segunda-feira, outubro 31, 2011

Anotações do meu Moleskine (IX)


06/03/2010
Faço interpretações idiossincráticas de alguns instrumentos de uma orquestra. O som do vento dos instrumentos de sopro, passando pela doçura do piano e o choro do violino. O violoncelo, entre as pernas do músico, parece o corpo de uma mulher sendo tocado. Já o contrabaixo parece a voz possante de alguém protetor ou, pelo contrário, de alguém que te contraria, impõe suas razões. Seria a voz de um deus?

07/03/2011
Depois de um ano voltei a beber. Mas em doses homeopáticas.

08/03/2011
Estou me afastando de duas coisas das quais gostava muito,mas que hoje me incomodam por diversos motivos: o futebol e o carnaval.

02/04/2011

Na aula de Retórica e Teoria Argumentação no Mestrado, estudamos o modelo argumentativo de Toulmin em comparação com a nova retórica de Perelman.

Mas o interessante foi que quase saiu um debate, o que não era o meu objetivo. Um colega chegou a querer fazer a velha comparação do "vento que não vemos, mas sentimos", logo "deus não existe mas sentimos", o que foi refutado por mim, na medida em que esse "sentir deus", um dado espiritual e de sentimento, não pode ser comparado com o "sentir um vento", que é um dado físico. Já outra colega tentou dizer que a Nasa comprovou o milagre de Lanciano, na verdade uma das maiores mentiras que se alastram pela internet (http://ceticismo.net/religiao/grandes-mentiras-religiosas/o-milagre-de-lanciano-desmascarado/) e eu disse que tudo não passa de fantasia. O que ela respondeu? "Bom, isso não é o tema da aula!" Ficou ofendidíssima e pediu para o professor continuar a aula. Diga-se de passagem, um dos textos de Toulmin falava exatamente sobre a perda da paciência ou as respostas a partir de dogmas.

Enfim, se vemos esse tipo de pensamento na academia, que acredita em boatos que se espalham pela internet, o que podemos fazer?

08/05/2011
Ainda no mestrado. Uma professora, que se intula cética, diz que é melhor não dicutir sobre religião. Que eu deveria me focar em outras coisas. Típico depoimento de quem não quer ver suas crenças atacadas e tenta calar a boca dos outros. Acho que estou sendo muito brando para não me queimar.

terça-feira, outubro 25, 2011

Um pedaço de mim

[devaneios crônicos]

Visitei um pedaço de mim no domingo.

Sim, tenho uma parte de mim que está distante. Tenho saudades dela. Vejo-a hoje desorganizada, suja. É triste vê-la nesse estado. Há muito pó, teias de aranha e pequenos insetos circulam por cima dela. Sei, no entanto, que é por pouco tempo essa separação.

Ao procurá-la, ela me dá o que preciso. Continua me satisfazendo, me proporciona prazer e, mesmo sabendo que a abandonei por um tempo, não é vingativa. Sabe que o que fiz não foi por mal. Claro que ainda esconde, por pirraça, alguns livros ou revistas, porém é só revirá-la que lá está o que procuro, e ela cede, sem reclamar.

Tive que deixar essa parte de mim quando mudei de endereço. Não há lugar para ela, por enquanto, na nova morada. São muitos autores e personagens, ocupando diferentes casas e andares. A superpopulação não cabe ainda no meu pequeno mundo, pelo menos fisicamente.

Nela fui buscar alguns moradores importantes, dos quais precisava para o mestrado. Divididos em casas, apartamentos, mansões e barracos, seus moradores, em sua maioria, esperam ser visitados, enquanto outros batem a porta na nossa cara.

Encontrei uma casa velhinha, reformada em 1946, mas construída no século XIX. Seu aspecto e o cheiro denotam sua antiguidade. Um dos seus moradores, um marido traído, reencontra o amante de sua mulher, que morreu anos antes. O construtor dessa casa é um russo que entende a condição humana como poucos e que também construiu a casa de um jogador inveterado que, dizem as más línguas, é um duplo do próprio russo.

Em outra moradia, na verdade um conjunto de apartamentos, encontrei alguns moradores estranhos, como aquele que vomita coelhos e outro que se transforma numa espécie de salamandra. Um dos apartamentos é ocupado por um tigre que circula em seus cômodos, obrigando os moradores a avisarem uns aos outros sobre a localização do animal, podendo assim se movimentarem com segurança pela residência. Em outro apartamento, dois irmãos tiveram que sair de casa, pois “eles”, não se sabe exatamente quem, começaram a ocupá-la peça por peça. O arquiteto desse condomínio foi um argentino grandão, que tinha o curioso passatempo de jogar amarelinha.

