quinta-feira, novembro 26, 2009

Novo livro de Paul Auster


Estou ansioso para ler o novo romance de Paul Auster, Invisible, apesar de algumas críticas desfavoráveis. Gosto dos romances dele, para mim um dos grandes escritores da literatura norte-americana. Claro que não é da mesma altura de um Roth, mas seus livros me inquietam, me provocam reflexão ou às vezes, simplesmente, me deixam embasbacado com coisas tão simples do nosso cotidiano, como as coincidências e o “se eu (não) tivesse feito isso…”

Fala, mestre


"A ferramenta básica para se manipular a realidade é a manipulação das palavras. Se você puder controlar o significado das palavras, você pode controlar as pessoas que precisam delas."

Philip K. Dick

Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?

De Chirico - Muse inquietanti

O blog esteve parado devido a um que raio que caiu perto de casa, queimando modem, placa de rede e mais não sei o quê. Aliás, não sei se é só aqui, mas está uma merda essa internet da Oi, estou baixando um arquivo agora é a taxa é de 9 e 10 kb, quase uma internet discada.

Estou começando a escrever umas resenhas literárias, incentivado pelo editor da Gazeta do Sul, Mauro Ulrich, que me pediu que continuasse colaborando com o Caderno Mix.

Entre várias leituras paralelas que faço, estou mergulhando na obra de Philip K. Dick. Comecei com seus contos completos, em espanhol, porque não há tradução de todos os seus contos em português. E estou terminando a leitura de Leite derramado, de Chico Buarque.

E hoje é o tal de Dia de Ação de Graças. Mas agradecer a quem? A deus e as coisas boas que ele proporciona? E as coisas ruins que ele deixa acontecer? Bom, é melhor ficar quieto antes que outro raio caia por aqui.

quinta-feira, novembro 19, 2009



"As histórias entretêm e ensinam, ajudam a apreciar a vida e a enriquecê-la. Depois de comida, abrigo e companhia, as histórias são a coisa que mais precisamos no mundo."
Philip Pullman

quarta-feira, novembro 18, 2009

Na Gazeta do Sul de hoje


Minha resenha sobre o romance Indignação, de Philip Roth foi publicada no jornal Gazeta do Sul de hoje.
http://www.gazetadosul.com.br/default.php?arquivo=_noticia.php&intIdConteudo=123328&intIdEdicao=1940

O romance do indívíduo

Philip Roth, leitor de Machado de Assis? Confesso que me fiz essa pergunta ao começar a ler o seu novo romance, Indignação (Companhia das Letras, 170 páginas, tradução de Jorio Dauster), pois logo me veio à mente o personagem Brás Cubas, relatando, depois de morto, fatos de sua vida. O personagem do escritor norte-americano, porém, pensa que morreu, mas está na verdade sob efeito da morfina, como indica o título da primeira parte do livro.
Marcus Messner, jovem americano, vai estudar na universidade de Winesburg, longe de sua casa em Newark, para se livrar do seu pai, açougueiro kosher (uma espécie de açougueiro oficial dos judeus, pois sabe preparar a carne de acordo com os preceitos da religião) cuja marcação cerrada na sua vida o deixava indignado. Mas essa ainda não é a indignação que dá título ao livro.
Outro motivo para estar estudando é se livrar da Guerra da Coréia, iniciada em 1950. Esse episódio mostra mais uma vez a veia histórica dos textos de Roth, ao realizar uma análise da sociedade americana. Nesse caso, uma sociedade conservadora e controladora, anticomunista e religiosa ao extremo. Aliás, a questão religiosa é fundamental para o enredo e, estranhamente (ou não), esse fato não apareceu nas resenhas sobre a obra nos jornais e sites literários. E é aqui que está a indignação do título.
Messner era um ateu convicto, o que era praticamente um suicídio social. Em uma das passagens mais brilhantes da narrativa, o rapaz debate com o diretor da universidade, doutor Caudwell, sobre religião. Marcus se vale da leitura de uma conferência do filósofo Bertrand Russell, intitulada “Porque não sou cristão” e publicada em um livro com o mesmo nome. Um dos argumentos de Russell se refere à causa primeira de Tomás de Aquino. Diz o filósofo e matemático britânico: “Se tudo precisa ter uma causa, então Deus precisa ter uma causa. Se é possível existir alguma coisa sem uma causa, tanto pode ser o mundo quanto Deus.” E prossegue o jovem relatando o que decorou do livro. Caudwell responde dizendo que não se poderiam levar a sério os argumentos de um imoral como o britânico, considerado subversivo pelo governo americano. Mesmo com a possibilidade de ser expulso, Marcus não abre mão de seu pensamento, mantendo sua postura independente, o que para o diretor é uma fuga aos problemas. E é justamente essa sua postura religiosa a causa de sua morte, por se negar a assistir aos encontros religiosos obrigatórios. Philip Roth volta ao tema trabalhado no conto “O defensor da fé”, do seu livro de estréia Adeus, Columbus. O motivo de a crítica, principalmente a brasileira, não destacar esse fato também seria por medo de pressão dos religiosos?

