arcaro
Alceste, Eurípides
A luz no subsolo, Lúcio Cardoso
São Bernardo, Graciliano Ramos
A Bíblia do Che, Miguel Sanches Neto
Cuentos de fantasmas, Pio Baroja
O país do carnaval, Jorge Amado
Primeiro andar, Mário de Andrade
O livro das semelhanças, Ana Martins Marques
Vidas Sombrías, Pio Baroja
Brás, Bexiga e Barra Funda, António de Alcântara Machado
As traquínias, Sófocles
Winesburg, Ohio, Sherwood Anderson
O som e a fúria, William Faulkner
Duas Narrativas Fantásticas, Dostoievski
O escritor proibido, Orígenes Lessa
Parafilias, Alexandre Marques Rodrigues
Os 10 mandamentos (+1), Luiz Felipe Pondé
Laranja da China, Antônio de Alcântara Machado
Cada amanhecer me dá um soco, Andrei Ribas
A viagem, Virgínia Woolf
O conto zero e outras histórias, Sérgio Andrade Sant'Anna
Medeia, Eurípides
Papel mojado, Juan José Millás
Manifesto sem eira nem beira, Barata Cichetto
Garotos incríveis, Michael Chabon
Filosofia para corajosos, Luiz Felipe Pondé
A trágica história do Doutor Fausto, Christopher Marlowe
Naturaleza de la novela, Luis Goytisolo
Os piores dias da minha vida foram todos, Evandro Affonso Ferreira
Breves entrevistas com homens hediondos, David Foster Wallace
A cidade que o diabo esqueceu, Orígenes Lessa
Só faltou o título, Reginaldo Pujol Filho
Os contos de Belazarte, Mário de Andrade
Angústia, Graciliano Ramos
Alçapão, André Ladeia
Uma história da leitura, Alberto Manguel
Galinha cega, João Alphonsus
Mutações da literatura no século XXI, Leyla Perrone-Moisés
Así empieza lo malo, Javier Marías
Beatriz, Cristovão Tezza
Velórios, Rodrigo M. F. de Andrade
Brejo das almas, Carlos Drummond de Andrade
Fausto I – Goethe
O ladrão honesto e outros contos, Dostoiévski
Outubro, Nei Duclós
Cantos profanos, Evando Nascimento
El jardín de las delicias, Marco Denevi
Mãos vazias, Lúcio Cardoso
Visión del ahogado, Juan José Millás
Histórias de robôs, vol. 1 – Isaac Asimov (org.)
Os Heráclidas, Eurípides
Cuentos completos 1 – Philip K. Dick
A cabra vadia, Nelson Rodrigues
Cuca fundida, Woody Allen
Diálogo entre um padre e um moribundo e outras diatribes e blasfêmias, Marquês de Sade
Bartleby, o escrevente: Uma história de Wall Street, Herman Melville
Passa-três, Orígenes Lessa
O desconhecido, Lúcio Cardoso
A arte do romance, Milan Kundera
Socráticas, José Paulo Paes
Las otras puertas, Abelardo Castillo
O inverno e depois, Luiz Antonio de Assis Brasil
Rebentar, Rafael Gallo


