terça-feira, abril 29, 2014

Diário crônico X – Maria vai com as outras



Já dizia a canção de Toquinho e Vinícius que havia uma moça muito recatada na “turma lá do Gantois”, que era “de coser”, “de casar”, “de rezar” e “maria vai com as outras”. Porém poucos sabiam que, além de tudo isso, também aprontava das suas às escondidas.
Pois a expressão que melhor define o brasileiro é essa criada pelo repertório popular. Todo o brasileiro é um “maria vai com as outras”, faz tudo que seu mestre manda, segue os exemplos de todo mundo (geralmente exemplos negativos), repete bordões e chavões alheios, usa, lê, vê e ouve o que todos usam, leem, veem e ouvem, nas redes sociais da internet compartilha imagens, frases, notícias e opiniões sem checar se as fontes são verdadeiras, reproduz “memes”, “hashtags”, “selfies”. Na maioria dos casos pra se mostrar o bonzinho, fazer sua parte, agradar aos demais. Mas no fundo, no fundo, bem lá no fundo, o brasileiro esconde outro por dentro.
Todas essas manifestações de bom-moço que infestam a internet e que acabam se reproduzindo depois nas outras mídias são formas de dizer que se está fazendo algo sem realmente fazê-lo. É como rezar pela recuperação de um doente. A pessoa se sente útil sem fazer nada. Se der certo, foi graças aos nossos “esforços”, se não, foi porque era pra ser assim.
O caso do momento é a banana atirada aos pés do jogador de futebol. Tanta gente postando fotos com uma banana na mão, ou pior, comendo uma – é uma das frutas mais horríveis de se ver alguém comendo, mais do que um cão chupando manga –, que hoje fiquei tão irritado que mandei todo mundo enfiá-la na sua “abertura exterior do tubo digestivo, na extremidade do reto, pela qual se expelem os excrementos”. (Obrigado, Houaiss!) Por sorte quase ninguém leu, pois me mandariam fazer o mesmo.
A banana representa muito bem o brasileiro, não exatamente por descender do macaco, mas pelas macaquices (segundo o dicionário Houaiss, carinho ou procedimento hipócrita e interesseiro; adulação, bajulação, lisonja) que faz diariamente.

segunda-feira, abril 28, 2014

Diário crônico XIX – A crônica de hoje não será sobre...



A crônica de hoje não será sobre a morte do dançarino do programa da Regina Casé, nem sobre a mãe dele, auxiliar de enfermagem, que vai contratar peritos dos EUA para provar que o filho foi assassinado por policiais enquanto treinava Le parkour nos  muros da favela.
Também não será sobre a banana do Daniel Alves, ou melhor, não será sobre a banana que jogaram nele e a repercussão que o assunto teve, com direito a invasão de fotos nas redes sociais de pessoas pondo na boca a fruta cujo formato provoca risos em mentes maliciosas.
Não pretendo escrever sobre o Troféu Imprensa do Sílvio Santos e suas premiações esquisitas e os selfies mais esquisitos ainda que foram tirados no programa. A crônica também não será sobre essa praga chamada selfie. E nem sobre as piadas do Sílvio Santos com os ganhadores do prêmio.
Da mesma forma, não penso em escrever sobre o horrível novo cenário do Fantástico, até porque não assisti ao programa e não sei se o cenário é tão horrível como disseram. Também não vou dizer o quanto achei tosco o “Programa da Sabrina” porque também não assisti. Aliás, que nome propício a piada esse, hein? Em tempo, também não assisti ao Troféu Imprensa.
A crônica de hoje também não abordará as leituras do fim de semana, porque não me deu vontade de escrever sobre o que li. Simples assim.
Por mais que eu gostaria, não vou desabafar sobre uma agressão verbal que sofri de uma ex-aluna numa rede social, desejando inclusive minha demissão de uma das escolas onde leciono. Ela apagou o que disse e quero apagá-la da minha memória.
Não farei nenhuma reflexão sobre esse fim de semana que foi muito chato e triste sem a presença de minha amada esposa que está trabalhando em outro estado. #voltaDeise
Ia escrever na crônica de hoje sobre a falta de tempo, mas como está quase na hora de ir ao trabalho, não vou ter tempo de escrevê-la. Fica para outra oportunidade.

