domingo, outubro 07, 2007

Resenha abortada (I)

Já dizia o Albert Camus, a única questão filosófica que existe é o suicídio. Pois é do próprio escritor francês a epígrafe que abre o romance de Antonio Di Benedetto, Os suicidas: “Todos os homens sãos pensaram em suicídio alguma vez”. Tema importante na literatura universal, está presente em obras fundamentais, sendo o caso mais conhecido o romance Werther, de Goethe, cujo personagem principal se suicida por causa de um grande amor. Na época, houve uma onda de suicídios de jovens na Europa, influenciados pela obra do gênio alemão. Poderíamos citar outros livros, como Ana Karênina (que está sendo lançado em nova tradução de Rubens Figueiredo), cuja morte da personagem principal é antológica. Para mim, porém, o melhor texto sobre o tema é o singelo e impactante “Passeio”, de Guy de Maupassant.

terça-feira, outubro 02, 2007

Por um momento, sexta-feira, me senti como se não fosse um brasileiro, pois a mídia dizia que o Brasil inteiro ia parar para ver a novela. Não parei. Mas acho interessante esse valor que o brasileiro dá para a ficcão. Pena que esse interesse não é também pela literatura.

domingo, setembro 30, 2007

Finalmente algum programa para desmascarar o Jucelino Nóbrega da Luz. Ele está há tempo enganando as pessoas com suas previsões, que aparecem depois dos acontecimentos com cartas supostamente registradas... Tudo mentira. Dêem uma olhada no site dele. Há previsões para o futuro mas todas vagas. Se surgir algum grande evento, vai aparecer uma outra carta... O Fantástico de hoje à noite me surpreendeu.

sábado, setembro 29, 2007

Faccioli

Dos textos literários que têm a música clássica como leitmotiv podemos citar poucos. Entre esses, destaco a novela O homem amoroso, do Luiz Antonio de Assis Brasil e o conto “Um homem célebre” do grande Machado de Assis. Na época em que li o texto do Assis Brasil, descobri a paixão pela música erudita (além de saber que o escritor não escrevia apenas aqueles livros “enormes”). O conto de Machado, por sua vez, serviu como um lenitivo para mim, aprendiz de escritor, por tratar das dificuldades da criação artística.
O romance de Luiz Paulo Faccioli, Estudos das teclas pretas, publicado pela Editora Record, mostra os efeitos que determinadas músicas, em situações específicas de nossas vidas, podem proporcionar. Paulo Amaro, personagem principal, conta sua história numa espécie de romance de formação em que a música tem um papel preponderante. Tudo começa com Quinta Sinfonia de Mahler, que ele escuta quando tinha doze anos de idade, junto com um amigo mais velho, o qual tenta se aproximar sexualmente dele. A música fica na sua mente por muito tempo, o que o leva a tentar seguir a carreira de músico.
É um romance que deve ser lido e escutado...

quinta-feira, setembro 27, 2007

Crateras e voçorocas

Em São Paulo, no começo do ano, uma enorme cratera, provocada por uma construção de túneis para o metrô, engoliu caminhões e carros. Lembro das voçorocas do romance Ópera dos mortos, de Autran Dourado. Uma metáfora para a cidade de Duas Pontes que se destruía física e moralmente. Qualquer semelhança NÃO é mera coincidência. Isso me fez também lembrar o romance Noite do oráculo, de Paul Auster, quando um personagem diz que o escritor não escreve sobre o passado, mas sim sobre as coisas que vão acontecer.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Agora vai...

Escrever qualquer coisa. Esse é um dos primeiros ensinamentos do livro do Raimundo Carreiro, Os segredos da ficção. Escrever sempre, todo o dia. Um diário sério, segundo ele. Era até o meu objetivo quando criei meu blog, mas como não tinha internet em casa, acabei não cumprindo o que queria. Por isso os posts são muito raros. O Luiz Paulo Faccioli me cobrou isso, ele que também não visita seu próprio blog. Agora que tenho internet, vou atualizar para meus dois ou três leitores. Poucos mas com qualidade.
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Como podem perceber pelo título do meu blog, tenho entre minhas paixões o samba. Adquiri três CD´s do João Nogueira, de 79, 80 e 81. Nos dois primeiros, há a inesquecível parceria entre ele e Paulo César Pinheiro em músicas como Súplica e Poder da Criação, que fazem parte de uma trilogia que seria completada mais tarde com a música Minha Missão. Se não há poesia no samba, há o quê? Leiam esses versos de Súplica:

O corpo, a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome, a obra imortaliza
A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
Ilumina a gente além da morte

Ainda quero tratar sobre as duas músicas mais belas do samba brasileiro, que também são da parceria dos dois: Espelho e Além do espelho.

