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A mostrar mensagens de 2007

Resenha abortada (I)

Já dizia o Albert Camus, a única questão filosófica que existe é o suicídio. Pois é do próprio escritor francês a epígrafe que abre o romance de Antonio Di Benedetto, Os suicidas: “Todos os homens sãos pensaram em suicídio alguma vez”. Tema importante na literatura universal, está presente em obras fundamentais, sendo o caso mais conhecido o romance Werther, de Goethe, cujo personagem principal se suicida por causa de um grande amor. Na época, houve uma onda de suicídios de jovens na Europa, influenciados pela obra do gênio alemão. Poderíamos citar outros livros, como Ana Karênina (que está sendo lançado em nova tradução de Rubens Figueiredo), cuja morte da personagem principal é antológica. Para mim, porém, o melhor texto sobre o tema é o singelo e impactante “Passeio”, de Guy de Maupassant.
Por um momento, sexta-feira, me senti como se não fosse um brasileiro, pois a mídia dizia que o Brasil inteiro ia parar para ver a novela. Não parei. Mas acho interessante esse valor que o brasileiro dá para a ficcão. Pena que esse interesse não é também pela literatura.
Finalmente algum programa para desmascarar o Jucelino Nóbrega da Luz. Ele está há tempo enganando as pessoas com suas previsões, que aparecem depois dos acontecimentos com cartas supostamente registradas... Tudo mentira. Dêem uma olhada no site dele. Há previsões para o futuro mas todas vagas. Se surgir algum grande evento, vai aparecer uma outra carta... O Fantástico de hoje à noite me surpreendeu.

Faccioli

Dos textos literários que têm a música clássica como leitmotiv podemos citar poucos. Entre esses, destaco a novela O homem amoroso, do Luiz Antonio de Assis Brasil e o conto “Um homem célebre” do grande Machado de Assis. Na época em que li o texto do Assis Brasil, descobri a paixão pela música erudita (além de saber que o escritor não escrevia apenas aqueles livros “enormes”). O conto de Machado, por sua vez, serviu como um lenitivo para mim, aprendiz de escritor, por tratar das dificuldades da criação artística.
O romance de Luiz Paulo Faccioli, Estudos das teclas pretas, publicado pela Editora Record, mostra os efeitos que determinadas músicas, em situações específicas de nossas vidas, podem proporcionar. Paulo Amaro, personagem principal, conta sua história numa espécie de romance de formação em que a música tem um papel preponderante. Tudo começa com Quinta Sinfonia de Mahler, que ele escuta quando tinha doze anos de idade, junto com um amigo mais velho, o qual tenta se aproximar s…

Crateras e voçorocas

Em São Paulo, no começo do ano, uma enorme cratera, provocada por uma construção de túneis para o metrô, engoliu caminhões e carros. Lembro das voçorocas do romance Ópera dos mortos, de Autran Dourado. Uma metáfora para a cidade de Duas Pontes que se destruía física e moralmente. Qualquer semelhança NÃO é mera coincidência. Isso me fez também lembrar o romance Noite do oráculo, de Paul Auster, quando um personagem diz que o escritor não escreve sobre o passado, mas sim sobre as coisas que vão acontecer.

Agora vai...

Escrever qualquer coisa. Esse é um dos primeiros ensinamentos do livro do Raimundo Carreiro, Os segredos da ficção. Escrever sempre, todo o dia. Um diário sério, segundo ele. Era até o meu objetivo quando criei meu blog, mas como não tinha internet em casa, acabei não cumprindo o que queria. Por isso os posts são muito raros. O Luiz Paulo Faccioli me cobrou isso, ele que também não visita seu próprio blog. Agora que tenho internet, vou atualizar para meus dois ou três leitores. Poucos mas com qualidade.
*
Como podem perceber pelo título do meu blog, tenho entre minhas paixões o samba. Adquiri três CD´s do João Nogueira, de 79, 80 e 81. Nos dois primeiros, há a inesquecível parceria entre ele e Paulo César Pinheiro em músicas como Súplica e Poder da Criação, que fazem parte de uma trilogia que seria completada mais tarde com a música Minha Missão. Se não há poesia no samba, há o quê? Leiam esses versos de Súplica:

