sábado, dezembro 27, 2014

Já fui professor de Sociologia também



“Cada vez que você estiver do lado da maioria,
é tempo de fazer uma pausa e refletir.” Mark Twain

Em uma das várias aberrações que acontecem na educação de nosso país, fui algumas vezes convocado a ser professor de Sociologia. Se não me falha a memória (e ela... ela... o que eu dizer nesse parêntese?), a primeira aula minha como professor contratado na primeira escola foi de Sociologia. Quando ela voltou a ser obrigatória, junto com a Filosofia, os executores da lei tentaram (e ainda tentam) cumpri-la em parte, pois não fizeram (fazem) questão de colocar quem realmente é especializado na área para lecionar. Por isso, qualquer professorzinho acaba assumindo a matéria para preencher sua carga horária. Modéstia à parte, porém (e eu sou muito modesto, além de gênio), me saí muito bem e conseguia dar boas aulas, isso dito por ex-alunos até hoje. 
O difícil era driblar as questões ideológicas de esquerda de toda a bibliografia sugerida para a disciplina. Apesar de recém-formado na universidade (isso há dez anos) e com toda a ideologia “jogada” na minha cabeça ainda jovem, comecei a flertar com um pensamento diferente, que alguns chamariam de direita e conservador. Era uma ideia de que o indivíduo deveria se preservar perante a ditadura da coletividade que começou nos anos de FHC e continuou na era Lula. Uma das minhas fontes foi Ayn Rand que, num primeiro momento, conheci pelo seu ateísmo e depois pelas ideias políticas repercutidas nos seus romances. Passei a procurar similares brasileiros, porém não os encontrei, pois os que poderiam estar no mesmo caminho pregavam os valores cristãos. Quero distância, por exemplo, de boa parte do pensamento de Olavo de Carvalho, cujo livro “O imbecil coletivo” me fez confirmar o que já via no âmbito cultural (mas não tinha coragem de criticar, pois seria “xingado” de “direitista”, “reacionário”, etc). O autor, no entanto, demonstra ódio por nós ateus e faz pregação religiosa.
Como dava aulas, então? Nos primeiro dias, escrevia uma porção de letras “is” no quadro e as interligava com traços, afirmando que a sociedade não é uma massa coletiva, mas sim um conjunto de indivíduos que interagem no meio em que vivem, com suas opiniões diferentes, com suas ideologias distintas. Evitei o material padrão das aulas de Sociologia fornecido pelo governo, pois ensinava uma concepção de mundo que rege a nossa sociedade nos últimos anos e que valoriza o pensamento coletivo e despreza nossa individualidade. Fujo disso tudo tentando preservar opiniões que desagradam à maioria. Talvez por isso enfrente resistência em tudo o que me meto a fazer, inclusive gerando uma demissão em um dos meus locais de trabalho recentemente. É o ônus de quem busca um pensamento independente e não se curva a nenhuma ideologia, seja ela política ou educacional.  

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Mais um comentário de um leitor sobre "Os óculos de Paula"

Comentário de mais um grande leitor, Felipe Kopp:



O salto de qualidade entre vários dos seus contos do livro anterior e Os óculos de Paula é bastante perceptível. Melhorou o uso da linguagem narrativa, os diálogos ficaram mais verossímeis (apesar de alguns ainda parecerem um pouco forçados, principalmente nas conversas entre Paula e o marido ou entre Paula e os amigos do esposo) e os personagens se adensaram.

Mas o que realmente me agradou foi a qualidade da estrutura do livro. O estilo fragmentado, que dá uma mobilidade necessária ao romance, casou 100% com o enredo. Além disso, ele facilita o resgate das passagens, num movimento de ida e volta que é obrigatório para ir montando o quebra-cabeça da história (por isso que disse que o "reli em partes"). Quebra-cabeça, aliás, bem montado. Gostei de ficar acompanhando o tirar e colocar dos óculos da Paula ou as pistas metanarrativas deixadas sobre como ler o livro (em especial o capítulo 33).

E o final! Ah, o final! Só ele já valeria toda a leitura. Quando li o que o Norberto escreveu na introdução, chamando-o de "surpreendente", pensei que não seria tanto e lá pela metade do romance já pensava que tinha desvendado o mistério e resolvido o puzzle. Porém, ao final, também me admirei e precisei voltar para reler alguns capítulos. Isso dá aquele prazer de leitor, de ter sido pego em uma boa armadilha.

Espero que o livro seja mais visto e lido. Tenho acompanhado a publicação de alguns vencedores do Prêmio SESC de Literatura na categoria romance e, sinceramente, o seu livro não perde em nada para nenhum deles.