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“O que eu quero são bons leitores”, afirmou Milton Hatoum em uma entrevista. E o bom leitor dos livros do escritor manaura é, acredito eu, aquele que não lê antes a orelha dos livros, resenhas ou entrevistas do escritor. As ações e os personagens vão sendo revelados aos poucos pelo narrador (ou pelos narradores) e é isso que dá o prazer da leitura. Em Cinzas do norte, seu terceiro romance, Milton Hatoum mantém uma característica que poucos escritores têm: ele mais sugere do que narra os conflitos e esse estilo requer esse leitor ideal. Por isso, um conselho: não leia nada sobre o livro antes de lê-lo. No final, você vai me agradecer por essa dica.

quarta-feira, julho 18, 2007

Estou no rádio

A apartir desta semana, todas as quintas- feiras, participarei do programa Revista da Noite, na Rádio Gazeta Am 1180, capitaneado pelo jornalista Ike.

segunda-feira, abril 02, 2007

Mestre do diálogo

Duas pessoas conversando. Chama-se isso diálogo. Mas quando há dois personagens dialogando em um livro de Luiz Vilela, temos a literatura no seu mais alto grau. Mestre nessa arte que se confunde com o teatro ou com textos filosóficos como os de Platão, o escritor mineiro mostra como se pode criar uma história em que o narrador quase nunca aparece. As poucas palavras e o silêncio são suficientes para o leitor construir o enredo, o cenário e a descrição dos personagens.
A novela Bóris e Dóris marca o início da publicação da obras completas do escritor Luiz Vilela pela Editora Record. Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, começou a escrever aos 13 anos de idade. Mais tarde formou-se em Filosofia, mas trabalhou como jornalista. Tremor de terras, seu primeiro livro, publicado às próprias custas em 1967, quando tinha 24 anos, fez jus ao título ao causar polêmica quando recebeu, em Brasília, o Prêmio Nacional de Ficção. Escritores consagrados como José Condé e José Geraldo Vieira protestaram por perderem o prêmio para um “menino saído da creche”. O fato é que esse livro de contos, quando tive a felicidade de lê-lo pela primeira vez, me causou um grande impacto. Contos como “Chuva”, em que um homem tenta conversar com um cachorro que encontra na rua numa noite chuvosa, e “Enquanto dura a festa”, que, apesar do título, é um monólogo de um jovem sobre o velório do seu pai, pelo qual não sente afinidade nenhuma, são mostras de um exímio contista. Publicou ainda quatro romances nas décadas de 70 e 80, mas foram os contos e as novelas, como O choro no travesseiro, que trouxeram o reconhecimento ao autor.
Bóris e Dóris narra um dia na vida de um casal que está hospedado num hotel. Ele, um executivo, preocupado com o horário de suas reuniões, pois pretende assumir um cargo importante na empresa; ela, anos mais nova, apenas acompanha seu marido na viagem e tenta dialogar com ele. O que pode parecer uma situação banal torna-se uma reflexão sobre o relacionamento de pessoas tão diferentes. Ao “ouvir” a conversa dos dois no café da manhã e à noite, desvendamos, paradoxalmente, um relacionamento em que não há comunicação, o que faz a personagem se questionar se valeu a pena ter deixado de lado seus sonhos para viver com um homem sem tempo para ela.
Se o diálogo se sobrepõe à narrativa em Bóris e Dóris, pode-se perguntar por que Vilela não escreve peças de teatro? Perguntado sobre esse assunto pela escritora Edla van Steen, ele respondeu que nunca tentou. “Mesmo como espectador, o teatro não me atrai muito.” Acredito que Luiz Vilela escolhe as palavras cuidadosamente para serem lidas, não ouvidas. No palco, se perderia a naturalidade que o escritor reproduz no texto escrito, visto que a palavra no teatro está a serviço da interpretação, que pode ser até natural, mas depende muito mais do ator do que do dramaturgo. Da mesma forma, levando-se em conta as rubricas teatrais, os espaços textuais para o leitor refletir se reduziriam. Quanto à comparação com os diálogos platônicos, Vilela não estende a fala dos personagens por várias páginas como fazia o pensador ateniense. No entanto, se depreende do texto do autor de Bóris e Dóris uma filosofia inquietante, na tentativa de entendermos esse ser tão complexo que é o ser humano. Como afirmou Clara Maduro na antiga revista O Cruzeiro, Luiz Vilela tem “uma enorme capacidade de transmitir essa coisa essencial (e tão difícil de fazer) que é: gente vivendo”.