O corpo, a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome, a obr…

Mestre do diálogo

Duas pessoas conversando. Chama-se isso diálogo. Mas quando há dois personagens dialogando em um livro de Luiz Vilela, temos a literatura no seu mais alto grau. Mestre nessa arte que se confunde com o teatro ou com textos filosóficos como os de Platão, o escritor mineiro mostra como se pode criar uma história em que o narrador quase nunca aparece. As poucas palavras e o silêncio são suficientes para o leitor construir o enredo, o cenário e a descrição dos personagens.
A novela Bóris e Dóris marca o início da publicação da obras completas do escritor Luiz Vilela pela Editora Record. Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, começou a escrever aos 13 anos de idade. Mais tarde formou-se em Filosofia, mas trabalhou como jornalista. Tremor de terras, seu primeiro livro, publicado às próprias custas em 1967, quando tinha 24 anos, fez jus ao título ao causar polêmica quando recebeu, em Brasília, o Prêmio Nacional de Ficção. Escritores consagrados como José Condé e José Geraldo Vieira protestaram po…

Tão absurdo como a vida

"A partir de certo ponto não há mais qualquer possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar."
Kafka, Aforismos

Costumo dizer que minha religião é a Literatura. Sou devoto de São Machado de Assis e São Julio Cortázar. Quem seria Jesus? Franz Kafka, claro. Assim como o homem de Nazaré, Kafka teve problemas com seu pai (“por que me abandonaste?”, perguntou Cristo na cruz), não casou, nem teve filhos (por mais que tentem provar que Jesus se envolveu com Maria Madalena) e só teve reconhecimento depois de morto. Além disso, podemos dizer que ambos só são o que são graças à traição de um amigo. Não quero polemizar sobre o evangelho de Judas, tão atacado por conservadores da igreja, mas se o Iscariotes não tivesse dado o beijo delator, provavelmente não conheceríamos hoje o cristianismo e os crucifixos não estariam decorando paredes de milhões de casas em todo o mundo (aliás, é a única religião que tem como símbolo um instrumento de tortura). O judas de Kafk…
Nota publicada hoje no jornal Gazeta do Sul, no suplemento Magazine do Mauro Ulrich.

- Cassionei Petry, Luís Fernando Ferreira, Romar Beling, Dogival Duarte... Este quarteto anda a mil, com calos nos dedos, escrevendo madrugadas inteiras e em outras horas vagas, saltitando entre o terreno do conto, do romance e da poesia. Publiquem, publiquem, por favor!
Texto publicado no jornal Gazeta do Sul, no dia 09/02/2007, caderno Mix.

Travessuras de um romancista

Travessuras da Menina Má (Alfaguara, 302 páginas), de Mario Vargas Llosa, não deve ser lido por quem não conhece seus livros anteriores. Explico: o leitor pode pensar que se trata de apenas mais um best-seller no mercado. Ele possui todos os requisitos básicos dos enlatados norte-americanos: uma história de amor e traição, cortes rápidos de cenas em uma narrativa envolvente e muitas, mas muitas coincidências inverossímeis, daquelas que, a cada vez que aparecem, nos fazem dizer: “isso acontece só em novelas”. Além disso, como todo lançamento do romancista peruano, o sucesso de público é imediato e as traduções para outras línguas são quase simultâneas.

Para quem aprendeu a admirar o escritor depois de ler clássicos como A Cidade e os Cachorros, Conversas na Catedral, A Casa Verde, A Guerra do Fim do Mundo, o novo romance causa, muitas vezes, decepção. Porém, quando descreve cenas de sexo …