segunda-feira, abril 26, 2010

Curando espíritos com remédios


por Cassionei Niches Petry

O Discovery Channel produziu uma série de documentários chamada Assombrações. A Record, uma rede de TV aberta, inteligentemente está reproduzindo a série nos fins da tarde de domingo. Poderia ser um oásis (me perdoem pelo lugar-comum) no meio da fraca e apelativa programação dominical, não fosse pela falta de ceticismo dos episódios e, principalmente, a intenção da emissora em transmiti-los.

Os documentários do Discovery sempre me pareceram ter um ar de seriedade nos assuntos abordados. No entanto, parece que o vírus do “nivelar por baixo” o atingiu. A chamada no site do canal para a série Assombrações é tão apelativa, que chega a ser constrangedor: “Se a existência de lugares assombrados faz você tremer, não perca os mistérios desta série aterrorizante. Mas depois não reclame que os pesadelos atrapalharam o seu sono!” E depois, na descrição dos programas, se utilizam da famosa frase de uma antiga série ficcional: “No final de cada episódio, você irá perceber que a vida e a morte vão muito além da nossa imaginação.” Talvez esteja aí, nas entrelinhas, o real significado da série, pois todos os episódios não passam de fantasia, apesar do tom de veracidade dado pela marca Discovery. Em nenhum momento há alguma contestação sobre os fatos ocorridos, ficando apenas a palavra das pessoas que as vivenciaram como prova da verdade.

No episódio transmitido pela Record no último domingo, é contada a história de um menino que diz ter um amigo imaginário, um homem que acaba influenciando as atitudes do garoto, tornando-o agressivo. A família, sem saber o que fazer, pede ajuda a um índio, que indica um ritual religioso. Não dá muito resultado. Por fim, até a mãe acaba vendo o homem, que se transformou em um demônio na sua frente. Ela só consegue se livrar do espírito maligno com muitas orações. Qualquer semelhança com o que acontece em algumas igrejas não é mera coincidência.

Em nenhum momento a mãe do menino pensou em consultar uma pessoa mais capacitada para cuidar do caso: um psiquiatra. Ver vultos, ouvir vozes, psicografar mensagens de espíritos (como fazia Chico Xavier, que voltou a estar na moda) e outras coisas do gênero têm explicações bem mais simples. Em vez de buscá-las no sobrenatural, porque não as procuramos dentro do nosso próprio cérebro? Uma boa dose de remédio pode resolver. O cientista Carl Sagan afirmou em um dos seus livros, justamente denominado O mundo assombrado pelos demônios: “Se você quiser salvar o seu filho da pólio, você pode rezar ou você pode vacinar... Tente a ciência.”

O canal de TV que transmitiu o episódio é de propriedade de uma igreja que se caracteriza, entre outras coisas ($), por exorcizar demônios. Todos os problemas das pessoas são relacionados a esses espíritos malignos. Logo, a reprodução dos documentários (cabe a denominação nesse caso?) e resolução dos problemas através de caminhos espirituais é para justificar o trabalho da igreja. Ao não mostrar outras interpretações, a rede faz um desserviço à população, ao querer pregar, numa espécie de mensagem subliminar, suas crenças religiosas. Isso pode ser feito em programas específicos, mas não em programas que atingem uma população maior.

Um pouco de ceticismo não faria mal a ninguém. O que seria da humanidade se não duvidássemos das verdades absolutas? Estaríamos até agora acreditando que o eco é uma ninfa da floresta ou que o sol é um ser divino passeando em sua carruagem. Ou ainda que um deus poderoso é o responsável pelos raios que caem do céu. Vamos continuar acreditando que as vozes do além são espíritos e não distúrbios mentais que podem ser curados com remédios?



Registrando mais uma sincronicidade



Estou escrevendo uma crônica que vou publicar ainda hoje aqui no blog. No mesmo momento em que escrevo a palavra "consultar", na rádio Gaúcha o locutor diz a palavra "consultado", na frase que fecha toda a propaganda de remédio. Na crônica, falo sobre remédios também.


domingo, abril 25, 2010

Esclarecendo a Bìblia V


Num debate no Orkut, lançaram a seguinte pergunta: há possibilidade de Deus existir?

Acrescento, por que a pergunta não poderia ser ampliada para possibilidade de deuses existirem? Ou uma deusa?

Justamente por que nossa cultura é patriarcal, criamos um deus homem, e não mulher. Mas há culturas com divindades femininas. Aliás, se pensarmos na quantidade de deuses e deusas que já criamos e destruímos e quantos ainda "existem" para alguns. Se estamos falando de um deus é por que somos influenciados pela cultura cristã. Se estivéssemos na Índia, por exemplo, a pergunta seria outra, da mesma forma se Roma não tivesse instituído o cristianismo como religião do império. Aliás, até a Bíblia diz que existiam vários deuses, mas só um, claro, deveria ser venerado:

"Êxodo 12:12 - E eu passarei pela terra do Egito esta noite e ferirei todo primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e sobre todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou o SENHOR.
Êxodo 15:11 - Ó SENHOR, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em louvores, operando maravilhas?"
Êxodo18:11 - Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses; porque na coisa em que se ensoberbeceram, os sobrepujou.