Roth também volta a retratar um personagem jovem, como fez em O complexo de Portnoy, depois de vários romances que abordavam a velhice, principalmente de seus personagens mais recorrentes: Kepesh e Zuckerman. As memórias de Messner são de um rapaz procurando apenas viver sua vida sozinho, cuidar de si mesmo, estudar, não se envolver com nenhum grupo de pessoas. Porém, se vê arrastado pela ditadura do coletivo, do que os outros querem que você faça: seja o diretor que o quer fazendo amizades com os outros colegas e que acredite em Deus, ou seus colegas que o convidam para entrar em uma das irmandades da instituição, ou sua mãe a qual não o quer se envolvendo com uma mulher como Olivia, cujo os pulsos tinham cicatrizes, ou o país que o quer numa guerra, para morrer junto com outros jovens por uma causa que não é sua.

terça-feira, novembro 17, 2009

Livros à mão cheia...

Conversando com alunos, cheguei à conclusão que muitos gostam de ler sim, a questão sempre é a obrigatoriedade ou então o "fazer trabalho" sobre o livro. Tenho alunos que falam sobre Senhor dos anéis, Harry Potter, Crepúsculo, os livros do Dan Brown com tanta empolgação que penso: está aí, os jovens leem, só não leem o que gostaríamos. Vou dedicar alguns posts de vez em quando para escrever sobre esses livros, indicar outros, enfim, o que der na telha. E espero comentários de incentivo!

Um aluno meu da 8ª série disse uma vez um coisa curiosa. Ele não lia porque lhe doía os olhos. E o computador, perguntei? Ele disse que ficava a maior parte do tempo na frente da tela. Pensando nisso, sugeri então que ele lesse livros no PC. Ele gostou da ideia. Por isso, abro este espaço para postar links de livros para que alunos como ele possam ler no computador. Inicio a série com um pacotão das obras quase completas do Tolkien. É só baixar e depois descompactar o arquivo. Vocês vão ver as preciosidades que há ali.

Mas lembrem-se: procurem comprar os livros de que gostarem, pois só assim a literatura nunca vai morrer.



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Boa leitura!

50 anos sem Villa-Lobos


Indico o blog PQP Bach, que está fazendo uma excelente homenagem ao compositor brasileiro.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Religulous


Atendendo a pedidos, posto aqui o link para o documentário que vem causando polêmica e, para meu espanto, está agradando a muitos dos meus alunos de Filosofia, que geralmente não gostam de assistir a documentários, quanto mais legendados. O filme é Religulous, do diretor Larry Charles, o mesmo de Borat e Bruno. Bill Maher, ator cômico e apresentador de TV, percorre várias partes do mundo para questionar a religiosidade das pessoas. Irreverente e perspicaz, daqueles que não perdem nenhuma piada, ele consegue deixar em saia justa seus entrevistados e mostra quão ridículo é o fanatismo religioso. Mas o que mais me tocou foi a mensagem final, uma reflexão sobre os destinos do homem.

Confesso tenho certo receio de passar o filme, pois tenho muitos alunos religiosos e não sei a reação que as famílias podem ter. Porém, o meu objetivo, e isso deixei bem claro, é causar reflexão. Como diz o próprio Bill, "enquanto eles estão vendendo certezas, eu estou vendendo dúvidas".

