quinta-feira, setembro 29, 2011

Texto "Aula chata é legal" na Gazeta de hoje



O professor chega à sala de aula, sorridente, dá bom dia, abre o caderno de chamada e, brincalhão, diz: “chamaaaadaaaaa... a cobrar, para aceitá-la, continue na linha após a identificação”. Os alunos riem, um deles diz “só podia ser o 'sor' mesmo”, o gelo é quebrado, o mestre termina o dever burocrático e, ainda sorridente, vai começar a aula. Antes, porém, de ir ao quadro (negro, verde ou branco), ouve de um aluno, com a aprovação da maioria, a frase que lhe tira toda a base de sustentação: “Profe, faz uma aula diferente hoje, pra não ficar tão chata!” O mestre diminui seu sorriso, conta mentalmente até três e responde: “Caros alunos, bem-vindos ao mundo real. A realidade que os espera lá fora é chata, às vezes, assim como uma aula de língua portuguesa”.

Criou-se, nos últimos tempos, a ideia de que o professor deve ser como um apresentador de televisão, que precisa manter a audiência, tanto do auditório, como dos telespectadores. É preciso conquistar os alunos, dizem muitos teóricos no assunto, já que há outras coisas mais interessantes fora da escola. Para tanto, se faz necessário métodos inovadores, como a dança do “cada um no seu quadrado” ou incentivá-los a ler Paulo Coelho. Mesmo assim, porém, não se consegue agradar aos alunos, que querem cada vez mais liberdade e menos compromisso. Nesse diapasão, daqui a pouco, iremos para a sala de aula, com o bolso recheado de cédulas em forma de aviãozinho, e gritaremos “quem quer dinheiro” para que os alunos prestem atenção nas lições. Isso se houver lições para ensinar.

internet proporciona um mundo mais interessante para os nossos jovens, dizem. Até posso concordar, afinal de contas também reservo parte do meu tempo para pesquisas na rede mundial de computadores, e com resultados esplêndidos. No entanto, sabemos que eles não utilizam, na maioria dos casos, a web para aprender, mas sim para coisas mais fúteis, como compartilhar fotos, baixar a música do momento (geralmente de péssimo gosto), assassinar a língua portuguesa e muitos etcéteras. Sou contra as coisas fúteis? Não, até porque o entretenimento faz parte da nossa vida e eu mesmo já compartilhei fotos e assassinei a língua uma porção de vezes em redes sociais na internet (psiu, bem baixinho aqui: já fiz downloads de músicas de gosto duvidoso também). No entanto, na idade em que mais se deve aproveitar o tempo para aprender, os jovens desperdiçam a chance de conhecer o que de mais importante já foi realizado pelos nossos cientistas, filósofos, matemáticos, historiadores e escritores. E se nós, professores, abrirmos mão disso e nivelarmos por baixo o conhecimento, estaremos criando seres humanos medíocres, preocupados, mas nem tanto, tão somente em atingir a média para passar de ano.

As aulas não devem ser chatas? Por que não? Se o estudante está na escola para aprender, uma das lições é a de que nem sempre as coisas são prazerosas. Acordar às 6 horas da manhã para trabalhar não é nada agradável. Pegar ônibus lotado é um saco. Nem sempre se tem um chefe carismático. Conviver com gente chata é chato. As coisas não são, portanto, como queremos que sejam. O mundo não gira em torno do nosso umbigo. Essa é a realidade que nossos alunos vão enfrentar. E é isso, também, que devemos ensinar.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Aula chata é legal


[Devaneios crônicos]

O professor chega à sala de aula, sorridente, dá bom dia, abre o caderno de chamada e, brincalhão, diz: “chamaaaadaaaaa... a cobrar, para aceitá-la, continue na linha após a identificação”. Os alunos riem, um deles diz “só podia ser o 'sor' mesmo”, o gelo é quebrado, o mestre termina o dever burocrático e, ainda sorridente, vai começar a aula. Antes, porém, de ir ao quadro (negro, verde ou branco), ouve de um aluno, com a aprovação da maioria, a frase que lhe tira toda a base de sustentação: “Profe, faz uma aula diferente hoje, pra não ficar tão chata!” O mestre diminui seu sorriso, conta mentalmente até três e responde: “Caros alunos, bem-vindos ao mundo real. A realidade que os espera lá fora é chata, às vezes, assim como uma aula de língua portuguesa”.

