quarta-feira, fevereiro 28, 2018

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Sobre “La vaga ambición”, de Antonio Ortuño



Diz-se que não se deve avaliar o livro pela capa. Já iniciei, entretanto, muitas leituras devido à arte que apresenta a obra aos leitores nas vitrines das livrarias reais ou virtuais. Se há uma foto de uma máquina de escrever, meus sentidos se aguçam. Não por acaso escolhi esse objeto para ser a capa de meu romance, Os óculos de Paula. Pois ao ver o e-book de La vaga ambición (Páginas de espuma), de Antonio Ortuño, na internet, não tive dúvidas em adquiri-lo. A sinopse apenas confirmou que a obra seria do meu total interesse.

É um livro de contos que trata do tema do escritor (ao contrário de muitos leitores, não me canso desse tipo de narrativa) em tudo que envolve a busca por inspiração, bloqueios, críticas, vida literária, etc. Boa parte dos enredos trazem rasgos da vida pessoal do autor, um mexicano de 40 anos, assim como o personagem, Arturo Murray, que aparece em todos os relatos como protagonista ou narrando uma história.

O primeiro conto, “Un trago de aceite”, é o mais dolorido, remetendo à infância do narrador, principalmente com relação aos conflitos entre seu pai e sua mãe, assim como a marca negativa que o genitor deixa no filho, mas que, de certa forma, é a semente que fará nascer o escritor: “—Escribe esto un día. Un libro.” Em “El caballero de los espejos”, o narrador está com 10 anos. Como Pierre Menard, de Borges, ele resolve reescrever a história de Dom Quixote letra por letra, porém encontra no primo mais velho um “crítico” implacável e cruel.  

Já em “Quinta temporada”, Arturo é um autor reconhecido, porém com problemas financeiros. Aceita, por isso, ser um dos roteiristas de uma série de TV de sucesso mundial. É o conto mais longo e também mais engraçado, ao contrários dos demais textos, cujo gosto é amargo.
“Provocación repugnante” não tem Arturo Murray como personagem. Na verdade, seria um conto escrito por ele. Os protagonistas são Walter Benjamim e Mijaíl Bulgákov e ação se passa em Moscou, em meio à ditadura de Stálin.

“El príncipe con mil enemigos” retrata as conferências e feiras de livros a que todo o escritor se vê necessitado de participar, que ganham mais peculiaridade quanto mais remota for a cidade do evento. “La batalla de Hastings” fecha o volume e o narrador aqui se torna professor de oficina de criação literária. As frases que iniciam o relato são emblemáticas: "Los muertos iluminan la ruta de los vivos. Por eso leemos: para que se inflame una antorcha. Bajo su luz escribimos."

A vaga ambição do título refere-se, talvez, à tentativa de alcançar o reconhecimento literário, sabendo que, mesmo chegando lá, ainda assim ele está em busca de algo maior: uma obra definitiva que sobreviva a seu autor. Antonio Ortuño já é uma realidade em seu país, mas infelizmente ainda não aportou por aqui (aliás, gostaria de traduzir este livro). Felizmente, as livrarias virtuais são as naus que nos socorrem.

sábado, fevereiro 17, 2018

"Professor, assassino de leitores", minha crônica no jornal Gazeta do Sul de hoje



Professor, assassino de leitores!

Volta e meia me deparo com algum texto, principalmente no cipoal imenso que é a internet, atribuindo à escola a responsabilidade pelo jovem gostar ou não de literatura. Geralmente cai na conta do professor essa culpa. Por quê?

Ora, ele obriga a leitura de livros (oh, seu criminoso!), mostra autores clássicos cuja linguagem está distante do aluno (oh, onde já se viu ler coisas com palavras desconhecidas?), tem a audácia de ensinar escolas literárias de épocas distantes (oh, dinossauro!), diz que um escritor do século XIX é melhor escritor do que John Green (que pedantismo!), pede avaliação do conteúdo proposto (mas a literatura não é liberdade?), faz o aluno analisar textos literários em vez de apenas os ler sem compromisso e adquirir, assim, o gosto pela leitura (mas que professor chato!).

Já chamei a mim mesmo de assassino de leitores várias vezes, mas com justificativas para sê-lo. A questão básica para mim é que um leitor será leitor independentemente do seu professor. Se ele não gosta de literatura, não vai gostar só porque o professor solicitou uma leitura mais palatável, atraente, jovem, contemporânea. Bem pelo contrário. Se o professor pediu, na cabeça do jovem, é porque isso não é bom. Vou dar um exemplo pessoal.

