sábado, dezembro 03, 2016

Nelson Rodrigues dixit


sexta-feira, dezembro 02, 2016

Traçando Livros de hoje é sobre o samba


Traçando sambas
Aos mestres Jorjão e Alcemiro dos Santos

Vários sambas, não apenas livros, deixaram traços na minha vida. Muitas letras retratam passagens marcantes, momentos de prazer, dor, mas também felicidade, ou me fazem refletir sobre a questão humana. Letra de música não é gênero literário (por isso discordo do Prêmio Nobel concedido a Bob Dylan), mas a carga poética de muitas obras de sambistas não é inferior a de muitos escritores. De qualquer forma, é arte de primeira e foi trilha sonora de muitas de minhas leituras, bem como me inspirou a criar alguns contos, por isso me sinto na obrigação de render homenagem ao centenário do samba.
Há 100 anos, foi realizada a primeira gravação de um samba: “Pelo telefone”, de Donga. O ritmo, que mistura diversos elementos da cultura negra com os de outras culturas, notabiliza-se pela qualidade de seus letristas, grande parte oriunda de morros e bairros pobres e sem estudos formais. Nelson Cavaquinho, por exemplo, empunhando seu violão nos bares da vida, rascunhava versos como os de “A flor e o espinho”, junto com Guilherme de Brito, (“Tire o seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor”) ou os de “Notícia”, que inspiraram um conto meu chamado “Arranhões”: “Guardei até onde eu pude guardar o cigarro deixado em meu quarto é a marca que fumas confesse a verdade não deves negar.” Neste mesmo conto, cito também os versos de outro gênio, numa cena em que a protagonista ouve um LP do Cartola, mais precisamente a faixa “Meu mundo é um moinho”, que está arranhada: “Vai reduzir, as ilusões a pó-a pó-a pó-a pó...”
Em outro conto que escrevi, “Aprendizado”, os versos “As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”, de “Coisas do mundo, minha nega”, samba de Paulinho da Viola, serviram como epígrafe. Já em “Feliz aniversário”, usei como epígrafe os versos “E o meu medo maior é o espelho se quebrar”, do samba “Espelho”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro.
Pois esta música e sua continuação, “Além do espelho”, têm versos que me emocionaram demais no último mês, depois da morte do meu pai em um acidente de trânsito. Tratam justamente da relação do filho com a figura paterna, filho que depois também se torna pai. Em “Espelho”, há a perda ("Num dia de tristeza me faltou o velho/ Que falta lhe confesso que ainda hoje faz"), e na segunda canção, o filho, agora pai, pensa na sua responsabilidade ("Quando eu olho o meu olho ali no espelho/ Tem alguém que me olha e não sou eu/ Vive dentro do meu olho vermelho/ É o olhar de meu pai que já morreu/ O meu olho parece um aparelho/ De quem sempre me olhou e protegeu/ Assim como meu olho dá conselho/ Quando eu olho no olhar de um filho meu”).
Se fôssemos reunir as melhores letras de samba em um livro, lá estariam, além dos já citados, os versos magistrais de Silas de Oliveira e Joaquim Lirindo em “Meu drama (Senhora tentação)”: Será, que o amor por ironia/ Deu-me esta fantasia/ Vestida de obsessão”; a singela “Prova de carinho”, de Adoniran Barbosa e Hervê Cordovil: “Com a corda Mi, do meu cavaquinho/Fiz uma aliança pra ela, prova de carinho”; a sofrida “Nervos de aço”, de Lupicínio Rodrigues: “Há pessoas com nervos de aço/ sem sangue nas veias e sem coração”; “Sonho meu”, de Ivone Lara e Délcio Carvalho: “No meu céu a estrela guia se perdeu/ A madrugada fria só me traz melancolia”; e tantos, tantos outros versos que não serão citados devido ao espaço.
Em outra cultura, talvez, esses sambistas seriam grandes romancistas, contistas, poetas. Quis o destino que nascessem aqui. Neste caso, para nós, como diria o sambista Wilson das Neves, “ô, sorte!”