Ainda há algumas coisas a serem melhoradas. É preciso trabalhar mais nos diálogos, principalmente quando os personagens são "menos intelectuais". Falta-lhes um "quê" de naturalidade. A parte dos debates filosóficos também. Não me convenceu muito que as opiniões do Fred e suas publicações pudessem ter tanta influência sobre outras pessoas a ponto de... bom, você sabe.

sábado, dezembro 20, 2014

Um passado em fragmentos


Dirigido por Alain Resnais, Je t'aime, je t'aime, (Eu te amo, eu te amo) lançado em 1968, é um filme curiosíssimo e para poucos apreciadores. Não por acaso foi um fracasso de público. Só por isso já me interessei pelo filme. Se a maioria não gosta é porque pode haver algo de bom (nem sempre, claro). A crítica também não aprovou muito, mais um fator para assisti-lo. O que me levou a buscá-lo, porém, foi a temática do tempo e sua fragmentação.

Um escritor (ou revisor?), Claude Ridder, depois de uma tentativa frustrada de suicídio (ok, ok, isso me atraiu também), é convidado por um grupo de cientistas para participar de um experimento de viagem no tempo, antes só realizado com ratos. Prontamente aceita o convite, mesmo sabendo dos riscos, afinal sua vida já não fazia muito sentido. É colocado numa bolha estranha, que lembra o quadro “Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo”, de Salvador Dalí, porém o experimento apresenta falhas, pois em vez de reviver um momento apenas do seu passado, como prometeram para ele, começam a surgir fragmentos aleatórios de sua vida, mudando a todo instante. O espectador, num primeiro momento atônito com as mudanças bruscas de cenas, começa a montá-las na sua cabeça e tenta estabelecer a linearidade quebrada da narrativa, desde o momento em que Ridder está em uma praia com sua namorada, Catarine, passando por “flashes” dos diferentes lugares onde, parece, trabalhou. Surgem também outras mulheres com as quais se envolveu e tomamos conhecimento também de um suposto assassinato. Mais detalhes não conto para não estragar a surpresa de quem ainda não assistiu.

O que vemos, supomos e montamos pode parecer parte da vida de Claude, como pode ser apenas desejos, sonhos, memórias distorcidas. Não sabemos. Há momentos, poucos é verdade, em que aparecem cenas surreais, como a do homem numa cabine telefônica inundada, da mulher em uma banheira sobre uma mesa de escritório, ou a de um homem de paletó, gravata e cara de lagarto. As aparências enganam, diz Claude a Catarine empunhando um lápis vermelho, mas que escreve na cor preta, ele que na gostava de escrever com lápis.

A trilha sonora é do compositor erudito polonês Krzysztof Penderecki e uma das referências literárias é Jorge Luis Borges, sendo que há uma cena em que o protagonista dita para alguém, ao telefone, correções em dois contos do escritor argentino. Um filme de ficção científica ao estilo da “nouvelle vague” francesa, ou seja, nem um pouco parecido com um filme de ficção científica e nem mesmo com outros tipos de filmes comerciais.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Escrevo para este tipo de leitor

Comentário de Vivian Podlasinski sobre "Os óculos de Paula" postado nas caixas de comentários aqui do blog:

"Adorei, adorei, adorei! Tô falando do livro, claro! Recheado de intertexto (o que eu, particularmente, valorizo muito, já que instiga o leitor a procurar a obra de origem), metaficção, metaliteratura, autoficção (bastante, confessa...) e cara, um final que, por mais que eu esperasse ser surpreendente, não imaginava que seria capaz de me fazer desconstruir e reconstruir tudo o que eu (achava que) tinha entendido. Parabéns Cassionei pela obra bem estruturada, que prende o leitor do início ao fim. E fico feliz que continues a fazer literatura. Ainda que para poucos, tens muito a dizer. Citando HG: "Se nada faz sentido há muito o que fazer". A propósito: daqui a algum tempo vou reler Os óculos de Paula, para abrir novas possibilidades de interpretação. Grande abraço!"

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Que tal um pacto com o Capiroto?

Na minha coluna no jornal Gazeta do Sul de hoje, Traçando livros, texto já publicado por aqui, porém revisto:



Uso óculos (ou Vou ali assinar uma pacto com o Capiroto e já volto)