quinta-feira, dezembro 29, 2016

Um toque


Chuva, café, música clássica e leitura. Daqui a pouco, o cachimbo. Combinação quase perfeita para uma manhã de dezembro, já de férias, final de ano, final de um péssimo ano. Os dedos escorrem pelas teclas com aquela necessidade de escrever algo. Não quero, porém, fazer nenhum balanço de final de ano como costumava fazer. As coisas ruins suplantaram as boas, peso maior para a morte trágica do meu pai, cujo rosto pude tocar pela última vez há pouco mais de dois meses.
Os dedos continuam tateando o teclado. Há pouco estava lendo o romance O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil, editado pela L&PM. O protagonista, Julius, é um violoncelista, que tateia as cordas buscando o som perfeito, que toca no seu instrumento entre as pernas (o violoncelo, que fique claro) como se tocasse as curvas do corpo de uma mulher, que toca os cobertores que o protegem do frio do pampa, que toca o corpo das mulheres (Klarika, Constanza) como se tocasse seu cello.
O toque é a preliminar do prazer. Coloco a mão sob os pingos da chuva antes de me atirar embaixo da água que cai do céu e me lembrar da infância. Toco a xícara de café e sinto o calor antes de tocar o líquido precioso com os lábios. Passo a mão sobre a capa do disco, retiro-o do plástico e limpo com um algodão sua superfície antes de rodar uma sonata de Beethoven. Sinto a textura da folha e seu cheiro antes de mergulhar numa história. Seguro o cachimbo, pego com os dedos o fumo e preparo a pipa para uma boa cachimbada. Toco suavemente o corpo da esposa antes de... vocês sabem.
Um dos trechos mais tocantes da literatura universal rende um tributo ao toque. É o primeiro parágrafo do capítulo 7 de Rayuela (O jogo da amarelinha), de Julio Cortázar: “Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.”
Basta um toque para algo desencadear. Sem ele, nada acontece. Cito uma música popular nos anos 80, de Michael Sullivan e Paulo Massadas, interpretada pela Rosana, em cujos versos o eu lírico aguarda apenas o toque da pessoa pela qual sente uma atração também correspondida. Ambos, no entanto, não têm coragem de se aproximar: “No barzinho da esquina, quase a gente se esbarra/ Nem um toque, tudo vai ficando assim”.
Toco a xícara e ela agora está fria. É necessário aquecê-la com café. Deixo de tocar os teclados e encerro por aqui. Toco o mouse para publicar esta crônica esperando que outros façam a mesmo para apreciá-la.

terça-feira, dezembro 27, 2016

Preferiria não escrever esta crônica


Há aqueles “memes” nas redes sociais que dizem “hoje estou me sentindo meio Capitu, com olhos de ressaca” ou “hoje estou me sentindo meio Brás Cubas, mais morto do que vivo”. Não vi até agora nenhum “meme” com a frase “hoje estou me sentindo meio Bartleby, prefiro não fazer”, caso contrário eu compartilharia. Essa frase, nas suas variantes em diferentes traduções, faz parte de uma novela de Herman Melville, Bartleby, o escriturário (ou o escrevente, ou o escrivão, também dependendo da tradução). No enredo, um jovem é admitido em um escritório de advocacia, com a função de copiar e revisar as cópias de documentos (século XIX, não havia xerox, é óbvio). Lá pelas tantas, quando o chefe lhe ordena algo, ele diz que preferiria não fazer, e não faz. Sua inércia causa indignação dos colegas e também do chefe que, no entanto, também sente pena do rapaz, visto que não consegue demiti-lo. Mais adiante se recusa a ir embora do escritório, chegando a morar no lugar. Por causa disso, muitas confusões vão acontecendo.
A frase de Bartleby (que Gilles Deleuze chama em um ensaio de “fórmula”) denota em princípio certa passividade do personagem. Num mundo em que agir é a regra, não fazer nada é ser um perdedor. Entretanto, escolher não fazer nada não deixa de ser uma forma de ação, até porque resulta na reação de outras pessoas. Se escolhermos não opinar sobre um assunto, outros reagem, muitas vezes de forma raivosa, afinal desejam que se diga algo, caso contrário demonstra que a pessoa concorda com o que está sendo contestado. Preferir não comentar sobre as decisões dos governantes e dos políticos, por exemplo.
Quanto à literatura, principalmente quanto a escrever literatura, muitas vezes preferir não escrever também é uma forma de fazê-lo. Posso preferir apenas ler, pensar, idealizar e deixar a escrita de lado. Isso também é escrever. Giorgio Agamben escreve em um ensaio que preferir não escrever é na verdade a potência de escrever. “O escriba que não escreve (do qual Bartleby é a última, extremada figura) é a potência perfeita, que só um nada separa agora do ato de criação.” Podemos escrever, mas não o fazemos. Preferimos o nada: “Como escriba que cessou de escrever, ele é a figura extrema do nada de onde procede toda a criação e, ao mesmo tempo, a mais implacável reivindicação deste nada como pura, absoluta potência.” Ou seja, é do nada que surge a obra. Sem o nada não há criação. Mas há que se ter a potência, juntamente com a vontade e a necessidade de escrever.
Enrique Vila-Matas escreveu um romance dialogando com a novela de Melville. Chama-se Bartleby e Companhia, em que o narrador faz um diário sobre os escritores que, por um motivo ou outro, preferiram não mais escrever. Preferiram ou, por circunstâncias diversas, não puderam mais escrever. Ou o escritor se recusa ou a obra recusa o escritor. A última alternativa é o que mais acontece. A obra prefere não existir. O escritor prefere não insistir.         
Há também o componente da rebeldia. Bartleby decide não cumprir ordens. De certa forma, quando preferimos não fazer algo, estamos reagindo, não estamos sendo passivos, estamos desobedecendo, demonstrando uma insatisfação, também estamos fazendo aquilo que não querem que façamos, estamos seguindo um caminho diferente do que querem que sigamos. Não fazer nada é também fazer algo. Preferir não opinar é melhor do que opinar sem ter a potência para tal. É o que mais se vê por aí.   