segunda-feira, março 26, 2007

Tão absurdo como a vida

"A partir de certo ponto não há mais qualquer possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar."
Kafka, Aforismos

Costumo dizer que minha religião é a Literatura. Sou devoto de São Machado de Assis e São Julio Cortázar. Quem seria Jesus? Franz Kafka, claro. Assim como o homem de Nazaré, Kafka teve problemas com seu pai (“por que me abandonaste?”, perguntou Cristo na cruz), não casou, nem teve filhos (por mais que tentem provar que Jesus se envolveu com Maria Madalena) e só teve reconhecimento depois de morto. Além disso, podemos dizer que ambos só são o que são graças à traição de um amigo. Não quero polemizar sobre o evangelho de Judas, tão atacado por conservadores da igreja, mas se o Iscariotes não tivesse dado o beijo delator, provavelmente não conheceríamos hoje o cristianismo e os crucifixos não estariam decorando paredes de milhões de casas em todo o mundo (aliás, é a única religião que tem como símbolo um instrumento de tortura). O judas de Kafka foi Max Brod, a quem foi confiada a missão de queimar todos os escritos que não foram publicados em vida pelo escritor tcheco. Se tivesse cumprido o que Kafka pedira, não conheceríamos boa parte de seus contos e os romances, principalmente O Processo, que acaba de ser lançado pela editora L&PM, na coleção Pocket, em competente tradução de Marcelo Backes.
Joseph K. é detido certa manhã sem saber o porquê. Assim como Gregor Samsa, que depois de acordar viu que se transformara em um inseto, no texto mais famoso do autor, A metamorfose, o absurdo da nossa existência pode se manifestar de uma hora para outra. Nesse momento precisamos enfrentar o que não se pode enfrentar: Samsa, a família; Joseph K., a burocracia da justiça. O anti-herói do romance tenta se defender das acusações (não ficam bem claras quais são), assim como não encontra as pessoas certas que podem dar solução para o caso. Percorre um estranho tribunal com portas que dão a lugares imprevisíveis e corredores com tetos baixíssimos, cuja descrição causa uma sensação de angústia no leitor.
Várias interpretações se podem dar à história do bancário Joseph K. Em um ensaio publicado em O mito de Sísifo, Albert Camus afirma que “a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler. Seus desenlaces, ou suas faltas de desenlace, sugerem explicações, mas que não são reveladas com clareza e exigem, para nos parecerem fundadas, que a história seja relida sob um novo ângulo.” O crítico Erich Heller, por sua vez, é categórico: “Existe apenas um meio de evitar o trabalho de interpretar O processo: não ler o livro”, pois “a compulsão para interpretar é insuportável e tão grande como, para a maioria dos leitores, a dificuldade de abandonar a leitura: trata-se de pressões idênticas.” Já um dos maiores críticos contemporâneos, George Steiner, é categórico: “a idéia de que possa haver algo de novo a dizer sobre O processo de Franz Kafka é implausível”.
Vivemos em um mundo cristão e em um mundo kafkiano. Em ambos, a culpa atormenta, fere, impede que tenhamos liberdade. Se não cumprimos as regras, sofremos logo um julgamento, muitas vezes incompreensível como o sofrido por Joseph K. Será que nossa vida, tão absurda como a ficção de Kafka, não foi escrita por ele?

sábado, fevereiro 10, 2007

Nota publicada hoje no jornal Gazeta do Sul, no suplemento Magazine do Mauro Ulrich.