Uso óculos, por isso que as meninas do Leblon não olham mais pra mim (aliás, nunca olharam, aliás 2, nunca fui ao Leblon, aliás 3, nunca fui ao Rio de Janeiro). São 4,5 graus de miopia numa lente e 5 graus na outra. Tenho os olhos tortos, o que explica minha visão diferente das coisas, meu olhar diferente para a realidade (aliás 4, não explica nada, mas escrevi isso porque achei legal essa comparação (tá, parei)).
As lentes, porém, não são suficientes para ter uma visão boa, pois mesmo assim não consigo enxergar perfeitamente de certa distância, depende também do tamanho do que quero ver de longe. Enquanto escrevo estas mal traçadas linhas, meu amor, porque veio a saudade visitar meu coração (aliás 5, que musiquinha brega essa do Erasmo Carlos e do Renato Russo, hein?, mas é bonitinha) e o cursor pisca como se dissesse “vai, desgraça, mexa esses dedos”, volta e meia levanto a cabeça e observo as lombadas dos livros que estão nas três estantes que compõem a biblioteca da traça que vos escreve. Consigo visualizar menos da metade dos títulos e os nomes dos autores. Destaque-se, no entanto, o enorme 2666 na lombada do romanção do Roberto Bolaño (que não, não e não, não é o Chaves todos atentos olhando pra TV que, aliás 6, se chama Bolaños, com S no final, e morreu esses dias causando uma comoção na América Latina (ou somente no México e no Brasil?)). O título é relativo ao número do Capeta, o que me faz perguntar se o escritor chileno não fez o pacto com o Capiroto para que se tornasse o que se tornou e por isso no deixou muito cedo. Fazer pacto com o Diabo não é novidade nas artes e temos vários casos comprovadamente não comprovados como o do poeta simbolista Baudelaire e o bluseiro Robert Johnson. Coincidentemente (ou não), estou ouvindo Paganini que, dizem, assinou o contratinho com o Coisa-ruim para tocar violino daquela forma espetacular (aliás 7, um dos seus caprichos é o som de chamada do meu celular, como se o Demo tivesse me chamando a toda hora). P.S.: Coincidência ou não, enquanto releio estas linhas (escritas há mais de uma semana), para publicá-las na página do Traçando Livros, estou novamente ouvindo Paganini.
O pacto demoníaco também é tema de literário de obras como o Fausto, do Goethe, e seus derivados, como o Doutor Fausto, do Thomas Mann. Na literatura brasileira, Guimarães Rosa pôs o seu Riobaldo a também fazer seu pacto com o Cramulhão em Grande sertão: veredas. O curioso é que o autor foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963 (3 vezes o 6?) e adiou sua posse com medo de que fosse passar mal com a emoção. Quando resolveu assumir, quatro anos depois, disse em seu discurso: “a gente morre é para provar que viveu”. Acabou morrendo três dias depois. Teria feito um pacto com “o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa Ruim, o Diá, o Dito Cujo, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-Sei-Que-Diga,  O -Que-Nunca-Se-Ri, o Sem-Gracejos, o Muito-Sério, o Sempre-Sério” entre outros nomes que ele elenca na sua obra-prima para denominar o Diabo?
O texto era para falar sobre os títulos das lombadas dos livros enfileirados na minha estante, no entanto acabei mudando de assunto. Comecei falando sobre os óculos (que, aliás 8, não são de Paula(ou são?)) e acabei no Pacto com Diabo, o que me leva a pensar na possibilidade de assinar com o meu sangue um contrato com o Das Trevas para que me torne um baita escritor (tá, parei).
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

terça-feira, dezembro 16, 2014

Nove perguntas que o blog "Eterna Cadencia" não fez para mim



Nove perguntas que o blog Eterna Cadencia não fez para mim

O blog da livraria e editorial "Eterna Cadencia" não fez este questionário ao escritor brasileiro Cassionei Niches Petry, autor de “Arranhões e outras feridas” e “Os óculos de Paula”.

Que título de outro autor gostarias para um livro teu?
“En un lugar solitario”, de Vila-Matas.
Que músicas escutas quando escreves?
Música clássica, na maioria das vezes. Escrevi alguns contos ouvindo rock. Depende do tema. Apesar de gostar do silêncio, não há silêncio onde moro, por isso não abandono meu fone de fone de ouvidos e fujo de qualquer som externo.
Que livro é o ideal para ler no banheiro?
Um livro de contos que sejam curtos, pois não saio do banheiro terminar a leitura que iniciei.
Qual é teu site favorito?
Qualquer um que traga algo relevante sobre literatura. O http://blog.eternacadencia.com.ar é um deles.
Qual o vídeo do youtube que mais reenviaste para teus amigos?
Não envio vídeos para amigos, somente os compartilho nas redes sociais.  Mas devo ter testado a paciência de bastante gente ao compartilhar este vídeo:

Qual o teu “xingão” favorito?
Gosto da expressão em espanhol “hijo de la putana”.
 Que série recomendas e por quê?
Grimm, pelas referências literárias. Criminal Minds, pelo mesmo motivo.
O que faz com que um dia tenha sido um bom dia?
O dia em que eu tenha lido bastante.
Mande-nos uma foto do teu lugar de trabalho.