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A mostrar mensagens de Maio, 2017

Minha coluna de ontem no Digestivo Cultural

Notas de leitura sobre “Welcome to Copacabana e outras histórias, de Edney Silvestre

Dividido em três partes, “No Rio”, “Além do Rio” e “De volta ao Rio”, a capital fluminense é o ambiente que molda os personagens, mesmo quando estão distantes dela. E é a solidão na cidade populosa e maravilhosa que permeia as primeiras narrativas de Welcome to Copacabana e outras histórias, de Edney Silvestre (Record, 352 páginas).
No primeiro conto, que dá título à coletânea, a protagonista, Regina, uma viúva e avó, “mulher madura”, como prefere, “não sou velha, ainda falta algum tempo”, aguarda a virada do ano, cuidando as horas no relógio do micro-ondas, enquanto relembra alguns fatos da sua vida, principalmente a frustração de não conhecer Paris. Seus filhos não a visitam, salvo para tratar de assuntos do espólio. Ainda assim, rechaça a companhia de uma vizinha enxerida, e tenta se afastar de qualquer convívio permanente, indo almoçar em restaurantes distintos. “Sou sozinha (...), não solitária.”
“Ben que olhava o trem” é um conto impactante desde o início. Uma mãe que deixa o fil…

Resenha sobre livro de Pedro Gonzaga

Escrevi sobre livros de poemas de Pedro Gonzaga para o site Amálgama: https://www.revistaamalgama.com.br/05/2017/resenha-em-outros-tantos-quartos-da-terra-pedro-gonzaga/

Conto "Virgínia", de "Cacos e outros pedaços"

As ovelhinhas obedientes

Notas de leitura sobre Pájaros en la boca, de Samanta Schweblin

Saí impressionado da leitura deste livro de contos da escritora argentina, uma das grandes revelações de um país já cheio de gênios contistas. As narrativas têm como norma causar estranhamento no leitor. O primeiro conto, “Irman”, não foge disso. Num bar de beira de estrada, duas pessoas são recebidas por um anão que não pode atendê-los a contento, pois a mulher que lhe alcançava os produtos necessários para a elaboração do cardápio está estirada na cozinha, provavelmente morta, e eles tentam formas para ter seus pedidos atendidos.
Em “Mujeres desesperadas”, noivas são abandonadas pelos maridos em uma banheiro de beira de estrada. “En la estepa”, um casal sente inveja porque seus vizinhos conseguiram adotar um ser, cuja misteriosa origem e fisionomia não nos é revelada. No conto seguinte um personagem perde velocidade e em outro há um buraco interminável sendo cavado.
Em outro conto um pintor expõe quadros em que cabeças são golpeadas no asfalto. Em “Matar un perro”, a prova para um cri…

A orelha escrita por Gustavo Melo Czekster para o meu livro de contos

A orelha escrita pelo escritor Gustavo Melo Czekster para o meu livro de contos "Cacos e outros pedaços", Editora Penalux. 

Notas de leitura sobre Dias perdidos, de Lúcio Cardoso

Dias perdidos, de Lúcio Cardoso, foi publicado em 1943 e gira em torno de uma família em ruínas a partir do nascimento de Sílvio, o protagonista. Clara e Jaques divergem sobre a cor dos olhos do filho e sobre o nome. Logo o pai decide ir embora, não pela divergência do casal, mas em busca de certa liberdade. É mais um personagem inspirado no pai do próprio escritor, Joaquim (Jaques é o seu equivalente francês, se não estou equivocado), nome também do protagonista de Maleita, de 1934.
A relação conflituosa com o pai é um tema. Acredito, porém, que a doença de viver é o grande mote do enredo. Sílvio doente quando criança, o melhor amigo, Camilo, com uma doença incurável e que morre cedo, o pai que volta doente depois de anos fora de casa, a namorada Diana, carioca que vai à pequena cidade para tentar melhorar da doença herdada de sua mãe (não nos fica claro qual é), a irmã e criação de Clara, Áurea, que se torna uma empregada da casa, esbanjando saúde, mas vai perdendo gradativamente a v…

Apresentação de Charlles Adriano Campos para o meu livro

Apresentação que gentilmente o Charlles Adriano Campos (http://charllescampos.blogspot.com.br/) escreveu para meu livro "Cacos e outros pedaços". 
Conheci o Cassionei por essa formalidade já não tão moderna e já não tão estranha do vínculo de amizade firmado pela internet, sem que ainda tenhamos nos encontrado no “mundo presencial”. Ele sempre me pareceu alguém meticuloso, ponderado e adepto a arraigadas sutilezas, talvez porque sua estampa inspire pensamentos de que seja um bom moço; talvez porque os textos que ele escreve em seus blogs sejam concisos, bem intimistas, o que privilegia a impressão de um jovem que já antecipou o uso para si do avatar de senhor de chinelos felpudos embrenhado em uma poltrona em sua vasta biblioteca, coisa que o Cassionei de sessenta, setenta e oitenta anos será com absoluta certeza. De modos que o Cassionei ficou acondicionado em minha mente à imagem de alguém racionalmente confiável, como convém no meu imaginário ser um idealista dos livros, …

Introdução de Sergius Gonzaga para "Cacos e outros pedaços"

(Introdução que o professor de Literatura Sergius Gonzaga gentilmente escreveu para o meu terceiro e talvez último livro, Cacos e outros pedaços. Interessados em obter um exemplar podem pedi-lo pelo e-mail: cassio.nei@hotmail.com)
Eles, o primeiro e deliciosamente humorístico conto de Cacos e outros pedaços já anuncia a adesão de Cassionei Niches Petry ao fantástico – este gênero marcado pela intromissão do estranho e do inexplicável no campo da realidade verossímil e que teve entre seus praticantes gênios literários como Poe e Maupassant, W.W. Jacobs e Kafka, Borges e Cortázar. No caso, um escritor ansioso por sucesso recebe suas criações de amáveis criaturas que não apenas lhe repassam os textos, mas lhe garantem a futura estima do público.  Não sabemos quem são esses fantasmas generosos e tampouco se o que inventam terá o êxito prometido. Porém, como em todas as obras do gênero, é necessário que haja uma possibilidade (mesmo que mínima) de interpretação racional dos fatos insólitos,…

Morre o escritor argentino Abelardo Castillo

“A literatura, pelo pouco que sei dela, nasce quem sabe de uma forte tendência à incomunicação ou à má comunicação. Um escritor de ficções é alguém que na vida cotidiana muito raramente pode comunicar o que sente, seus medos, suas admirações, suas paixões, seu amor. É algo assim como um olhar de surpresa ante o real de que falavam os gregos: o que ao filósofo lhe permite refletir e, ao escritor, escrever. O único lugar onde um homem que escreve se comunica é em seus livros, e são suas personagens que falam por ele.”  Este trecho pertence ao livro “Ser escritor”, de Abelardo Castillo, escritor argentino que morreu nesta segunda-feira. Uma das grandes descobertas literárias que fiz nos últimos anos, pois ele não é traduzido por aqui. Aliás, a tradução do trecho acima é minha e cheguei a planejar a tradução de seus contos, gênero em que foi um mestre. Contos como “El marica”, “Fermín”, “La madre de Ernesto” e tantos outros merecem ser conhecidos pelos leitores brasileiros. Além de vários l…

Escrevi sobre o Belchior no site Amálgama