Havia um aluno no 7º ano que adorava ler literatura de fantasia, aventura, tipo Senhor dos anéis. Dizia para ele que continuasse lendo e sugeri outro livro que seguia a mesma linha e ainda não havia sido traduzido no Brasil, mas do qual eu tinha tomado conhecimento pela tradução espanhola. Não se interessou nenhum pouco pela minha sugestão. Reencontro-o três anos depois e qual não foi minha surpresa ao vê-lo lendo o livro. Questionei se ele se lembrara da minha dica e respondeu que não, claro. A obra em questão era a série Crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martim, febre entre os jovens e nem tão jovens leitores, principalmente depois da adaptação para uma série de TV.

A função da escola, salvo nas séries inicias, não é criar o gosto pela leitura, mas sim instruir os alunos para se tornarem bons leitores de qualquer tipo de texto, não apenas daqueles que os agrade. Se é para trazer para a sala de aula apenas autores de interesse da gurizada, qual o sentido da escola e da aula de literatura? Na escola deve-se aprender o diferente, aquilo que talvez o aluno jamais conhecesse fora da sala de aula, deve aprender o que a humanidade já criou no âmbito da cultura, mesmo se isso não for do interesse do jovem. Se a escola abdicar disso, como propõe os “entendidos” em educação, ela deixa de ter sentido e deve ser fechada. Se é isso que desejam...

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Meu texto na Gazeta do Povo, blog do Gustavo Nogy


"O senso comum diz que “quem critica é quem não sabe fazer”. A velha analogia com o eunuco no harém também é repetida. Para mim, no entanto, a crítica literária, assim como qualquer tipo de crítica, é sempre válida. O crítico pode não escrever uma obra literária de qualidade. Como leitor, porém, e leitor que deve ler muito, ele sabe quando a obra é boa ou não. Conhece os mecanismos, sabe comparar os novos com os velhos livros. Quem desqualifica seu trabalho, só o faz quando o crítico escreve verdades que incomodam."
Início do texto da minha primeira colaboração com o blog do Gustavo Nogy no portal do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. Para ler, faça a assinatura (R$0,99 no primeiro mês e depois R$14,90) e tenha acesso ilimitado a textos de um time de peso. Pode também apenas se cadastrar gratuitamente, com direito a 5 acessos por mês.

domingo, fevereiro 11, 2018

No palco da vida, o feitiço do escritor



O anfiteatro (1946) e O enfeitiçado (1954) são as duas novelas de Lúcio Cardoso que antecedem o monumental Crônica da casa assassinada (1959) e completam o volume As três histórias da cidade, junto com Inácio (1944), já comentada por aqui.

Na primeira, o narrador é Cláudio, mais um dos tantos personagens atormentados de Cardoso. Vivendo com seus pais e uma tia, o jovem de 19 anos começa a ter pressentimentos: “(...) a morte estava dentro daquela sala. E só eu a tinha visto. Só eu”. Logo seu pai morre e, a partir daí, se acentuam as brigas entre Margarida, sua mãe, e Laura, sua tia. A presença de um desconhecido no leito de morte do pai (“aqueles olhos fixos sobre mim causavam-me mal-estar”), que depois se tornará seu professor no curso de Medicina, será o motor que vai girar novos conflitos familiares. Aliás, está nesta novela um trecho que, de certa forma, resume os enredos do autor. É uma advertência da tia ao sobrinho: “(...) Ah, meu caro, você ignora o que são os segredos de família. Convivemos a vida toda com certas pessoas, sem que saibamos ao certo quem elas sejam”.

O enfeitiçado, por seu turno, retoma os personagens de Inácio. É a segunda parte da trilogia “Um mundo sem Deus”, que se completaria com Baltazar, novela que ficou inacabada devido à morte de Lúcio Cardoso. Em Inácio, Rogério Palma procura o pai (cujo nome dá título à novela), enquanto que em O enfeitiçado acontece o contrário. Inácio Palma está bem mais velho e sai em busca do filho pelos ambientes noturnos do Rio de Janeiro. Pede, para tanto, ajuda a um cartomante, que por sua vez, “empurra” a filha de 13 anos, Adélia, ao decrépito senhor, que acaba embebedando a adolescente e abusa dela enquanto dormia.

São narrativas fortes, angustiantes, no entanto ainda curtas, talvez por isso nos dando a sensação de incompletude, no sentido de obra aberta. Parece que nada se resolve, deixando o leitor mais perdido do que os próprios personagens. Gosto de literatura assim, que não me responde, mas sim me questiona e faz me sentir inquieto. Lúcio Cardoso enfeitiça. Sua feitiçaria, entretanto, alcança o auge na mais importante obra, que será tema de uma postagem futura.