Esta é uma crônica, portanto, que preferiria não estar escrevendo. Sinto-me mais feliz com a possibilidade de escrever algo e não o fazer. A felicidade, porém, não é meu norte, caso contrário não escreveria, não opinaria, não daria a cara para bater vez em quando. Preferiria não ser tachado, não ser julgado, não ser bloqueado nas redes sociais, não ser criticado, não ser ridicularizado, não ser mal interpretado, não perder amigos, não desagradar, preferiria não ser eu. No entanto, escrevo. Prefiro não me abster de escrever. E de publicar, por conseguinte. E de incomodar.

sexta-feira, dezembro 23, 2016

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance


Notas sobre os ensaios de Milan Kundera

1
Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser.
2
Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensível, arquétipo da forma, do qual não posso escapar. Meus romances são variantes da mesma arquitetura fundamentada sobre o número sete”. 
3
Em “A herança depreciada de Cervantes”, Kundera escreve sobre Don Quixote, Madame Bovary e outras obras fundamentais da arte romanesca para, segundo ele, expor “uma concepção pessoal do romance europeu”. Destaco o que ele chama de “quatro apelos” que delineiam o romance: o “apelo da diversão”, que tem como exemplo Tristam Shandy, de Laurance Sterne, e Jacques, o fatalista, de Denis Diderot; o “apelo do sonho”, representado pela obra de Franz Kafka; o “apelo do pensamento”, a partir dos romances filosóficos de Robert Musil e Hermann Broch; e o “apelo do tempo”, cujo representante é Carlos Fuentes.
4
“Diálogos sobre a arte do romance” e “Diálogos sobre a arte da composição” fazem parte da entrevista concedida a Christian Salmon para a Paris Review. É um mergulho no processo criativo de Milan Kundera, suas escolhas estéticas, temáticas, e a influência que o processo histórico que o seu país, na época Tchecoslováquia, teve na sua obra, tendo em vista que ele foi perseguido pelo regime comunista. “O romancista não é nem historiador nem profeta: ele é explorador da existência.
5
Kafka e Broch acabam merecendo, cada um, um ensaio em particular, o que denota as preferências de Kundera. “Anotações inspiradas em Os sonâmbulos” analisa a trilogia de Broch que não é tão conhecida, pelo menos por estas bandas, já que A morte de Virgílio é a sua obra mais lida. “Em algum lugar do passado”, por seu turno, reflete sobre o que é o kafkiano, adjetivo criado a partir de obras como O processo e A metamorfose, cuja tônica é a crítica ao totalitarismo de toda a espécie. Afirma Kundera: “Franz Kafka disse sobre nossa condição humana (tal como ela se revela no século XX) aquilo que nenhuma reflexão sociológica ou psicológica poderá nos dizer”.
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A sexta parte é intitulada “Sessenta e três palavras” e é um glossário de palavras-chave da obra romanesca de Kundera. Esquecimento (“A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.”), ironia, kitsch, leveza e riso são alguns desses vocábulos. O sétimo ensaio, um discurso de agradecimento quando recebeu o Prêmio Jerusalém em 1985, é o mais fraco, portanto uma escolha ruim para fechar o livro.
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Dentre os vários conceitos que aparecem nos ensaios para o que é o romance, elejo este para fechar estas notas: “A grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência”. É isso.