Cassionei Niches Petry é escritor e professor. Publicou Arranhões e outras feridas e Os óculos de Paula. Já arriscou algumas letras de samba, ainda inéditas. Seu blog: cassionei.blogspot.com.

segunda-feira, novembro 21, 2016

Uma crônica paranoica


Observe, caro leitor, este curto poema de Carlos Drummond de Andrade chamado “Cota zero”: “Stop./ A vida parou/ ou foi o automóvel?”. Minha interpretação dos versos sempre relaciona a vida ao homem e o automóvel à máquina. Se respondermos a pergunta dizendo que foi o homem que parou, podemos dizer que, em consequência disso, a máquina também vai parar, afinal somos nós que a ativamos. Por outro lado, parando a máquina, o homem também para, pois estamos nos tornando tão dependentes da tecnologia que não fazemos nada sem clicar botões. O resultado disso está no título do poema, pois a nossa cota de participação no mundo será zerada: já há máquinas que criam, acionam e fazem a manutenção de outras máquinas. Sobrará algo para nós?
A ficção científica discute há muitos anos a questão. As histórias de robôs (e para mim toda máquina é um robô em potencial) ora os mostram como vilões, ora como aliados. Um conto de Harl Vincent, “Rex”, de 1934, época próxima do poema drummondiano, traz um autômato desenvolvido que realizou um golpe para se tornar o rei da humanidade. Já Isaac Asimov criou para seus contos e romances as “três leis da robótica”, que proíbem os robôs de fazerem algum mal para o ser humano. Isso pelo menos no âmbito ficcional.
Quando penso numa possível dominação das máquinas, vejo assustado os olhares fixados nas telas dos celulares, os dedos nervosamente digitando, os corpos excitados depois de ouvirem o sinal sonoro ou perceberem a luz que acende, como animais condicionados em laboratório reagindo sob estímulos. Os aparelhos móveis, que hoje fazem de tudo, despertam o meu lado paranoico. Assusta-me a possibilidade desses pequenos robôs dominarem de tal forma o ser humano, fazendo-nos abrir a guarda para a chegada de autômatos maiores, que poderão controlar o mundo e relegar ao ser humano o papel de escravos, numa vingança premeditada há décadas, apesar de estarmos sendo alertados pela ficção.
Digito essas palavras justamente em uma máquina, o computador, que vez ou outra parece não atender os meus comandos, tranca teimosamente, fica lento na hora em que eu mais preciso de agilidade. Parece ter vida própria. A resposta realista é a possibilidade de que algum vírus (metáfora que deveria aumentar nossa paranoia) tenha infectado os programas. Os vírus, dizem, são criações de seres humanos com o intuito de obter informações de seu computador, dados pessoais que possam ser usados para crimes. Deve existir, porém, vírus criados pelas próprias máquinas. Não me surpreenderei no dia em que a tela escurecer e um emoji aparecer para me dizer “olá, humano, você agora está sob o meu comando”.
Meu lado cético, geralmente predominante, duvida de teorias conspiratórias. Já meu lado paranoico, porém, cada vez que vê uma pessoa absorta em seu celular, tem medo de uma possível dominação das máquinas. Espero que isto nunca venha a acon#@ ((()))&*%1!!bzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