Falando em jogo, outro morador, um menino de 14 anos, se tornou conhecido nas redondezas por ser um craque na sinuca. O dono da casa onde ele mora, infelizmente, foi um dia encontrado morto, já em adiantado estado de decomposição em seu apartamento onde morava sozinho, causando uma comoção geral nos salões de sinuca do subúrbio. Morte natural, consta no atestado de óbito.

Foram esses moradores que fui buscar para morar comigo, causando ciúmes nos que ficaram. Avisei, porém, que voltaria para, definitivamente, transportá-los para o novo endereço. É questão de esperar, com o que esses moradores estão acostumados.

sábado, outubro 15, 2011

A FORÇA DO MARTELO




Pensar em Nietzsche é pensar em um provocador. Ninguém passa pelos seus livros sem sair extremamente incomodado, seja positiva ou negativamente. Se me perguntam qual é a porta de entrada para a obra do “bigodudo”, aconselho a obra que eu considero a mais provocativa, Ecce Homo, em que o filósofo comenta e elogia os seus próprios livros. A maioria das pessoas, por isso, não passa da primeira página e reclama que o “cara se acha demais, é muito arrogante”. Pode ser, mas justamente essa postura que o fez ser o que é. Sua filosofia, como ele próprio afirmou, se dá a golpes de martelo, golpes, diga-se, certeiros em nossa cabeça.

Alguns acabam conhecendo o filósofo por vias tortas. O livro - mais tarde transformado em filme - Quando Nietzsche chorou foi lido - e assistido - por milhões de pessoas. No enredo, um encontro ficcional entre o Dr. Josef Breuer e o autor de O anticristo mostra como Nietzsche foi uma espécie de percursor da psicanálise, uma vez que ele já mencionava a questão do inconsciente em seus escritos. Na vida real, Breuer teria sido o precursor da psicanálise e Freud, que também aparece no filme, foi seu aluno.

No livro, o autor, Irvin D. Yalom, deixa bem claro, numa nota final, quais são os fatos que não correspondem à realidade e o que é verdade. O encontro entre Breuer e Nietzsche jamais aconteceu, por exemplo. O filme, no entanto, traz pequenos textos, no final, sobre o que teria acontecido com os personagens depois dos episódios retratados, dando a entender que o filme correspondia à realidade. Para um desavisado, tudo o que se passou na tela grande corresponderia a fatos reais.

Se valeu a pena “perder” uma manhã de aula para assistir ao filme? Acredito que sim. A sessão nos tirou da rotina. Ver Nietzsche como personagem, modifica a visão que temos dele. Nós o vemos, por exemplo, com um avental de paciente sendo examinado pelo médico, um desnudamento da figura. Sua fragilidade nos é passada pelo amor por Salomé, provocando de forma extrema o lado dionisíaco do nosso filósofo. Vemos um Nietzsche desiquilibrado emocionalmente, mostrando quem não só de razão vive um filósofo. Está aí a contribuição da obra, no papel ou na tela: fazer arte a partir da vida do autor dos vastos bigodes. Em vez de mostrar um Nietzsche que conhecemos, nos apresenta um novo Nietzsche, uma nova versão, talvez mentirosa, mas possível.

(Texto escrito para a disciplina "Leitura e virtualização", ministrada pela professora Nize Pellanda, no Mestrado em Letras da Unisc.)


sexta-feira, outubro 14, 2011

Compromissos+Bolaño+Welles+Zero Hora


Acordei sem voz hoje e não pude ir a uma palestra que daria em uma escola. Não cumprir compromissos é uma m.

***

Escrevendo adoidado dois ensaios para o mestrado. Um sobre a poesia de Roberto Bolaño e outro sobre um documentário do Orson Welles. Será que cumprirei o compromisso de entregar no prazo? Os anteriores não cumpri.

***

Mandei meu texto "Aula chata é legal" para a Zero Hora e eles me ligaram dizendo que queriam publicar, pois haviam gostado muito. Porém, ah, porém, como já foi publicado na Gazeta, o texto não vai mais sair. Pena.

domingo, outubro 09, 2011

Sobre recusas das editoras


Lendo textos como esse, do mestre Enrique Vila-Matas, fico mais tranquilo depois de receber um não de uma editora.

¿Es usted escritor o ha intentado serlo? Tanto si lo es como si ha querido serlo, usted ha tenido que conocer en algún momento de su vida el rechazo. Es posible que alguien desde alguna editorial le haya escrito alguna vez una carta donde muy educadamente le han dicho: “Estimado señor, nos ha causado una agradable impresión su manuscrito, pero...”