Curiosidade:
Foi dito a todos os entrevistados que o nome do documentário seria "A Spiritual Journey", “Uma Jornada Espiritual”, em tradução livre.

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Créditos para a comunidade no Orkut sobre o filme.

domingo, novembro 15, 2009

Eu na coluna do Scliar

Fui citado hoje na lista de agradecimentos na crônica do Moacyr Scliar em Zero Hora. Uma pessoa extremamente acessível, que responde a todos os e-mails. Já tivemos uma boa conversa há alguns meses e aproveitei para pedir que ele lesse alguns contos meus. Leu-os e ainda os elogiou, opinião que já publiquei aqui no blog com autorização dele. No texto de hoje, fala sobre Michael Jackson e agradece aos que lhe parabenizaram pelo recebimento do Prêmio Jabuti de Livro do Ano ao romance Manual da Paixão Solitária.

A hora da verdade
MOACYR SCLIAR
Como muitos, sempre achei Michael Jackson esquisito, para dizer o mínimo. Ali estava aquele cantor de enorme sucesso, ganhando uma grana sem tamanho, morando num absurdo lugar chamado Neverland (evocando a Terra do Nunca da história de Peter Pan, o menino que não queria ficar adulto); tentando branquear a própria pele, no que parecia uma tentativa de escapar à própria identidade, e, por último mas não menos importante, suspeito de pedofilia.

E aí Michael Jackson morre. A morte é uma comum forma de reabilitação – De mortuis nil nisi bonum, dos mortos só se fala bem ou não se fala – e de fato, uma espécie de culto começou a surgir em torno da figura do cantor.

***

Mas o filme Michael Jackson, This Is It não faz parte desta tendência. Trata-se basicamente de um documentário dirigido por Kenny Ortega que gira em torno ao show que seria apresentado por Jackson. Alguns críticos de cinema não gostaram; provavelmente pela razão de que, afora os números musicais, aparentemente pouco aparece, pouco acontece.

Engano. O filme é tremendamente revelador, o filme é mesmo surpreendente. Mostra um Michael Jackson que nada tem a ver com as imagens escandalosas que dele surgiram através dos tempos; na verdade, mostra que o Michael Jackson cantor, o Michael Jackson artista – sim, porque temos de reconhecer, é de arte que se trata – é uma entidade completamente diferente. Para começar, temos nos ensaios alguém que encara com profunda seriedade aquilo que está fazendo. O cantor é detalhista, é obsessivo mesmo. Faz questão de que as coisas funcionem à perfeição. Mais que isto, não estamos diante de um cantor temperamental, daqueles que têm ataques de fúria. Não: no trabalho, Michael Jackson mostra-se cortês, afetivo mesmo. E afeto é o que ele obtém daqueles que integram a sua equipe, afeto, respeito, admiração.

Ou seja: era no palco que Michael Jackson encontrava a sua hora da verdade. Fora do palco, ele deveria sumir. Aliás teria sido melhor para ele próprio se sua existência se resumisse à música e à dança. Mas isso, nós sabemos, é coisa impossível na sociedade midiática em que vivemos. O artista tem de estar presente – como pessoa, junto àquilo que faz – seja música, ou filme, ou livro: ninguém mais escreve sob pseudônimo. As editoras não o aceitariam: querem que o autor esteja presente, para autografar, para dar entrevistas. E é aí que começam os problemas; no caso de Michael Jackson tais problemas levaram-no até ao tribunal. O filme mostra qual era, na verdade a praia dele: era o palco. No palco ele se transfigurava, no palco ele se revelava como artista. E isso, ao fim e ao cabo, é uma lição para todos nós. Há coisas que sabemos fazer bem, e há coisas que fazemos por equívoco, por ilusão. Tudo indica que, aos 50 anos, Michael Jackson estava prestes a descobrir essa diferença. A vida não lhe permitiu ir adiante. Uma pena. Mas fica o filme: this is it