sábado, novembro 19, 2016

De certezas e não-certezas vamos vivendo


Gostaria de ter a certeza que muitas pessoas têm. Elas acreditam tão fielmente nas suas verdades e acham que os demais estão errados, são “massa de manobra”, “corrompidos pelo sistema”, “ovelhinhas do capitalismo”. Por incrível que pareça esses chavões ainda persistem. Eu próprio caí em muitos deles. E ouvi essas frases feitas por estes dias.
Mas se duvidarmos das nossas certezas, veremos que não são apenas os outros a “massa de manobra”. Se alguém diz, por exemplo, que não devemos simplesmente aceitar a tal da PEC (qual o número dela agora?), pois estaríamos sendo manipulados, devemos nos perguntar se quando somos contra porque nos disseram que ela é ruim, não estaríamos servindo da mesma forma de fantoches de alguém. Vejam que coloco tudo no plural porque me incluo como um cara que acaba sendo dirigido, robotizado, pois desconheço o assunto, meus interesses são outros. Minha opinião acaba sendo pautada por terceiros, por isso não exponho para não passar vergonha depois. Ou seja, não vou falar que sou contra nem a favor, pois não tenho a capacidade para analisar o assunto, tampouco li a proposta para saber que tudo que me dizem faz sentido. E olha que sou bombardeado todos os dias por opiniões distintas.
Penso sobre o assunto depois de me lembrar de um Rap que escrevi em fins dos anos 90, início dos anos 2000. Quando leio os versos que escrevi, não me reconheço, ou melhor, reconheço um jovem cujas opiniões não eram próprias, eram orientadas por seus amigos, pelos seus pares na arte que praticava, pelas músicas que ouvia, pelos livros, artigos e entrevistas que lia. Era um ser totalmente alienado e que achava que os outros o eram.
Hoje tento ter uma visão individual, porém, até sem saber, ela continua sendo influenciada pelas coisas que leio, pelas informações que recebo, pelo que “os outros dizem”. Lógico que tento colocar tudo numa balança, equilibrar e, a partir daí, estabelecer minha análise pessoal. Estaria, porém, mentindo para mim mesmo se dissesse que não sou influenciado.
Por isso que a literatura, de certa maneira, me conforta, mesmo se me tira do clichê da zona de conforto. Sua incerteza, seu desequilíbrio, sua incoerência, às vezes até sua covardia, sua alienação, sua fugacidade, sua submissão, sua confusão me dão o chão, ou me tiram esse chão, me sustentam ou me derrubam, no entanto não deixam minha mente se conformar, parar de funcionar, fazem-na mudar constantemente. Isso angustia, mas uma vida sem angústia é muito chata de ser vivida.

Não, não tenho certeza sobre isso que escrevi. A escrita às vezes tenta ordenar meu pensamento, o caos que tenho dentro de mim, tenta buscar um norte. Saio, porém, desnorteado da imersão em um texto literário de um grande autor e ao ficar sem rumo encontro um caminho. Saber que o mundo é esse caos e que minha cabeça é só uma peça dessa máquina avariada é o que conduz minhas elucubrações. É um sentido para a existência.

sexta-feira, novembro 18, 2016

Uma barata chamada Cichetto


Prefácio que escrevi para o livro que reúne as crônicas do Barata Cichetto. Para comprar o livro, entre em contato com o autor: barata.cichetto@gmail.com