segunda-feira, dezembro 19, 2016

Sobre mais duas novelas de Lúcio Cardoso


“Não se lê Lúcio impunemente”, afirma André Seffrin no prefácio à edição conjunta das novelas Mãos vazias e O desconhecido. Lúcio Cardoso é um escritor da angústia, de personagens angustiados e de leitores que se angustiam. Saímos de seus livros nos sentindo condenados por vivermos felizes em mundo em que a miséria humana está sempre presente ou a nossa porta ou dentro mesmo dos nossos lares.
Mãos vazias foi publicada em 1938. Inicia com a espera de uma morte que acaba acontecendo logo nas primeiras páginas e é dolorida por se tratar da morte de uma criança. Luisinho, seis anos de idade, é filho de Ida e Felipe. Ela, até os últimos momentos de vida do menino está ao seu lado, numa dedicação extrema. O pai, por sua vez, apenas demonstra certa tristeza e desespero pelo que acontece. Quando a criança enfim se vai (e escrevo estas linhas num Dia de Finados) devido à tuberculose, Ida demonstra mais tranquilidade, frieza até, tanto que acaba fazendo sexo com o médico do filho logo depois de seu enterro. (Na adaptação cinematográfica da obra, o diretor Luiz Carlos Lacerda realiza a cena na mesma cama onde está, coberto por um lençol, o corpo do menino.)  Já Felipe entra em mais desespero ainda, porém, parece, talvez apenas para demonstrar aos outros, principalmente aos vizinhos, seus sentimentos.
É o estopim para que Ida passe a externar seu desprezo pelo marido e deseja se libertar, saindo de casa, não sem antes revelar para o marido que dormiu com o médico. O marido não acredita em princípio, o que a deixa mais indignada com ele, sua falta de atitude, seu conformismo, sua mediocridade. “Queria-o mais ríspido, imaginava proezas que o pobre Felipe nunca chegaria a realizar. Nem sequer seria capaz de compreender o seu pensamento, quando chegasse a descobrir os estranhos desejos que a perturbavam.” É contra o conformismo que a protagonista mais se revolta, como nesse diálogo com sua melhor amiga: “- Ana, é possível que você viva conformada com a sua existência? (...) - Tenho marido. De que mais preciso?”
O desconhecido, de 1940, relata a história de um forasteiro que chega a uma fazenda procurando trabalho. “Batizado” pela proprietária de José Roberto (não ficamos sabendo do seu nome verdadeiro), mesmo nome de um falecido capataz da propriedade, é um estranho numa terra estranha, parafraseando o título de um romance de ficção científica. Pois esse “alien” desestabiliza ainda mais o lugar. A dona, a velha Aurélia, é dominadora e explora seus empregados, inclusive sexualmente. Expulsa a filha da empregada Elisa por ciúmes de sua beleza (“Essa menina é uma negação da minha própria existência.”) e ainda impede a mãe de vê-la. O cocheiro Miguel deixa os cachorros com fome para dominá-los e sente inveja do desconhecido, que pode lhe roubar os privilégios que tem com a velha. Já outro empregado, Paulo, namora às escondidas com a filha de Elisa que está morando em uma igreja próxima e deseja fugir com ela. José Roberto divide com ele a mesma cabana, o ensina a ler e parece ter uma atração homoerótica pelo discípulo, que parece sentir o mesmo, e tudo isso os deixa muito angustiados: “Nesse instante, ambos estavam tão próximos que um sentia no rosto a respiração do outro. E sem saber por que, ambos compreenderam que já não havia entre eles nenhuma hostilidade e que, ao contrário, alguma coisa poderosa como o instinto os tinha unido, como se, colhidos pela engrenagem de um fato misterioso e inesperado, devessem lutar juntos para se libertarem.” A condição sexual do protagonista, ao que parece, é a provável justificativa para ter saído de sua casa para buscar trabalho longe da cidade.