Agradeço as mensagens de Ruy França, Roni Quevedo, Elizabeth Romero, Leni Almeida, Sara Martins, Dep. Alberto Oliveira, Esther Zamel, Marcia Kern Papaleo, Aron Taitelbaum, Juliana Bohn, Mauricio F.de Macedo, Celina V. F. Kohler, João Paulo R. H. da Silva, José Antonio Pinheiro Machado (“Voltaremos!”), Maira Knopf, Marco Jesus, Themis Lopes, José Diogo Cyrillo da Silva, Maiza S.Maciel, Marcos Barbosa, Wagner Carlos, Leandro Figueiredo, Maria Aparecida G. Z. Zancan, Renato Lampert, Eduardo Trindade, Cassionei N. Petry – e a todos que me cumprimentaram pelo prêmio Jabuti.

Meu abraço a vocês!

sábado, novembro 14, 2009

Professor


Professor - Carlos Drummond de Andrade

O professor disserta

sobre ponto difícil do programa.

Um aluno dorme,

cansado das canseiras desta vida.

O professor vai sacudi-lo?

Vai repreendê-lo?

Não.

O professor baixa a voz

com medo de acordá-lo.


Pandora's box - OMD

Como quinta-feira falei sobre a caixa de Pandora, vale a pena lembrar uma música que eu escutava muito nos anos 90, do grupo OMD. O link está no blog Flash House Mix, que, para quem gostava dessa época, é um prato cheio para a nostalgia.

Format: CD, Maxi-Single
Country: USA
Released: 1991
Genre: Electronic
Style: Synth-pop

Tracklisting:

01. Pandora's Box (It's A Long, Long Way) (Andy McCluskey 7")
02. Pandora's Box (It's A Long, Long Way) (Carl Segal 7")
03. Pandora's Box (It's A Long, Long Way) (Steve Anderson 12")
04. Pandora's Box (It's A Long, Long Way) (Steve Anderson 12" Edit

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sexta-feira, novembro 13, 2009

Mestre Érico

O escritor em seu escritório.
(Foto: Leonid Streliaev)

"Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto."

Érico Veríssimo - "Solo de clarineta: memórias" - v. 1

quinta-feira, novembro 12, 2009

Eva e Pandora (ou A boceta e a maçã)

Eva e Pandora (ou A boceta e a maçã)
por Cassionei N. Petry

É curiosa a semelhança entre dois mitos bastante difundidos, sendo que um deles é visto como verdade absoluta por muitas pessoas.

O primeiro mito é da antiguidade grega: a Caixa de Pandora. Ela teria sido a primeira mulher criada por Zeus como, vejam só, castigo para os homens, pois o titã Prometeu roubara o fogo do Olimpo. O deus mais poderoso do panteão grego a presenteou com uma caixa, porém, com a ordem de não abri-la. Logicamente, como toda mulher, que é muito curiosa, ela não respeitou a proibição. Como consequência, de dentro do recipiente saíram todos os males lá guardados. Ou seja, quem é a culpada pelas coisas ruins do mundo? A mulher. Mas isto, veja bem, é o mito que diz.

A outra história é mais conhecida, pois está na Bíblia Sangrada, digo, Sagrada, mais precisamente no Gênesis. Neste mito, Deus fez Adão e depois, para que ele não ficasse sozinho, criou, a partir da costela dele, uma mulher, a qual foi chamada Eva. Aos dois foi ordenado pelo criador que não comessem o fruto da árvore do conhecimento. Pois a mulher, agora provocada por uma cobra falante, vai lá e come o fruto. Como se não bastasse, oferece a Adão, que, como todo o homem obediente a mulher, também come. Visto que era um alimento desconhecido para eles, Adão acaba engolindo o caroço, resultando no chamado Pomo de Adão. O resultado dessa desobediência: o pecado entra no mundo. Mais uma vez, a mulher é a culpada.

O mais curioso são as simbologias por trás disso tudo. Basta procurarmos o significado da palavra “boceta” no dicionário para sabermos que ela significa uma caixinha oval, que aparece inclusive em muitos textos de Machado de Assis, e era utilizada para guardar rapé.

"Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a carteira..." (MACHADO DE ASSIS em O Empréstimo)


Essa palavra acabou, pela analogia com o seu formato, talvez, sendo sinônimo do órgão sexual feminino no Brasil. Em Portugal ela é ainda utilizada, tanto que o mito grego da primeira mulher lá é chamado de “Boceta de Pandora”. Inclusive é a tradução para o título do filme alemão Die Büchse der Pandora, de 1929, dirigido por Georg Wilhelm Pabst. Bem, se pensarmos que ela abriu a boceta...

Quanto ao mito bíblico, não há menção no Gênesis de que o fruto fosse uma maçã. Mas porque essa fruta acabou ganhando a fama, e aparecendo em várias pinturas que retratam a história? Bem, imaginemos uma maçã cortada ao meio. Ela lembra justamente a vagina de uma mulher com as pernas abertas. E se Eva deu a maçã para Adão comer...

segunda-feira, novembro 09, 2009

Carl Sagan



Não poderia deixar passar esse dia sem fazer uma pequena homenagem a esse grande pesandor que foi Carl Sagan. Na data de hoje ele estaria completando 75 anos. Pelo menos um de seus livros me ajudou a formar o que sou: "O mundo assombrado pelos demônios".

Crônica de uma literatura assassinada

Salvador Dali, As faces da guerra

Crônica de uma literatura assassinada

por Cassionei N. Petry


Eu confesso: sou um assassino. Não premeditei esse crime, muito menos tentei justificá-lo com desculpas esfarrapadas tal qual Raskólnikov. Mas cometi, ou melhor, estou cometendo-o de forma consciente. Nenhum advogado, acredito, pegaria meu caso, afinal me declaro de antemão culpado. Sim, sou um dos responsáveis pela morte lenta e quase inevitável da literatura.

A paixão pela palavra escrita foi o que me levou a gostar da arte literária. Aliás, devo isso aos políticos, pois foi assistindo às propagandas eleitorais da campanha de 86 que aprendi a ler, juntando as letras dos nomes dos candidatos (e ficava bravo, já que, decifrando lentamente, não dava tempo para saber o cargo a que cada um concorria). Os escritos nas embalagens das balas, as quais adoçavam o chimarrão da família, também serviram. Porém, foram os gibis dos meus tios, depois os livros da estante dos meus avós (enciclopédias e dicionários) e mais adiante os da biblioteca da minha escola o passaporte para a viagem (analogia velha esta, hein?) a um mundo de fantasia que a literatura proporciona.

“Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca”, escreveu o escritor argentino Jorge Luis Borges. Era como eu me sentia na pequena sala de livros do colégio Luiz Dourado, para onde a professora Maria Geci me mandava quando eu terminava as atividades e ficava debochando dos “atrasados” (“tirminei, tirminei, tirminei”, eu cantava). Foi lá que conheci Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e, bem mais tarde, Fernando Sabino, Marcos Rey, As viagens de Gulliver e A ilha do tesouro. À minha primeira professora, portanto, devo a paixão pelos livros.

Por isso, decidi ser professor, para poder passar aos alunos a mesma emoção que sinto ao abrir um livro, semear novos leitores, mudar o mundo, enfim. No entanto, todos os sonhos escorrem pelas mãos quando o professor vê pela frente o conteúdo programático que deve ser seguido.

No 1º ano do Ensino Médio, por exemplo, é uma tortura, mesmo para os amantes da arte literária, ler as cantigas de amigo do Trovadorismo ou a Carta de Pero Vaz de Caminha. No 2º ano, José de Alencar é de doer, salvo um ou outro romance. No 3º ano, Os sertões, que é uma grande obra, cansa o aluno com sua linguagem rebuscada. São só alguns exemplos de obras as quais possuem qualidades, sem dúvida, mas cuja linguagem é diferente da linguagem vivenciada pelos jovens. Obrigá-los a ler, porque o vestibular pede ou porque a escola serve para ensinar o que o aluno não conhece, é afastá-los do prazer do texto. Esse prazer que é uma descoberta que acontece aos poucos, quando se descobre um autor, depois outro, que nos remete a outro, e assim por diante.

Como professor, tento seguir o que é estabelecido, cumpro ordens, sigo os conteúdos propostos. Por isso me sinto um assassino. E o pior, assassino daquilo que amo.