Conheci o Barata Cichetto há pouco mais de cinco anos através de um de seus programas de web rádio. Depois de muita paulada sonora, rock de primeira, entrava uma voz cavernosa, com efeito de eco e ar messiânico lendo poesia! Estava diante de algo diferente, não me lembrava de ter ouvido algo parecido em um programa de rádio, mesmo na internet. Entrei em contato com ele, visitei seus blogues, e conheci o Barata cronista, além do poeta, contista, editor e mais das “trocentas” atividades que o cara faz há décadas. E, bem, ele tem como uma das referências o Franz Kafka. A confraria dos kafkianos é seleta.
Reunir suas crônicas em um volume que “para de pé” é necessário (e mais um desafio de uma cara que sempre arrisca) para registrar suas opiniões contundentes, sua pena sarcástica, seu lado “lítero-rock-cronicamente-incorreto”. Ter a honra de ser escolhido para ler e reler os fragmentos do pensamento dessa mente inquieta (mais de quatrocentas páginas que não dão conta do que ele tem para dizer!) e escrever sobre isso me pôs numa responsabilidade tremenda. Um pedido do poeta, porém, é uma ordem, apesar dessa palavra, “ordem”, não ser da predileção deste artista caótico.
 A crônica é um gênero que aceita uma porção de formas para sua composição. Barata sabe utilizar essa infinidade de recursos. Alguns, por exemplo, são poemas em prosa (como “O Escafandro e o Leão”), contos (“A História do Incrível Tom Vermelho e seu Incrível Gato Matapun”), manifestos (como o que dá título ao livro), depoimentos pessoais e memórias, resenhas (de livros, filmes ou discos), textos”desabafos do facebook”, prefácios, ensaios, artigos.
Já na “Introdução nada elegante” ele mostra a que veio, usando da escatologia para mostrar que sua escrita é uma necessidade fisiológica. Quem conhece seus poemas não se surpreenderá com a crônica-introdução. Quem não o conhece terá o prazer ou desprazer de ser apresentado de forma nada lisonjeira ao Barata Cichetto. 
Os temas são diversos. Fala sobre o Barata adolescente em “O Sofá-Cama Vermelho (Ou As Mulheres Preferem os Espertos)”, mais precisamente sobre o que é ser esperto nessa idade, se é ser o valentão, o pegador ou leitor. Sabiamente, e para nossa sorte, ele escolheu por esse último “tipo de esperteza”. Em “O Que Eu Poderia Ter Sido, o Que Fui... E o Que Sou”, lembra, entre outros momentos de sua vida, quando deixou os estudos regulares do colégio, procurando somente as putas da Boca do Lixo. Seguiu na época, sem saber, um dos conselhos do escritor chileno Roberto Bolaño, cuja obra ele veio a conhecer anos depois: “A un aspirante a escritor le daría el consejo que nos dábamos los jóvenes infrarrealistas en México. Cuando teníamos 20, 21 años, teníamos un grupo poético, y éramos jóvenes, maleducados y valientes. Nos decíamos: vivir mucho, leer mucho y follar mucho.”
Escreve sobre a paixão pelos livros, em “O Amante Perfeito” e pela poesia em vários textos. Imagina o ano de 2058, quando teria 100 anos. Diz: “Sou racista: não suporto a raça humana!” na sucessão de frases de “Tarde Demais!”. Escreve sobre os palavrões, cria um prefácio para um romance que nunca escreveu (mas que ainda dá tempo!), analisa a web rádio, tece uma ode ao cigarro (e lembro quando recebo seus livros com o forte odor dos cilindros brancos), fala sobre a morte, a dos outros e a dele.
Barata escreveu muitas notas de rodapé para citar as referências que vão aparecendo ao longo dos textos, mas às vezes escamoteia essas explicações para deixar para os bons entenderes essas relações. Tem ciência de que a obra literária não pode ser didática, por isso não abusa das notas. Quer dizer, às vezes abusa sim, mas esse é o Barata que usa e abusa das palavras, do leitor, da literatura.
Escreve em uma das crônicas: “...eu contemplo as ondas, pois são elas que formam o oceano”. Mais do que contemplar, antes ele dá o sopro forte (soprando a fumaça do cigarro) que movimenta as ondas, provoca ressacas e nos puxa para a amplidão do mar. Aí sim contempla o efeito das suas palavras, sempre contundentes, sempre ferindo.
O Luiz Carlos é a barata raul-seixeana na tua sopa (mosca é para os fracos!), a barata clariceana que te espreita num quarto abandonado e que tu desejas engolir, é a barata kafkiana que prende teu corpo em uma cama. É a barata que não é pisada, mas sim aquela que pisa e esmaga o nojento ser humano.
Cassionei Niches Petry é leitor, escritor, professor e mestre em Letras (necessariamente nesta ordem), ainda que muitos pensem o contrário. Cometeu o crime de publicar, em edições precárias que quase ninguém leu, o livro de contos Arranhões e outras feridas e o romance Os óculos de Paula. Tem pelo menos três livros prontos para também não serem lidos. Suas palavras ao vento podem ser recuperadas no blog “Cassionei lê e escreve” (www.cassionei.blogspot.com). 



quarta-feira, novembro 16, 2016

Sobre “Visión del ahogado”, de Juan José Millás


Visión del ahogado, de Juan José Millás, tem uma condução da narrativa que começa a surpreender logo nos primeiros capítulos. O foco, sempre em terceira pessoa, recai no primeiro capítulo sobre Jorge e pensamos que ele será, por conseguinte, o protagonista. Nos próximos capítulos, no entanto, o foco vai alternando entre os demais personagens. O ponto em comum entre todos é Luis, apelidado Vitaminas, de quem Jorge era amigo desde os tempos da universidade. Este agora está dormindo com a ex-esposa do outro, Julia, que tem uma filha com Luis, que por sua vez está sendo perseguido pela polícia nas ruas de Madrid devido a um assalto a uma farmácia, buscando remédios para sua febre (são os seus delírios que inspiram o título do livro).
 Uma testemunha que viu o fugitivo e faz a denúncia aos policiais, Jesús Villar, também foi colega dos outros dois, e sua esposa, Rosario, havia tido um caso com Vitaminas, sendo que ela era filha de um dono de uma farmácia... Paro de falar para não revelar alguns detalhes e coincidências que vão surgindo. Vale acrescentar que a narrativa volta ao passado, relatando a amizade e os desejos contidos na época da academia, assim como se situa também no ano anterior aos fatos do presente, quando Jorge se aproxima de Julia.
Publicado em 1977, é inevitável ler o romance e não fazer referências com o fim do franquismo na Espanha. Julia tem medo de represálias da polícia por estar dormindo com outro sendo que oficialmente não está divorciada, o que era proibido pelo regime. Ambos também têm receios do porteiro, mesmo que ele se mostre prestativo e se preocupe com os dois quando a polícia desconfia que Vitaminas possa estar escondido no apartamento. Vitaminas tenta se esconder no subterrâneo do metrôs e depois no porão do edifício de Julia. Ocultar, se esconder, fugir, desconfiar e ter medo são símbolos de um tempo em viviam os espanhóis.