Vale ressaltar que o próprio Lúcio Cardoso vivia essas angústias enquanto escrevia a novela, conforme relatou em seu diário pessoal: “Os sentimentos que então me agitavam, a paixão desnorteada, a falta de caminho – ah, coisas da idade! – enquanto escrevia uma novela (O desconhecido) onde tentei lançar, encoberto, um pouco de tudo o que então me perturbava... e não era aquilo uma simples manifestação de vida, infrene e cega, do meu sangue, tumultuado e forte, manifestando por todos os modos sua vontade de existir e de criar?” Difícil aqui separar autor e personagem. E o leitor, de certa maneira, sofre junto com eles.

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Sobre Passa-tres, de Orígenes Lessa


Estou tentando ler todos os livros de contos do Orígenes Lessa, pelo menos os que eu consigo achar para comprar na internet. Depois de O escritor proibido, já comentado por aqui, e A cidade que o diabo esqueceu, li há pouco Passa-tres, primeira edição de 1935 e jamais reeditado, com a grafia da época, como se percebe no título. “Distrahido”, “egreja”, “mez”, “apparelhos”, são alguns exemplos de como as palavras tinham a escrita bem distinta. Vou manter a grafia nesta resenha, colocando um sic ao lado da palavra.
O que marca a obra de Lessa é a simplicidade de um bom contador de história. Não era um escritor experimentalista e explorador da linguagem. Os temas variam, com algumas obsessões, como o suicídio e a superstição. Fiz algumas anotações sobre cada um dos contos e compartilho com os leitores. Lembro que o livro não foi mais reeditado e por isso deixo escapar algumas revelações dos enredos.
O primeiro conto é “A virgem de Santa Anastácia”. O narrador, para se livrar de um mal entendido, inventa ter visto a imagem de Nossa Senhora nos vitrais de uma igreja. A notícia se espalha, milagres supostamente acontecem. Todos veem a imagem. Menos ele. Em “O homem perigoso”, um sujeito é responsável por “dar peso”, expressão da época que significa dar azar para as pessoas. “Havia sempre um geito (sic) de ligar o seu nome – explicação de todas as desgraças. E o infeliz passou a ser temido. Fugiam delle (sic)” Como o anterior, um conto sobre a superstição.
Também sobre o mesmo tema, mas inserindo também a questão do suicídio, “A morte a prazo fixo” traz um sujeito que ouviu uma previsão de um espírito sobre o dia e a hora em que iria morrer. Já em “Comprehensão (sic)”, é inserido o elemento fantástico. Um viaduto, isso mesmo, um viaduto fala com o narrador e conta a história do suicida que acabou de ser salvo pelo próprio narrador: “Quantas vezes a gente passa insensível por verdadeiras tragedias (sic)”. Em outro conto, “A greve da roupa”, também há um ser inanimado que fala, no caso, um terno. Vale lembra que um dos clássicos juvenis do autor se chama Memórias de um cabo de vassoura.
 Em “A vida de José de Mello Simão”, a protagonista é uma mulher que, digamos assim, “aprontava” em demasia. E quem seria o José do título? “Shonosuké” conta sobre um japonês artista de rua que é alçado a gênio da pintura por um mecenas. Há suicídio neste conto também.
Em “Revolta”, o escritor Florivaldo Munhoz percorre livrarias perguntando se seu livro foi vendido. O fracasso de um “gênio” literário é o tema. “O crime de hontem (sic)” retrata um personagem chamado Papagaio, que comete um roubo e espera ver a notícia do seu crime no jornal.
“Gargalhada” é um conto precursor do realismo mágico. Entre transmissões de rádio, começam a aparecer algumas risadas, não se sabe de quem. As gargalhadas se espalham no mundo todo, causando pânico e, inclusive, suicídios coletivos.
“Minha amante de Adolpho Menjou” fala sobre a idealização do amor. “Messalina de Paralama” é um conto trágico de carnaval. “A dama do beijo” é um conto cômico sobre a moral e os bons costumes. “O capricho de S. Excia.” tem como tema o jogo de roleta. Por último, o conto que dá título ao livro, a vida de um notório caloteiro, que vive pedindo dinheiro emprestado e nunca devolve.
A Global vem reeditando a obra de Orígenes Lessa. Espero, portanto, que Passa-tres seja contemplada com uma nova edição.
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