El rechazo es una amarga realidad de la profesión de escritor. A mí, en cierta ocasión, me devolvieron uno de mis primeros manuscritos con las mejores metáforas de mi novela tachadas con un rotulador y devueltas meticulosamente cambiadas, convertidas en las metáforas que proponía el anónimo responsable del informe de lectura. Un rechazo así no se olvida. Cada día hay cientos de personas deprimidas porque les han devuelto un manuscrito. Y eso que hay mil tácticas para intentar remontar el efecto rechazo. Una de ellas consiste en repasar las más famosas injusticias en esta materia. El famoso rechazo de André Gide al manuscrito de En busca del tiempo perdido de Marcel Proust, por ejemplo. O bien recordando que Dublineses de Joyce fue rechazado por veintidós editoriales. O pensando en la breve carta de rechazo que recibió Oscar Wilde por El abanico de Lady Windermere: “Mi estimado señor, he leído su manuscrito. Ay, mi estimado señor”.

O texto está no mais recente livro de Vila-Matas, uma seleção de seus ensaios, mas pode ser lido no site do escritor.

sábado, outubro 08, 2011

Naquele tempo

Naquele tempo – e é preciso dizer
que havia tempo naquele tempo –
dizia sim para tudo e todos
por isso me diziam sim

Hoje nego tudo
nego a deuses, pátria, tradição
nego para ser eu mesmo
mas acabo negando até mesmo quem eu sou

Por isso me negam
mas não aceito o não dos outros
só eu posso dizer não
quero um sim, pois não?

– Pois sim...

Kit Ilha Deserta (Item 2)

quarta-feira, outubro 05, 2011

Rubens Figueiredo no Traçando Livros de hoje, na Gazeta do Sul


http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/304538-somos_passageiros/edicao:2011-10-05.html

Somos passageiros

Durante muitos anos, eu fazia um percurso diário de ônibus entre Santa Cruz do Sul e uma cidade vizinha onde lecionava. A espera na rodoviária, a expectativa de pegar um lugar para se sentar, o trajeto sendo percorrido escutando radinho de pilha com fone de ouvido e lendo um livro são alguns ingredientes que vivenciei e pelos quais também passa o personagem Pedro, de Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo (Companhia das Letras, 198 páginas.). O romance tem recebido importantes prêmios, como o São Paulo de Literatura, e foi indicado ao Jabuti deste ano, mas são credenciais dispensáveis quando se trata de um autor já consagrado e tradutor dos bons.

O enredo é aparentemente simples. Pedro vai passar o fim de semana com sua namorada num distante bairro chamado Tirol, no Rio de Janeiro. Ele mantém um sebo, comprado com um dinheiro de uma indenização por ter sido “atropelado” por um cavalo durante um tumulto no centro da cidade. Rosane, sua namorada, vive no Tirol com o pai e uma tia e os sustenta com o árduo trabalho como secretária de um escritório de advocacia. No longo percurso, para passar o tempo, Pedro lê um livro de Charles Darwin. De vez em quando, levanta os olhos e, olhando pela janela ou para os outros passageiros, vai refletindo sobre sua relação com a namorada, o que ela contava sobre o bairro e o que ele vivenciou nas outras vezes que lá esteve, além de passar a limpo sua própria vida. Enquanto isso, uma porção de situações acontece, como um grande engarrafamento, que vai tornando a viagem mais longa, e a ameaça de depredação que causa medo aos passageiros.

O livro de Darwin lido por Pedro é Viagem de um naturalista ao redor do mundo, mais precisamente as páginas em que o pai da Teoria da Evolução narra sua passagem pela região, justamente por onde agora o ônibus faz sua viagem. Marcante para Pedro é o episódio em que um escravo confunde um gesto de Darwin pensando que fosse de agressão. “Darwin escreveu que nunca ia esquecer os sentimentos de surpresa, desgosto e vergonha que o assaltaram, quando viu na sua frente o homem apavorado.” Para o cientista, o escravo havia sido conduzido “a uma degradação maior do que a do mais insignificante dos animais domésticos”.

Se pensarmos na situação por que passam os passageiros do ônibus - rostos cansados e sofridos -, e se pensarmos na situação dos moradores do Tirol - com seus problemas de dinheiro e outras privações -, perceberemos que desde o século XIX as pessoas sofrem da mesma escala degradante e se acostumam com isso, tal qual o escravo, cujo único impulso era se defender. Assim, os moradores desses lugares não vivem: se defendem como podem.

Interessante pensar que a janela do ônibus se torna uma tela de cinema, onde são assistidas as imagens em movimento da rua, mas também pode ser um espelho onde são refletidos os passageiros. A distância entre Pedro e o bairro contrapõe-se à proximidade entre os passageiros, paradoxalmente distantes um dos outros. Da mesma forma, mesmo distante dessa realidade, nós, leitores, que entramos nesse ônibus, numa viagem semelhante à de Ulisses ao Hades, nos aproximaremos de saber quem realmente somos. Função, aliás, de todo bom romance.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq e escreve quinzenalmente neste espaço. Convida também os passageiros dessa página a visitarem o blog cassionei.blogspost.com.