Os ipês nas manhãs de setembro
(Gazeta do Sul, 24 de setembro de 2026) Durante anos, a solidão não foi apenas um hábito, mas uma fortaleza cuidadosamente edificada. Ergui tijolo por tijolo de silêncio ao meu redor, escolhendo a distância como uma forma quase covarde de autoproteção contra o mundo. “Fui eu quem se fechou no muro e se guardou lá fora.” Havia uma espécie de vaidade dolorosa nessa recusa em sentir. Numa tentativa deliberada de amortecer qualquer sobressalto da alma, me resguardei na indiferença, observando o movimento cotidiano sem me deixar tocar por nada. O cotidiano desfilava sem cores em um ciclo cinzento e repetitivo. Numa recente manhã de final do inverno em Santa Cruz do Sul, com o vento soprando suavemente no topo dos morros e atravessando as ruas do centro, percebi que a melancolia havia fincado raízes profundas no meu ser. “Fui eu que numa tarde se fez tarde de tristezas.” Vivia à sombra das minhas escolhas enclausuradas, alcançando a proeza de estar presente em corpo, mas completamente ...