Que deus egoísta! Só ele quer ser adorado.
Mais 3:
1 Samuel 6:11 - Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses; porque na coisa em que se ensoberbeceram, os sobrepujou.
Jeremias 1:16 - E eu pronunciarei contra eles os meus juízos, por causa de toda a sua malícia; pois me deixaram a mim, e queimaram incenso a deuses estranhos, e se encurvaram diante das obras das suas mãos.
Sofonias 2:11 - O SENHOR será terrível para eles, porque aniquilará todos os deuses da terra; e todos virão adorá-lo, cada um desde o seu lugar, todas as ilhas das nações.


sexta-feira, abril 23, 2010

Registrando sincronicidades

Lendo Hellblazer e escutando o disco do grupo de rap Faces do Subúrbio. Leio a expressão "pé na tábua" em uma das histórias de John Contantine e, simultaneamente, ouço a mesma expressão em uma das músicas do grupo.

quarta-feira, abril 21, 2010

Minha coluna na Gazeta do Sul de hoje


Resenha sobre o livro Solo, do Juremir Machado da Silva, na minha coluna na Gazeta do Sul de hoje.
Soluções para a vida

Não dá para levar a sério o Juremir Machado da Silva. Mesmo quando ele escreve sobre assuntos sérios. Sua ironia implacável engana muito gente. Quem não conhece seu estilo, pensa que ele não tem modéstia nenhuma, pois seguidamente se considera um dos maiores escritores do Brasil. Aliás, quase escrevo Machado de Assis como seu sobrenome. Muitas de suas crônicas lembram a autobiografia Ecce Homo, de Nietzsche, cujos capítulos são pérolas do egocentrismo, como “Por que sou tão sábio” ou “Por que escrevo livros tão bons”. E, assim como o filósofo que preconizou a morte de Deus, Juremir é um crítico dos costumes, da política, da mídia. Tem como objetivo derrubar ídolos, tanto nos textos do Correio do Povo e do seu blog, como nos programas de rádio em que participa. E também nos livros.
Um dos alvos de Juremir (me permitam usar o primeiro nome dele, resultado de uma intimidade de quem o lê e o escuta quase todos os dias) são os livros de autoajuda. Ironicamente, intitulou uma coletânea de crônicas deAprender a (vi)ver. Fico imaginado quantas pessoas compraram o livro procurando mensagens edificantes, ou quantos livreiros o colocaram nas prateleiras de autoajuda. Li até uma crítica em que o leitor achou o livro fraco devido à utilização de chavões dessa área. Mas Juremir escreveu um livro de autoajuda para, com sua ironia, criticar a autoajuda. Ou, como ele mesmo afirmou em sua coluna há alguns dias, é a demonstração de como ele é contraditório.
No seu romance mais recente, Solo (Editora Record, 367 páginas), Juremir aborda mais uma vez a busca pelas soluções fáceis para os problemas. O que faz as pessoas procurarem esses paliativos? O personagem, um publicitário inteligente e sarcástico, resolve se trancar dentro de casa para assistir televisão e ler best-sellers. Seria uma tentativa de retroceder intelectualmente, após uma crise de existência por perder a esposa? Adora a “filosofia” do Louro José e o Canal Rural. Lê Dan Brown e Paulo Coelho. Não deixa de criticar esse caminho do emburrecimento. Segue, porém, esse mesmo caminho, para ver até onde vai dar. Claro que ele, conhecedor também da boa literatura, cita o poeta espanhol Antonio Machado: “Se hace camino al andar”. É o que ele faz. Em busca do autoconhecimento vai à Europa e depois ao Peru, numa “jornada de iniciação”. Se ele se encontra ou se desencontra, só lendo o livro para saber.
Juremir utiliza frases curtas, impactantes. Principalmente nas suas crônicas. É o chamado soco no estômago. No livro, esse estilo se encaixa bem devido à profissão do protagonista. Um exemplo: Com duas ou três frases de duplo sentido, pode-se ficar rico anunciando porcarias. Tentei minha grande sacada com um slogan para uma campanha de papel higiênico. (...) Bolei algo clean: “Conheça o seu papel na vida”. Ele narra a sua história como se estivesse conversando com o leitor. Destila um veneno contra as imbecilidades da mídia, das religiões, da política, dos meios intelectuais. Mas, principalmente, contra as pessoas cuja única função na vida é fazer m..., quer dizer, menos coisas importantes do que poderiam fazer.

terça-feira, abril 20, 2010

E-mail do Juremir

E-mail que recebi do Juremir Machado da Silva, sobre a resenha do seu livro.

Prezado Cassionei: adorei a resenha. Claro que é sempre bom ler uma resenha positiva sobre um livro da gente. Mas gostei especialmente por teres identificado aquilo que é essencial para mim quando escrevo. Em outras palavras, tu me leste como eu espero ser lido. Não é todo dia que isso acontece. Posso publicar a resenha no meu blog? Abraços. Juremir


segunda-feira, abril 19, 2010

Plágio de Chico Xavier

Faça a comparação.

A primeira estrofe do poema atribuído ao espírito de Augusto dos Anjos, no livro “Parnaso do além-túmulo”, de Chico Xavier:

Vozes de uma sombra

I

Donde venho? De era remotíssimas

Das substâncias elementaríssimas

Emergindo das cósmicas matérias.

Venho dos invisíveis protozoários,

Da confusão dos seres embrionários,

Das células primevas, das bactérias.


E aqui o poema original de Augusto dos Anjos, um dos nossos maiores poetas:

Monólogo de uma sombra

«Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

No mínimo, CX agiu de má-fé ao atribuir esses versos a Augusto dos Anjos. Ele não ia reescrever para piorar sua própria obra.