Criou-se, nos últimos tempos, a ideia de que o professor deve ser como um apresentador de televisão, que precisa manter a audiência, tanto do auditório, como dos telespectadores. É preciso conquistar os alunos, dizem muitos teóricos no assunto, já que há outras coisas mais interessantes fora da escola. Para tanto, se faz necessário métodos inovadores, como a dança do “cada um no seu quadrado” ou incentivá-los a ler Paulo Coelho. Mesmo assim, porém, não se consegue agradar aos alunos, que querem cada vez mais liberdade e menos compromisso. Nesse diapasão, daqui a pouco, iremos para a sala de aula, com o bolso recheado de cédulas em forma de aviãozinho, e gritaremos “quem quer dinheiro” para que os alunos prestem atenção nas lições. Isso se houver lições para ensinar.

A internet proporciona um mundo mais interessante para os nossos jovens, dizem. Até posso concordar, afinal de contas também reservo parte do meu tempo para pesquisas na rede mundial de computadores, e com resultados esplêndidos. No entanto, sabemos que eles não utilizam, na maioria dos casos, a web para aprender, mas sim para coisas mais fúteis, como compartilhar fotos, baixar a música do momento (geralmente de péssimo gosto), assassinar a língua portuguesa e muitos etcéteras. Sou contra as coisas fúteis? Não, até porque o entretenimento faz parte da nossa vida e eu mesmo já compartilhei fotos e assassinei a língua uma porção de vezes em redes sociais na internet (psiu, bem baixinho aqui: já fiz downloads de músicas de gosto duvidoso também). No entanto, na idade em que mais se deve aproveitar o tempo para aprender, os jovens desperdiçam a chance de conhecer o que de mais importante já foi realizado pelos nossos cientistas, filósofos, matemáticos, historiadores e escritores. E se nós, professores, abrirmos mão disso e nivelarmos por baixo o conhecimento, estaremos criando seres humanos medíocres, preocupados, mas nem tanto, tão somente em atingir a média para passar de ano.

As aulas não devem ser chatas? Por que não? Se o estudante está na escola para aprender, uma das lições é a de que nem sempre as coisas são prazerosas. Acordar às 6 horas da manhã para trabalhar não é nada agradável. Pegar ônibus lotado é um saco. Nem sempre se tem um chefe carismático. Conviver com gente chata é chato. As coisas não são, portanto, como queremos que sejam. O mundo não gira em torno do nosso umbigo. Essa é a realidade que nossos alunos vão enfrentar. E é isso, também, que devemos ensinar.

domingo, setembro 25, 2011

Fala, mestre


"La vida misma no creo que haga escribir a nadie. El momento en que uno decide ser escritor es un instante de locura total y de voluntad, entendida en el sentido nietzscheano de la palabra, que es un sentido bastante delirante.
Escribir no es normal, lo normal es leer y lo placentero es leer, incluso lo elegante es leer. Escribir es un ejercicio de masoquismo; leer a veces puede ser un ejercicio de sadismo, pero generalmente es una ocupación interesantísima”

Roberto Bolaño

quarta-feira, setembro 21, 2011

Meu texto na Gazeta do Sul de hoje




Mestre do diálogo


Duas pessoas conversando. Chama-se isso diálogo. Mas quando há dois personagens dialogando em um livro de Luiz Vilela, temos a literatura no seu mais alto grau. Mestre nessa arte que se confunde com o teatro ou com textos filosóficos como os de Platão, o escritor mineiro mostra como se pode criar uma história em que o narrador quase nunca aparece. As poucas palavras e o silêncio são suficientes para o leitor construir o enredo, o cenário e a descrição dos personagens.

Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, Luiz Vilela começou a escrever aos 13 anos de idade. Mais tarde formou-se em Filosofia, mas trabalhou como jornalista. Tremor de terras, seu primeiro livro, publicado às próprias custas em 1967, quando tinha 24 anos, fez jus ao título ao causar polêmica quando recebeu, em Brasília, o Prêmio Nacional de Ficção. Escritores consagrados como José Condé e José Geraldo Vieira protestaram por perderem o prêmio para um “menino saído da creche”. O fato é que esse livro de contos, quando tive a felicidade de lê-lo pela primeira vez, me causou um grande impacto. Contos como “Chuva”, em que um homem tenta conversar com um cachorro que encontra na rua numa noite chuvosa, e “Enquanto dura a festa”, que, apesar do título, é um monólogo de um jovem sobre o velório do seu pai, pelo qual não sente afinidade nenhuma, são mostras de um exímio contista. Publicou ainda quatro romances nas décadas de 70 e 80, mas foram os contos e as novelas curtas, como O choro no travesseiro, que trouxeram reconhecimento ao autor.

Bóris e Dóris (Editora Record, 94 páginas), novela lançada em 2006, narra um dia na vida de um casal hospedado num hotel. Ele, um executivo, preocupado com o horário de suas reuniões, pretende assumir um cargo importante na empresa; ela, muitos anos mais nova, apenas acompanha seu marido na viagem e tenta dialogar com ele. O que pode parecer uma situação banal torna-se uma reflexão sobre o relacionamento de pessoas tão diferentes. Ao “ouvir” a conversa dos dois no café da manhã e à noite, desvendamos, paradoxalmente, um relacionamento em que não há comunicação, o que faz a personagem se questionar se valeu a pena ter deixado de lado seus sonhos para viver com um homem sem tempo para ela.

Se o diálogo se sobrepõe à narrativa em Bóris e Dóris e em outras obras, pode-se perguntar por que Vilela não escreve peças de teatro? Perguntado sobre esse assunto pela escritora Edla van Steen, ele respondeu que nunca tentou. “Mesmo como espectador, o teatro não me atrai muito.” Acredito que Luiz Vilela escolhe as palavras cuidadosamente para serem lidas, não ouvidas. No palco, se perderia a naturalidade que o escritor reproduz no texto escrito, visto que a palavra no teatro está a serviço da interpretação, que pode ser até natural, mas depende muito mais do ator do que do dramaturgo. Da mesma forma, levando-se em conta as rubricas teatrais no texto escrito, os espaços para o leitor refletir se reduziriam.

Quanto à comparação com os diálogos platônicos, Vilela não estende a fala dos personagens por várias páginas como fazia o pensador ateniense. As falas são curtíssimas. No entanto, se depreende no texto do escritor uma filosofia inquietante, na tentativa de entendermos esse ser tão complexo que é o ser humano. Como afirmou Clara Maduro, na antiga revista O Cruzeiro, Luiz Vilela tem “uma enorme capacidade de transmitir essa coisa essencial (e tão difícil de fazer) que é: gente vivendo”.

segunda-feira, setembro 19, 2011

“ora”, direis, “escrever poemas”

“ora”, direis, “escrever poemas”
certo, perdi o senso
viver escrevendo é perdê-lo

não, não escrevo poemas,
apenas os assassino.
sina, destino

narrar é o que faço
passo noites morrendo
escrevendo, bebendo

inseparável café
aroma, sabor, dor,
palavras, amargor

sexta-feira, setembro 16, 2011

A SOMBRA DO OROBORO

[Devaneio crônico]

Metassombro

eu não sou eu

nem o meu reflexo

especulo-me na meia sombra

que é meta de claridade

distorço-me de intermédio

estou fora de foco

atrás de minha voz

perdi todo o discurso

minha língua é ofídica

minha figura é a elipse

(Sebastião Uchoa Leite)


A sensação de olhar-se e assombrar-se consigo mesmo. Isso muitas vezes acontece comigo, seja na frente do espelho, seja na frente de outras pessoas. Por isso me vejo no poema “Metassombro”, de Sebastião Uchoa Leite, já que não me vejo quando deveria me ver. O ser estranho que mira sua própria imagem e a imagem que mira o ser estranho são como o poeta que mira o leitor e o leitor que mira o poeta. O oroboro também assombra e faz sombra.