- Cassionei Petry, Luís Fernando Ferreira, Romar Beling, Dogival Duarte... Este quarteto anda a mil, com calos nos dedos, escrevendo madrugadas inteiras e em outras horas vagas, saltitando entre o terreno do conto, do romance e da poesia. Publiquem, publiquem, por favor!

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Texto publicado no jornal Gazeta do Sul, no dia 09/02/2007, caderno Mix.

Travessuras de um romancista

Travessuras da Menina Má (Alfaguara, 302 páginas), de Mario Vargas Llosa, não deve ser lido por quem não conhece seus livros anteriores. Explico: o leitor pode pensar que se trata de apenas mais um best-seller no mercado. Ele possui todos os requisitos básicos dos enlatados norte-americanos: uma história de amor e traição, cortes rápidos de cenas em uma narrativa envolvente e muitas, mas muitas coincidências inverossímeis, daquelas que, a cada vez que aparecem, nos fazem dizer: “isso acontece só em novelas”. Além disso, como todo lançamento do romancista peruano, o sucesso de público é imediato e as traduções para outras línguas são quase simultâneas.

Para quem aprendeu a admirar o escritor depois de ler clássicos como A Cidade e os Cachorros, Conversas na Catedral, A Casa Verde, A Guerra do Fim do Mundo, o novo romance causa, muitas vezes, decepção. Porém, quando descreve cenas de sexo sem cair na pornografia barata ou revela o painel político, social e cultural de décadas e países diferentes com um poder de síntese impressionante, podemos dizer: esse é o Vargas Llosa.

A narrativa nos prende do início ao fim. Vargas Llosa utiliza a técnica do folhetim, embora não em capítulos curtos, o que provoca uma escrita ágil, novelesca, lembrando o romance Tia Júlia e o Escrevinhador, cujo protagonista era um escritor de novelas de rádio. Ele ainda deixou de lado a multiplicidade de focos narrativos, que nas outras obras mudavam de um parágrafo para outro, o que pode desagradar seus admiradores, que desejam um desafio de leitura maior. Porém, conquista novos leitores.


O leitor se pergunta

O romance (que marca a estréia, no Brasil, do selo espanhol Alfaguara) começa nos anos 50, em Lima, no Peru. Ricardo Somocurcio, adolescente de 15 anos, se apaixona por outra jovem, Lily, admirada pelos meninos e invejada pelas meninas, pois afirmava que havia nascido no Chile. Logo é desmascarada e some pela primeira vez da vida de Ricardito.

Nos anos 60, Ricardo realiza seu sonho de morar em Paris. Trabalha como tradutor e intérprete na Unesco. Tem um amigo militante de esquerda, responsável por acolher jovens peruanos que irão estudar táticas guerrilheiras nos países comunistas. Pois um dos jovens é justamente Lily. Os dois mantém um relacionamento, mas ela tem de partir para Cuba, onde se torna amante de um militar.

Já na década de 70, em Londres, por uma coincidência, acaba encontrando-a, já com outro amante e outro nome. E assim segue o baile em Paris, no Japão... Uma sucessão de coincidências, e é aí que está a grande falha. O leitor se pergunta: como pode ele sempre se encontrar com a menina má em qualquer parte? Fosse em uma cidade apenas, mas em várias partes do mundo? Além disso, quando retorna a Lima para visitar seu tio, encontra, adivinhem: o pai de Lily! Sinceramente, nesse ponto, o autor deixou a desejar.

Por outro lado, há sempre uma história dentro de outra história, o que Llosa chama de “dado escondido”, em seu livro Cartas a um Jovem Escritor, que também está nas livrarias. Em meio à paixão doentia de Ricardito, o escritor percorre momentos importantes da política mundial e, principalmente, do Peru. É onde se manifestam as posições políticas de Vargas Llosa, que partiu da esquerda no começo da carreira para depois se tornar um neoliberal, inclusive concorrendo à presidência de seu país em 1990.