domingo, abril 27, 2014

Diário crônico VIII – “É solitário andar por entre a gente”




O filósofo José Ortega y Gasset escreveu, no seu primeiro livro, de 1914, Meditaciones del Quijote,  uma das frases mais contundentes de todo o pensamento universal: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Cada vez que a leio, as circunstâncias são diferentes e, por conseguinte, as interpretações também. Na primeira vez, li a frase pensando na maneira com as pessoas guiam suas vidas. Elas se adaptam ao meio, acabando por se acomodar e a imitar o que os outros fazem.
Hoje, no entanto, vejo a sentença de outra forma. Como o filósofo se utiliza do pronome possessivo “minhas”, ele pode estar excluindo as circunstâncias externa ao indivíduo. Parto do princípio, então, de que sou eu que devo criar as circunstâncias, não esperar que os outros se adaptem às minhas ou que eu acabe me acomodando com as circunstâncias que me apresentam. Aliás, a continuação da frase elucida um pouco mais a questão: “eu sou eu e minhas circunstâncias, se não me salvo a elas, não me salvo a mim mesmo”. Em outras palavras, se nos deixamos nos levar pelo coletivismo, acabamos esquecendo o nosso “eu” e nos tornamos infelizes.
Sinto-me um peixe fora d’água (ah, os clichês!). Tenho um círculo de amigos que não tem os mesmos gostos do que os meus. Eles não leem, gostam de músicas que considero muito ruins, falam sobre assuntos que geralmente não me atraem nem um pouco. Nas escolas onde trabalho, é difícil encontrar alguém com quem trocar ideias, mesmo sendo professores, com raríssimas exceções. Ficar no intervalo ouvindo colegas conversarem sobre novela, sobre o cachorro que está doente, sobre a roupa que compraram, sobre os perfumes da Avon que a fulana está vendendo, sobre as últimas do reality show do momento, etc., etc. Tudo isso é uma forte poção de drogas para os ouvidos e o cérebro.
Por isso, crio eu minhas próprias circunstâncias. Nessas horas me lembro de letras dos Engenheiros do Hawaii: “Ando só/como um pássaro voando/ando só/como se voasse em bando”, de uma das faixas do álbum Várias variáveis. Ou em Humano demais, do álbum Minuano, em que Humberto Gessinger cita Ortega y Gasset: “e agora somos só nós dois: eu e minha circunstância/sempre foi só nós dois: eu e minha circunstância/sempre só nós dois: eu e eu”. Nesses momentos que não me agradam fico quieto no meu canto, às vezes observando para, quem sabe, utilizar tudo que ouço em algum conto. Ou tento ler um livro, a única coisa que me faz fugir da realidade para poder entendê-la.
Sei que pareço criar um muro floydiano em volta de mim, mas antes o muro separando do que uma ponte me unindo às imbecilidades do cotidiano. Parafraseando Camões, prefiro andar solitário entre as pessoas.