Dando estas pistas para o leitor seguir, Juan José Millás escreveu um romance que não subestima o leitor. Pena não ter sido traduzido por aqui, aliás, poucas obras do autor o foram, nem mesmo seu best-seller juvenil Papel mojado, sobre o qual já escrevi aqui na blog. Lacunas que ainda podem ser preenchidas pelas nossas editoras.

sexta-feira, novembro 11, 2016

No Traçando Livros de hoje, Alberto Manguel


Indo além do conhecido

O menino olhava para as prateleiras de um móvel antigo e via enfileirados os gibis que pertenciam a seu tio. Não os alcançava e, por isso, a curiosidade por conhecer o que havia neles só aumentava. Quando descobriu uma forma de pegá-los, arrastando uma cadeira para poder subir nela, finalmente teve acesso àquele mundo misterioso. Abriu uma das revistas e os desenhos dos super-heróis, que antes via apenas na televisão ou nos bonecos de brinquedo, estavam ali, para serem admirados em suas cores e traços. Porém, as letras e as palavras dos balões ainda eram outro mistério que precisava ser desvendado. A curiosidade de saber o que estava escrito o levou a aprender a ler sozinho. E assim passaram-se os anos e novas coisas que surgiam aumentavam sua vontade de saber mais, de ler mais, de ouvir mais, de ver mais.
Semelhante ao menino (que por acaso era este que vos escreve), a existência de Alberto Manguel também foi e ainda é movida pela curiosidade. O escritor argentino, na verdade mais leitor do que escritor, tendo inclusive trabalhado para o cego Jorge Luis Borges com a função de ser os seus olhos para ler, já nos mostrou esse percurso em obras como Uma história da leitura, A biblioteca à noite ou A cidade das palavras. É, no entanto, no seu mais recente livro lançado no Brasil, Uma história natural da curiosidade (Companhia das Letras, 486 páginas), que ele explica o que é essa tal de curiosidade, por que queremos saber sempre mais, quais as perguntas que movem o ser humano, quais foram os indivíduos mais curiosos e qual a contribuição deles para o mundo.
“Cheguei à Divina comédia tarde, pouco antes de completar sessenta anos de idade”, admite humildemente Manguel, que nasceu em 1948. Sua curiosidade, portanto, não se apaga, mesmo que já tenha lido e escrito sobre quase tudo. Como não é egoísta, compartilha conosco sua descobertas, nos conduzindo a conhecer a história da curiosidade assim como a leitura da Divina comédia de Dante conduz os capítulos, lembrando que este foi, por sua vez, guiado por Virgílio pelos círculos do inferno. Guiados pelos três, então, aprendemos, entre muitas outras coisas, a origem do ponto de interrogação, “enrolado sobre si mesmo como contestação de um orgulho dogmático”; viajamos com Ulisses que “anseia pelo que está além do fim do mundo conhecido”; nos encantamos com Eva e Pandora, as primeiras mulheres de mitologias distintas, mas que têm em comum a curiosidade que trouxe a punição para os humanos, devido ao “desejo ilícito de conhecer o proibido”; percebemos a importância da escrita, “a arte de materializar o pensamento”; filosofamos juntos com Sócrates, que mais perguntava do que respondia, ou melhor, respondia com perguntas.