“Eu não sou eu/nem o meu reflexo”, diz o eu-lírico do poema e também diz o “eu” que está dentro de mim, esse “eu” que é o que lê, cuja vida se espelha nos textos literários. Eu sou aquilo que eu leio, logo não sou eu e minha reflexão sobre o lido, na verdade, vem no navio de outras influências. Minha interpretação são interpretações de outros. O que eu consumo acaba me consumindo. Fico na “meia sombra” de outros, tendo como meta a luz e perco minha própria voz.

Também perco minha voz, no entanto, porque tenho medo do reflexo das minhas palavras. “Perdi todo o discurso”, não consigo, e nem posso, dizer o que penso, porque se o dissesse encontraria problemas. “Minha língua é ofídica”, tem veneno, mas a peçonha não pode ser inoculada, afinal tenho que ser político, não me indispor com uma porção de pessoas que não gostariam de ouvir o que eu penso. Preciso me cuidar, tenho interesses e, por isso, me calo ou não publico o que escrevo, as palavras guardadas nos desvãos do cérebro ou nos arquivos do computador.

O oroboro come sua cauda e some. Ao não ser eu mesmo, ao fazer sombra sobre mim, desapareço. “Minha figura é a elipse”.


(Trabalho apresentado para a disciplina Leitura e texto poético, ministrada pelo Prof. Dr. Norberto Perkoski, no Mestrado em Letras da Unisc.)

quinta-feira, setembro 15, 2011

Semana literária na Escola Bruno Agnes

Estarei no dia 14 de outubro conversando com os alunos do ensino fundamental da Escola Estadual Bruno Agnes, na III Semana Literária e IV Feira do Livro. No blog do educandário, pode ser conferida a programação completa. Bela iniciativa, que precisa ser copiada por outras instituições.

http://escolabrunoagnes.blogspot.com/2011/09/iii-semana-literaria-e-iv-feira-do.html

quarta-feira, setembro 14, 2011

O primeiro não a gente nunca esquece


Recebi uma carta de uma grande editora afirmando que não vão publicar um livro meu. Primeira tentativa de publicar numa editora de porte e o primeiro não. Bom começo.

terça-feira, setembro 13, 2011

Orgulho?

Não tenho orgulho de ser brasileiro, tampouco de ser gaúcho. Tenho orgulho de ser um ser humano. E isso basta. Não cantar o hino nacional ou o rio-grandense não me faz ser inferior a ninguém.

domingo, setembro 11, 2011

Anotações do meu Moleskine (VIII)

16/02/11
"—Não podemos falar do que não pensamos — diz Donida. Justificar— Não tenho nada contra o Restart, se eles estão felizes com a sua música alegre, pagando as contas, ótimo. Mas alguém tem que falar do amargor. Você viu uma mulher comparando o incêndio nos barracões das escolas de samba ao 11 de Setembro? Um mês depois daquela tragédia na serra, com todas aquelas mortes? Pois é."

Donida, músico da banda Matanza, em entrevista ao segundo caderno do jornal O Globo de hoje.

16/02/2011
Respondendo a alguns leitores em uma comunidade do Orkut que não gostaram do meu texto sobre o Ronaldo. Fui chamado de grosseiro, mal humorado,

Também gosto de futebol (cada vez menos, mas gosto), também tive alegrias com o Ronaldo (eu nanando a minha filha de 1 ano e pouco e gritando pelo gol do Ronaldo na copa de 2002) e tristezas também (o desgraçado deixou o Índio comendo poeira!). O foco do texto é outro. Quis dizer... bem, esquece o que eu quis dizer.

17/02/2011
Hoje fui presenteado por uma tia com 3 coleções antigas: Os pensadores (da capa azul), Maravilhas do conto universal e Os imortais da literatura (da capa vermelha). Ainda bem que lembraram do sobrinho e não jogaram fora ou venderam para sebos os livros.

19/02/2010
Com o todo acervo da Folha disponível na web, vou finalmente ler todos os cadernos Mais! do qual era fã nos longíquos anos 90.