sexta-feira, abril 25, 2014

Diário crônico VII – Coceira crônica



Há alguns anos, fui acometido por coceiras em determinados pontos da pele. Quem já sofreu desse mal sabe que, quanto mais se coça, mais o problema se agrava. A pele começa a ficar vermelha, a irritação se espalha... O mais sensato é procurar um dermatologista, especialista que deve ter a solução para o problema. Acontece que vivo distante dessas coisas práticas da vida, então vou adiando, adiando, não procuro o médico (essa semana estive doente e fiquei apenas em casa) e, quando vejo, o problema está cada vez maior. Pouco tempo depois, fui ao médico e me curei.
Não, não, meu dois leitores. Por favor! Continuem lendo, pois vocês são os poucos que me cabem ainda nesse latifúndio da blogosfera. Vou poupar-lhes de demais detalhes, digamos assim, nojentos. Porém, ah, porém, essas coisas banais do dia a dia nos fazem refletir sobre outras coisas não tão banais. Pois a coceira me lembra justamente a questão da busca pelo conhecimento.
Ora, volta e meia (ou melhor, sempre) sou acometido por uma coceira no cérebro. Quem já sofreu desse mal sabe que, quando mais se coça, mais o problema se agrava. O cérebro começa a inchar, a inquietação se espalha... O mais sensato seria procurar alguma coisa acomodável, como bater papo no celular ou escutar um breganejo, para solucionar o problema. Acontece que vivo distante (ou melhor, quero distância) dessas coisas rotineiras da vida, então vou adiando, adiando e, quando vejo, a inquietação está cada vez maior.
Ah, e é tão bom se coçar. Minha avó, que já se foi, adorava que coçássemos seus cabelos ou suas costas. Como neto dedicado, gostava de proporcionar esses momentos de prazer a ela e eu ficava feliz ao ver nos seu rosto um sorriso de satisfação.
Sim, coçar-se pode se tornar um vício. No caso da coceira do conhecimento, da curiosidade, da busca pelo saber, um vício que pode ser bom ou ruim, dependendo do que vamos fazer com o que ficamos sabendo.
Quando tenho essas coceiras, vasculho livros empoeirados das bibliotecas ou estantes esquecidas das locadoras de vídeo, procuro anotações em folhas perdidas no meio da minha bagunça organizada, baixo álbuns e filmes antigos na internet, entro em fóruns de discussão, etc.
Mas, para aliviar mesmo a coceira, tenho que compartilhar os remédios que encontro, seja ensinando aos alunos na escola, seja conversando com alguém em um café ou no facebook ou então escrevendo essas crônicas, artigos, resenhas, aforismos, contos, fragmentos e outras filosofices para serem lidos pelos raros leitores do blog. Quando escrevo, ali no canto superior, “espero que não fique à vontade”, significa o desejo de que todos tenham essa mesma coceira ao lerem o que escrevo.

quinta-feira, abril 24, 2014

Diário crônico VI – Controle da situação



Às vezes enche o saco querer agradar aos outros. Ou, melhor dizendo, querer ser menos desagradável. Gosto de estar com os amigos. Acontece que não gosto de dançar, muito menos curtir essas músicas da moda. Para piorar, parei de beber. Para piorar ainda mais: a cada dia que passa cresce meu desinteresse pelo futebol. Mais ainda: deixei de gostar do carnaval. Tudo isso contribui para eu ser o “quietão” da turma, mesmo se volta e meia tento contar alguma piada, 99,999999% das vezes sem graça. Mas não vou abrir mão dessa minha forma de viver para ser o “queridinho”.
Mas aí você, leitor, deve estar pensando que sou um chato. Não, não sou. Se não bebo, não fico insistindo para os outros pararem também. Não fumo, mas nem por isso me importo com a fumaça de cigarro na minha cara – costumo dizer que sou fumante passivo assumido. Tampouco tento falar sobre coisas do meu mundo para os outros, nem fico corrigindo a fala de ninguém.
 Sempre que saí foi por uma necessidade de ser social, de fazer parte de algo. Hoje não preciso mais disso. Prefiro ficar no meu pequeno mundo: o quarto na adolescência, a minha biblioteca agora. Ou o espaço virtual do blog, onde escrevo para mim mesmo e, eventualmente, para um leitor que não passe apenas os olhos nesse amontoado de letras adornado por imagens descaradamente copiadas da internet. Aqui escrevo o que quero, publico o que quero e por isso posso ler o que não quero também. Não censuro comentários.
Outro mundo que vou construindo aos pouquinhos é o meu mundo literário. Nesse mundo sou um deus. Dou vida e sou cruel com minhas criaturas. Se não andam na linha, eu as puno, muitas vezes com a morte, sem piedade nenhuma. Comigo não há essa história de os personagens tomarem a rédea e controlar seus destinos. Quem manda sou eu.
Por falar em mandar, sinto inveja do escritor espanhol Javier Marías. Em entrevista para o jornal El País, ele afirmou que escreve para não ter chefe nem madrugar. Eu, como não vivo do que escrevo, tenho que acordar cedo para trabalhar e bato continência para vários chefes: diretores, vice-diretoras, supervisoras... Claro, sem falar nos pais dos alunos.
Fugi demais do assunto? E daí? Aqui ainda sou meu próprio chefe. Pelo menos enquanto meu cérebro não fugir do controle.