“A tentação do horizonte está sempre presente, e mesmo se, como acreditavam os antigos, ultrapassando o fim do mundo um viajante caia no abismo, isso não faz com que nos abstenhamos da exploração, como diz Ulisses a Dante em A divina comédia.” Por isso não nos contentamos com o conhecido, queremos ir além, por isso terminamos a leitura de Uma história natural da curiosidade e não ficamos satisfeitos, não nos saciamos. Se deixarmos a busca, deixamos de existir.

segunda-feira, novembro 07, 2016

Um exame que precisa ser reexaminado

O ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, pode estar com os dias contados, pelo menos nos moldes como está sendo aplicado. Particularmente, espero por isso, depois de um novo governo ter assumido o poder. O que era para ser apenas uma avaliação do nível de conhecimento dos alunos que saem da educação básica acabou, nos últimos 10 anos, “metamorfoseando-se num inseto monstruoso”, tal qual o personagem Gregor Samsa, da obra de Franz Kafka, virando um processo de seleção obrigatório e único para muitas universidades, com os alunos sendo chamados de candidatos, realizando provas com questões de cunho ideológico acentuado, conduzindo o estudante a pensar do mesmo modo que os membros do partido que estava no poder, ainda o responsável pelo exame deste ano.
Uma abordagem rápida da prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias nos mostra alguns caminhos estranhos que o ENEM vem percorrendo, e olha que vou deixar de lado o caráter ideologicamente tendencioso nessa minha síntese crítica. Foco na parte de Literatura, ou pelo menos a que envolve escritores, tendo em vista que não há uma separação nítida entre as disciplinas que envolvem as linguagens (além de Literatura, temos a Língua Portuguesa, as Línguas Estrangeiras Modernas, a Educação Física e a Arte, as duas últimas com pouquíssimas questões).
Os autores contemplados são, em sua maioria, da década de 50 pra cá, alguns, inclusive, desconhecidos até por mim. Como a prova acontece muito cedo, no começo de novembro, os professores, preocupados em seguir o conteúdo programático da escola, estão começando a ver esse período somente agora, nos últimos dois meses de aula. Nas minhas aulas, não cheguei ao João Cabral de Melo Neto e à Clarice Lispector, por exemplo, dois nomes presentes de forma merecida. Está certo que as questões são mais interpretativas, o que é um ponto positivo, mas os alunos vão me questionar: "professor, o senhor não passou pra gente nada sobre Zorzetti, H.". Terei de assumir que nem mesmo eu conheço esse escritor (tive que procurar no Google para saber a quem se refere, porém há poucas informações na internet, muito menos em livros didáticos). Como vamos adivinhar o que vai cair no exame se não há um guia de estudos? Ensinamos bastante sobre os contos e romances de Machado de Assis, no entanto há só uma questão sobre uma crônica dele, no âmbito da Língua Portuguesa, e mais nada sobre o nosso maior escritor. Falei bastante sobre Carlos Drummond de Andrade nos últimos dias em sala de aula, o autor mais citado nas outras provas, lemos e analisamos as poesias dele, mas não houve nenhuma questão sobre o maior poeta brasileiro. “Ah, mas tem uma questão sobre o Arcadismo, Cassionei”, dirá alguém, entretanto, caiu um autor deste período que não é muito estudado, Cláudio Manuel da Costa.

Acredito que a intenção é acabar com a Literatura como disciplina. A Base Nacional Curricular Comum a coloca como apêndice de Língua Portuguesa, sendo que já o é em muitos Estados, porém no Rio Grande do Sul ela ainda tem seu lugar. Aliás, querem acabar com todas as disciplinas (criticadas pejorativamente como “gavetinhas”), transformando-as em áreas de conhecimento misturadas e confusas, como se isso fosse resolver os problemas da educação. Para muitos, as disciplinas são coisa do passado. Querem enterrar o passado. E estão conseguindo.

domingo, novembro 06, 2016

Meu primeiro texto no jornal há 20 anos


Acabei esquecendo (ah, memória!) de postar antes, mas foi no dia 26 de outubro de 1996, há 20 anos, que estreei em letra impressa, escrevendo minha primeira crônica, intitulada "Memorião". Tinha 17 anos de idade. Foi publicada no Riovale Jornal, mais precisamente no Caderno 2, editado na época pelo escritor e advogado Roni Ferreira Nunes, meu primeiro editor, portanto. Imaginem a minha felicidade ao ver meu nome impresso pela primeira vez.
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